clicRBS
Nova busca - outros

 

20 dias sem banho

( última parte do relato do guia de montanha Manoel Morgado, a caminho da montanha mais alta da Antártida):

...O último companheiro de expedição conhecerei amanhã, se voarmos amanhã,. Também australiano, tem trinta e poucos anos e está já na Antártica correndo uma ultra maratona de 100 km.

Punta Arenas é uma cidade sem muita personalidade. A beira de um mar gelado e encrespado, com casas nem bonitas nem feias, não deixa muita impressão em quem a visita. Normalmente ponto de partida para as atrações da Patagônia, principalmente as lindíssimas Torres Del Paine, é um lugar de passagem. Mas, apesar disso, o fato de cruzar na rua com muitos mochileiros me faz imediatamente sentir-me em casa.

O grupo todo está em um hotel bacana, mas como sempre, me sinto mais a vontade em um simpático hostal para onde pretendo voltar ao final da expedição. Ontem sai caminhando para comprar um gravador desses pequenos para registrar meus pensamentos durante a expedição. O céu estava azul com poucas nuvens, mas como sempre por aqui, soprava um vento gelado. Apesar disso estava de camiseta e sem gorro. Acabo de cortar meus cabelos bem curtos para não dar trabalho na montanha onde ficaremos até 20 dias sem banho e sentia o vento na minha cabeça. Um leve cheiro de maresia vinha do mar batido e me sentia vivo e feliz. A poucos dias estava nos Estados Unidos percorrendo o oeste americano em um confortável carro, depois estava em São Paulo por 3 dias vendo amigos e família e agora estou próximo a sair do planeta rumo a Última Fronteira....amo minha vida!

 

Share

Comente aqui

Os companheiros de escalada

(continuação do relato de Manoel Morgado):

O líder da expedição é um neo zelandês de ao redor de 50 anos com sete cumes de Everest, dois de Vinson e muitas outras montanhas. Típico kiwi, ele tem um sorriso fácil, um bom humor invejável e uma maneira tranqüila de lidar com tudo. Imediatamente me identifiquei com ele e, creio, é recíproco. O fato de sermos ambos guias e de vivermos nas montanhas cria um vínculo imediato. Tem o Peter, um australiano de 53 anos, triatleta que apesar de não ter um currículo de montanhas muito expressivo, escalada em rocha e gelo e participa de competições de iron man ao redor de mundo e assim escolhe suas férias. Já esteve no Brasil para fazer a de Florianópolis e acaba de chegar do México onde fez uma. Como boa parte dos australianos, o Peter é simpático, falador e boa gente.

A Marion é francesa, tem 40 anos e está acabando um ano sabático de escaladas ao redor do mundo. Tem um vasto currículo de montanhas difíceis como o Pumori no inverno e o Cholatse, ambos no Nepal e não se interessa por completar os Sete Cumes ou mesmo de escalar o Everest. Prefere montanhas com menos gente. Depois de escalar o Vinson, na sequência fará o chamado Last Degree, a travessia dos últimos 120 km do grau 89 de latitude sul até o pólo sul. Como coincidência, fará esta travessia junto com a Andrea Cardona que está chegando na Antártica dia 16 de dezembro e com quem possivelmente encontrarei. Depois disso ela fará o Vinson a caminho de também terminar os Sete Cumes e se tornar a segunda latino americana a completar este feito.

Marion é muito simpática e também acredito que será uma ótima companheira de expedição.(continua amanhã)

Share

Comente aqui

500 pessoas no Everest

Manoel Morgado, que foi meu guia na Rússia, continua contando o que está fazendo na Antártida:
....Neste campo inicial existem dezenas de pessoas trabalhando durante os 3 meses que existe a possibilidade de se realizar escaladas ou travessias entre elas cozinheiros, mecânicos, pessoal de comunicação, meteorologia e até 4 médicos. Estaremos em contato diário com esta base durante toda a expedição.

