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Redefinindo o futuro do capitalismo

06 de novembro de 2012 0

Em vários lugares do mundo estão surgindo novos tipos de empresas, voltadas para o lucro, é evidente, mas também dedicadas a questões sociais e ambientais. Ao mesmo tempo, entidades sem fins lucrativos criam modelos de negócios sustentáveis. E governos montam negócios para prestação de serviços. Que maluquice é essa? O mundo está de pernas para o ar, definitivamente.

Afinal, do que estamos falando? De organizações "com fins de benefício". Essa conjunção nova de fatores é o tema de um instigante artigo escrito por Heerad Saberi, na Harvard Business Review, importante revista de estudos e negócios de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. A publicação fala de uma locadora de carros sem fins lucrativos ou uma plataforma online que oferece crédito para estudantes de baixa renda, visando o lucro, entre outros exemplos. São práticas diferenciadas das que estamos acostumados a ver até agora.

O certo é que novos empreendedores estão criando organizações que geram renda, mas priorizam uma missão social explícita, como a geração de energia renovável ou o combate à dependência química. Uma das explicações encontradas para a não proliferação rápida desse novo tipo de negócio está nos sistemas jurídicos e econômicos de muitos países que permitem atividades com ou sem fins lucrativos, separadamente, não uma combinação das duas formas. Segundo o autor, empresas “com fins de benefício” vão se popularizar na medida em que os empreendedores souberem lidar com as restrições existentes e tenham na sua volta um ecossistema de apoio especializado, incluindo políticas públicas, mercados financeiros, normas contábeis e serviços profissionais.

Para alguns, essa nova maneira de empreender já está sendo considerada uma espécie de quarto setor da economia, redefinindo o futuro do capitalismo como um saudável meio-termo entre o lucro a qualquer preço e o trabalho filantrópico. A proposta é combinar o melhor de todos os modelos - privado, sem fins lucrativos, cooperativo e público. É uma nova abordagem de mercado que afasta a preocupação com a burocracia e a ineficiência públicas, regida por um propósito social, com uma estrutura de governança que traz benefícios antes da maximização do retorno financeiro.

Duas grandes características distinguem uma organização com tal caráter: o compromisso com um propósito social e a dependência da aferição de receita. O formato jurídico vai determinar a que tipo de capital a empresa terá fácil acesso: investimento privado, se for voltada ao lucro; recursos filantrópicos, se for sem fins lucrativos. O empreendedor deve sentir-se livre para definir papéis, responsabilidades e incentivos que fujam do convencional e aumentem o compromisso com a missão.

Unir fins sociais e comerciais não é novidade - hospitais, universidades e organizações culturais já o fazem. Mas o modelo “com fins de benefício” vai mais além, pois redefine, de forma fundamental, o dever fiduciário, a governança, o controle e as relações com públicos de interesse.

A dinamarquesa Novo Nordisk, fundada com a missão de livrar o mundo da diabetes, encontrou uma maneira inovadora para definir seu perfil: é uma sociedade operacional de capital aberto, controlada por uma fundação, que garante que seus executivos se concentrem no longo prazo e permite que o lucro seja utilizado para fins humanitários. O Reino Unido prevê "a empresa de interesse comunitário". Em vários estados americanos há "a empresa de responsabilidade limitada de baixo lucro", a "sociedade de finalidade flexível", entre outros formatos.

O modelo capitalista que conhecemos trouxe prosperidade e melhorou a qualidade de vida, mas com pesadas e indesejáveis consequências sociais e ambientais. Apelos para que esse modelo seja transformado são cada vez mais fortes e diferentes abordagens já foram sugeridas. Independente do rótulo - capitalismo criador, filantrocapitalismo, nova economia, investimento de impacto, valor misto, valor compartilhado - todas as abordagens estão fundamentadas na tese de que não haverá reforma genuína enquanto a atividade empresarial maximizadora do lucro for o único motor do capitalismo.

Uma entidade “com fins de benefício” não pode substituir empresas voltadas ao lucro, poder público ou organizações sem fins lucrativos, mas pode equilibrar o jogo do desempenho econômico no século 21, preenchendo lacunas abertas nos três setores. O sistema inteiro vai evoluir. Quem sabe estamos vendo nascer o capitalismo sustentável?

