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08 de dezembro de 2015 0

Caros leitores!

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A pressão internacional e a súbita "generosidade" de Nicolás Maduro para evitar que o péssimo fique pior

07 de dezembro de 2015 0

Maduro fala

 

A frase de Nicolás Maduro, para qualquer observador atento, é a concessão de um governante autoritário.

“Observando esses resultados, viemos com a nossa moral (sic!), nossa ética (sic!!!), para reconhecer estes resultados adversos, e dizer para a nossa Venezuela que a Constituição e democracia triunfaram”. Puxa, obrigado, chefe!

Foi isso o que Maduro disse em rede nacional no final da noite de domingo, depois de, na campanha, ter usado as emissoras de TV estatais como instrumento próprio e de se autointitular o representante da pátria, num viés totalitári0.

O que se depreende da “concessão” do agora ex-todopoderoso Maduro?

Parece que a pressão internacional funcionou.

Tudo bem. A oposição fica com mais de cem dos 167 assentos da Assembleia unicameral. Mas poderia ser pior.

Os chavistas ainda procuram pôr seu fracasso no colo do “império” e da oposição que teriam, sordidamente, protagonizado uma “guerra econômica” calculada nos mínimos detalhes, que deixou o país com recessão de 10% inflação superior a 200% anuais, desabastecimento de mais da metade dos produtos mais necessários da cesta básica e pobreza superando os 30%.

Não, claro que não foi o fracasso de uma política econômica que teve apenas dois méritos: tirou os rendimentos do petróleo de uma elite que precisava realmente passar pela sacudida que passou e usou esse mesmo dinheiro para promover iniciativas de fundo assistencial que tiveram lá seus méritos, só que sem sustentação – a falta de uma diversificação econômica deixou o país preso à pretrodependência. O petróleo continuou sendo o produto que traz mais de 95% das divisas. Quando seu preço baixou, babaus para a estratégia simplória de fazer a tão necessária justiça social uma medida de fôlego previsivelmente curto.

Pois bem, voltemos à questão econômica. Provavelmente seja ela que levou o Brasil a enfim esboçar alguma reação em relação aos assassinatos e às prisões políticas – muitas delas sob o argumento vazio de que seriam eles, os oposicionistas, os responsáveis pela violência que tomou conta do país e que vitimou, principalmente… oposicionistas!

O Brasil se deu conta de que as estatais venezuelanas infladas devem US$ 2,5 bilhões (R$ 9,4 bilhões!!!) a empresas brasileiras. Ora, isso é muito dinheiro. Então, o Itamaraty se dignou, finalmente, a fazer coro com a ONU, com a OEA e com diversos outros governos para pedir prudência ao senhor Nicolás Maduro na sua sanha autoritária.

Tanto foi assim, que, no último dia 30, a chanceler venezuelana Delcy Rodríguez telefonou para o colega brasileiro, Mauro Vieira, para lhe dar explicações sobre o inexplicável assassinato de um líder opositor em meio a um comício. Os pretensos esclarecimentos vieram depois de nota emitida pelo Itamaraty, que pedia “zelo” das autoridades venezuelanas por eleições “limpas e pacíficas”.

Vieira estava com a presidente Dilma Rousseff na conferência do clima (COP21), em Paris. Atendeu ao telefone, ouviu tudo e certamente pensou o que pensam todos os diplomatas brasileiros: enfim, pudemos agir. Sim, porque não é do Itamaraty que parte a linha da diplomacia brasileira, em especial quando os assuntos envolvem vizinhos – mais ainda quando são os “bolivarianos”.

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, vem falando em acionar a cláusula democrática do Mercosul. Caso continuem os desmandos bolivarianos, que a Venezuela seja suspensa, como o foi o Paraguai, que, em processo de tiro sumaríssimo, afastou o presidente Fernando Lugo. Claro, Lugo é de esquerda. Mas isso não deve ser critério…

Agora, vai aqui uma dica de quem conhece Dilma dos tempos em que ela ocupava cargos econômicos importantes no Rio Grande do Sul. Certamente, ela e Macri encontraram muito mais afinidades do que diferenças no encontro que tiveram. Em relação à Argentina, não duvide de que as relações, com Macri, passarão a ser mais fluidas. Ele até já avisou que, no dia seguinte à posse do dia ’0, tratará de romper os embaraços alfandegários que desagradam o Brasil e anulam o Mercosul. Na Fiesp, Macri foi intensamente aplaudido. No Planalto, supostamente, aliado de sua rival Cristina, houve aplausos, sim, só que bem mais discretos.

O fato é que, nesse contexto todo, Maduro percebeu: o que está péssimo para ele pode ficar infernal. O isolamento da Venezuela era pedra cantada. Ele sentiu que não poderia se consolidar como Idi Amim Dadá latino-americano. E resolveu fazer uma concessão, com a sua “moral” e sua “ética”, como quem avisa: lambam os beiços e aproveitem tamanha generosidade!

A Venezuela, que ainda tem uma institucionalidade muito mais precária que a brasileira, parece ter percebido que o mundo não está mais preparado para golpismos e regimes autoritários. Certamente, esse recado está dado para os golpistas da oposição venezuelana, que são muitos. Também deve servir de reflexão para alguns integrantes do governo brasileiro. Mas, sobretudo, deveria fazer alguns políticos oportunistas, sedentos pelo impeachment vingativo promovido por um político desprovido de moral em todos os sentidos desse termo. Aliás, haverá uma defesa desse atalho no próximo dia 13 de dezembro, não? Poxa, que sugestivo… Treze de dezembro marca os 47 anos do sombrio AI-5! Tomara que Maduro não seja o único a se dar conta, à esquerda e à direita.

