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contar para não repetir

05 de julho de 2012 0

A Comissão da Verdade vai investigar e divulgar trechos omitidos de nosso passado, mas o trabalho desse grupo não tem poder de fazer justiça. O surgimento da verdade sobre o que ocorreu nos porões da ditadura é sem conseqüências práticas. Então, para que dar-se ao trabalho de trazer à tona velhas dores?

Boa pergunta para um psicanalista, que por ofício torna o passado eloqüente. Brinca-se que numa análise tudo acaba em Édipo. De fato, “o passado condena”, mas nem só de gregos parricidas ele é feito. Se as respostas fossem óbvias não haveria tratamentos psicanalíticos. A princípio sempre julgamos o mundo externo, “os outros”, culpado pelas nossas mazelas; com certo percurso, percebemos que tivemos algum papel nesses males. Por fim, impõe-se rever a própria história: como foi que cheguei até aqui?

Contar a vida que se teve não vai apagar a experiência de uma família maluca, a sina de ter nascido no lugar de um irmão morto, a horrível experiência de um abuso, mortes, falências, ódios. Os fatos do passado não mudam só porque foram rememorados, mas, lembrados conscientemente ou não, influenciam o presente, alteram o futuro. A eficácia de um tratamento psicanalítico provém de escutar-se contando a própria história. Uma nova versão de nós mesmos permite reposicionar-se frente à vida. Só assim resolvemos pendências, ressentimentos, nos libertamos de ter que repetir o mesmo papel.

É assim com os indivíduos, assim com os povos. Em seu livro “18 crônicas e mais algumas” (Boitempo Editorial), a psicanalista Maria Rita Kehl, membro da Comissão da Verdade, conta como isso acontece. Ela exemplifica através da persistente conivência com certa violência policial. Infelizmente, ainda encontramos práticas de tortura e de execuções sumárias. Os porões, como se vê, sobrevivem. Em geral, as vítimas são pobres, considerados culpados sem direito a julgamento. Não seria uma repetição, autorizar-se a punir fora da lei? Aparentemente, aquilo que do passado não se elabora vai sendo re-encenado, assombra outros tempos. Na contramão desse silêncio pernicioso, a Comissão da Verdade vai propiciar que histórias omitidas ou deturpadas sejam faladas, contadas e, com isso, elaboradas.

Quando chamada para fazer parte da comissão, Maria Rita perguntou-se: por que eu? Sem dúvida por ser psicanalista e a escritora engajada. Também porque “o sentimento do mundo me pega não com a doce melancolia do poeta, mas como um paralelepípedo na testa” escreve ela em outra crônica. Para nossa sorte, de leitores, ela acrescenta: “a elaboração do texto é uma espécie de cura para o impacto (traumático?) do acontecimento”. Viver, contar. Por isso foi - muito bem - escolhida.

A alma hooligan e o crepúsculo do macho, por Mário Corso

01 de julho de 2012 0

Existe uma personagem oculta na Eurocopa 2012: a polícia. De uns anos para cá, ela tanto se sofisticou em prevenir os conflitos entre torcedores fanáticos que eles estão minimizados. Não foram os hooligans que perderam a força, é a repressão que os mantêm na linha. Quase todos os países europeus tem problemas com eles, mas foram trocando experiências e criando políticas coercitivas até que se chegou a um equilíbrio de controle.

O estado os combate, mas nunca entendeu seus motivos. Creio que tampouco a intelectualidade européia se debruçou o suficiente sobre eles para saber qual é a bússola que usam (se é que a tem), as razões da sua fúria besta, seu amor desmesurado por uma bandeira clubística e, ocasionalmente, por sua seleção. Afinal, quem são esses brigões da pequena causa? O que querem esses rebeldes de uma causa tão rebaixada? Por que jovens trabalhadores europeus, vários com empregos razoáveis, remuneração idem, preenchem sua vida com futebol, brigas e álcool? Por que essa violência gratuita e sem sentido os cativa?