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Encantados pelos pássaros

09 de outubro de 2012 0

Glayson Bencke, o maior especialista em pássaros do RS

Observar pássaros. Uma atividade que existe há muitos anos em países como Estados Unidos e Inglaterra e está ganhando força no Brasil, para onde estrangeiros vêm com muita regularidade.
Só na Inglaterra os clubes de observadores de pássaros reúnem mais de um milhão de associados, e conseguem interferir politicamente em muitas coisas.

E foi no RS que, em 1974, surgiu o primeiro  Clube dos Observadores de Pássaros - COA - fundado pelo americano William Belton,  quando foi cônsul em Porto Alegre. Além desse, no estado exitem mais dois clubes, em Santa Maria e Santo Angelo. 

Além da observação, as pessoas que se dedicam a isso contribuem muito com a preservação ambiental, o registro de espécies ameaçadas e a catalogação de aves raras. E reúnem gente de profissões tão diferentes como engenheiros, empresários, biólogos, bancários e professores.

Um dos líderes desse movimento é o ornitólogo Glayson Bencke, da Fundação Estadual do Meio Ambiente - FEPAM. Ele se dedica há 30 anos aos pássaros e sua meta é publicar um completo guia de aves do RS, onde existem 665 espécies diferentes de pássaros já identificados.

A busca de pássaros raros

O COA de Porto Alegre organiza em torno de 10 viagens por ano, que duram de um a quatro dias, para seus cerca de 100 associados. A última viagem foi ao Parque Estadual do Turvo, no município de Derrubadas, no noroeste do RS. O parque tem 17.482 hectares, uma mata exuberante com as árvores mais altas do estado.
É a mais importante reserva do Rio Grande do Sul, pela diversidade e por ser ponto de pouso de muitos bichos migratórios. Dentro do Turvo está o Salto do Yucumã, a cachoeira mais longa do mundo, com 1.800 metros de extensão.

O COA sempre leva alguns convidados em suas viagens. E nem todos são especialistas em aves, como a bióloga Nathália Rocha Matias, que estuda serpentes. Neste momento estuda a "termoregulação da anfisbena, uma cobra cega". Pergunto a ela por que acompanhar o pessoal das aves? A resposta vem imediata: "por dois motivos, conhecer esse incrível Parque do Turvo e para tentar encontrar se encontro algumas espécies que só vejo em serpentários". Ou para a especialista em fauna do Ministério Público Rosane..... Que acompanhou a viagem, pois gosta de aves. Mas  ela estuda as oito espécies de felinos que existem no RS: pumas, onças, jaguatiricas e gatos do mato.
Durante uma das caminhadas  no Parque do Turvo o grupo se encontrou com uma jaguatirica grande, que roubou a cena. Todos ficaram excitadíssimos. 
Menos o ornitótogo Glayson: " sempre que surge um mamífero, é concorrência desleal", brinca ele, pois o interesse de todos se concentra nisso. 

Igual interesse causaram os macacos prego, o esquilo, o tapeti (pequeno coelho nativo), o quati, ou mesmo uma cobra coral e outra caninana que foram encontradas nas trilhas.

As descobertas

O grupo, integrado por 23 pessoas, nos quatro dias dessa saída a campo avistou e fotografou 176 espécies diferentes de aves. Motivo de grande satisfação para todos. Algumas delas ameaçadas de desaparecimento, como o pica-pau de cara canela, o bico de pimenta, o macuco, a tietinga ou o bacurau rabo de seda.
Mas existem outras aves como nomes estranhíssimos, como vira bosta, bico chato de orelha preta, limpa folha ocrácio, gente de fora vem, marreca pés-na-bunda, limpa folha de testa baia, balança rabo leitoso, chocão , beija flor rabo branco de garganta rajada, cagacebinho de topete ou Benedito de Testa Amarela.
A felicidade total do grupo vem quando vê ou ouve um canto de pássaro dificil de achar." Só por esse valeu o dia!" diz a empresária Helena Backes, que dedica várias horas por dia a estudar e classificar os pássaros que encontra. Começou há pouco tempo com esse hobby, mas já se equipou toda, com binóculo, camera Cannon e lente 500 mm, para fotografar os pássaros mais distantes. "Mais um pica-pau pra coleção!", vibra ela, com os olhos brilhando.

Já o ornitólogo Glayson Benke, consideardo o mais experiente do estado, o prazer é outro. Sua satisfação era grande quando simplesmente conseguiu gravar o canto de uma Iraúna Grande. " Foi uma festa sonora. Agora vou botar na internet e muita gente vai conhcer  o canto dele!" 