 

 

Tire suas dúvidas sobre as eleições legislativas da Venezuela neste domingo

05 de dezembro de 2015 0
Eleições venezuelanas

 

Tira-dúvidas eleições na Venezuela:

1 Por que os venezuelanos vão às urnas no domingo?
Os 19,5 milhões de eleitores escolherão os 167 parlamentares da Assembleia Nacional, que terão mandato de cinco anos. O voto é facultativo

2 Como funciona?
Dos 167 assentos, 113 são definidos de maneira nominal, 51 por lista e três reservados para representação indígena

3 O que está em jogo?
O reequilíbrio de poder em um país onde o governo controla as instituições há 16 anos4 Quem é favorito?
Oposição lidera pesquisas, embora chavismo tenha se fortalecido nos últimos dias. Das 32 pesquisas realizadas, 30 dão vitória da oposição. Diferenças variam entre 14 e 30 pontos.

5 Por que a maioria dos votos não significa necessariamente maioria no plenário?
Porque o mapa dos distritos infla a representatividade de áreas pouco povoadas. Em 2010, o chavismo obteve 48% dos votos e 59% das cadeiras

6 O que muda em caso de vitória da oposição?
Depende. Com maioria simples (84), pode investigar governistas e anistiar opositores. Para censurar ministros e aprovar leis habilitantes precisa de cem deputados e só a partir de 111 poderia convocar Constituinte e alterar leis orgânicas

7 Quais as forças e as fraquezas do governo?
Com o controle da máquina pública e da mídia, o chavismo tem maior capacidade de mobilização, mas a maioria culpa o governo pela crise

8 Quais são as forças e fraquezas da oposição?
Ela se beneficia da insatisfação com o governo e fez campanha confiante, mas carece de propostas e continua dividida.

9 Por que muitos países se dizem preocupados?
Porque o governo impediu uma observação eficaz, comete abusos na campanha e ameaça resistir violentamente a uma derrota. A oposição também tem histórico de agressividade

10 O voto é confiável?
A urna eletrônica é considerada confiável e fácil de auditar. Irregularidades, como intimidar eleitores, ocorrem fora dos centros de votação.

…..

A corrosão do chavismo e os efeitos para a América Latina

Com a corrosão do chavismo, provavelmente fique para trás o tempo em que a Venezuela era uma inspiração para a esquerda latino-americana: o país que irá às urnas no domingo, em legislativas que podem dar a vitória à oposição pela primeira vez em 16 anos, aparece muito debilitado no plano internacional.

- A Venezuela já não conta com a liderança de um (Hugo) Chávez nem com um recurso natural – o petróleo – que lhe proporcione 100 dólares por barril – resumiu, em entrevista para a agência de notícias France Presse, David Smilde, analista do Escritório de Washington para a América Latina (WOLA, em inglês).

Eleito presidente pela primeira vez no fim de 1998, o carismático Hugo Chávez consagrou a maior parte de seus esforços – até sua morte, em março de 2013 – a construir um bloco latino-americano liberado da influência dos Estados Unidos, uma estratégia que seu herdeiro político Nicolás Maduro tentou manter sem sucesso.

Chávez, cuja vitória teve um efeito dominó e foi a primeira de uma série de conquistas eleitorais da esquerda latino-americana, combinava discursos inflamados com uma política de venda de petróleo – a Venezuela tem as maiores reservas do planeta – a condições preferenciais aos seus sócios da região.

Essa atitude lhe valeu o reconhecimento de nações do Caribe, especialmente de Cuba, mas também de Nicarágua e Uruguai, por exemplo, além do apoio dos pesos pesados da América do Sul: o Brasil de Lula e Dilma Rousseff e a Argentina de Néstor e Cristina Kirchner.

A diplomacia do petróleo está intimamente vinculada à versão do socialismo do século 21 que se pretendeu criar com a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) e Petrocaribe, mas a liderança ali também é cada vez menor, coincidem especialistas.

- Os recursos venezuelanos ajudaram a pagar a dívida argentina, a incentivar a indústria boliviana, a manter o subsídio da energia cubana e Daniel Ortega no poder na Nicarágua. Mas, sem dúvida, estes fundos não eram inesgotáveis e respondiam a um esquema de política que já fracassou – afirmou Roger Guevara, especialista em relações internacionais.

A isso se soma o fator pessoal.

- Não tem comparação. Maduro não tem a liderança nem o carisma de Chávez, nem a procedência das fileiras do exército, nem a identificação popular que Maduro nunca teve – disse Guevara, ex-embaixador da Nicarágua na Venezuela (1998-2000).

Eleito em 2013, pouco depois da morte de seu mentor, Maduro também teve menos margem de manobra em um panorama político regional modificado pela aproximação entre Cuba – tradicional aliado de Caracas – e EUA em 2014, e por mudanças eleitorais na região.

- Maduro tem um ambiente regional que foi se tornando cada vez mais difícil, mais fechado – opinou a analista venezuelana Elsa Cardozo, professora de relações internacionais da Universidade Simón Bolívar.

Um sinal revelador dessa nova distância é o que ocorreu após a condenação, em setembro, a 14 anos de prisão do opositor Leopoldo López, por suposta incitação à violência durante protestos em 2014 que deixaram 43 mortos.

- O governo cometeu um erro: deteriorou sua capacidade de relacionamento com a comunidade internacional, inclusive com alguns aliados, por esta mancha negra ou cinza que representa um julgamento claramente inadequado, sem suporte jurídico real e não tolerável para ninguém no mundo democrático – disse Luis Vicente León, presidente do instituto Datanálisis.

