COMPROMISSO COM A VIDA, COM O HOSPITAL SANTO ANTÔNIO E COM A SAÚDE PÚBLICA
Nestes últimos meses, vivemos um dilema no Hospital Santo Antonio. Acolhemos os doentes da região e de todo o Estado , procuramos atender o máximo de crianças e gestantes possíveis, temos um serviço respeitado de atendimento intensivo pediátrico e neonatal, nosso pessoal é qualificado, humanizado e treinado para atender dentro dos melhores princípios técnicos , somos hospital acreditado e Amigo da Criança, além de referência em alta complexidade ortopédica, oncológica e gestação de alto risco .
Por incrível que pareça, nada disso parece importar! Se considerarmos a região do Vale do Itajaí, o valor per capita de repasses feitos pelo Estado despenca para décimos de centavos por habitante, enquanto outras regiões são regiamente abastecidas com o dinheiro público que falta a Blumenau, embora, repito, sejamos a referencia regional e estadual. Não vemos e não temos um compromisso formal de apoio ao momento que estamos atravessando, assim como vários hospitais do Estado.
Ninguém explica de forma coerente por que esta discriminação com o Hospital Santo Antônio e com a saúde de Blumenau, que embora atenda de forma regional não é considerado como regional pelo Estado. Ninguém vem explicar por que cidades menores , que não têm a menor complexidade de atendimento, recebem do Estado valores que chegam a R$ 60 , R$ 70 por habitante, enquanto nós, com serviço especializado e referencia, recebemos do Estado R$ 0,89 .
Algo está errado, muito errado - todo dia vemos verbas serem anunciadas ( mais para redutos eleitorais específicos, do que para a necessidade real de atendimento ) - e isto tudo devidamente documentado no próprio site da Secretaria Estadual de Saúde. Infelizmente o Estado parece estar programando a asfixia final do atendimento hospitalar no Estado, basta ver hospitais de Camboriú, São Joaquim, Fraiburgo, Tijucas e, inexplicavelmente, alguns hospitais do próprio governo , sucateados, fechados ou em via de fechamento , enquanto continua se anunciando valores enormes para alguns projetos. Hospitais continuam penando para poder funcionar, recebendo pífios recursos e tendo como referência Tabela do SUS que não é reajustada há décadas. Nossos políticos regionais e locais, numa mudez questionável ( com rarissimas exceções ), sabem o que está acontecendo; sabem do problema crônico e sabem que este problema têm uma data limite - enquanto hospitais recorrem ao banco para honrar compromissos, e têm em suas equipes pessoas envolvidas em resolver o problema , não observamos nada, senão mudez e cinismo, num silêncio ensurdecedor.
Assusto-me com perspectivas sombrias, que vão da inadimplência de quem executa o serviço à possibilidade real de desassistência, não num futuro próximo, mas imediato ! Nossa região, pioneira e conhecida por sua vanguarda, sempre teve nas suas lideranças politicas e empresariais o orgulho típico de quem resolvia as coisas. Hoje, apesar de observarmos um esforço coletivo, não se consegue sequer marcar uma audiência com o Governador, o que demonstra uma fragilidade de representação, ou um oportunismo na linha do quanto-pior-melhor.
Novamente, quem pagará o caos que se anuncia será a criança doente, o necessitado idoso, a desesperada gestante, pois aos hospitais somente restará as medidas extremas de desativação de leitos, de fechamento de vagas, de cancelamento de cirurgias, tudo isso culminando com abandono do cidadão e do hospital a propria sorte pelo Estado, cidadão esse que é catarinense como qualquer outro e merecedor no minimo, da mesma consideração.
Hoje Blumenau é uma ilha , cercado de regioes que contam com hospitais regionais que são abastecidos com dinheiro público , com alguns hospitais filantrópicos generosamente aquinhoados, enquanto não temos NENHUM HOSPITAL REGIONAL EM BLUMENAU, embora, pela qualidade de atendimento, sejamos ponto de drenagem de TODO o Estado, buscando a excelência deste atendimento. Tenho orgulho desse nosso Hospital Santo Antônio, luto por ele há 25 anos, me exponho com opinião formada e corro riscos de ser mal entendido, mas minha obrigação está com quem precisa de atendimento, além dessa estrutura que possibilita acolher a criança oncológica complicada, os bebês prematuros nos seus mais diversos pesos de nascimento , a doença mais grave que colocará em risco a vida de um ser humano, que independente de convênio, mereçam ter um atendimento digno e tecnicamente responsável.
Entristece-me ver o posicionamento de nossa Justiça, sempre tão atuante, que mesmo sabendo dessas dificuldades (que são históricas ), utilize seu foco mais na penalização de quem executa o serviço do que contra aqueles que deveriam subsidiá-lo. Entristece-me ver gestores tratando os hospitais como se fossem uma fábrica , cujo pensamento prático limita as opções de atendimento, como se isso não tivesse repercussão direta na vida das pessoas. Entristece-me ver políticos lembrarem do hospital apenas quando precisam ( ou quando por alguma razão , surgirá ganho secundário com isso ).
Com certeza temos exceções em todas essas áreas, mas não são essas pessoas que definem a verdadeira politica de saúde pública, e não direcionam os recursos necessários para onde deveriam ser alocados. No próximo ano a UTI Pediátrica e Neonatal do Hospital Santo Antonio completará 25 anos de atividade , com mais de 90% de atendimento SUS. Criamos a primeira UTI Pediátrica e Neonatal de Blumenau e a terceira do Estado de Santa Catarina, e hoje a maior UTI Pediátrica em vagas do Estado de Santa Catarina , e que já está com vagas fechadas pela dificuldade em mantê-las abertas , resultado parcial de tudo o que já foi colocado.
Alerto, como médico , cidadão responsavel e apartidário, que a situação se tornará insoluvel caso não haja uma decisao breve, urgente e imediata, no sentido de demonstrar responsabilidade e comprometimento com a saude publica, que não tem preço...mas tem custo. Não basta alardear obras físicas, quando a necessidade deve ser direcionada para as pessoas, tanto as que atendem quanto as que são atendidas. Não é hora para individualismos, e a colocação aqui posta estende-se a todos os hospitais que atendem o cidadão catarinense – e é isso que temos que cobrar : somos cidadãos catarinenses, e o Estado deve encampar a luta, fazer a sua parte de forma isonômica e lutar para que tabelas sejam corrigidas num futuro próximo, sem esquecer que a situação emergencial é agora.
Ronaldo Della Giustina
Presidente Regional Blumenau do SIMESC ( Sindicato Médico do Estado de Santa Catarina )
Médico Pediatra e Intensivista Pediátrico