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Caça ao guanaco, controvérsia na Terra do Fogo

03 de outubro de 2014 0

Guacano

De algum modo, os guias turísticos da Terra do Fogo não mencionam os tiros e as matanças, em especial em Cerro Sombrero, no Chile. Mas a história é triste e controversa – contrampõem-se os defensores dos animais e os pragmáticos que os veem como ameaça. Das estepes patagônicas cobertas de névoa, às densas florestas de faias, tiros podem ser ouvidos todos os anos. Caçadores com rifles telescópicos percorrem essa região, na ponta da América do Sul, em suas picapes, enquanto buscam sua presa: o guanaco.

Quem conta é o repórter Simon Romero, do The New York Times.

O ser humano já caçou o guanaco, parente selvagem da lhama, até sua quase extinção em grandes trechos do continente. Embora a caça ao animal aqui seja legal, o abate de manadas de guanaco na Terra do Fogo vem provocando um acirrado debate sobre a frágil recuperação de uma espécie nativa e a influência de poderosos interesses pecuários e madeireiros, que alegam que o crescente número de guanacos estaria competindo com ovelhas por pastos e alimentação nas florestas comerciais de madeira.

“Estamos testemunhando uma grotesca subordinação a empresários que veem uma criatura de beleza e resistência notáveis como um simples incômodo”, afirmou Valeria Muñoz, ativista de direitos animais em Punta Arenas, a capital regional. “É uma volta à mentalidade do século XIX, onde a exploração madeireira e o pastoreio triunfam sobre todo o resto”.

Em outros lugares da América do Sul, a caça de animais para controle populacional se concentra principalmente na contenção de espécies invasoras. Na Colômbia, os caçadores têm focado nos descendentes de hipopótamos importados por Pablo Escobar. No Equador, guardas florestais das Ilhas Galápagos criaram uma campanha de erradicação dos bodes que competem por alimento com espécies nativas como tartarugas.

A caça de guanacos no Chile parece mais similar ao controverso controle de espécies nativas em outros países, como a caça a cangurus na Austrália, aumentando a ira de grupos de defesa de animais e autoridades de turismo – segundo eles, o abate mancha a reputação de um lugar onde os visitantes muitas vezes se surpreendem com manadas de guanacos selvagens.

A caça ao guanaco é proibida ao longo das principais estradas que cortam a Terra do Fogo – região dividida entre Chile e Argentina que se projeta como um espinho do continente sul-americano –, mas nas estradas vicinais, durante a temporada de caça no inverno chileno, os sinais da matança são evidentes.

Tiros dos rifles ecoam pelas florestas. O sangue de guanacos recém-abatidos mancha a neve. Comunicando-se com os caçadores por walkie-talkies, equipes de apoio se espalham por terras particulares em busca das carcaças, içando-as a picapes para o transporte aos matadouros.

Os pecuaristas com autorização para a caça julgam-se vítimas de políticas que expandiram as manadas de guanacos na Terra do Fogo nas últimas décadas. Até os anos 70, estimava-se que apenas alguns milhares de guanacos permaneciam na maior ilha da Terra do Fogo, uma área maior do que a Bélgica, após uma caça predatória generalizada.

Uma ofensiva da ditadura do General Augusto Pinochet contra a posse de armas de fogo (e por extensão a caça) abriu caminho para os esforços de conservação do guanaco; o número de guanacos na parte chilena da Terra do Fogo cresceu para cerca de 150 mil, segundo o Serviço Agrícola e Pecuário do Chile. As autoridades permitiram a caça de até 4.125 guanacos este ano.

“Além de competir por comida com nossas ovelhas, hoje existem tantos guanacos na Terra do Fogo que eles representam um risco para motoristas que tentam evitá-los quando os animais atravessam nossas estradas”, explicou Eduardo Tafra, criador que prepara carne de guanaco em seu matadouro em Cerro Sombrero, um posto avançado nas planícies.

“Não queremos exterminar o guanaco”, garantiu Tafra, “mas não podemos simplesmente cruzar os braços enquanto ele ameaça nossa subsistência”.

A cultura de pecuária na Terra do Fogo tem raízes nas operações de pastoreio estabelecidas no fim do século XIX, principalmente por colonos britânicos que desalojaram caçadores nômades de guanacos. No início do século XX, os Selk’nam, povo indígena que viveu na Terra do Fogo durante milhares de anos, haviam sido quase totalmente extintos numa brutal campanha de extermínio.