Mas, não foram só más notícias. O tempo está razoavelmente bom e existe uma boa chance de voarmos amanhã as 7 da manhã. E outra coisa, seremos apenas 14 pessoas na montanha, nosso grupo de 6, um grupo alemão e um grupo inglês. Isso, nos dias de hoje, é uma chance única. No campo base do Everest  quando escalei estavam ao redor de 500 pessoas, No Aconcagua a cada ano uma pequena cidade é montada no campo base com centenas de pessoas. Mesmo no Mustagata, um 7600 que escalei no ano passado, estavam ao redor de 100 pessoas e isso que é uma montanha remota e razoavelmente desconhecida.

Conheci meus companheiros de expedição ontem e aos pouquinhos vamos nos integrando. Com o cancelamento da travessia da costa ao pólo, meu primeiro plano para este final de ano, não tive outra opção que me associar a um grupo internacional para escalar o Vinson e estar em uma expedição assim complexa e razoavelmente longa com gente que não conheço foi nesses últimos meses um fator de preocupação. Mas, creio, tudo correrá bem. Meus companheiros de expedição são fortes e experientes e isso é muito bom. Não é uma coisa boa estar em uma montanha como o Vinson com gente que não sabe o que está fazendo. Isso aconteceu no McKinley onde um canadense decididamente não deveria estar lá. Não tinha nem experiência nem forma física para uma montanha difícil como aquela e atrapalhou o andamento do grupo pelos 20 dias que lá estive. (continua)

 

Share

Comente aqui

Do continente gelado

Relato de um amigo montanhista, Manoel Morgado:

Cheguei aqui em Punta Arenas há 3 dias para me preparar para a expedição ao Vinson, a mais alta montanha da Antártica e para mim, a última das montanhas do chamado Sete Cumes, a escalada da montanha mais alta de cada continente. Mas, apenas agora após uma reunião com o pessoal da ALE, a única empresa que organiza os vôos para o continente Antártico (não a península antártica) que realmente estou sentindo que estou indo. A reunião teve um caráter sóbrio. Se falou sobre preservação ambiental, manejo de dejetos e esse tipo de coisa, mas também se falou muito sobre o que é ou pode se tornar esta montanha se as coisas não vão conforme planejado. Se falou muito sobre o frio e os ventos terríveis que vamos enfrentar e o risco constante de congelamentos de extremidades. E, claro, tudo isso acompanhado de fotos horríveis para fazer “cair a ficha”. Claro que tudo isso não é novo para mim. Após o McKinley no Alaska, poucas coisas são preocupantes em relação ao frio. Mas, por outro lado, as vezes ao se sentir experiente é que os descuidos acontecem. De modo que foi ótimo ter tido esta palestra. Ela também me mostrou outra coisa que já sabia, mas que foi reforçada. A complexidade da organização desta operação é imensa. Vamos voar para uma base em pleno coração da Antártica a 80 graus de latitude sul e a pista é de gelo azul. O gelo é tão duro que algumas pessoas estarão a postos para nos ajudar a caminhar até um pedaço com neve onde existe menos chance de escorregarmos. Como não levamos nossos crampons a bordo nossas botas triplas são muito escorregadias. Aí seremos transferidos para uma grande barraca onde, se tudo der certo, em uma hora embarcaremos novamente para um vôo de 45 minutos até o campo base do Vinson. (cont)