Ele explica que cada pássaro pode ter até 14 vozes diferentes. Por isso a necessidade de "educar o ouvido", ouvindo, gravando ou consultando sites ou baixando aplicativos da internet, como o Birds of Brazil, onde se encontram desenhos, fotos, cantos e localização de quase todos os pássaros brasileiros. Mesmo com o nome em inglês, o aplicativo é brasileiro. E tem mais de 1.000 usuários regulares cadastrados. Ou o portal de compartilhamento de sons e fotos Wikiaves, espécie de enciclopedia de aves do Brasil.

Paisagem sonora

Para se tornar um especialista em aves, ensina Glayson,  é necessário persistência, disciplina, curiosidade, bom ouvido e bom olho, além de 10 anos dedicação. Mas muita gente quer apenas conhecer os bichos, estar junto à natureza onde "a paisagem sonora muito rica". No início e no final do dia a variedade de sons é imprescionante. E cada um é imediatamente identificado. Nesse momento, cabeças se voltam para o alto, tentando identificar a direção, binóculos em punho e, assim que localizada a ave, muitas máquinas fotográficas clicam incessantemente. Prazer estampado no rosto, pra ver quem pegou o melhor ângulo daquele beija-flor raro, na copa de uma árvore.

Muitas vezes, durante a viagem, quando ouve determinado tipo de canto raro, Glayson faz um teste com principiantes ou estudantes de biologia que o acompanham:  "que canto é esse?" Quando o perguntado vacila em responder a um som já ouvido antes ele dá um puxão de orelhas:"falta a cicatriz" , que é memorizar cada som de cada ave. 
E para atrair os pássaros para mais perto, Glayson se vale da tecnologia: usa um gravador para gravar o canto e o reproduz instantaneamente. Outros se valem de aplicativos de smartphones, com cantos gravados. Com isso, muitos bichos chegam mais perto e o prazer é redobrado.

Atividade crescente

Na Inglaterra, onde tudo começou, existem mais de um milhão de observadores de aves. Organizados, eles são ouvidos por autoridades sobre projetos ambientais e arquitetônicos. Nos Estados Unidos, país que conta com a maior quantidade de "bird watchers" do mundo, até para saber qual o impacto nas aves que altos prédios podem causar eles são ouvidos.
No RS a atividade envolve mais de 1.000 pessoas,  entre observadores e estudiosos, além de 30 ornitólogos que temos aqui. Mas eles querem tornar a atividade mais conhecida. E para isso, o próximo projeto, ainda em gestação, é editarem um guia completo das aves do RS.

Salto do Yucumã, ameaçado pelas hidrelétricas

peixes morrem pelo esvaziamento rápido do rio

Ameaça constante

Além dos desmatamentos, a construção de usinas, que alagam grandes regiões, é uma constante ameaça aos bichos. No Parque do Turvo, contam os guarda-parques, a construção de novas hidrelétricas na região pode alagar 10% da reserva. A de Panambi é a maior ameaça. A última que foi construída já afeta diretamente aquele que, para algumas pessoas, é o mais bonito - e desconhecido por muita gente - cartão postal do RS: o Salto de Yucumã, na fronteira com a Argentina. Diariamente o volume das águas cresce, encobrindo completamente o salto. Depois de algumas horas,  águas baixam repentinamente, matando peixes que ficam presos em buraco de pedras. Além disso, com novas hidrelétricas o rio Uruguai deve ficar mais largo, impedindo onças e antas de atravessar da Argentina para o parque brasileiro, como fazem hoje.

E novas hidrelétricas estão programadas para o rio Uruguai.

Sobre o tema:
Filme: The big year, comédia com Steve Martin
Aplicativo para smartphones: birds of brazil
Portal: wikiaves
Facebook.com/coa.poa.9

Yucumã desaparece artificialmente

05 de outubro de 2012 0

Olhem como fica "submerso", pela ação das hidrelétricas...