O enfraquecimento diplomático de Caracas “estimula os líderes regionais a manifestar em voz alta sua oposição (ao governo de Maduro) em certos temas”, afirma Smilde, acrescentando que isso constrói uma advertência “ao governo e ao Conselho Eleitoral (da Venezuela) de que a região os está observando e que já não poderão contar com seu apoio se ocorrerem problemas com as eleições” legislativas.

A Venezuela também não poderá se apoiar no Brasil, cuja presidente Dilma Rousseff concentra toda a sua atenção na situação interna, muito frágil, nem na Argentina, que acaba de dar passar por uma mudança com a vitória do empresário liberal Mauricio Macri sobre o kirchnerismo.

A corrosão do chavismo e seus efeitos sobre o "bolivarianismo" na América Latina

04 de dezembro de 2015 0

Bolivarianos

 

Com a corrosão do chavismo, provavelmente fique para trás o tempo em que a Venezuela era uma inspiração para a esquerda latino-americana: o país que irá às urnas no domingo, em legislativas que podem dar a vitória à oposição pela primeira vez em 16 anos, aparece muito debilitado no plano internacional.

- A Venezuela já não conta com a liderança de um (Hugo) Chávez nem com um recurso natural – o petróleo – que lhe proporcione 100 dólares por barril – resumiu, em entrevista para a agência de notícias France Presse, David Smilde, analista do Escritório de Washington para a América Latina (WOLA, em inglês).

Eleito presidente pela primeira vez no fim de 1998, o carismático Hugo Chávez consagrou a maior parte de seus esforços – até sua morte, em março de 2013 – a construir um bloco latino-americano liberado da influência dos Estados Unidos, uma estratégia que seu herdeiro político Nicolás Maduro tentou manter sem sucesso.

Chávez, cuja vitória teve um efeito dominó e foi a primeira de uma série de conquistas eleitorais da esquerda latino-americana, combinava discursos inflamados com uma política de venda de petróleo – a Venezuela tem as maiores reservas do planeta – a condições preferenciais aos seus sócios da região.

Essa atitude lhe valeu o reconhecimento de nações do Caribe, especialmente de Cuba, mas também de Nicarágua e Uruguai, por exemplo, além do apoio dos pesos pesados da América do Sul: o Brasil de Lula e Dilma Rousseff e a Argentina de Néstor e Cristina Kirchner.

A diplomacia do petróleo está intimamente vinculada à versão do socialismo do século 21 que se pretendeu criar com a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) e Petrocaribe, mas a liderança ali também é cada vez menor, coincidem especialistas.

- Os recursos venezuelanos ajudaram a pagar a dívida argentina, a incentivar a indústria boliviana, a manter o subsídio da energia cubana e Daniel Ortega no poder na Nicarágua. Mas, sem dúvida, estes fundos não eram inesgotáveis e respondiam a um esquema de política que já fracassou – afirmou Roger Guevara, especialista em relações internacionais.

A isso se soma o fator pessoal.

- Não tem comparação. Maduro não tem a liderança nem o carisma de Chávez, nem a procedência das fileiras do exército, nem a identificação popular que Maduro nunca teve – disse Guevara, ex-embaixador da Nicarágua na Venezuela (1998-2000).

Eleito em 2013, pouco depois da morte de seu mentor, Maduro também teve menos margem de manobra em um panorama político regional modificado pela aproximação entre Cuba – tradicional aliado de Caracas – e EUA em 2014, e por mudanças eleitorais na região.

- Maduro tem um ambiente regional que foi se tornando cada vez mais difícil, mais fechado – opinou a analista venezuelana Elsa Cardozo, professora de relações internacionais da Universidade Simón Bolívar.

Um sinal revelador dessa nova distância é o que ocorreu após a condenação, em setembro, a 14 anos de prisão do opositor Leopoldo López, por suposta incitação à violência durante protestos em 2014 que deixaram 43 mortos.

- O governo cometeu um erro: deteriorou sua capacidade de relacionamento com a comunidade internacional, inclusive com alguns aliados, por esta mancha negra ou cinza que representa um julgamento claramente inadequado, sem suporte jurídico real e não tolerável para ninguém no mundo democrático – disse Luis Vicente León, presidente do instituto Datanálisis.

O enfraquecimento diplomático de Caracas “estimula os líderes regionais a manifestar em voz alta sua oposição (ao governo de Maduro) em certos temas”, afirma Smilde, acrescentando que isso constrói uma advertência “ao governo e ao Conselho Eleitoral (da Venezuela) de que a região os está observando e que já não poderão contar com seu apoio se ocorrerem problemas com as eleições” legislativas.

A Venezuela também não poderá se apoiar no Brasil, cuja presidente Dilma Rousseff concentra toda a sua atenção na situação interna, muito frágil, nem na Argentina, que acaba de dar passar por uma mudança com a vitória do empresário liberal Mauricio Macri sobre o kirchnerismo.

Venezuela e o "6D": eleições legislativas, provável fim de ciclo, tensão, violência e impasse

04 de dezembro de 2015 0

Eleições 2015 venezuela

Um impasse surge com força na Venezuela. Já é dado como certo que a oposição vencerá as eleições legislativas deste domingo, restando a dúvida quanto à expressividade da diferença em relação aos governistas.

Qual o impasse? Se a oposição tratará de tramar a substituição do presidente em um referendo revogatório dentro de cinco meses, ou se negociará para erradicar a polarização do país, buscando um novo contexto.

O fato é que, ainda sem grandes lideranças e apesar das divisões internas, a oposição venezuelana ameaça pela primeira vez tirar do chavismo a maioria legislativa nas eleições de domingo, fortalecida pelo descontentamento popular, pela séria crise econômica que atinge o país e pela clara incapacidade de seus dirigentes.