Share

Comente aqui

Jogando pra torcida

O futebol é, cada vez mais, a paixão do brasileiro. E o último fim-de-semana contribuiu mais para isso. Para quem acompanhou, a cada minuto mudava a classificação do Campeonato Brasileiro. O Corinthians  foi campeão antecipado por poucos minutos. O Inter estava na Libertadores, por pouco tempo. Foi um troca-troca de posições para deixar qualquer um com o coração na mão. Eu estava no Rio de Janeiro e acompanhei de perto essa emoção. Participei de um evento chamado Soccerex, organizado por ingleses, que acontece a cada ano em um lugar do mundo. Tudo de futebol é discutido, tudo é vendido em uma feira que acontece em paralelo. Clubes e empresas do mundo todo. Na prática, a Copa de 2014 já começou a bastante tempo. Neymar já ficou, empresas estão sendo montadas, governos se mobilizam. O efeito "organizador e priorizador" da Copa já está nas ruas. Porque ela é um sonho, com prazo. O que a Copa já está mexendo na economia, é impressionante.  Temos que ficar atentos para a transformação que é a Copa.  No evento, arenas sendo mostradas, cidades se vendendo como possibilidades de hospedar seleções, estádios inteiros podendo ser comprados ali, com múltiplas opções de cadeiras, gramas, iluminações, softwares de gestão. Tudo para que essa paixão mundial, cada vez mais, se profissionalize e cresça. Pelo que está sendo feito nos Estados Unidos, por exemplo, já em 2014 o futebol será o quarto maior esporte naquele enorme país, que nunca deu bola para o futebol. Eu, particularmente, gosto muito de acompanhar o comportamento das torcidas. Acho mágica essa paixão, que chega a extremos de fazer pais darem de presente a filhos recém-nascidos, camisetas do seu time. Que faz torcedores pedirem pra serem enrolados na bandeira do seu clube até mesmo quando morrem. Paixão que faz com que um clube como o Real Madrid tenha mais de 500 milhões de torcedores no mundo todo. Quando vou ao campo gasto muito tempo observando as pessoas. Chego a perder gol, por estar de costas para o gramado. Torço pelas torcidas. Os sentimentos mais primários das pessoas estão ali, em estado mais "puro". No Brasil, futebol é mais do que futebol. É a cultura brasileira que se move em torno do futebol. Mexe com valores que vão além desse esporte. Por isso é importante que pensemos no que queremos construir que vá além da Copa. O legado que fica, além de estádios e turistas. O que nossas crianças vão ganhar com tantas escolinhas sendo montadas. Por tudo isso é que, no  próximo final de semana, o Brasil todo vai ficar enlouquecido.

Share

Comente aqui

O "expansionismo" brasileiro

Ontem embarquei pra SP e, depois Rio. Nas filas de embarque - sempre elas! - estudantes excitados, executivos estressados, famílias saindo em férias.
Barulho além do normal.
E fiquei pensando: cabe isso? Será que tenho o direito de extravasar minha alegria ou exibicionismo em locais públicos?
Não devo pensar se vou incomodar os outros?
Os estudantes falavam alto, alguns tinham pandeiros nas mãos e batucavam. Executivos discutiam negócios em tom que alguns poderiam participar das negociações que estavam sendo feitas. Familiares conversavam em altos brados. Aliás, acho que é uma mania bem brasileira: a família inteira vai ao aeroporto se despedir. Se fizessem isso em casa, com mais intimidade, seria mais bacana - e não perturbariam ninguém. Penso sempre que, perto da gente, pode ter alguém com dor de cabeça, outro que quer se concentrar numa leitura ou alguém que quer, simplesmente, embarcar, com o direito de estar em local com menos ruído.
Chego ao hotel, no Rio, e no saguão tem torcedores do Vasco e Fluminense, em gritaria. A excitação por estar perto do horário do jogo é enorme. Subo e, no quarto ao lado, gente falando alto. Depois saem e batem a porta com força. Êta mania de acharem que stão sozinhos no mundo!

Share

Comente aqui

Trek no Marrocos

Transcrevo abaixo o relato que meu amigo e ex-guia na Rússia Manoel Morgado manda do Marrocos. Há dois anos fiz algo parecido e, realmente, essa região é muito bacana. Manoel vive pelo mundo, sempre guiando, sempre em montanhas, sempre vivendo "sem lar"...Grande cara. Vale o relato:

"No Marrocos de minha imaginação havia duas coisas, as dunas de areia e os vendedores de tapetes que transformavam a viagem em um pesadelo. Por muito tempo relutei em vir para cá, mas conversando com outros guias acabei me rendendo a atração de fazer um trek pelas montanhas Atlas. A idéia de montanhas nevadas no norte da África era por demais poderosa para eu ignorar e após guiar dois grupos ao campo base do Everest embarcamos, eu e a Lisete, para Paris e para lá de Marrakesh.
Chegamos a Marrakesh no final de uma agradável tarde zonzos de sono após um vôo de Katmandu a Doha, de lá a Paris e finalmente ao Marrocos com as cansativas paradas em cada um dos aeroportos. Mesmo assim fomos para a lendária praça Djemaa El-Fna, lugar recentemente declarado pela UNESCO com Patrimônio da Humanidade por sua rica transmissão oral de histórias que acontece todos os finais de tarde onde contadores de história, músicos encantadores de serpentes disputam a atenção dos locais e dos turistas. Mais uma vez minha grande frustração em não entender a língua local para saber o que os ávidos ouvintes escutavam com tanta atenção. Em um país onde apenas 50% da população é alfabetizada os contadores de história mantém a cultura "berber" viva. Mas, após uma hora perambulando pela imensa praça o sono foi mais forte e voltamos para o hotel para uma boa longa noite de sono.
Na manhã seguinte saímos para perambular pela imensa Medina, a grande área de mercado da cidade com suas ruelas labirínticas cobertas em sua maioria por finos troncos de árvores dando uma bem vinda sombra e temperatura agradável. Do lado de fora da Medina os termômetros marcavam 40 graus... Mas, chamar esta Medina de mercado não traduz o que realmente ela é. Claro que é um lugar turístico afinal hoje turismo com quase 10 milhões de visitantes é uma das principais fontes de renda deste país relativamente pobre. Mas, a Medina também é o mercado local e para ver este lado menos turístico basta ter vontade de se perder o que não é nada difícil. Basta a cada bifurcação buscar a ruela menos, mais vazia, com menos lojas de tapetes e de prata e em breve você estará cercado de locais com suas longas túnicas com gorros pontudos como se fossem monges medievais.
Mas, vale a pena perambular pelas ruas turísticas já que o artesanato local é lindíssimo. Os tapetes merecem a fama que tem e em poucos lugares do mundo vi artesanato em prata tão bonito. Mais uma vez a gradeci minha opção de não ter casa de modo que posso apreciar as coisas bonitas de cada país sem ter vontade (nem poder) comprar. Mas, ficamos surpresos com a delicadeza dos vendedores. Esperava algo pior do que na Índia e o que encontrei foram vendedores que te convidam para entrar em suas lojas, mas não forçam de maneira alguma e quando você entra para olhar e perguntar o preço de algo não são “grudentos” como os da Índia com quem convivi por tantos anos. Conversando depois com nossa operadora local, uma simpática francesa que mora aqui há muitos anos ela nos disse que com exceção de Fez os vendedores são bastante tranqüilos. Por alguma razão apenas na antiga cidade imperial de Fez isso é diferente. No final de nossa viagem vamos para lá e poderei comprovar ou não a fama deles.
Na manhã seguinte tivemos uma reunião com nosso guia de trekking Hassan e com a Magui, nossa operadora local. Após decidirmos os detalhes de nossa viagem partimos em um veículo 4x4 para o início do trekking. Nossa equipe era bem pequena, eu, a Lisete, o Hassan, e dois muleiros, o Mahamed e o Abdula, além de duas pequenas e fortes mulas. Os muleiros também eram nossos cozinheiros e que garantiu que tivéssemos comida local durante todo o trek.
Nos próximos 7 dias percorremos os vales, gargantas, planaltos e passos do Alto Atlas, a maior cadeia de montanhas da África com quase 1000 km de extensão, cruzando o Marrocos de oeste a leste chegando a ter vários picos com mais de 4000 metros. A paisagem rochosa era constantemente suavizada pelas milhares de pequenas flores que se espalhavam pelas colinas. Apesar de não ser um trekking difícil já que a altitude nunca foi muito elevada, nossos dias foram longos, com ao redor de sete horas de caminhada diárias e com muitas longas subidas e descidas. Mas, o esforço era mais do que compensado pela beleza da natureza e por estar em um lugar completamente remoto. Nesses sete dias não encontramos outros trekkers nenhuma vez, apenas moradores locais da pequenas vilas que cruzamos em nosso caminho. Eles reagiam com um misto de vergonha e curiosidade, principalmente as mulheres. Passamos também por inúmeros pastos de verão que nesta época do ano ainda não estavam habitados, casas de paredes e tetos de pedra que se mimetizavam completamente com a paisagem. Em um desses lugares vimos pinturas rupestres que datavam de 3 mil anos e que mostravam girafas e elefantes mostrando a mudança brutal de clima que esta região sofreu.