Olhem como o salto é lindo, quando está "normal"

05 de outubro de 2012 0

Um patrimônio ameaçado

05 de outubro de 2012 0

Um dos mais bonitos lugares do RS, o Salto do Yucumã, na região noroeste do estado, está ameaçado. Tudo porque está sendo planejada a construção de uma série de usinas hidrelétricas. Já existe uma que prejudica o regime de águas. Enchem e soltam o reservatório, complicando a vida dos turistas, flora e fauna da região.
A mais longa cachoeira do mundo - 1.800m - fica cheia de água, quase desaparecendo. e, em pouco tempo, reaparece. Ou seja, quem chegar lá para vê-la, pode encontrar uma simples queda d'água. Em outra horário ela está lá, linda! Além disso, como a água baixa muito rapidamente - por interferência artificial da hidrelétrica - muitos peixes ficam presos, sem ter tempo de sair para o leito do rio. Muitos estão morrendo por causa disso. algo precisa ser feito...

Porque os países fracassam

11 de setembro de 2012 0

O que separa países ricos, como Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, de países pobres, como Sierra Leoa, Corea do Norte e Zimbabwe, onde mais da metade da população vive na miséria? Corrupção, opressão, falta de justiça social e má educação.
Ou seja, as raízes da pobreza são, especialmente, políticas. Não são apenas geográficas, climáticas , religiosas, étnicas ou culturais, mas de escolhas políticas e estratégicas equivocadas feitas no passado, quando as elites tomaram o poder e não souberam entender os problemas econômicos dos países.
Essas são algumas das constatações a que Daron Acemoglu e James Robinson, dois importantes professores de duas das mais renomadas universidades do mundo - MIT e Harvard - chegaram, em um instigante livro, que infelizmente ainda não temos no Brasil, chamado Why the nations fail ( Porque os países fracassam).
Em muitos países pobres, as elites organizaram as sociedades em benefício próprio, enquanto sociedades como a inglesa e americana ficaram ricas porque os cidadãos tiraram as elites que controlavam o poder e criaram uma sociedade onde os direitos políticos são mais amplamente distribuídos e onde os governos são responsáveis e sensíveis aos direitos da população. Nesses países a grande massa também desfruta de vantagens, como as oportunidades econômicas que são criadas com a democracia.
No início do livro, os autores fazem uma interessante comparação entre duas cidades com o mesmo nome: Nogales. Uma no Arizona, EUA, e outra em Sonora, no México. Até a guerra EUA-México, de 1846-48, ambas pertenciam ao México. Depois, os EUA compraram essa parte e anexaram ao seu território. Hoje a Nogales americana tem saúde, empregos, as crianças estão na escola, não há violência e a renda é muito maior do que a equivalente mexicana. Na Nogales mexicana, violência, desemprego e pouca educação. O problema? Falta de democracia na cidade mexicana. Lá o PRI - Partido Revolucionário Institucional - governou por décadas e a corrupção comia solta.
E é Democracia o que pedem as recentes revoluções no norte da África e no Oriente Médio. Mais direitos políticos para expandir suas oportunidades econômicas e sociais. Portanto, mais uma constatação de que pobreza não é imutável, mas uma questão de escolha política.

De volta ao Elbrus, a maior montanha da Europa

29 de agosto de 2012 0

Transcrevo abaixo o mail que recebi de um amigo, Manoel Morgado, com quem tive o prazer de chegar ao cume do Elbrus, na Rússia. Como guia de montanha que é, ele votou lá, há poucos dias. aqui vai o relato:

As surpresas da montanha:
São três horas da madrugada e a neve cai abundantemente. Aliás, dizer que ela cai é errado, já que com o vento forte ela é basicamente horizontal. Estou protegido pela cabine do snow cat, o caminhão com esteiras que está nos levando do abrigo onde dormimos até o início de nossa escalada a 4700 metros, mas meus clientes que estão desprotegidos estão completamente brancos de neve. O outro snow cat com a segunda metade do nosso grupo de 19 pessoas está logo atrás e com seus poderosos faróis ilumina todo ao nosso redor. Por sua luz vejo os grossos flocos de neve brincarem no vento. Não fosse pela preocupação do que virá quando começarmos a escalada poderia me deliciar com a cena. Mesmo assim mais uma vez, como em tantas outras, agradeço à vida por me dar a possibilidade de viver cenas como essa.
Com a neve fresca o snow cat tem dificuldade em negociar a forte inclinação e em vários lugares patina, muda de rumo e dá pequenas rés até conseguir um terreno mais sólido. Após uma hora de muito frio finalmente chegamos à pequena plataforma que marca o final de nossa jornada. Daqui para frente é por nossa conta.
Os clientes assumem seus lugares pré-determinados junto aos seus guias russos e começam a escalada ao meio de uma forte nevasca. O vento castiga derrubando a temperatura, mas já esperávamos por isso e todos estão bem equipados. Eu fico para trás coordenando o movimento dos pequenos grupos e então sigo com o grupo mais lento.
Este é nosso sétimo dia de viagem e é o dia planejado de cume. A expedição começou em Moscou onde passamos duas noites descansando da longa viagem, conhecendo um pouco da cidade e comprando o equipamento que faltava em uma excelente loja com preços razoáveis. De Moscou voamos para Mineralnie Vody, que significa “Água Mineral” em russo já na região dos Cáucasos e muito próximo à Geórgia e de lá após uma viagem de 4 horas de ônibus chegamos à Terskol, a pequena cidade na base do Elbrus que seria nosso ponto de apoio para duas caminhadas de aclimatação, uma chegando a 3000 metros e a outra a 3400 metros.
Já um pouco mais aclimatados tomamos 3 teleféricos para chegar nos barrels, um conjunto de containers situado a 3800 metros com oito beliches cada. Nosso grupo se instalou em 3 deles além de um usado como cozinha e refeitório. No mesmo dia que chegamos subimos à 4200 metros para continuar nosso processo de aclimatação. No dia seguinte nosso objetivo foi mais ambicioso, chegar a 4700 metros que era o ponto onde chegaríamos no snow cat no dia de cume.