- O governo foi muito prejudicado por essa estratégia tão agressiva, de desqualificação, de inabilitações – afirma a cientista política Elsa Cardozo, professora da Universidade Simón Bolívar.

Sete opositores, entre eles María Corina Machado, foram impedidos de disputar cargos públicos, acusados pela Controladoria – segundo eles ligada ao chavismo – por suposta corrupção ou conspiração.

Além disso, Leopoldo López, líder da oposição, foi condenado a quase 14 anos de prisão em setembro pelos protestos que deixaram 43 mortos em 2014; o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, está detido desde fevereiro, acusado de conspirar contra o presidente Nicolás Maduro. A oposição afirma o país tem 75 “presos políticos”.

Nesse cenário, as pesquisas indicam que a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) supera o chavismo com uma vantagem inédita de entre 14 e 35 pontos.

Como isso aconteceu? Cardozo afirma que a MUD se beneficiou do “balanço negativo” na administração da crise econômica – com uma aguda escassez de produtos básicos e inflação alta – e a profunda crise de segurança.

- Há um país chavista descontente com Maduro, e a oposição está capitalizando isto – diz Luis Vicente León, presidente do instituto de pesquisas Datánalisis, segundo o qual a popularidade do presidente caiu a 22%.

Com tal situação, a oposição não precisou de uma grande mobilização eleitoral.

Integrada por quase 30 partidos de esquerda, centro e direita, que se reuniram em 2009 com o objetivo de derrotar o então presidente Hugo Chávez, a MUD tenta dissimular e minimizar suas históricas divisões ao redor do discurso da “mudança”.

- Não fizeram campanha, seus candidatos estão escondidos. Ninguém os conhece – critica Jorge Rodríguez, chefe da campanha governista.

A condenação de López, nesse contexto, parece um erro de cálculo do chavismo, acusado pelos críticos de utilizar os recursos do Estado para promover seus candidatos e de recorrer a uma linguagem agressiva para atemorizar a população ante um eventual triunfo da oposição.

- O governo cometeu um erro porque o transformou em um mártir que motiva as pessoas a votar. Se ele fosse libertado, seu impacto na política teria sido reduzido – opina León.

A oposição, de acordo com León e outros analistas, obteve assim um elemento de unidade, apesar da discordância de alguns políticos, como ex-candidato à presidência Henrique Capriles, com o modo de atuar de López, que durante os protestos buscava a renúncia de Maduro.

Gonzalo Gómez, líder de um movimento chavista crítico de Maduro, defende que o caso de López não poderia ficar impune, mas critica inabilitações como a de María Corina, que também liderou os protestos de 2014.

María Corina foi uma das deputadas mais votadas nas eleições legislativas de 2010.

As ações a respeito da oposição também “deterioraram a capacidade do governo de relacionar-se com o mundo”, pois, por exemplo, “ficaram dúvidas sobre um suporte jurídico real” no julgamento de López, afirma León.

Ao mesmo tempo, a MUD ganhou espaços de interlocução. A esposa de López, Lilian Tintori, foi recebida pelo secretário de Estado americano, John Kerry, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, e teve um rápido encontro com o papa Francisco na Praça de São Pedro, em Roma.

Capriles, líder da ala moderada da MUD, reuniu-se em Washington com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, crítico do governo venezuelano.

Almagro, o Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU, o Parlamento Europeu e os governos dos EUA e da Espanha questionaram a imparcialidade da Justiça venezuelana em processos contra a oposição, o que provocou reações do governo.
Recentemente, Maduro acusou o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al-Hussein, de “proteger os que atentam contra o Estado” e entrou em conflito com Almagro, a quem chamou de “lixo”.

Tudo isso favoreceu internacionalmente a visibilidade da oposição, enquanto o governo teve que assumir um alto custo após os protestos de 2014, que chamaram a atenção sobre as fragilidades democráticas no país.

A força da MUD a faz pensar inclusive em buscar a revogação de Maduro em 2016. Mas o governo adverte para que não cantem vitória, pois afirma ter assegurados 40% dos votos.

Chavistas desencantados

“Maduro não é Chávez”, afirmam os chavistas.

Quase três anos depois da morte de Hugo Chávez, seu herdeiro político Nicolás Maduro tenta manter o culto à personalidade do líder venezuelano, mas não conseguiu evitar o enfraquecimento do projeto bolivariano.

- Em 6 de dezembro Chávez vence! – assegura Maduro em todos seus discursos, visando às eleições.

Em velhos discursos televisionados e fotos espalhadas, a imagem de Chávez é onipresente na campanha marcada pela grave crise econômica, em que os venezuelanos sofrem com a escassez de produtos básicos e uma inflação que evapora com seus já desvalorizados bolívares. Com tantos problemas, a devoção já não é suficiente para evitar que o chavismo sofra uma grande erosão. Pesquisa recente do Datanálisis estabeleceu que 60% das pessoas que se dizem militantes do governo avaliam negativamente a situação do país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo.

- O chavismo com Maduro enfraqueceu dramaticamente – afirma Luis Vicente León.

Maduro não desfrutou da lua de mel que costumam ter os presidentes recém-eleitos. Seu governo teve início confuso em abril de 2013: a oposição contestou seu triunfo e a acentuação da crise econômica, apesar de os preços do petróleo terem desabado um ano depois. Desde então, sua popularidade começou a diminuir até o atual 22%, segundo a Datanálisis.

Após um ano no poder, o governante já enfrentava de frente a crise que contribuiu com uma “guerra econômica da direita’ e protestos opositores que buscam sua renúncia, deixando 43 mortos.