Mas, o mais estranho de tudo era percorrer este terreno relativamente árido e de repente se deparar com o cone nevado de alguma montanha.
Após os sete dias de linda caminhada chegamos ao campo base do Tupkal, a mais alta montanha do norte da África com 4.167 metros. O tempo tinha virado e o céu estava da cor da paisagem ao nosso redor deixando tudo monocromático. Acampamos ao lado do enorme refúgio sob uma chuva gelada e um vento assustador. Combinamos de acordar às 4 da manhã para sair às 5h, mas a chuva e o vento constante durante toda a noite não nos deixou dormir muito e quando levantamos o céu estava ainda mais ameaçador e o vento fortíssimo. Se ali, a 3.300 metros estava este vento, como estaria lá em cima no cume? Junto com as outras 30 pessoas que se preparavam para subir ficamos olhando o céu na esperança de que com o amanhecer clareasse, mas os minutos passavam e o vento só se intensificava. Todos os guias comentavam o quanto estavam surpresos com este clima nesta época do ano quando o céu azul é a norma. Nunca tinham visto uma noite tão ruim. Finalmente às 6 da manhã o vento amainou um pouco embora a visibilidade continuasse zero. Decidimos sair assim mesmo preparados para voltar caso o vento piorasse novamente. Colocamos nossos crampons, toda as roupas que havíamos trazido e iniciamos a subida de 1.000 metros que nos levaria ao topo. A neve estava razoavelmente boa, consistente de modo que nosso progresso era razoável. Apenas o vento que por horas quase nos jogava no chão fazia com que demorássemos mais do que o planejado, mas após 4 horas de subida chegamos ao topo. Não vimos absolutamente nada mas para mim esta subida tinha um sabor especial, cheguei ao cume exatamente um ano e duas horas após ter chegado ao cume do Everest. Era o aniversário de uma escalada que em muitos aspectos mudou minha vida!
Descemos sem m aiores problemas e resolvemos no mesmo dia caminhar as 5 horas até o vilarejo onde nosso carro nos esperava. Que sensação estranha chegar no hotel em Marrakesh a 36 graus apos apenas algumas horas de estar no cume de uma montanha de mais de 4000 metros nevada, fria e com muito vento. Após um merecido banho quente dormimos por 12 horas.
Nossa próxima parada foi a agradabilíssima Essaouira, uma cidade na costa atlântica com uma bonita mesquita, bons restaurantes e um clima muito mais relaxado, típico de cidades costeiras ideal para nos recuperarmos dos esforços dos últimos dias. Passamos 3 dias lá caminhando pelas ruelas, vendo o bonito artesanato e dormindo até tarde em nosso charmoso hotel, uma construção do século 18. Lá alugamos um carro e demos uma longa volta pelo país parando em pequenas cidades, checando hotéis para a viagem que vamos oferecer a partir de outubro. Esta viagem foi um misto de férias com viagem de pesquisa, uma das coisas que mais gosto de fazer. O desafio de não conhecer nada de um país e após 30 dias pegar o melhor do que vimos e transformar isso em uma viagem de 15 ou 20 dias é estimulante e delicioso.
O ponto alto desta nova pare da viagem foi passar uma noite em um acampamento no Sahara cercado de dunas maravilhosas que ao por do sol ficavam douradas. Chegar lá não foi fácil, várias horas em nosso carro e mais duas em um 4x4 pelo deserto sem estradas. Mas, o acampamento era super charmoso com 15 barracas para duas pessoas em circulo ao redor de uma fogueira e com toda a área coberta por tapetes marroquinos. Chegamos no meio da tarde e subimos na duna mais alta e lá ficamos até o por do sol, as 8 da noite. A temperatura muito quente quando começamos a subida foi aos poucos ficando mais agradável, as cores mais suaves, a brisa gostosa e nos deixamos ficar quase até anoitecer. Daí um delicioso jantar a luz de velas e a noite sob um céu de milhões de estrelas. Porque dormir dentro da barraca quando a vista fora era to deslumbrante. Como sempre que durmo sob as estrelas acordei várias vezes, e a cada vez olhava para o céu, me maravilhava com a vista e voltava a dormir. Me lembrou muito de minhas muitas noites ao ar livre no Paquistão..quando ainda dava para viajar por aquele maravilhoso país.
Terminamos nossa viagem em Fez que apesar de realmente como já haviam nos prevenido tem um astral diferente com vendedores muito mais insistentes, tem construções lindas e uma Medina imensa e com muito menos turistas do que Marrakesh.
Saímos do Marrocos com a certeza de que vamos voltar lá muitas vezes e isso me deixa feliz.
Próxima parada: Mongólia, um sonho de anos.."

