Caro Valther, sua coluna do fim de semana coincide integralmente com o artigo que envio abaixo e que foi publicado no JSC quando ainda eu nem era colunista, lá pelo inicio do novo milênio. Infelizmente, de lá para cá nada se fez e o patrimônio representado pelas necrópoles está se perdendo. Se tiver um tempinho, dê uma lida; ele se aplica à foto da tumba derrubada que você publicou. Uma lástima. Blumenau é muito relaxada com seu legado histórico, com sua memória. Aqui ninguém sabe restaurar, destróem o antigo e fazem novo achando que estão restaurando. O exemplo mais vergonhoso disto é o que fizeram com o vapor Blumenau, que numa destas reformas recebeu um motor de centro, diesel!
Em tempo: também gosto de flanar por cemitérios.
Cezar Zillig
TOMBA-SE TUMBAS!
Há um tipo especial de patrimônio histórico sendo rapidamente tombado em Blumenau; infelizmente tombado no sentido de deitar ao chão; fazer cair; derribar e não no sentido de “pôr (o Estado) sob sua guarda, para os conservar e proteger (bens móveis e imóveis cuja conservação e proteção seja do interesse público, por seu valor arqueológico, ou etnográfico, ou bibliográfico, ou artístico)” como ensina o velho Aurélio.
No Cemitério Itoupava Alto, em sua ala esquerda de quem entra, ou simplesmente olha e passa pela Rodovia Guilherme Jensen, há um grupo de abandonados – esquecidos? – túmulos erigidos pelo início do século passado. Estes túmulos, além de conterem os restos de muitos dos primeiros imigrantes de Blumenau, e só por este fato já se constituírem num valoroso patrimônio histórico, agregam um valor adicional pela sua arquitetura fortemente marcada pela época e pelo estilo então vigente nas necrópoles alemãs: estreitos e com suas cabeceiras altas, portando lápides com inscrições delicadamente cinzeladas em ardósia, cujo baixo relevo era destacado por tinta prateada, em geral protegido por uma folha de vidro.
Além do mérito artístico dos entalhes, por si só já dignos de preservação, há que se destacar o conteúdo e a forma de se registrar, em um “hochdeutsch” já um tanto arcaico, a dor e a saudades deixadas pelos que ali repousam. Com raras e elogiáveis exceções, é lastimável a situação daquele grupo, pouco numeroso, de sepulturas: abandonadas e sem receberem qualquer tipo de conservação, permite-se que suas bases fiquem expostas pela acelerada erosão local; muitos dos túmulos tombaram espontaneamente ou receberam um empurrãozinho de um vândalo qualquer.
Este estado de abandono fica ainda mais evidente, ainda mais triste, nos dias subseqüentes ao dia dos finados: enquanto os demais túmulos são engalanados com uma enxurrada de flores e coroas, eles ficam ali completamente despidos, expondo sua ruína de maneira ainda mais dolorosa. A impressão que fica, é que se deseja que aconteça com eles o que acontece com boa parte do patrimônio arquitetônico da região: que sobrevenha logo sua total decadência para que em seu lugar se construam “novas e belas” obras.
Provavelmente acontece o mesmo em outros cemitérios da região, o que só torna a perda ainda maior. Há que se fazer algo a respeito e urgente. Permitir que estas marcas concretas, que um dia foram erigidas em memória destes pioneiros, desapareçam completamente seria, no mínimo, uma vergonha não apenas paras os descendentes diretos mas para toda a comunidade.