Prezado Valther,
Avenida Castello Branco (Beira-Rio)
Sobre esta atual ferida na paisagem blumenauense e na engenharia, tenho alguns pensamentos e posições a respeito, atiçado que fui pela tua chamada:
· Desde que surgiu a civilização, a mesma sempre se estabeleceu nas proximidades de locais banhados pelo mar, rios e lagos;
· O progresso da civilização levou sempre às melhorias necessárias que uma urbe ao longo do tempo necessita;
· Não foi diferente com a nossa Blumenau e disto resultou uma Avenida Beira-Rio, que antes de mais nada é uma obra de engenharia voltada a trazer benefícios para a cidade;
· Dentro dos benefícios podemos citar alguns: estabilização dos barrancos da calha do rio na sua margem direita na parte central da cidade, sistema viário, arquitetonicamente e urbanisticamente uma significativa presença positiva principalmente para vermos o rio e ele ser visto;
· A construção foi de uma forma simples, com retirada do material ruim, uma fundação à base de pedras com um aterro de solo. O seu talude foi revestido na parte inferior com enrocamento de pedras e aplicação superficial de concreto e o restante com um tipo de vegetação própria para a situação. Complementava um gradil, a calçada e a via pavimentada;
· Apesar de em alguns locais a calha do rio ter sido diminuída com a construção, por outro lado existia o benefício de uma superfície do talude limpa, com um mínimo de atrito, diminuindo em muito a perda de carga e com isto aumentando a vazão do rio em períodos de cheia;
· O que se vê hoje, uma alteração das condições originais de projeto: em quase toda a extensão da Beira-Rio, em especial à jusante da Ponte Adolfo Konder, é um sem número de Salgueiros que surgiram na base da obra (talvez até bonitos sob alguns aspectos), uma série de Pés de Silva (é este nome que conheço aquele arbusto cheio de espinhos) no talude aonde havia uma vegetação apropriada, um “matagal” surgindo, tudo isto para além de tirar a beleza da Beira-Rio, impedir a vista do rio. Os salgueiros quando após uma cheia, ficam desfolhados e mostram uma “nova fruta”, muito decorativa, que são as centenas de sacos plásticos que ficam presos aos seus galhos. Agora o pior disto tudo é que estes Pés de Silva são arrancados do local aonde cresceram, ocasionando feridas no solo do talude, que podem gerar conseqüências danosas. Na última enchente de 2011, ocorreu isto nas imediações do Edifício Mauá.Também merece destaque , sob o ponto de vista da engenharia, o aumento do atrito causado por estas árvores e arbustos que se estabeleceram naturalmente, além do “matagal”, aumentando a perda de carga e desta forma diminuindo a vazão das águas no trecho do rio e aumentando a cota de enchente. Mesmo que estes valores possam ser quase desprezíveis, é importante chamar a atenção para o fato para que ocorra uma inflexão nestas tendências;
· Sou contra também ao plantio de árvores que ocorrem no talude, pelos motivos acima relatados. A intenção de quem está fazendo isto com muito suor e amor é louvável, mas tecnicamente não recomendável. Já tive a oportunidade de conversar com este Senhor e ao mesmo tempo parabenizá-lo, sugerir uma outra forma de ação;
· Se é para deixar crescer este “matagal”, por que não cuidar antes para não ocorrer uma invasão do Horto Florestal, o desmate e o uso inadequado do solo em locais impróprios, os aterros nas calhas secundárias dos nossos Ribeirões da Garcia, Velha e Itoupava e, e, e, ...
· As placas de concreto que na enchente de 2011 foram arrancadas no talude na altura da Ponte Adolfo Konder, como se fosse descamado, nada mas foi do que uma conseqüência da não conclusão dos serviços de correção em função do deslizamento que ocorreu neste talude na cheia de 2008, imediatamente à montante deste ponto;
· Aonde está o capricho tão peculiar do blumenauense? Desapareceu?
· Portanto vamos recuperar logo a Beira-Rio, tecnicamente e com capricho, para voltar a ser um cartão postal, para voltarmos a apreciar o rio e a usufruí-lo melhor (para isto é necessário que se refaça os acessos a partir da calçada até a base do talude).
Guido Otte
Engenheiro Civil
Blumenau