A questão é complexa, multifacetada, mas creio que uma das chaves para entendê-los passa por pensar nos deslocamentos da identidade masculina do século XX. E, é claro, simetricamente, no novo papel da mulher. O mundo industrial já fez do trabalhador peça de uma engrenagem que o transcende. Há uma alienação básica, mas ao menos ele era homem, entre outras coisas, por que ia para rua trabalhar, cabia-lhe trazer o pão para casa. Ser homem estava ligado a esse lugar social e familiar, a mulher estava em casa nos seus afazeres domésticos e subordinada ao marido. Socialmente o homem tinha o papel principal, mesmo que algum indivíduo fosse sem valor, ele seguia superior à metade da humanidade. Por sorte, isso mudou drasticamente: a mulher conquistou um lugar no espaço público, saiu da tutela do homem e hoje ganha para seu sustento. Dentro do casamento, outrora berço da tirania masculina, ocorreu o mesmo, não existe mais a assimetria onde a mulher era submissa, não autorizada a pensar e ter opiniões. Enfim, o trabalho já não ajuda a definir o que é ser homem. Ganhar dinheiro tampouco, mandar na mulher também não, o que é ser homem então?

O século XX foi, infelizmente, pródigo em guerras. As guerras convocam o homem para um dos arquétipos da condição masculina, o guerreiro. A primeira e a segunda guerra, depois a guerra fria e as lutas anti-coloniais, apesar do cataclismo humano, forneciam um lenitivo para a identidade masculina. O varão seguia nesse ponto útil, indispensável, um peça valiosa da engrenagem bélica. A economia e os valores da modernidade esvaziavam a representação da figura clássica masculina, como provedor e mestre, mas a guerra lhe contrabalançava o prestígio como soldado. O que fazer agora que a Europa se pacificou?

Observamos no século passado o declínio de todas as formas de filiação, daquilo que nos faz pertencer a um grupo. Todas tornaram-se mais frágeis, elas já não amarram uma identificação como antes. Ser inglês, francês ou alemão numa Europa que usa a mesma moeda e tem fronteiras abertas já não define claramente alguém. A cultura de massas avançou sobre as culturas locais e tradicionais, dando vida a novas personagens de identificação para sonhar, a globalização da cultura dilui fronteiras, vários povos cultivam os mesmos heróis e vilões. Os ofícios tampouco lembram as antigas guildas e corporações, com seus códigos e costumes, além disso os homens trocam de profissão, e mesmo as diferenças entre os ofícios não são claras. O que vale é ter dinheiro e não como se o obtém. Poucas profissões ainda devolvem uma imagem que sirva como âncora identificatória.

Da parte das religiões o quadro não é diferente, o mundo desencantou, e o papel das crenças ficou secundário, pouco definidor, apenas funciona para os poucos que se tornam radicais em tentar fazer valer o mundo antigo da religiosidade perdida. Ser católico, anglicano, ou protestante tanto faz, talvez o judaísmo e o islamismo ainda costurem um sentido peculiar, que não se confunda com o establishment convencional. Os grandes partidos políticos também são uma sombra do que foram, especialmente no sentido de uma escolha política definir uma identidade que dê sentido a uma vida. Não existem mais brigas por causas, talvez a ecologia seja a exceção, mas essa é, ou deveria ser, de todos. Enfim, vivemos a falência das formas tradicionais de identificação, das ideologias e das filiações, portanto cada vez é mais difícil saber quem se é e a que grupo pertencemos.

O homem de hoje segue trabalhando, com mais exigências de desempenho, e sem as regalias antigas, ainda que ilusórias, de seu gênero. Vê a mulher seguir seus passos e muitas vezes o ultrapassar; não sabe como ser amado e admirado por elas, antes bastava ser homem, hoje ele não sabe o que elas querem. O homem está solto, avulso no plano das idéias. Sem nada em volta que lhe devolva uma imagem do que ele é como cidadão e tampouco uma consistência viril, outrora refúgio das certezas. Resta-lhe o futebol, a paixão por um time, a violência da rua, essa inequivocamente, um lugar de machos. O Hooligan é o homem que não conta com uma guerra, então a inventa; não tem mais uma nação, uma causa, porém achou um clube para incondicionalmente e irracionalmente amar. O totem clubístico vem no lugar do pai decaído, da nação diluída, o time é a única tribo que consegue amar. O time não lhe pede nada e lhe diz atrás de que cores ele poderá vibrar para se sentir parte de algo.