Gonzalo Gómez, membro antigo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), hoje afastado da cúpula oficial, acredita que, diferente do atual presidente, Chávez tomava “medidas valentes” e funcionava como um mediador, inclusive com a oposição e os poderes econômicos.
De acordo com Gómez, líder do Maré Socialista – movimento a favor do chavismo, mas crítico ao atual governo -, o problema de Maduro “não é sua capacidade como indivíduo, mas de definições políticas”

- Agora temos muitas hesitações, coisas que se anunciam e não são cumpridas – questionou. – Preocupa-nos a burocracia, o avanço da corrupção e a acumulação de capital por parte de funcionários que usam o discurso socialista para seguir no poder, sem interesse de fazer avançar a revolução. Estão moldando uma nova casta capitalista que tem a vantagem de administrar as receitas do petróleo.

Sem a liderança forte nem ações efetivas para reanimar a economia, é inevitável que os chavistas sintam que Maduro “deteriorou o legado” de seu predecessor e que haja divisões porque se vê uma desvantagem eleitoral pela primeira vez, observa León.

Mas o presidente, que assegura ter um “voto pesado” para ganhar as eleições, comprometeu-se a manter os programas sociais nos quais o chavismo baseou seu apoio, mesmo com a queda do preço cru.

Oposição cautelosa, apesar do favoritismo

A oposição venezuelana encerrou na quinta-feira sua campanha para as eleições de domingo pedindo o voto pela “mudança”, mas advertindo que não se deve cantar vitória antes dos resultados oficiais.

- Temos todas as razões do mundo para estar otimistas, mas não deve haver margem para o triunfalismo. Aqui, até que tenhamos os resultados, ninguém se move dos centros eleitorais – disse Jesús Torrealba, secretário da MUD.

Diante de cerca de 2 mil pessoas, em Caracas, Torrealba afirmou que as eleições legislativas serão uma luta do “David do povo” contra “o Golias da corrupção, do dinheiro e do abuso de poder”.

- Já vai cair, este governo vai cair – gritava o público em meio às bandeiras dos partidos reunidos na MUD.

O deputado e candidato à reeleição Henry Ramos Allup criticou o chavismo por abusar em sua propaganda da figura do finado presidente Hugo Chávez.

- Os chavistas vão convocar as emanações do ilustre morto para ver se ganham as eleições de qualquer modo. Nós vamos ganhar no voto! – gritou Ramos do palanque.

Antes disso, Capriles estimou que as eleições legislativas serão uma “válvula de escape” para que na Venezuela não haja uma “explosão social”.

- Estamos vendo nesta eleição uma oportunidade para que neste país não haja uma explosão social, para que os venezuelanos falem com seu voto, obriguem a Venezuela a mudar de rumo para não se tornar um “estado falido – disse Capriles à agência de notícias France Presse.

Capriles, líder da ala moderada da oposição, assinalou que “não há como o governo” manter a maioria na Assembleia Nacional, mas advertiu que Maduro “é capaz de qualquer coisa”.

Presidente promete “surpresa”

Maduro encerrou a campanha eleitoral prometendo uma “surpresa” nos resultados, em um comício no centro de Caracas.

- O chavismo se levantou novamente. No dia 6 de dezembro fará uma surpresa ao imperialismo norte-americano – disse Maduro para milhares de pessoas concentradas na Avenida Bolívar, trazidas de ônibus de todas as partes do país.

- Peço ao povo a maior lealdade com o legado de Hugo Chávez – declarou o presidente em um comício exibido pelos sistemas de comunicação estatais.

Maduro resumiu a eleição como “uma decisão entre dois modelos: o da pátria rebelde, pura, bolivariana e chavista; e o modelo de anti-pátria entreguista, yanqui e corrompida pela direita”.

A Mesa da Unidade Democrática aparece como favorita nas pesquisas, com uma vantagem de entre 14 e 35 pontos, mas Maduro afirma ter o voto “fiel” de 40% dos eleitores.

No total, 19,5 milhões de venezuelanos estão convocados às urnas para eleger por um período de cinco anos 167 deputados da Assembleia Nacional, há 16 anos sob o controle do chavismo.

 

Baita história! Neto é localizado pelas "abuelas", e a mãe ainda está viva. Aqui, um vídeo

02 de dezembro de 2015 0

Nieto Mario Bravo

 

Simplesmente espetacular!

As Abuelas de la Plaza de Mayo encontraram o 119º neto desaparecido.

Neste caso, algo raro ocorreu: a mãe está viva!

O neto, Mario Bravo, encontrou a mãe, Sara.

Disse que foi emotiva a reunião. Agradeceu a Deus.

Contou que um filme tem passado em sua mente.

A líder das Abuelas, dona Estela de Carloto, falou em “milagre” e “magia”, mas ressalvou que reencontros como esse ocorrem em razão da luta, da persistência. Emocionou-se.

Blog faz um triste convite à reflexão: você não acha que tínhamos de nos enxergar uns aos outros?

30 de novembro de 2015 3

Diferenças

 

Um episódio tem azedado a vida deste blogueiro – na verdade, revoltado bastante.

Não é algo de política latino-americana, mas explica muito do mundo em que vivemos.

Vou contar por partes, peço que você me acompanhe:

1) Um menino de 17 anos, 10 anos atrás, bateu com a cabeça no piso de uma lagoa e restou tetraplégico.

2) O menino, sobrinho de um grande amigo (um irmão!) deste blogueiro, teve forças para viver. Formou-se em Química, fez mestrado, fazia doutorado, destacava-se nos estudos. Surfava! Nadava! Tudo com limitações, mas conseguia.

