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Será que não estamos pintando uma imagem distorcida sobre quem são os hackers?

26 de junho de 2011 19

Com a recente série de invasões a sites governamentais, agora só se fala dos “tais hackers”, que estão sendo pintados como os grandes vilões dos nossos tempos.

Meu receio é de que estejamos alimentando uma imagem distorcida sobre o que é ser um hacker.

A cultura hacker nasceu nos laboratórios de universidades da costa leste dos Estados Unidos nos anos 50 e 60. É o que conta Douglas Thomas em um livro chamado “Hacker Culture”. Segundo o autor, os programadores tentavam fazer tudo ao seu alcance para conseguir mais recursos computacionais. Daí os “hacks”, as soluções encontradas, as suas “façanhas” computacionais.

Thomas escreve: “como uma cultura jovem, os hackers estão continuamente procurando formas de perturbar ou romper autoridades e desafiar qualquer entendimento ou representação de quem eles são” (tradução livre).

No meu entendimento, ser hacker é algo para motivo de orgulho. Penso nos hackers que fizeram grandes contribuições à história da computação.

Bill Gates, Steve Wozniak e Linus Torvalds são hackers. Dá para colocá-los no mesmo barco dos caras que invadem servidores para roubar dados lá armazenados? Claro que não, esses ladrões da era virtual são crackers.

Essa tem sido uma inquietação jornalística minha. Se um dos papeis do jornalismo é informar, não acaba sendo um desserviço chamar esses “hackers de mal” simplesmente de hackers? Isso não estaria contribuindo para que a sociedade cada vez mais pense que hacker é algo ruim?

Por outro lado, ao escrever cracker, as pessoas sabem o que é? Nem todo hacker é criminoso. Nem todo hacker é cracker. Isso é algo que precisa ficar claro, muito claro.

Outro livro interessante sobre o tema é “Hackers: Heroes of the Computer Revolution”, de Steven Levy.

O autor conta que, quando escreveu o livro (a primeira edição é de 1984), o termo era obscuro. Por acharem que dificultaria as vendas com o argumento de “Quem sabe o que é um hacker?”, chegaram a sugerir até que mudasse o título.

De acordo com Levy, o termo depois se popularizou com uma conotação negativa, problema que teria começado com prisões de adolescentes que fizeram invasões de sites governamentais ganhando uma ampla cobertura na mídia.

“Foi entendimento dos jornalistas que cobriam essas histórias que se deveria referir a esses jovens como hackers, já que era assim que eles próprios se identificavam”, escreve no livro (tradução livre).

Para marcar os 25 anos da publicação da obra, Levy revisita a história e relata (em um texto que depois foi publicado na revista Wired) que sua ideia era escrever sobre essas pessoas que usavam o computador como instrumento de inovação e criação e não para roubo e vigilância.

Levy se refere a eles como verdadeiros hackers: hackers como Gates e Wozniak. “O tipo de hacker sobre o qual eu escrevi era motivado pelo desejo de aprender e construir, não roubar e destruir”, diz um trecho da reportagem (tradução livre), disponível neste link aqui, em inglês.

E então? Quero os pitacos de vocês. Respostas para a pergunta do título deste post?

Leia também:

Como agem os defacers, os pichadores de site

Preparem-se, as ciberguerras estão chegando

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Comentários (19)

  • Fernando diz: 26 de junho de 2011

    Entendo que a imagem seja distorcida em vários aspectos. O primeiro com certeza é quanto a terminologia usada para definir os ataques e os grupos e/ou pessoam responsáveis pelos mesmo. Atribuo boa parte dessa confusão (hackers, crackers, etc) a péssima qualidade de alguns meios de comunicação no Brasil, que basicamente reverberam (ou reproduzem, através escrita) da escrita o que meios de comunicação de outros países utilizam – se amanhã a imprensa americana passar a utilizar o termo "cracker", aposto que este termo passará a ser usado no Brasil.

    Além disso, pessoas que escrevem sobre o assunto sem ter o menor conhecimento técnico e que utilizam fontes de informação duvidosas.