As 5 da manhã as condições de neve e clima estão terríveis, muito vento e muito frio e a neve fofa deixam tudo muito mais difíceis. Aos poucos alguns clientes desistem e voltam com seus guias. O fato de trabalharmos com um guia para cada 3 clientes permite não só que cada um faça o seu ritmo, mas que se alguém queira voltar não faça com que isso impeça os outros de continuarem sua escalada. Aos poucos o céu foi clareando embora o sonhado nascer do sol não aconteceu, a única diferença entre a noite e o dia foi a qualidade da escuridão. O céu estava coberto de nuvens escuras e uma luz opaca cobria tudo. A neve caia em quantidades ainda maiores e se acumulava nas encostas. As sete da manhã a Lisete e eu resolvemos, para desapontamento dos que ainda tentavam, voltar. O risco de avalanche era significativo, não havia mais nenhum grupo na montanha e dentro do grupo dos que ainda tentavam estavam alguns clientes um tanto vagarosos. Não valia a pena o risco. A montanha sempre estaria lá...
Mas, na descida comecei a pensar que ainda tínhamos um dia, ou melhor, meio dia já que os teleféricos paravam as 15 horas. Se seguisse apenas com os 3 clientes mais fortes tínhamos uma boa chance de chegar ao cume e voltar a tempo de descer da montanha e reencontrar com o grupo. Na chegada fizemos uma reunião e vi que apesar da frustração geral de não ter chegado ao cume todos estavam contentes com a viagem e entendiam que as vezes quem manda é a montanha.
Minha sugestão de que o Agnaldo, Gilson e Cristiano tentassem no dia seguinte apesar da previsão de tempo ser praticamente a mesma foi acolhida por eles com entusiasmo. Nos despedimos do grupo que resolveu descer e passar a noite no conforto do hotel em Terskol e fomos deitar cedo para o merecido descanso antes de mais uma vez enfrentar as condições adversas da montanha. Combinamos que subiríamos apenas se não houvesse mais nevascas durante a noite, e para grande desânimo as 20 horas acordamos com o barulhinho da chuva no teto dos barrels....Nada a fazer.
À meia noite, horário combinado para acordar, o céu estava completamente coberto, mas não nevava ou chovia. Em uma rápida reunião resolvemos que já que havíamos acordado e contratado o snow cat deveríamos pelo menos tentar. O máximo que poderia acontecer seria chegar ao mesmo ponto do dia anterior e voltar. Tínhamos a nosso favor o fato de estarmos em um grupo forte e homogêneo e de estarmos começando mais cedo do que no dia anterior.
À uma da manhã, mal começamos nossa jornada no snow cat e novamente começou a nevar e conforme progredíamos a nevasca ia ficando cada vez mais forte. Mais uma vez íamos nos cobrindo de neve mascarando nossa fisionomia já indistinguível um do outro com nossos goggles, face masks, gorros e balaclavas.
Quando o snow cat parou nenhum de nós se animava a descer e podia ler nos olhos de cada um a pergunta. Será que valia a pena o esforço? Mas, descemos e conversamos gritando para cobrir o ruído do vento e decidimos que só voltaríamos se realmente estivesse perigoso. Como por milagre e para compensar nossa determinação, após poucos minutos parou de nevar e sentimos que as condições da neve estavam melhores do que no dia anterior. Tinha feito um pouco de sol e isso ajudou a consolidar a neve. Colocamos um ritmo forte de 300 metros verticais por hora e seguimos em direção ao colo que separa os dois cumes do Elbrus que com seus 5642 metros é o ponto culminante da Europa. Progredimos extremamente bem e aos poucos nossos corações foram se enchendo de alegria e otimismo. A neve estava boa, o risco de avalanches pequeno e estávamos todos fortes. O vento tinha se transformado em uma brisa e aos poucos podíamos mais do que ver, sentir o dia se aproximando. Com sorte, se as condições continuassem assim, as 5 da manhã estaríamos no cume. Pensei até em, quem sabe, fazer os dois cumes. Já havia subido ao cume oeste duas vezes, mas nunca tinha tido a oportunidade se subir no cume leste.