Outro fato intrigante dessa questão é que os valores do individualismo cruzaram o século em alta e a tendência é seguir nessa direção, por que então um comportamento de massa, onde o indivíduo se funde no anonimato, consegue adeptos tão entusiastas? Talvez o Hooligan seja também uma denúncia de mal-estar na individualidade, um protesto em ato. Ali alguém deixa de ser ele mesmo para pertencer a uma multidão, imerge no mar do não ser, aceita a vontade coletiva, quer estar num rebanho que economiza a reflexão.

O comportamento Hooligan é a subversão das demandas por ser em nome próprio, de carregar o peso de ser original e ímpar, é a vontade de ser massa e descansar a cabeça das exigências abstratas, intangíveis, que são colocadas ao homem de hoje. Os Hooligans são uma resposta fácil, barata, ingênua e bruta dirigida à esfinge que pergunta ao homem o que ele é. Ao invés de olhar para frente, ele olha para trás, junta os farrapos dos uniformes dos avós e faz uma bandeira anacrônica e sem sentido, que já não honra ninguém. Encena uma caricatura de soldado num simulacro de guerra. Só extrai sentido social nessa cruzada patética contra a polícia e contra outros, tão perdidos como ele. Bebe junto com a cerveja a última gota de uma imagem masculina que já não se sustenta. É a imagem do ocaso do macho tradicional.


Mentiras sinceras me interessam

27 de junho de 2012 0

Noite, pai e filha param numa loja de conveniência para uma compra rápida. A menina se impressiona com as moças exuberantes que estavam ali, e pergunta ao pai se elas, tão altas, não seriam modelos. Num momento de distração da garota, o pai aproveita para transmitir a observação dela às duas travestis, que ficaram naturalmente encantadas. Seu trabalho exaustivo de montar uma bela e convincente imagem feminina fora recompensado.

As travestis são biológicamente homens, mas sentem-se mulheres e têm que carregar o fardo do sexo em que nasceram. Costumo brincar que o melhor filme sobre mulheres, para quem lhes quiser conhecer os segredos, é: “Priscila, a rainha do deserto” (Stephan Elliott, 1994), onde os protagonistas são duas travestis e uma transexual. Afinal, ninguém sabe melhor do que esses abnegados cultuadores da condição feminina, que ninguém nasce mulher, torna-se. Naquele encontro, graças ao involuntário elogio da filha do meu amigo, parecer femininos é um desejo deles que se realizou. O estranho é que elogios são sempre assim: quando os recebemos nos sentimos enganadores, como se houvesse alguma falsidade ali, uma ilusão que alimentamos, uma mentira.

O que temos de positivo é, aos nossos olhos, vivido como uma farsa, ridícula imitação dos nossos ideais. Um dia seremos desmascarados. Se alguém louva nossa obra, aparência ou valores, está, pensamos secretamente, redondamente enganado. Quando imaginamos algo que vamos fazer, as fantasias sempre incluem algum tipo de vitória, algo grandioso, frente ao qual qualquer realização parece indigna de nota. Quanto à beleza, não é à toa que ela se chama de “aparência”. Lembro da Claudia Schiffer, dizendo que depois de acordar levava mais de hora para ficar com cara de Claudia Schiffer. Os valores morais, então, são os piores candidatos à autenticidade: um mínimo de intimidade consigo mesmo revela a condição egoísta, mesquinha e violenta dos nossos anseios e pensamentos. Por sorte, na prática é outra coisa.

É justamente essa consciência dos próprios bastidores que faz com que as críticas não sofram o mesmo descrédito que os elogios. Qualquer observação que nos desmerece ou diminui é tomada imediatamente como verdade absoluta. Se alguém der a entender (ou mesmo se achamos que essa pessoa pensa assim) que somos chatos, medíocres, incompetentes ou feios, levamos fé e faremos coro com essa voz. A crítica habita nosso interior e quando encontra aliados, reais ou pressupostos, se fortalece, se agiganta. Talvez as travestis se assemelhem mesmo às belas modelos, pois aquilo que forjamos, com trabalho e superação, é uma autêntica e admirável conquista. Aplausos são para o que conseguimos fazer com o que a vida nos deu. Somos mentiras sinceras, verdades construídas. Palmas para elas.

Ao pé da letra

20 de junho de 2012 0

Elize Matsunaga descobriu que seu marido a estava traindo. O casal passou pelos desentendimentos usuais de um fim de relação, brigas, ódios, vontade de destruir aquele que ousou deixar de amar. Mas ela radicalizou: matou Marcos, esquartejou seu corpo, espalhando seus pedaços por vários lugares. Uma monstruosidade. Como é possível tanta frieza? De onde ela tirou forças para despedaçar um homem, como pôde fazer algo tão isento de humanidade?