3) Na quinta-feira, esse menino, agora um jovem de 27 anos, estava na piscina de um hotel, próximo a Brasília (em Pirenópolis, Goiás). Festejava mais uma conquista como cientista, obtivera uma grande honraria. Junto, vários colegas – cientistas. Qual era a honraria? No congresso científico, ele fora premiado como terceiro colocado entre 350 inscritos.

4) O jovem, uma pessoa brilhante, um ser humano carinhoso, um amigo dos amigos, afogou-se. As pessoas que estavam ao redor não o viram. Conversavam entre si. Divertiam-se. Ninguém o socorreu. Ninguém o enxergou.

5) No último sábado, eu estive ao lado do meu grande amigo na cremação desse jovem especial, desse sobrinho afetuoso. Estive com meu amigo novamente hoje pela manhã. O sentimento é de luto e revolta.

Por que a revolta? Porque o jovem, talvez por ser diferente, por ter lá suas dificuldades e limitações, tornou-se invisível a seus pares. Ninguém o via. Certamente, morreu implorando que o olhassem!

Por que isso diz muito do momento que nos tocou viver nesta esquina da história? Porque as brigas de trânsito, a banalização da vida, os atentados terroristas em geral, tudo isso se dá porque uns não enxergam os outros. Assim está o mundo. Não parece claro que algo precisa ser feito? Que precisamos repensar as nossas vidas?

Não se trata de aceitar diferenças, muito menos de “tolerar”. Trata-se de conviver e olhar.

Olhar o igual e o diferente com a mesma compaixão e o mesmo carinho.

Leiam isto, reflitam e entendam: este tinha de ser um post diferente dos usuais.

Obs: ao saber que eu escrevia este post, a mulher deste meu querido irmão me deu um depoimento emocionado (aliás, também ela é minha grande amiga e grande amiga da minha mulher…), lindo, que reproduzo aqui para todos termos ideia da perda que sofremos, de um cientista especialmente humano – algo que faz muita falta:

Só pra tu conheceres ele um pouco mais. Ele era corajoso, destemido, não se limitava, ele não ficava sem atitude apesar da limitação física: uma vez  enfrentou um drogado que estava batendo na mulher na rua. Ele disse da cadeira dele “pára! Tu não vai mais bater nela!!” O cara parou, e ele, percebendo que a mulher estava com medo, acompanhou ela até a parada de ônibus. Isso ele fez de uma cadeira de rodas. E nós, mesmo orgulhoso,s pensamos: puxa, que arriscado! Temíamos pela segurança dele. Mas ele nem pensava. Ele fazia!! Tem várias outra histórias. Ele ajudou várias pessoas a sair de condições de sofrimento. Mas isso poderia dar até um livro.”

 

Diferenças 1

A impressionante tentativa venezuelana de inverter protagonismos em meio ao clima eleitoral violento

29 de novembro de 2015 2

Lilian

 

É impressionante. Já beira a demência.

Vamos aos fatos: um oposicionista venezuelano foi morto em palanque, durante comício eleitoral para o pleito do próximo dia 6. O episódio ocorreu no mesmo local onde estava Lilian Tintori (foto acima), mulher do líder opositor preso Leopoldo López, que, por sua vez, é preso político já condenado a 10 anos de prisão sob a acusação de incitar a violência.

Repito: sob a alegação de incitar a violência.

Claro, López está preso por ser crítico ao governo. É preso político clássico!

E isso está ocorrendo nas nossas barbas, na fronteira com o Brasil.

O incitamento que ele teria feito supostamente ocorreu no início do ano passado, quando 43 pessoas foram mortas em protestos contra o governo, com sua inflação recordista em termos de América Latina, desabastecimento de metade dos produtos básicos, taxa de homicídios em alta e nas alturas. Detalhe: a grande maioria dessas pessoas mortas eram oposicionistas que tombaram frente à repressão perpetrada pela polícia, do governo.

Gente, vocês estão percebendo a loucura disso tudo que foi dito acima?

Pois agora vem mais esta: Jorge Arreaza, vice-presidente da Venezuela, afirmou neste sábado que a extrema direita contratou “mercenários” para cometer crimes antes das eleições legislativas do dia 6 e que Lilian Tintori é um dos possíveis alvos.

- Temos informação certa de que há mercenários, que estão recebendo entre US$ 30 mil e US$ 50 mil para cometer crimes políticos, e ela pode ser um dos alvos – disse ele.

O vice-presidente afirmou que “oferecemos proteção a ela, como a outros dirigentes da oposição que aparecem em informação de inteligência como objetivos, alvos para gerar confusão e dizer que foi o governo”.

Arreaza fez tais declarações durante reunião com o corpo diplomático acreditado em Caracas, convocado pelo Executivo venezuelano para dar sua versão sobre a morte de Luis Manuel Díaz, o tal opositor baleado na quarta-feira passada, em comício.

O funcionário assinalou que “nosso temor é que façam” com Lilian “o que queriam fazer com seu marido”, Leopoldo López, que segundo o governo seria assassinado em fevereiro de 2014, durante a onda de protestos contra o presidente Nicolas Maduro, os tais protestos que deixaram 43 mortos e centenas de feridos.

Ou seja, López estaria preso e condenado para ser defendido!!!

Lilian responsabilizou Maduro pela morte de Díaz, e a oposição atribui o crime a “grupos armados” do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), mas o governo afirma que foi apenas um “ajuste de contas entre grupos adversários”.

A morte de Díaz foi condenada pelo secretário-geral da OEA, Luis Almagro, pelo departamento americano de Estado, pelo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, pelo Executivo espanhol, pela ONU e pelo governo brasileiro, entre outros.

Os venezuelanos irão às urnas no dia 6 de dezembro para eleger 167 deputados de uma Assembleia unicamenral controlada pelos “chavistas” há 16 anos.