    Por fim, além da terminologia, confusões nos conceitos e objetivos dos ataques. Mistura-se nos noticiários motivações políticas, com ações de vândalos e estelionatários (indivíduo que toma proveito da ignorância de certas pessoas para tirar proveito para si mesmo) – além de muitas outras.

    Independente da qualidade das informações publicadas, o foco maior é "vender jornais". Generalizar, facilita esse processo de venda.

    Parabéns pelo post, esclarecedor.

  • Luis Fernando.dm diz: 26 de junho de 2011

    Muito bom belo texto, prefeita na colocação.

  • Douglas diz: 26 de junho de 2011

    Pra mim é a UNICA forma de atingir o governo.. não tem outra forma.. ou tem?
    Maioria(Praticamente todos) políticos são sujos.. corruptos.. ladrões..
    Se a policia vai prender, eles vão lá e subornam os policiais..
    Então os crackers, chamados injustamente e sem conhecimento da população de "hackers do mal"
    Tem o poder de mudar e MUITO a imagem dos políticos e da mídia se não informar a população dos acontecimentos reais e verdadeiros.. porque tem emissoras que escondem a verdade, ocultando a real historia..
    Parabéns pelo post..

  • Alberto Fabiano diz: 26 de junho de 2011

    Realmente, está ocorrendo um desserviço não muito diferente do que a mídia já faz em outras áreas.

    Uma boa forma de tentar desmitificar é popularizar termos brasileiros para a expressão "cracker" – visto que em inglês ele faz sentido mas em portugues ele não diz muita coisa, a mídia tenta utilizar o termo "piratas digitais" mas prefiro (e vibro quando a mídia usa) os termos "vândalos digitais" ou "cibercriminosos", mais apropriado em diversos contextos.

    E como comentei, há uma diferença entre o que um indivíduo diz ser e o que de fato ele é, há golpistas e vigaristas em todo lugar e gera vergonha em todas as classes, seja na medicina, jornalismo, engenharia, no meio acadêmico, na indústria do entretenimento ou no meio hacker. Cabe a mídia tentar separar o joio do trigo, há um bons exemplos porém ainda é minoria.

    A idéia dos hacks originais era tirar proveito de forma criativa de algo sem intenção criminosa, sem prejudicar ninguém, apenas chamando a atenção, não havia ali um ideal criminoso apesar de haver a intenção de se tirar proveito pessoal.

    Por outro lado, principalmente em assuntos técnicos e científicos mas não só nestes, a mídia e o mainstream perverte a essência e os editoriais distorcem em evenenam vários assuntos. É muito comum vermos trechos fora de contexto dando um sentido completamente diferente ao que uma fonte ou entrevistado deu, então a mídia é pervertida por natureza.

  • Ismael diz: 26 de junho de 2011

    "Pra mim é a UNICA forma de atingir o governo.."

    Acho esse tipo de pensamento prejudicial. O Tal do sofativismo. Junta a preguiça com o conformismo, e todos fingem que algo aparecer no trending topics vai fazer alguma diferença para um corrupto.

    "não tem outra forma.. ou tem?"

    Tem sim. Qualquer um que tenha assistido a um telejornal, ou lê notícias seja em jornal impresso ou internet sabe das revoltas do Egito e espalhadas pelo oriente médio.

    Viu os espanhóis protestando. Vários exemplos em especial esse ano.

    Sim, tem outras formas, NÓS como nação estamos perigosamente nesse clima de conformismo, e com tudo.

  • Marco diz: 26 de junho de 2011

    Correto o que escreveste, mas única responsável pela vulgarização do termo HACKER foi a própria imprensa que provalmente por desconhecimento generaliza quando se diz respeito a crimes virtuais. Os HACKERS, apesar de serem do bem, também tem algo de "criminoso" pois invadiram uma área particular. Pense, se voce tem uma casa e não coloca muros, não significa que "qualquer um pode entrar no seu pátio", claro que fico mais vulnerável. Isso é o que acontece com os HACKERS, procuram alguma vulnerabilidade ou usam de engenharia social para tirar algum proveito, seja uma vantagem apenas "acadêmica! (hackers) ou uma vantagem pessoal (crackers). Penso que a própria imprensa deve buscar esse esclarecimento assim como estás fazendo no teu texto.

