Há muitos anos um dos "esportes" preferidos de muitos brasileiros tem sido falar ou ridicularizar os portugueses. Piadas, deboches, tentativas de mostrar aquele povo como gente burra, aparecem todos os dias.
Nos últimos anos, com minha filha morando em Lisboa, tenho ido com alguma regularidade para lá ( especialmente depois que a TAP nos proporcionou o vôo direto Porto Alegre-Lisboa).
Mudei muito a respeito dos portugueses e daquele lindo país.
O português pensa diferente de nós. São objetivos. Quando perguntamos algo, eles respondem apenas o que perguntamos. Não ficam deduzindo coisas, como nós, brasileiros, sempre fazemos. Exemplifico: se perguntarmos se determinada loja fecha no domingo, responderão que não fecha. Se formos na loja, ela estará fechada. Daí vamos questionar o português e ele nos dirá, com a maior naturalidade: não fecha, porque não abre nos domingos.
Com relação a nomes de ruas, em vez de simplesmente, colocarem nomes de políticos, como quase sempre fazemos aqui, muitos inexpressivos, põe nomes sonoros e bonitos, de personagens de poemas de grandes escritores, como Camões: Rua das Musas, Rua da Nau Catrineta, rua da Ilha dos Amores, Alameda dos Oceanos, Passeio do Adamastor (de Os Lusíadas). Isso somente andando pela parte nova da cidade. Pelas ruas de Lisboa, se encontram nomes lindos e sensíveis, como Rua das Janelas Verdes, Aqueduto das Águas Livres. Ou seja, Lisboa vale, entre outras coisas, pelos seus inspirados nomes de ruas. E todas sinalizadas, diferente daqui, onde não sabemos onde estamos, por falta de placas.
Para mostrar como, em muitos casos são mais inspirados do que nós: enquanto chamamos de "cartucho", para as impressoras, eles chamam de "tinteiro". Acho que tem mais a ver. Outro exemplo: chamamos nossos telefones móveis de "celulares", baseados em uma tecnologia de células. Eles chamam de "telemóvel". O nome deles é melhor.
Esses são apenas alguns poucos exemplos, que me fazem dizer que precisamos enterrar de vez esses preconceitos com relação aos portugueses. Até porque é só circular por Lisboa, por Sintra, ou pelo interior do país, para ver que têm muitas coisas mais bonitas do que nós. Sem falar na gastronomia. Lisboa tem restaurantes fantásticos! Lá se come melhor e mais barato do que na maioria cidades do Brasil. Basta ir em algum desses, que testei e recomendo: A Travessa (Convento das Bernardas), Espaço Lisboa, Galito (para alguns, a melhor adega da cidade), Brasserie de L'Entrecote, Kais. Ou simplesmente tomar um café na incrível Confeitaria Versailles e comer farórias, siricaia, encharcada ou guardanapo (pão-de-ló). Ou tomar um copo (trago). Olhem só que nome criativo de um prato que encontrei: peixinhos da horta (uma vagem empanada deliciosa)!
Também acho sonoros nomes como chapéu de chuva (guarda- chuva) ou uma expressão popular como "armado ao pingarelho", para chamar alguém de "metido a besta".
Ou seja, temos que descobrir -agora sim é nossa vez - de onde partiram aqueles que nos descobriram. Quem não conhece vai mudar totalmente sua imagem a respeito de Portugal e dos portugueses.