Tudo isso mudou assim que viramos a curva do colo. Assim que entramos na sela um vento terrível veio de encontro a nós. Apesar de não nevar o vento levantava a neve recém caída e atingia nossos rostos sem piedade. Nossos goggles se congelaram imediatamente nos dando a escolha entre escalar sem ver onde íamos ou suportar a neve em nossos olhos nos tirando a visão. Atravessar o colo nos tardou meia hora e começamos então a subida final ao cume, ou últimos 250 metros com uma inclinação muito maior do que até então. A 5300 metros como que atingimos um muro. Pensei que assim se sentem os maratonistas quando chegam ao temido quilômetro 33. Nosso rendimento que até então tinha sido excelente despencou e ao invés de uma respiração a cada passo tivemos de respirar duas vezes para cada passada. A neve estava muito profunda e cada passo custava. Eu ia na frente abrindo caminho, mas minhas pegadas eram apagadas imediatamente pela neve carregada pelo vento que ficava cada vez mais forte. Imaginei que como a escalada era pela face oposta de onde vinha o vento, que em breve entraríamos em uma zona de calmaria, mas pelo contrário, o vento nos assolava de maneira cada vez mais cruel. Mais uma vez o nascer do sol não trouxe nenhum conforto, apenas uma luz fraca e fria. Ao chegarmos no platô final do cume nos deparamos com o vento mais forte que já peguei em minha vida. Se segurasse o bastão de caminhada por sua alça ele era levado pelo vento e ficava horizontal. É notoriamente difícil avaliar a velocidade do vento e normalmente tendemos a exagerar, mas creio que ele estava ao redor de 100 km/hora. Cada passada tinha de ser apoiada nos dois bastões sob o risco de sermos levados da montanha. Colocar os bastões era um esforço já que com o vento eles teimavam eu ir para onde não queríamos. Finalmente chegamos nos últimos 30 metros de escalada, uma encosta estreita que nos levaria ao cume. Já não andávamos de frente e sim de lado para evitar o castigo da neve que açoitava nossos rostos cruelmente. Os metros foram ganhos lentamente, mas as 5:45 estávamos no cume. A visibilidade era de poucos metros e mal tivemos ânimo de tirar poucas fotos onde aparecemos nos apoiando nos bastões para não voar. Começamos a longa descida rumo ao abrigo de nossos barrels. Para os grupos que encontrávamos contávamos o que estava acontecendo lá em cima e recomendávamos não subir, mas a maioria deles não fazia caso, abaixo do colo tudo novamente estava calmo e não dava para acreditar nas condições que tínhamos encontrado lá em cima.
Nossa descida demorou 4 longas horas e nesta mesma noite estávamos comemorando com todo o grupo em um restaurante Azerbaijão comendo deliciosos kebabs, berinjela assada e tomando copiosas doses de vodca. Tinha sido um dia extremamente longo e mal podíamos acreditar que poucas horas antes estivéssemos no inferno onde estávamos.
Poucos segundos antes de adormecer fiquei meditando sobre como montanhas podem se comportar de maneira diferente. O Elbrus não é uma montanha técnica nem difícil e para padrão Himalaia tampouco alta, um pouco mais elevada apenas do que o campo base do Everest. Apesar disso, montanhas podem se comportar de maneira atípica e por isso é necessário respeitá-las. Mesmo uma montanha com menos de 6.000 metros pode colocar os escaladores em situações de risco extremo. Estava em paz com minha consciência. A decisão de voltar no dia anterior tinha sido acertada. Apesar da frustração dos clientes que não chegaram no cume vi de maneira muito clara que se não tivesse abortado a escalada teria em minhas mãos uma situação potencialmente arriscada. Nenhuma ponta de nenhum dedo vale qualquer cume. Mais tarde conversando com todos vi que eles também concordavam com esta visão. Nesses 12 dias o grupo havia, como sempre acontece nas montanhas, se transformado em um grupo unido de amigos, tinham vivido juntos momentos inesquecíveis e estavam felizes. Mais do que um cume é isso que se deve levar das montanhas.
Escrevo este relato em Moshi, a cidade base para a escalada do Kilimanjaro. No dia em que o grupo do Elbrus voou de volta eu e a Lisete fizemos o longo vôo de Moscou à Tanzânia e agora, depois de 2 dias de descanso receberemos mais um grupo para o qual daremos nossa energia para ajudá-los a realizar seus sonhos. Que esta montanha seja mais benigna conosco.