  • Ismael diz: 26 de junho de 2011

    Vanessa.

    Talvez seja interessante entrevistar esse pessoal, eu achei interessante: http://thacker.com.br/

    É um grupo de Hackers que se dedica a pegar informações (legalmente) disponíveis do governo e processá-las. Estudam meios de deixá-las mais acessíveis a leigos de direito, enfim, a população em geral.

    Achei interessante, porque mesmo disponível, as vezes o jargão é tão complicado que equivale a continuar oculta.

  • vanessanunes diz: 26 de junho de 2011

    Obrigada pela dica! :)

  • @ppalaoro diz: 26 de junho de 2011

    Ótima colocação Vanessa. Sabe o que essa falta de informação de pessoas e imprensa me lembra.

    O caso da cultura Skinhead: Despresada pela imprensa e sociedade por nunca ter sido entendida. A cultura skinhead que como a hacker surgiu na decada de 60 também e era referente a uma parcela da classe baixa inglesa que, por ser mais politizada, tentava se segmentar em um grupo que lutava por seus direitos de diversão dentro de um sociedade racista, coisa que o skinhead NÃO É. A cultura skinhead nasceu dos ingleses de classe baixa que gostavam de ska jamaicano, imaginou o quanto o sh era racista no incio? Nada

    Mas a imprensa ao longo da historia(começando na década de 1980) destroçou essa cultura por desentender que uma parcela minima desse grupo seguiam os preceitos de um líder maluco alemão da década de 1930 e 40,

    Se essa terminilogia e diferenciação não for feita com atenção a cultura cracker corre o mesmo risco da tradicional cultura skinhead, desaparecer sob um névoa de desinformação.

    Belo texto, o jornalismo, o nosso trabalho, tem esse papel.

  • Jeferson Antunes diz: 26 de junho de 2011

    Com referência ao livro, naquela época se dedicavam muito mais a tecnologia e descoberta do funcionamento do que nos dias de hoje, onde se encontram tudo mastigado na rede, scripts click-and-hack acessíveis a qualquer um. Os princípios e objetivos daqueles tempos estão muito distantes dos de hoje. Tentar explicar essas diferenças entre uma coisa e outra para as pessoas que não acompanham isso se torna uma tarefa meio complicada, ainda mais se a base de informações e opiniões forem formadas só do que diz a mídia.

  • Diego diz: 26 de junho de 2011

    Marco, você caiu no mesmo "generalismo" da grande imprensa. Eu me considero um Hacker e nunca invadi qualquer sistema, ou mesmo sequer entrei num "sistema aberto ao qual não tinha direito de entrar".
    Ser Hacker não é cometer crime – "tirando vantagem própria ou não". Atividade Hacker não se restringe a "acessar sistemas tecnológicos", vai muito além disso. Veja, por exemplo, a comunidade que o Ismael (abaixo) citou [thacker], da qual eu faço parte. Nossa proposta não é ficar invadindo sistemas e fazendo coisas ilegais.

  • Diego diz: 26 de junho de 2011

    Vanessa, ótimo texto! Estamos mesmo carentes de jornalistas que vão além de "especialistas em tudo" e que realmente pesquisam o que vão publicar, conferem suas fontes, e se preocupam com os termos utilizados.
    Agradeço por esse grande serviço que você prestou à sociedade escrevendo um texto lúcido e bem embasado sobre a cultura Hacker.
    Sinta-se à vontade para conhecer a comunidade THacker (link do ismael ou nosso grupo de emails – thacker@googlegroups.com).
    Abraços

  • vanessanunes diz: 26 de junho de 2011

    Ah, legal, vou dar uma olhada no site de vocês. :-)

  • HURB diz: 26 de junho de 2011

    Hurb,……

    bah bom demais —-<<<<<<<<:->>>>>>>>>>>

    Entendo que a imagem seja distorcida em vários aspectos. —- –

    A cultura hacker sempre foi despresada pela sociedade pelo fato de serem mal compreendidos —- ficaram difamados na sociedade como piratas (ladroes) ———– culpra da midia e sociedade em geral——-bem pra poder se argumentear sobre algo temos que primeiro entender do que se trata pra depois podermos dicernir a respeito e como nossa sociedade em geral tem uma visao curta e distorcida sobre este tipo de atividade quem paga o pato são os crackers e hakers…….