Não me cabe diagnosticar a assassina confessa desta história, mas posso afirmar que a loucura, quando irrompe, ofuscando todas as razões que restam a alguém, dota sua vítima de força e determinação incontroláveis. O que não torna crimes cometidos nesse estado de espírito defensáveis ou justificáveis. Nas pessoas ditas normais, o surgimento dessa força sobre-humana ocorre em situações limite, urgentes, como guerras, violência urbana, doenças. Quando necessário, descobrimos a coragem, a energia e a iniciativa que desconhecíamos ter.

Uma pessoa abandonada, substituída no coração daquele que ama, pode sentir-se desmanchar. O amor não é apenas um momento de prazer, cumplicidade ou companhia, também é dele que provém a identidade. Declaramos nosso “estado civil”, ou seja, existe alguém que atesta publicamente nos amar e viver conosco. Depois de um rompimento, aquele que deixou de ser amado se desconhece, sente-se nada, um dejeto. Pensa que nunca mais será escolhido, aos seus olhos seus atrativos desaparecem. Todo mundo já passou por isso alguma vez. Situação difícil, costuma deixar um legado de lágrimas, lamúria, depressão. Ou pior.

Estamos acostumados a ver homens enlouquecerem por ciúmes ou desesperados mediante separações que não aceitam. Não é incomum que assassinem suas ex-parceiras, quando não chacinam os frutos daquela relação. Os filhos lembram a maldita mulher que os abandonou, devem também desaparecer. Talvez seja pelo costume, de uma sociedade machista onde a honra do homem tinha legitimidade jurídica para ser lavada, que não nos horrorize tanto. A masculinidade sempre foi mais ativa, às mulheres feridas de amor cabe definhar.

Elize reagiu como uma vingadora. Louca, como ficam esses homens que matam a família inteira, tirou forças dessa situação limite que nos transforma em heróis ou monstros. Seu mundo se desfez, passou, provavelmente, a funcionar com uma lógica delirante. Tomou a desgraça ao pé da letra, se era para dividir seu homem, repartiu-o por São Paulo. Neste caso, aparentemente o resultado foi um surto. Marcos Matsunaga tornou-se de todos e de ninguém. Assim, literalmente.

Homens-livro

07 de junho de 2012 0

“Fahrenheit 451”, o clássico de Ray Bradbury, escrito em 1953 está acima da costumeira disputa sobre a qualidade do original e da adaptação: o filme homônimo de François Truffaut, de 1966, também é uma obra prima. Essa história me toca em particular, pois deu forma literária à subjetividade do mundo em que nasci. Um tempo é melhor retratado por seus temores e esperanças do que pela realidade, são as fantasias que desvelam esses bastidores, a subjetividade dos fatos. Nesse sentido, a literatura é fonte fidedigna de pesquisa histórica.

A Guerra Fria, assim como o modo de vida do pós-guerra, são metaforicamente retratados no livro como se fossem um futuro distante. Se hoje dizemos que os jovens são parcos de esperanças, isso certamente deve tributo ao tratamento que as gerações anteriores deram às utopias, moradas das expectativas e dos sonhos coletivos. Foi uma época triste, onde anseios de um mundo melhor encontraram no totalitarismo seu destino trágico.

A derrota bélica e política do nazismo não foi o fim, nem a única expressão, da determinação de transformar o estado em um deus, que, como tal, não devia explicações a ninguém. Havia um empenho global, e nisso o estalinismo foi certeiro, em fazer da alienação do homem comum uma regra. Seja qual for o tipo de governo que o século passado concebeu, mais à esquerda ou direita, as coisas importantes costumavam acontecer além da alçada do cidadão. Este que ficasse quieto, sua opinião era menos que bem vinda. Nas ditaduras o pensamento é cerceado, enquanto que nas democracias indignas do seu nome a astenia política é incentivada. Hoje, num mundo onde a liberdade conquistou muitos espaços, os regimes totalitários sobrevivem, prova de que há algo na condição humana que ainda anseia por esse modo de vida. É tão mais fácil não pensar...