Share

Comente aqui

A Era do coop-capitalismo

Começa a surgir uma nova era no capitalismo: o Coop-capitalismo, uma forma mais cooperativa de encarar o mundo. Pelo menos é o que diz Noreena Hertz, uma das maiores teóricas desse assunto. Ela é uma influente economista inglesa, que preconiza uma mudança no pensamento econômico, depois da última crise financeira: o início de uma nova era econômico-política com uma cara mais humana. Uma mudança demorada, mas irreversível.
Noreena já foi consultora de muitos governos e hoje dirige o Centro para Negócios Internacionais da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Nos seus estudos ela mistura economia, sociologia, antropologia e ciências comportamentais.
Já publicou vários livros, entre os quais "A conquista silenciosa", onde criticava os superpoderes das multinacionais e "O planeta em débito", onde defendia uma reforma no Banco Mundial e FMI e previa a crise que aconteceu.
"Até agora, os acionistas eram os reis, os banqueiros recebiam salários 100 vezes maiores daqueles trabalhadores normais e havia uma crença quase religiosa na capacidade do mercado de ser um eficiente mecanismo de distribuição e de liberdade", diz essa economista que é ouvida por muitas autoridades mundiais de várias áreas: de Bill Clinton a Bono Vox, da banda U2. Num de seus livros ela cita que, entre as 100 maiores economias do mundo, 51 são multinacionais e só 49 são países.
Ela diz que existem condições para uma nova forma de capitalismo, o coop-capitalismo, que escolheu valores como a cooperação, colaboração e coordenação, onde o individualismo desenfreado vai ficando para trás.
Noreena Hertz tenta justificar esse otimismo com o que chama de fatores-chave para sua avaliação: a velha ideologia ficou desacreditada no plano intelectual. Economistas como Paul Krugman, Joseph Stiglitz e ela mesma, que eram alternativos até a década passada, hoje estão em alta. " Talvez porque sempre entendemos os limites da economia".
Outra razão que ela aponta, é que "agora os governos tem um mandato para intervir, coisa que não puderam fazer por 30 anos" .
Ela ainda aponta dois setores que deverão vir a público dar muitas explicações: o de fast food e a indústria farmacêutica: "haverá muita pressão para que assumam a responsabilidade pela obesidade e pelos custos dos remédios".
E o último motivo que usa para justificar suas ideias é que está surgindo uma nova relação de forças geopolíticas, com o crescimento da China, Brasil, Índia e o reforço do G-20. "Um mundo interconectado tem necessidade de soluções interconectadas", afirma ela. "Existirão mais soluções comuns. É provável que sejam feitos mais acordos e pactos globais".
Um dos aspectos dessa nova visão está na atenção aos valores humanos. Os recentes estudos sobre a economia comportamental mostraram que a boa vontade é intrínseca à natureza humana, mais do que o individualismo. " Estamos entrando em uma era na qual se unem as forças e se vai todas na mesma direção".
Sinais de tudo isso estão por toda parte. Na área de tecnologia da informação,  surgem muitos exemplos: sites colaborativos, conhecimentos compartilhados, dicionários abertos e gratuitos, como o Wikipedia, job-charings, trocas de produtos em vez de vendas, social network, open source como Linux, design aberto, empresas que soltam problemas na rede e pagam pelas ideias que surgirem. Enfim, muita coisa está se mexendo nessa área de mais colaboração.
Segunda Noreena, o coop-capitalismo é a tradução político-econômica do "yes we can" de Barack Obama. Uma visão multiplayer do capitalismo, que encoraja todas as partes a trabalharem juntas para atingir o bem comum.
Por fim, ela defende o lado feminimo: quer cotas para mulheres chegarem ao topo das grandes empresas. Amparadas em leis, como existem na Espanha e Noruega. Ela diz que esta última crise financeira foi uma crise masculina. "As mulheres não tiveram nenhuma participação".