De acordo com várias pesquisas, a opositora Mesa da Unidade Democrática lidera amplamente as intenções de voto, com vantagem de entre 14 a 35 pontos, mas Maduro afirma ter um “voto duro” de 40%.

Presidente eleito argentino Mauricio Macri aposta em uma chanceler forte para tratar de temas internacionais

26 de novembro de 2015 0

Chanceler argentina

 

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, anunciou o nome Susana Malcorra, que desde 2012 é chefe de gabinete do secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, para ser a chanceler da Argentina no seu futuro governo. Susana vai substituir o atual chanceler, Hector Timerman, no próximo dia 10 de dezembro, quando Macri toma posse. Onze dias depois, participará da primeira cúpula do Mercosul do novo governo, que ocorrerá no Paraguai.

Antes de ser nomeada chefe de gabinete de Ban Ki-moon, Susana Malcorra dirigiu o Departamento de Suporte de Campo da ONU, conduzindo o apoio logístico a trinta missões de paz da organização em diversas partes do mundo, mobilizando 120 mil militares, policiais e civis, relata a Agência Brasil. Ela também desempenhou cargos importantes no Programa Mundial de Alimentos da ONU, monitorando operações humanitárias e de emergência.

Veja abaixo vídeo que este blogueiro fez sobre a transição e o novo ministério:

Susana vem do setor privado. Ela trabalhou durante 25 anos para as empresas IBM e Telecom, na Argentina, antes de iniciar sua carreira na ONU em 2004. Nas redes sociais, Macri descreveu a futura chanceler como uma mulher “inteligente, vigorosa e sábia”, “que compreende, em detalhes, a agenda internacional que hoje move o mundo”.  Conforme Macri, a escolha de Susana foi movida pela sua decisão de promover uma maior integração da Argentina no mundo.

Macri também anunciou duas medidas que pretende adotar – e que pode repercutir dentro e fora da Argentina. Ele quer invocar a cláusula democrática do Mercosul para sancionar a Venezuela pelos “abusos cometidos, como perseguições a opositores e ações contra a liberdade de expressão”. O presidente eleito também quer revogar o Memorando de Entendimento assinado pelo atual governo com o Irã, que previa a criação de uma Comissão da Verdade, para investigar o atentado ao centro comunitário judaico Amia, em 1994 – dois anos antes, havia ocorrido outro atentado, contra a embaixada de Israel.

O maior ataque terrorista da história argentina causou 85 mortes e feriu centenas de pessoas – na embaixada, haviam sido 29 mortes. A justiça argentina suspeita que a explosão tenha sido planejada pelo Irã. A pedido do procurador Alberto Nisman, a cargo das investigações, a Interpol emitiu alertas vermelhos para cinco ex-funcionários do governo iraniano, que os argentinos querem interrogar para fechar o caso.

O Irã nunca aceitou colaborar, até 2013, quando negociou com a presidente Cristina Kirchner um acordo que permitiria à Justiça argentina interrogar os suspeitos em Teerã – desde que eles aceitassem. O memorando foi criticado pela comunidade judaica local (a maior da América Latina) e internacional, pela oposição e pelo próprio Nisman, que acusou Cristina de querer acobertar os responsáveis pelo atentado.

Em janeiro de 2014, horas antes de comparecer ao Congresso para justificar a sua acusação, Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, em Buenos Aires. Quase um ano depois, a morte dele ainda não foi esclarecida. Para revogar o acordo aprovado pelo Congresso argentino, Macri vai precisar do apoio do Legislativo, mas não tem maioria nas duas Casas.

Macri vai precisar também de consenso no Mercosul para invocar a cláusula democrática, que prevê sanções comerciais e a suspensão do país-membro que romper a “ordem democrática”. Até o momento, Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai não tinham pensado em punir a Venezuela pela prisão de políticos oposicionistas. O assunto deverá ser tratado no próximo dia 21 de dezembro, durante a reunião de cúpula no Paraguai.

Transições difíceis na Argentina e uma foto com expressões reveladoras...

25 de novembro de 2015 1

Vidal

 

A normalidade democrática está em pleno andamento na Argentina. A presidente peronista Cristina Kirchner e seu sucessor liberal Mauricio Macri se reuniram para discutir a transição e a transmissão do poder, no prazo de 16 dias.

Mas a imagem que fica como símbolo do triunfo e da derrota é a que está acima, de divulgação.

María Eugenia Vidal, alinhada de Macri, venceu a eleição para governar a província de Buenos Aires. E quem ela vai suceder? Poxa! Logo Daniel Scioli, o atual governador buenairense, que disputou a presidência com Macri. Ora, na foto ficam claras as expressões dos dois, completamente opostas.

Sobre a transição presidencial, Macri disse, ainda ontem à noite:

- Estivemos sozinhos. Ela disse que havia me convocado para dar uma felicitação pessoal. Mas não valeu a pena. Não acontecerá nenhum encontro entre nossos ministros.

Macri permaneceu uma hora na residência oficial de Olivos (periferia de Buenos Aires), mas a audiência durou 20 minutos, segundo fontes ligadas ao presidente eleito.

O presidente eleito havia anunciado o início de “outra época” para o país, dividido após sua acirrada vitória sobre o peronista Scioli, candidato apoiado por Cristina.

- Foi uma reunião muito cordial. Teremos em 10 de dezembro uma bela cerimônia de transmissão – disse Macri ao sair da residência oficial, antes de escapar do tumulto formado por jornalistas, policiais e partidários.