    Tentar explicar essas diferenças entre uma coisa e outra para as pessoas que não acompanham isso se torna uma tarefa meio complicada. não são piratas (piratas rouabam) somos crackers e hacker……gostamos de aprender cada ves mais e mais e aprimoramonos a cada dia…..mas pra entender tudo isso não é facil e por isso fica pior a cada dia,………….. vejo as informações e opiniões serem distorcidas e manipuladas pela própria imprensa esta por sua vez é mais mal informada ainda e acaba repassando ao povo informacoes de forma irresponsável o que leva a vulgarização de tudo……………

    seu testo esta ok

    ser hacker é algo para motivo de orgulho
    eu motivado pelo desejo de aprender e construir, não roubar e destruir

    assim fica meus parabens pelo seu testo,…………

  • Paulo Silva diz: 26 de junho de 2011

    Excelente texto Vanessa. Toda a imprensa nacional está vinculando esses ataques ao sites do governo aos hackers. Deveriam estes sites de notícias e canais de televisão reverem as notícias publicadas e no mínimo colocar no ar um pedido de desculpa a comunidade hacker.

    Eu como leigo e como a maioria das pessoas, não sabia da diferença até pouco tempo, onde a empresa que eu trabalho contratou o serviço de um técnico pra identificar falhas de segurança no site, onde aprendi que cracker entraria no site, e roubaria dados e tal, e um hacker trabalha para o bem em comum, das duas partes, no exemplo, ele identificou uma falha, que foi corrigida e ele ganhou pra isso.

  • Highlander1313 diz: 26 de junho de 2011

    Fernando, me permita discordar veementemente de vc quando vc diz "Mistura-se nos noticiários motivações políticas, com ações de vândalos e estelionatários". Eu concordo que existe uma confusão no termo, que hacker virou pejorativo, etc etc. Acho providencial que gente como a Vanessa escreva sobre o assunto e ajude a jogar luz em algo q é obscuro para maioria. Agora, quando o cara faz uma invasão, um acesso indevido e não permitido, ou um ataque a qualquer página/site/servidor/etc isso é CRIME, absolutamente não interessa qual a motivação do cara! O objetivo do ataque é irrelevante, ataque cibernético é crime e ponto final. Porque se a gente seguir essa linha de raciocínio, vamos ter q discutir as motivações de neguinho q rouba carro e assalta banco, já q ele pode ter os mais diversos motivos. Não leva mau não, mas eu propositalmente "misturo" ataques com motivações políticas com ataques pra roubar senhas, ou seja lá o que for… Os dois são crimes, e devem ser combatidos e os responsáveis punidos…

  • Fernando diz: 26 de junho de 2011

    Entendo seu ponto e acho que faz total sentido. São crimes.

    Mas acho sim que interessa diferenciar e entender as razões, até mesmo porque a pena pelo crime irá variar de acordo com o que é feito. Por exemplo, se há convência de outras pessoas, etc.

    Outro ponto que julgo ser importante é entender o perfil de quem efetua o ataque para que seja possível a execução de medidas pró-ativas.

    Se você colocar "crime é crime" e mandar o adolecente para a cadeia comum, por exemplo, fatalmente formará um infrator muito pior (de acordo com as características do sistema penitenciário brasileiro).

    Ao passo que se você conseguir diferenciar poderá atuar no tratamento de forma diferente e atuar também na raíz do problema.

    [ ] 's

    Fernando.

  • merhis diz: 27 de junho de 2011

    Olha essa noticia: http://www.esporte.gov.br/ascom/noticiaDetalhe.js
    chegou a ver o que o grupo LulzSecurity postou?
    dê uma olhada e tire suas conclusões. http://lulzsecurity.com.br/2011/06/page/2/

  • O que seria um ônibus hacker? | Vanessa Nunes diz: 18 de julho de 2011

    [...] Será que não estamos pintando uma imagem distorcida dos hackers? [...]

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