Share

Comente aqui

Os nomes estranhos em Portugal

Andei por Lisboa há poucos dias. Cada vez que vou lá fico deslumbrado com os nomes. De ruas, praças, restaurantes, cidades... Tem coisas extremamente lúdicas, bonitas. Mas também tem uns nomes bem esquisitos. Olhem só alguns de cidades próximas a Lisboa : Queijas, Rato, Abuxarda, Pai do Vento, Lourinhã, Buraca, Senhor Roubado, Montachique...Ou de um bairro de Lisboa: Linda-a-velha. Muito criativos os portugueses...

Share

Comente aqui

O mercado das misses-meninas

Leio no jornal italiano La Repubblica uma boa e crítica matéria sobre a moda que existe desde os anos 60 nos Estados Unidos, de concursos de miss para meninas. Uma loucura. Tomara que nunca chegue aqui. Esse assunto foi brilhantemente retratado em 2006 com o filme "A pequena miss Sunshine", que ganhou dois Oscars.
A matéria cita o impressionante número de três milhões de meninas dos três aos 16 anos, que geram negócios em torno de um bilhão de dólares, só nos Estados Unidos.
Mães frustradas ou omissas, que projetam nas filhas o que gostariam de ter sido. Ou que querem ganhar dinheiro com as jovens carreiras de modelos-meninas que poderão surgir a partir daí. Ou ainda que não conseguem dizer não para vontades que podem ter sido provocadas por amiguinhas ou pelo seriado de TV americana "Toddlers & Tiaras". Criança tem que ser criança, brincar com crianças, fazer coisas de criança. Tem toda a vida para ser adulta. Antecipar a adolescência, ainda mais com essa futilidade de "concursos de beleza", onde já fazem até cirurgias plásticas e aplicações para ficar dentro das medidas. O que já era artificial, fica cada vez mais artificial.
No caso das misses-mirins americanas, a matéria cita o caso de uma mãe que foi aconselhada a operar as sobrancelhas da filha Cloé, de nove anos, no Texas, para ela poder vencer um concurso.
Lá, centenas de milhares de famílias que entram nesse circo, começam com um simples ingresso de 100 a 200 dólares para entrarem num concurso. Mas pode custar até 5.000 dólares por um tour.
Tanyth Carey é uma jornalista que acaba de lançar um livro denunciando esses absurdos. Ela mesma foi uma dessas "rainhasinhas". Ela denuncia que hoje existe um mercado de produtos de beleza para meninas de oito a 12 anos, que duplicou nos últimos anos. E usam nomes que seduzem já pelo som: Swak (Sent With A Kiss) lembrando o som de um beijo. E tudo está pronto para o próximo "boom", diz uma pesquisa do British Journal of Psychology: a metade das meninas de três a seis anos se acham gordas. Com sete anos, nove entre 10 meninas pesquisadas querem emagrecer. E a metade das meninas de nove anos já começaram uma dieta.
É nessa obssessão de parecer "mais bonita" do que "mais saudável" que o mito encontra terreno fértil, diz Angelo Aquaro, do La Repubblica.
Nos EUA já houve vários casos de meninas-misses que foram estupradas e assassinadas. Eleanor Vonduyke, mãe de uma mini-miss que se arrependeu de permitir que a filha entrasse nessa maliquice e escreveu um livro chamado "A Cinderela engoliu a minha filha". Tem também o ex-ator criança Paul Paterson que fundou uma organização chamada "A Minor Consideration" com o objetivo de dar um basta. Diz ele: " Não só esses concursos tiram tempo e energia das crianças, como criam nelas expectativas sexuais, nutrindo a indústria do sexo de amanhã". É preciso não deixemos essa "sexualização" antecipada chegar até nossas crianças.

Share

Comente aqui