Em vários lugares do mundo estão surgindo novos tipos de empresas, voltadas para o lucro, é evidente, mas também dedicadas a questões sociais e ambientais. Ao mesmo tempo, entidades sem fins lucrativos criam modelos de negócios sustentáveis. E governos montam negócios para prestação de serviços. Que maluquice é essa? O mundo está de pernas para o ar, definitivamente.
Afinal, do que estamos falando? De organizações "com fins de benefício". Essa conjunção nova de fatores é o tema de um instigante artigo escrito por Heerad Saberi, na Harvard Business Review, importante revista de estudos e negócios de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. A publicação fala de uma locadora de carros sem fins lucrativos ou uma plataforma online que oferece crédito para estudantes de baixa renda, visando o lucro, entre outros exemplos. São práticas diferenciadas das que estamos acostumados a ver até agora.
O certo é que novos empreendedores estão criando organizações que geram renda, mas priorizam uma missão social explícita, como a geração de energia renovável ou o combate à dependência química. Uma das explicações encontradas para a não proliferação rápida desse novo tipo de negócio está nos sistemas jurídicos e econômicos de muitos países que permitem atividades com ou sem fins lucrativos, separadamente, não uma combinação das duas formas. Segundo o autor, empresas “com fins de benefício” vão se popularizar na medida em que os empreendedores souberem lidar com as restrições existentes e tenham na sua volta um ecossistema de apoio especializado, incluindo políticas públicas, mercados financeiros, normas contábeis e serviços profissionais.
Para alguns, essa nova maneira de empreender já está sendo considerada uma espécie de quarto setor da economia, redefinindo o futuro do capitalismo como um saudável meio-termo entre o lucro a qualquer preço e o trabalho filantrópico. A proposta é combinar o melhor de todos os modelos - privado, sem fins lucrativos, cooperativo e público. É uma nova abordagem de mercado que afasta a preocupação com a burocracia e a ineficiência públicas, regida por um propósito social, com uma estrutura de governança que traz benefícios antes da maximização do retorno financeiro.
Duas grandes características distinguem uma organização com tal caráter: o compromisso com um propósito social e a dependência da aferição de receita. O formato jurídico vai determinar a que tipo de capital a empresa terá fácil acesso: investimento privado, se for voltada ao lucro; recursos filantrópicos, se for sem fins lucrativos. O empreendedor deve sentir-se livre para definir papéis, responsabilidades e incentivos que fujam do convencional e aumentem o compromisso com a missão.
Unir fins sociais e comerciais não é novidade - hospitais, universidades e organizações culturais já o fazem. Mas o modelo “com fins de benefício” vai mais além, pois redefine, de forma fundamental, o dever fiduciário, a governança, o controle e as relações com públicos de interesse.
A dinamarquesa Novo Nordisk, fundada com a missão de livrar o mundo da diabetes, encontrou uma maneira inovadora para definir seu perfil: é uma sociedade operacional de capital aberto, controlada por uma fundação, que garante que seus executivos se concentrem no longo prazo e permite que o lucro seja utilizado para fins humanitários. O Reino Unido prevê "a empresa de interesse comunitário". Em vários estados americanos há "a empresa de responsabilidade limitada de baixo lucro", a "sociedade de finalidade flexível", entre outros formatos.
O modelo capitalista que conhecemos trouxe prosperidade e melhorou a qualidade de vida, mas com pesadas e indesejáveis consequências sociais e ambientais. Apelos para que esse modelo seja transformado são cada vez mais fortes e diferentes abordagens já foram sugeridas. Independente do rótulo - capitalismo criador, filantrocapitalismo, nova economia, investimento de impacto, valor misto, valor compartilhado - todas as abordagens estão fundamentadas na tese de que não haverá reforma genuína enquanto a atividade empresarial maximizadora do lucro for o único motor do capitalismo.
Uma entidade “com fins de benefício” não pode substituir empresas voltadas ao lucro, poder público ou organizações sem fins lucrativos, mas pode equilibrar o jogo do desempenho econômico no século 21, preenchendo lacunas abertas nos três setores. O sistema inteiro vai evoluir. Quem sabe estamos vendo nascer o capitalismo sustentável?
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