Conforme fontes ligadas a Macri, o futuro presidente pretendia pedir a Cristina as renúncias antecipadas da Procuradora Fiscal, Alejandra Gils Carbó, e do chefe do órgão regulador dos meios audiovisuais, Martín Sabbatella.

O futuro chefe de gabinete de Macri, Marcos Penã, afirmou que o governo de Cristina tenta conduzir uma transição de maneira “clandestina ou oculta”.  A afirmação foi feita após o atual chefe de ministros de Cristina Kirchner, Aníbal Fernández, dizer que Peña se recusou a se reunir com ele para tratar da transição

Conforme o ministro, Peña teria se negado a fazer uma reunião privada e que a orientação de Macri era que os encontros entre os representantes do atual governo e da equipe de Macri fossem públicas. 

- Cristina nos disse que não vai haver uma transição, uma foto ou um gesto de respeito ao presidente eleito. Em seguida nos avisam que a reunião entre o [atual] chefe de gabinete e o sucessor seria clandestina, meio oculta… Estamos muito ocupados, trabalhando para formar o novo governo para fazer reuniões secretas. Seria uma falta de respeito aos argentinos. Nós pretendemos fazer reuniões à luz do dia, fazemos as coisas assim, talvez eles não – disse Peña.

Leia, neste link, “curiosidades relevantes sobre o presidente argentino eleito.

NOVOS MINISTROS…

Macri já anunciou, para o Ministério das Relações Exteriores, Susana Malcorra, chefe de gabinete do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e formada em engenharia elétrica.

Os dois conversaram ainda no sábado, antes da eleição.

Susana ainda estava em dúvida, contou Macri, mas aceitou o convite. 

- Ela detém um nível de conhecimento que agrega valor ao nosso país – disse o presidente eleito, acrescentando que ela é um dos argentinos mais destacados do mundo atualmente no meio diplomático. 

O presidente eleito anunciou que o novo gabinete não contará com um “super-ministro” da Economia, como de costume, mas com uma equipe de seis ministros e um coordenador: Fazenda e Finanças, Produção (ex-Indústria), Infraestrutura (ex-Planejamento), Agricultura e as novas pastas de Energia e do Transporte.

O novo governo assumirá um país sem dívidas e com baixo desemprego (5,9% no terceiro trimestre de 2015), mas com temas críticos como a inflação roçando os 30%, a restrição cambial (banda cambial), a queda das reservas (abaixo de US$ 26 bilhões, o que é muito pouco) e a desconfiança nas estatísticas oficiais.

- Vamos tornar as regras do jogo mais claras para que todo mundo saiba que se pode investir. Vamos estabilizar o valor da moeda baixando a inflação. Vamos ter um único mercado de câmbio, como em toda a América Latina - prometeu Macri.

Outros temas da agenda: a abertura das importações, a redução de subsídios aos serviços e a eliminação dos impostos às exportações agrícolas, reclamadas pelos grandes produtores.

LAMBENDO AS FERIDAS

Cristina recebeu, na segunda-feira, Daniel Scioli e Carlos Zannini, a dupla oficialista derrotada no domingo, e concordaram em trabalhar juntos com o intuito de serem uma oposição “propositiva e construtiva”, segundo a imprensa.

- A presidente leva a política no sangue. Não a vejo abandonando ou distanciando-se desse meio – afirmou à agência France Presse o analista Rosendo Fraga, da consultora Nueva Mayoría.

Rosendo acrescenta que a presidente em fim de mandato “vai tentar, nesses poucos dias antes de deixar o poder, ser uma espécie de líder da oposição, com a ideia de voltar ao poder nas eleições de 2019 ou em outro momento”.

Macri, processado por um caso de escutas ilegais, será o primeiro presidente eleito por voto popular sem ser radical nem peronista, os dois partidos que monopolizaram a política argentina desde o século 20.

Deverá governar sem maioria no Congresso, controlado nas duas câmaras pela Frente para la Victoria, o partido de Cristina.

A União Cívica Radical (UCR) contribuiu por meio com a aliança Cambiemos, mas seu principal membro, o senador Ernesto Sanz, desistiu por “razões pessoais” de integrar o gabinete, decisão que gerou ruídos antes da posse.

HOMEM DE KIRCHNER NO GABINETE DE MACRI

O economista Alfonso Prat-Gay, por outro lado, confirmou nesta quarta-feira que integrará a equipe econômica de Macri.Prat-Gray foi presidente do Banco Central durante a gestão de Néstor Kirchner (2003-2010).

Os seis ministros do “gabinete econômico” formarão uma espécie de força-tarefa na área.

Prat-Gay adiantou enviará ao Congresso um pacote de projetos na área econômica logo após a posse de Macri, em 10 de dezembro. O economista reafirmou que pretende eliminar as restrições à compra de dólares e despesas em moeda estrangeira.

- A promessa do presidente eleito é fazê-lo o antes possível – afirmou Prat-Gay.

DIREITOS HUMANOS, BRASIL E… VENEZUELA

Em entrevista ao canal de TV “Todo Notícias”, Macri afirmou que a defesa dos direitos humanos deve ser um compromisso de todos os políticos da região – claro, ele estava se referindo diretamente à Venezuela. 

- Espero que o Brasil reveja sua posição, pois para mim está mais do que claro que a Venezuela não respeita a democracia – afirmou Macri, intensificando cada vez mais um discurso que põe o Brasil em situação delicada.

O presidente eleito da Argentina reforçou que levará a proposta de acionar a cláusula democrática do Mercosul contra a Venezuela na reunião de presidentes em Assunção, no próximo dia 21.

Defende que os políticos presos pelo governo de Nicolás Maduro sejam libertados.

Se a cláusula for aprovada em unanimidade por todos os países-membros, a Venezuela pode ser suspensa do bloco.