Acabamos de perder Ray Bradbury, aos 91 anos, o autor dessa que é uma das mais belas fantasia distópicas, metáfora genial do ocaso da esperança. Mas, longe de ser um pessimista, deixou-nos, com “Farenheit 451”, uma nota para nunca ser esquecida: a ficção contém os sonhos mais preciosos, a riqueza e complexidade que nos tornam potencialmente revolucionários. Melhor que isso, mesmo quando o ambiente é adverso há homens dispostos a dar a vida em defesa da arte, das boas histórias. Quando tudo nos é retirado, percebemos que na beleza do encadeamento das palavras, na genialidade de uma trama, resiste nossa essência. Enquanto ela existir, sobreviveremos.

A literatura sempre foi considerada perigosa para os regimes totalitários, porque em seu interior os homens se compreendem melhor, tornam-se mais sábios, críticos e corajosos. Quanto mais escrevermos e lermos, mais nos pareceremos com uma civilização e menos com uma boiada. Isso vale para todas es formas da arte.

Bradbury projetou, para um futuro não muito distante, uma sociedade alienada, onde a população idiotizada era mantida distante de qualquer coisa que pudesse gerar angústias, dúvidas ou tristezas. Uma sociedade de semi-analfabetos, alimentados cotidianamente pela ilusão de participar de uma programação televisiva simplória e realista. Contentavam-se com metas medíocres, como a aquisição de objetos da moda, o aumento da capacidade de consumo, o cuidado com a auto-imagem. Também se dedicavam à vida social, baseada em conversas fúteis, principalmente sobre TV. Para garantir um estado de espírito compatível com essa rotina bovina tomavam remédios regularmente. Sentimentos e emoções eram proibidos, nenhuma manifestação artística era suportável. Os livros, remanescentes clandestinos de um passado recente, quando ainda era permitido viver intensamente dores, amores e desejos, eram caçados e queimados. Farenheit 451 é a temperatura na qual eles entram em combustão.

Qualquer evocação da nossa sociedade vinda da descrição anterior não é mera coincidência. Detalhe: nesse quadro montado pelo autor havia uma ditadura que submetia a população a horizontes tão estreitos. Bondoso da sua parte, pois já devia saber que entramos na fila dos pobres de espírito alegre e espontaneamente, sem necessidade de ser subjugados para tanto.

Os revolucionários de Bradbury não são guerrilheiros ou resistentes no sentido clássico, eles apenas defendem a existência da vida interior representada pela leitura. Trata-se de um grupo rebelde de homens no exílio, na clandestinidade, que se empenha na sobrevivência do acervo literário da humanidade. Eles decoram obras literárias e se incumbem de contá-las e preservá-las. Cada um torna-se um homem-livro. Ao deserto de referências simbólicas eles contrapõem seu apego à leitura. É interessante que a escolha da obra é feita por cada revolucionário, ele passa a ser esse livro, será identificado com ele, atenderá por seu nome, fará das palavras dele as suas. Existe melhor representação do tipo de relação que temos com nossas histórias prediletas?

Porque esse valor todo dado aos livros? Ler pode e deve ser aprazível, não necessariamente nos faz felizes, mas certamente porque nos enriquece, nos traduz. A fruição solitária e portátil de um livro não requer instalações, nem equipamentos. Basta a imaginação de outro ser humano, escrita no código de uma língua que conheçamos bem, e a viagem está garantida. Naquela sociedade a leitura foi banida porque faz dos cidadãos seres pensantes.Todo aquele que lê complica as coisas, no bom sentido. Na resistência imaginada por Bradbury, cada indivíduo preserva um pedacinho do acervo cultural da humanidade para fazer diferença no futuro.

Nessa história, há uma contraposição quase caricatural entre cultura e barbárie que é verdadeira e profética. Para nossa sociedade hipocondríaca, vidiota, consumista e narcisista, mais livros fariam diferença. Talvez quanto mais homens-livro houvesse, menos homens-bomba seriam necessários. E você, se pudesse salvar um livro da destruição, já pensou qual seria?

Uma princesa guerreira

06 de junho de 2012 0

Por duzentos anos Branca de Neve sobreviveu na imaginação das crianças, fiel ao relato dos irmãos Grimm, pouco alterado por Disney. Essa história adormecida, sem nunca ter perdido as cores, pode-se dizer que acaba de ser novamente beijada.