A redescoberta do Guaiba

27 de agosto de 2012 0

Na maioria das cidades do mundo, as regiões mais valorizadas são as que se situam junto aos rios. Menos em Porto Alegre. Tudo porque, há mais de 50 anos, o Guaíba teve a "ousadia " de invadir o centro da Capital. A partir dessa histórica enchente, a cidade rompeu relações com o seu rio e virou as costas para ele. Até um muro horrendo foi construído, separando o centro
histórico do rio, e impedindo que a população possa apreciá-lo. Ano após ano, a parte central da cidade foi se deteriorando e pouca coisa foi feita efetivamente para valorizar o Guaíba.
O tempo foi passando e, mesmo que ninguém tenha tido a coragem de demolir esse muro, devagarinho fomos descobrindo o que era inevitável. A Usina do Gasômetro virou centro cultural, muita gente passou a ir ali para curtir o "famoso" pôr do sol. O Museu Iberê Camargo mostrou que coisas belas podem ser feitas olhando para o rio. E assim o Guaíba e sua incrível paisagem foram se impondo! Ainda somos tímidos. Temos poucos esportes náuticos, uma
escola de windsurfe aqui, outra de vela ali, alguns clubes nas ilhas e, mais recentemente, um ousado projeto para a orla está sendo pensado e deve sair do papel. Ainda falta muito, como uma grande ciclovia contornando toda a beira do rio, como fez São Paulo, construindo mais de 20 quilômetros de ciclovias junto ao fedorento Rio Pinheiros (fazendo muita gente prestar atenção naquele que outrora foi um importante rio). Já temos uma iniciativa fundamental de recuperação da balneabilidade do Guaíba, com esse grande investimento que está tratando os esgotos, mas precisamos de um projeto ousado para recuperar o Arroio Dilúvio (alô, candidatos: por que ninguém está com essa atraente bandeira na mão?). Falta coragem para tirar aquele monte de empresas de areia da beira do rio, junto à Ponte do Guaíba, e implantar ali um jardim bacana, pois a ponte é a principal porta de entrada da nossa cidade.
Sou otimista. Uma vez redescoberto, voltaremos a dar a importância que o Guaíba merece. Pode ser que o novo Cais Mauá sirva para tirar, definitivamente, o nosso rio do ostracismo em que foi colocado durante tantos anos.

Os aleijadores de árvores

27 de junho de 2012 0

Muito se fala em preservar a natureza, não desmatar. A Prefeitura impõe compensações a quem corta árvores nativas na cidade. O IBAMA aplica multas severas em quem detona o meio ambiente. Acho tudo corretíssimo. Do contrário, nós, humanos predadores, viveremos no deserto...
Mas pouco se fala naquelas pessoas que deixam nossas árvores completamente aleijadas. Cortam uma parte, para não encostarem nos fios, mas deixam as árvores completamente tortas. Tem a questão estética: elas ficam feias. Tem a de segurança: com galhos só para um lado, ficam muito sujeitas a cair com as ventanias que acontecem. E tem também a questão de preservação, pois árvores cortadas desse jeito que estão, não duram.
Anos atrás, morei no Japão e me encantava ver nas ruas de Tóquio profissionais fazendo podas sistemáticas (e artísticas até) em todas as árvores da cidade. Não deixavam que crescessem muito. Ou que se tornassem anti-estéticas.
Por que não fazer isso aqui? Por que as empresas terceirizadas pela CEEE ou mesmo a SMAM não cuidam mais disso? Basta olhar o que acabam de fazer em várias árvores da Av. ipiranga, para saberem do que estou falando! Me parece que seria o caso, também, de escolhermos melhor os tipos de árvores das ruas (não plantarmos árvores que ficam gigantescas) e dos locais em que devem ser plantadas, para não termos árvores crescendo embaixo da fiação dos postes. A cada vento, algumas regiões da cidade ficam sem luz. Simples bom-senso...

