
Ana Helena e João Carlos nos anos 70, quando ainda eram estudantes, e atualmente (Fotos: Arquivo pessoal)
Que diferença podem fazer os votos de duas pessoas em um universo de mais de 30 mil eleitores? Para o casal de médicos João Carlos Stona Heberle e Ana Helena Schmidt Heberle, de Cruz Alta, muita diferença.
Em 1976, quando ainda eram namorados e estudantes de medicina, eles saíram de Porto Alegre, onde moravam, e viajaram cerca de 350 quilômetros apenas para votar na cidade onde viviam suas famílias. E ajudaram a decidir as eleições.
O Brasil vivia um período de ditadura militar, de repressão política, e a militância contra o regime podia acabar em prisão. Votar nas eleições podia ser encarado como um meio menos perigoso de engajamento.
— Como a gente tinha medo de ir pra diretório acadêmico, de se reunir, de fazer passeata, o voto era o nosso ato de protesto — lembra João Carlos.
Além disso, havia outro forte motivo para que o casal não abrisse mão de votar no pleito de 1976. Um dos candidatos à prefeitura de Cruz Alta era o pai de Ana Helena, o também médico Carlos Pompílio Schmidt.
Naquela época, o regime permitia a existência de apenas dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (Arena), identificada com os militares, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que congregava todos os matizes de oposição à ditadura.
Nas eleições municipais, cada legenda podia apresentar mais de um candidato (as chamadas sublegendas). Em 1976, a Arena teve três candidatos em Cruz Alta e o MDB, dois — um deles era o Dr. Schmidt.
A ata do Tribunal Regional Eleitoral revela que, dos 31.466 eleitores aptos a votar no município em 1976, um total de 27.351 compareceu às urnas naquele 15 de novembro. O MDB teve 13.378 votos na eleição majoritária e a Arena, 12.486. Isso significava que o prefeito seria do MDB, ainda que o nome mais votado (o candidato Fernando Machado Vieira, que recebeu 9.612 votos) fosse da Arena.
A contagem das cédulas de papel apontou a vitória de Schmidt sobre Nilton Paulo Homercher, também do MDB, por apenas dois votos de diferença. Foi pedida uma recontagem e o resultado se repetiu: 6.738 votos para Schmidt e 6.736 para Homercher.

Ata do TRE registra as votações dos candidatos. Clique aqui para ler a íntegra do documento
Carlos Pompílio Schmidt assumiu a prefeitura de Cruz Alta em 1977 e acabou governando até 1983, devido a uma emenda constitucional de 1980 que estendeu os mandatos dos prefeitos. Chegou a concorrer de novo no município, mas não saiu vitorioso. Morreu em 2004.
O seu genro João Carlos lembra, saudoso, de como a eleição vencida por dois votos entrou para o folclore da família.
— A gente gozava dele, dizendo que, se não tivéssemos ido a Cruz Alta votar, ele não teria sido prefeito — brinca o médico.

Carlos Schmidt, no tempo em que governava Cruz Alta (Foto: Arquivo pessoal)
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