2012 foi o ano da ressurreição da princesa morena, dois filmes a despertaram. Mas desta vez ela foi chamada à ação: em “Branca de Neve e o Caçador”, de Rupert Sanders, ela tornou-se uma princesa guerreira.

Essa trama confirma uma antiga suspeita: que a nova Rainha, a feiticeira Ravenna, assassinara o Rei. A enteada foi mantida prisioneira até que, como na história clássica, o espelho revele sua beleza. Agora a malvada não quer apenas matá-la e comer seu coração. A feiticeira Ravenna mantém-se linda e desejável vampirizando a juventude de jovens súditas. Branca de Neve é especial, pois lhe conferirá a vida eterna. Ao fugir, a princesa é ajudada por um cavalo branco, sem príncipe. Quando desperta de seu sono enfeitiçado não é para casar, é para liderar as tropas que derrotarão sua rival e salvar o reino aterrorizado pelo domínio nefasto de Ravenna. Já o Caçador é um jovem viúvo atormentado, que se culpa pela morte da esposa. Ele protege a moça paternalmente, lhe ensina lutar, mas se apaixona por ela. Ressurge também um amor infantil, William, que também é seu dedicado e apaixonado cavalheiro. Só que a princesa, convenhamos, tem mais o que fazer.

Muitas princesas sobreviveram ao esquecimento, várias conseguiram a juventude eterna. Branca de Neve foi a primeira delas a inaugurar um novo cânone: a princesa cantora de desenho animado. Só podia ser ela, novamente, a revolucionar o nicho das princesas clássicas: o amor não é mais o final feliz.

O que permanece? O fato de que crescer é tornar-se órfão. Nos contos de fadas a mãe amorosa morre rápido (quando na verdade é o filho perfeito que sucumbe, assim que começa a crescer e aparecer). É aí que as madrastas e bruxas são convocadas para representar os conflitos normais do desenvolvimento. E mais, a mulher terá que desbancar a mãe, cuja juventude fenece esperneando, superá-la em encantos. Deverá a seu modo matá-la, apropriar-se dos atributos femininos. Esse conflito alimenta a paixão das meninas por histórias de princesas e bruxas.

O que não tinha como sobreviver? A idéia de que a vida de uma mulher encontra o ápice no casamento. Da revolução de costumes dos anos sessenta, da libertação da tristeza pelos horizontes estreitos do lar, veio a certeza de que elas querem mais. Para nós, liderados por uma presidenta guerreira, não é uma surpresa.

PS: uma leitora me lembrou que era bom avisar que não é um filme para os pequenos! Concordo. Já para os grandinhos, até os já beeeem grandinhos como eu, é diversão garantida! Seguir pela vida afora em companhia de nossos contos de fadas prediletos, que se transformam para nos acompanhar, é uma experiência instigante. Se outrora eles animavam as veladas dos trabalhadores cansados, na voz dos contadores de histórias, hoje, através do cinema, eles nos reencontram já adultos. Igualmente cansados, agradecemos as boas doses de fantasia, que distraem e enriquecem. Ainda por cima nos re-conectam com a infância e com os personagens significativos da nossa história e constituição imaginária. Convém nunca esquecer, que mesmo depois que ela acabou, é a infância a matriz onde a fantasia nasce e se opera. Ali moram histórias que usamos como instrumentos para elaborar nossos pequenos problemas e dilemas. Nesse sentido, sou particularmente grata à Branca de Neve, que foi meu alter-ego durante alguns anos quando era criança. Foi muito bom reencontrá-la e torcer por ela em lutas e batalhas. Mesmo que a Charlize Teron (a bruxa) seja a mais bela...

Efeito Borboleta

27 de maio de 2012 0

Certo dia, neste verão, tentei salvar uma borboleta. Estava presa entre as cortinas do hall de uma pousada. Sem jeito, tomei-a pelas asas e a destruí. Pode parecer ridículo, mas bom tempo sofri com a imagem do inseto mutilado martelando no fundo dos olhos. O episódio não estragou o dia, nem as férias, mas pinicava a alma, como assombração.