Cidades mais humanas

19 de junho de 2012 0

Anotações que fiz na palestra de ontem, no Fronteiras do Pensamento, com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñarosa, autoridade mundial em transportes e sustentabilidade de cidades. Ele dirige, nos Estados Unidos, uma instituição de planejamento de transportes e faz trabalhos para o mundo inteiro.
Para quem não sabe, ele deu prioridade a pedestres e bicicletas, deixando os ônibus em segundo plano, o metrô, em terceiro e, por último, os carros.
Mostrou que todas as cidades mais avançadas do mundo estão restringindo o uso de carros e priorizando as bicicletas.
Aqui vão pontos que anotei:
Somos pedestres, precisamos de espaço, calçadas largas, para caminhar, vizinhos se conhecerem, se encontrarem.
Uma boa cidade é para gente ou para carros?
Há conflitos nas cidades entre carros e pedestres.
Nos últimos 80 anos fizemos cidades mais para os carros do que para pessoas.
Todas as principais cidades européias estão tirando carros dos centros e colocando pedestre, bancos, mesas, espaços, ciclovias. Algumas, inclusive, estão destruindo viadutos, elevados e túneis.
Calçadas largas servem para que os pedestres se sintam valorizados.
Ter ruas só para ônibus quer dizer: somos mais democráticos. Ônibus não é veículo de pobres.
Cidade mais igualitárias, como as da Dinamarca e Holanda, por exemplo, têm mais ciclovias. Uma cidade com ciclovias é mais divertida, humana, sensual.
As calçadas são parentes dos parques e não das ruas. São para olhar a cidade, conversar, se beijar, caminhar.
Elogiou Porto Alegre, pois aqui muitos prédios têm cercas vazadas, em vez de muros fechados. A cidade, com isso, fica mais humana. Tem usado esse exemplo de POA como referência no mundo.
Ter carros nas cidades é uma decisão política.
Podemos ampliar as calçadas!
O estacionamento não é um direito constitucional.
Qdo uma cidade tem malls, ela está doente. Ter que ir a shopping centers para caminhar e encontrar pessoas é uma grave distorção. Muitas das melhores cidades do mundo nã têm malls.
O comércio de rua é um tesouro: temos que protegê-lo.
Nos espaços públicos todos nos encontramos como iguais.
O acesso ao verde vai ser um dos maiores fatores de inclusão social nos próximos anos.
Cidades avançadas, reduzem uso e espaço para carros.
Cidades subdesenvolvidas: aumentar espaços para carros.
Fazer ruas mais largas nunca vai reduzir os engarrafamentos. O número de viagens e duração de viagens é o que provoca engarrafamentos. Aumentar as ruas e fazer túneis vai reduzir por muito pouco tempo os engarrafamentos, pois ampliar os espaços para carros incentiva as pessoas a andarem mais de carros. Ao passo que, em cidades que priorizaram os ônibus, simplesmente ao ver os carros parados em engarrafamentos e os ônibus andando em espaços privilegidos, faz com que as pessoas mudem de conceito.
Os ônibus são melhores que os metrôs, pois podem se deslocar pelos bairros e ainda circular por vias expressas, chegando mais próximo de onde as pessoas moram.
Muitas cidades avançadas do mundo estão, inclusive, desestimulando a construção de garagens em edifícios.
Em cidades compactas tudo funciona bem.
Só as restrições ao uso de carros reduz engarrafamentos.
Cada detalhe em uma cidade deve mostrar que os seres humanos são sagrados. E que também são iguais.
Não temos que cobrar impostos por termos carros, mas pelo uso dos carros, em determinadas horas (de pico, por exemplo), em determinados lugares.
Alguns governantes não querem ser governantes, mas rainhas da simpatia. Por isso não tomam as medidas que são necessárias.
Foi aplaudido de pé, longamente !