Em meio a tudo isso, os guanacos, uma das principais fontes de alimento para os Selk’nam, persistiram na Terra do Fogo e outras partes da Patagônia. Estima-se que os animais tenham sido vistos pela primeira vez por europeus em 1520, quando Fernão de Magalhães, explorador que navegou pelo estreito que hoje leva seu nome, descreveu ter visto um “camelo sem corcovas”.

Parte da família dos camelídeos, os guanacos atingiram uma população de 50 milhões na América do Sul, número superior a outras criaturas de casco ao redor do mundo como o caribu, o gnu africano e o antílope saiga, segundo o zoólogo americano William G. Conway.

“Grandes números de guanacos assombram estes planaltos sombrios”, escreveu o explorador britânico H. Hesketh-Prichard em “Through the Heart of Patagonia” (No coração da Patagônia), livro de 1902 onde ele descreve a caça desenfreada aos guanacos. “Eles eram tão dóceis quanto os cervos ingleses, permitindo que nos aproximássemos a até 70 ou 80 metros”.

Conforme os rebanhos não nativos se expandiram na Patagônia, o número de guanacos despencou, atingindo o nível atual de apenas 500 mil, declarou Cristóbal Briceño, especialista da Universidade do Chile. As manadas diminuíram significativamente em outras partes do Chile onde eles eram abundantes, afirmou ele.

Embora o guanaco não esteja ameaçado de extinção em escala continental, ele ainda enfrenta sérias ameaças de caça predatória e a degradação das pastagens, e é provável que desapareça de várias das regiões que formam sua área de distribuição histórica, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza.

As autoridades chilenas permitiram silenciosamente a caça de guanacos na Terra do Fogo ao longo da última década, argumentando que o abate é necessário para manter uma população “sustentável” que não prejudique outros alicerces da economia regional.

Os moradores daqui geralmente abominam comer guanaco, então a maior parte da carne do animal é exportada para a Europa (uma exceção pode ser encontrada no La Cuisine, restaurante em Punta Arenas que oferece o Guanaco Grand Veneur, um guisado da carne em molho de vinho tinto acompanhado por purê de batatas e abóbora).

“Monitoramos detalhadamente cada aspecto da caça para garantir que ela seja conduzida de maneira adequada”, disse Nicolás Soto Volkart, funcionário do Serviço Agrícola e Pecuário em Punta Arenas. “Estamos convencidos de que essa é uma boa política depois que os guanacos recuperaram seus números desde a década de 70″.

Mesmo assim, a tensão é grande quanto à caça de guanacos, herbívoros que se alimentam de qualquer coisa entre cactos, liquens e fungos. Em 2012, uma proposta para expandir o programa ao permitir que os turistas participem das caçadas foi arquivada após ser recebida com duras críticas.

Defensores de um “retorno ao selvagem” nas florestas – basicamente restaurar os ecossistemas em algo que lembre com que costumavam funcionar – dizem que os guanacos poderiam ajudar áreas onde forem reintroduzidos, ao espalhar sementes de certos tipos de árvores.

“Os guanacos parecem ser uma espécie desaparecida que costumava desempenhar um importante papel ecológico”, argumentou Meredith Root-Bernstein, cientista de conservação da Universidade Aarhus, na Dinamarca.

Citando uma crescente resistência no Chile à caça de diversas espécies, autoridades do Serviço Agrícola e Pecuário continuam em estado de alerta depois que manifestantes atacaram seu edifício em Punta Arenas neste ano, com bombas incendiárias, em resposta a uma proposta separada para permitir a caça de cães selvagens acusados de atacas ovelhas.

Mesmo durante a temporada de caça, as silhuetas de guanacos ainda podem ser vistas em trechos ao longo do Estreito de Magalhães. Os animais costumam observar os veículos que se aproximam antes de atravessar correndo as estepes.

“Caçar esses animais é uma aberração que reflete nossas distorcidas prioridades”, declarou Enrique Couve, presidente da câmara de turismo da Terra do Fogo.

“O guanaco é um tesouro da Patagônia, e quem tem a sorte de vê-lo fica encantado”, afirmou ele. “E aqui estamos nós, vendo-o ser morto como se fosse algum tipo de praga”.

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