Tenho uma particular sensibilidade ao mundo animal, pertenço ao vasto contingente dos que sofrem com as desgraças dos bichos. Isso não faz que me sinta uma pessoa melhor, sei que se pode ser doce com os animais e amargo com os humanos. Mas não era essa a razão do peso da cena da borboleta: todo pensamento é em camadas, sempre têm algo por baixo. Esse pequeno acidente representava outro, anterior. Há dois anos, nessa mesma pousada, mergulhei afoitamente na piscina e colidi com meu marido, deixando-o com um horroroso olho roxo. Recém chegados da estrada, a água azul era um oásis, cheguei correndo e tchibum! Mutilei o rosto do meu amado, as férias da família, e ainda escutei deles a reprimenda de que poderia ter sido pior se minha vítima fosse uma das crianças que nadava ali.

Lembrei disso ao ler uma frase do romance “As horas” (de M. Cunningham), que tem como personagem a escritora Virginia Woolf. Ao despertar, a personagem, que é a própria Virgínia, pensa: “pode ser que seja um bom dia; precisa ser tratado com cuidado”. Palavras muito simples, que contém o espírito da obra dela, a quem passei as férias dedicada. Na frágil existência, cada gesto, cada dia são decisivos. Mais que fatos, ela privilegiava a descrição do olhar de cada personagem, narrou a vida mínima, a que as mulheres observavam enquanto os homens faziam coisas consideradas grandes.

Virgínia, que como todos sabem acabou suicidando-se na meia idade, viveu mais intensamente do que muitos que chegam na velhice. Por vezes cansava-se da vida, principalmente de si, mas não se tornou uma narradora mórbida. Mais romântica do que gótica, era dada a perceber a beleza. Observou e descreveu os humanos ao redor como animais curiosos: queria saber do quê vivem, qual seu alimento subjetivo, de onde tiram motivos para cada novo dia. Por que seguem adiante, perguntava-se, mesmo os que parecem ter tão pouco para levar consigo? O que mantém a marcha do mendigo? A jornada dos obreiros? A persistência dos burocratas? Dos que têm que cuidar um doente desenganado?

A eminência da catástrofe, que pode mutilar como fiz com a borboleta, como o salto impensado, valoriza a vida como conquista cotidiana. Carece cuidar de cada dia, reconhecer-lhe o encanto em suas expressões mínimas, pois do próximo ninguém sabe. Este “hoje” que bate asas em nossas mãos, é frágil, mas pode ser bom.


Publicado na Revista Vida Simples, edição de maio de 2012

A chave do tamanho

10 de maio de 2012 0


Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinqüentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?

Impossível não evocar “A chave do tamanho” de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a “Casa das Chaves”, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.

Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima idéia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.


O banho das freiras

25 de abril de 2012 0

Quando pequena ouvi ou li um relato sobre a rotina de certas freiras reclusas. Nem sei se era real ou inventado. Mas o assunto me pegou, pois intrigavam-me certas peculiaridades sobre o banho dessas religiosas. Conforme recordo, elas jamais podiam desnudar-se, portanto trajavam um tipo de veste, como uma segunda pele, com a qual também se banhavam. Ficava a pensar como elas se lavavam, se podiam ou não colocar as mãos por dentro dessa armadura de pano e ensaboar as partes, digamos, mais inacessíveis. Ainda me preocupava com o aspecto da drenagem: se saíam com essa espécie de película de pano do banho, teriam que ficar secando ao relento antes de vestir o hábito, que do contrário ficaria molhado. Teriam elas aquecimento? Dedicava longas divagações à complicada logística do banho de uma pessoa que não pode se despir.

Na infância, minha filha tinha um problema de relevância similar. No caso dela era com o limite de peso que as pontes podiam suportar. Ela lia o peso nas placas. Como testariam a resistência daquela edificação? Após muito conjeturar, ela pensou que testavam com algum tipo de peso tal qual os das balanças antigas. Quando a ponte caía, construíam uma nova igual e anunciavam o peso máximo suportável. Porém, preocupava-se ela, a nova ponte não havia sido testada, e se fosse mais frágil do que sua similar anterior?

Essas são questões de criança, com o tipo de solução estapafúrdia que elas costumam inventar. Mas não são muito diferentes de uma série de raciocínios práticos com que os adultos costumam se distrair, principalmente em noites de insônia. Problemas ridículos e soluções dispensáveis ocupam longas jornadas de reflexão. Tanto matutar, nos leva a desconfiar de que é sobre questões realmente significativas que se trata. É inevitável pensar que uma menina ocupada com o direito de desnudar-se e tocar-se está às voltas com a sempre animada sexualidade infantil. Na mesma linha de inferência, a preocupação com a segurança das pontes indica uma precoce inquietude sobre as garantias que o mundo oferece. Sempre poucas e vagas.

Esses pequenos dilemas constituem verdadeiras questões, travestidas de charadas aparentemente fúteis. Fingindo ser pueris e aleatórios, apresentam-se pensamentos significativos: desejos, freqüentemente sexuais, assim como questões filosóficas. O problema das pontes, por exemplo, é uma inquietação lógica: como uma experiência pode gerar certezas para compreender uma realidade similar? Desse ponto de vista, até parecemos (e no fundo somos) bem mais profundos! Melhor assim.

Uma magra na sala e ...

22 de abril de 2012 1


“Gordinha é como pantufa, todo mundo gosta de usar mas ninguém sai de casa com ela!”

Eis como uma amiga descreve sua vida amorosa, não pouco atribulada. O problema é que seus parceiros costumam desaparecer antes do sol nascer. Ela acha que fazem isso por vergonha de ser vistos em sua companhia, o que seria um ponto negativo para o currículo deles. Talvez ela tenha razão nessa inquietude: quem come mais do que devia acaba sendo, a princípio, um tipo de transgressor. Gordura, fruto da gula, passou a ser o pior pecado capital...

Talvez, para nossos tempos em que a imagem é tudo, a gorda represente um novo tipo de mulher proibida, da qual acredita-se ser possuidora de um tipo de luxúria oral. Capturada nessa armadilha de fantasias, minha amiga sente-se exilada das relações amorosas legitimadas, relegada a uma espécie de bordel da imaginação.

Hoje como ontem, dá muito trabalho parecer uma mulher recomendável. Agora é preciso suar pela boa forma e cobrir formas irregulares, comer quase nada em público, bronzear-se (sob supervisão dermatológica, claro) e ocultar marcas da idade. Parceiras jovens ou “bem conservadas” pontuam mais. Se necessário, como um dócil objeto de Pigmalião, terão que recorrer à lipo-escultura. Carnes brancas e flácidas não ficam bem. O espartilho, agora invisível, impera como nunca.

Gordinhos representam a tentação e são condenados por viver alheios à cultuada abstinência, por não destilarem em suor suas impurezas. Eles não têm os volumes nos lugares certos: seios fartos, traseiros carnudos, mas a barriga lisa, conforme apregoado pelo cânone da Barbie. Mas, se hoje as garotas podem exibir suas formas em decotes intermináveis e saias sumárias, não seriamos finalmente corpos liberados? Não é o que parece, pois só pode ser visto o que estiver dentro das regras. E com tantas regras a seguir, o exercício e a fome acabam se constituindo numa espécie de burka internalizada. Já o implante de silicone é a voluptuosidade domada.

Os gordos evocam um desejo fora de controle. É como se comendo impudicamente burlassem o trabalho civilizatório, esse que nossa selvageria interior sempre ameaça. Evoluímos para nos alimentar sem voracidade, no lugar da compulsão, queremos ver a força de vontade. Boas maneiras e boa forma são ditadas pelo mesmo manual de etiqueta, essa que nos faz parecer tão ponderados e adequados. Idealizadas magérrimas mulheres francesas que saboreiam mini porções são o antônimo dos estigmatizados gordos, apresentados como selvagens devoradores de montanhas de fast-food. De fato, há gordos que comem sem prazer, só para se estufar, afogar a ansiedade, mas não é só disso que a obesidade é feita. Porém, a verdadeira pergunta é por que isso é mais condenável do que o igualmente estranho prazer de passar fome?

O momento pede pratos exíguos: comida fina que parece natureza morta, de alto apreço estético e baixo valor calórico. A mulher magra e musculosa é tida como a boa moça, enquanto a gorda - não precisa ser uma obesa mórbida, basta fugir ao padrão - evoca prazeres pouco domesticados. Os mais interessantes. Outrora, ressaltando os territórios da boa conduta e o indispensável tempero do proibido, dizia-se às moças que lhes cabia ser como uma dama na sala e uma puta na cama. Quem sabe, agora mudamos a frase, para lhes recomendar que sejam como uma magra na sala e uma gorda na cama?


publicado na revista vida simples, edição de abril