(Atenção, leitor! Esta é uma carta sobre Roma da qual participará, implicitamente, Felipe. Impressões colhidas a 4 olhos e a 2 almas, pois.)
cúmplicemeu,
Sorvo água quente, com um Comptoir Richard. O chá de versão verde com jasmim. Perfumando a noite, que elabora, lá fora, um vento dos mais gelados. Que tal Praga, nesta quarta-feira exigente? E o azul licoroso dos seus olhos? Penso, aqui, na hora cheia do relógio astronômico, fazendo graça na Praça (rima pobre para uma imagem nobre). Sexta está quase aí - levarei caixa nova de chás e também um artigo com os tchecos e os alemães, mas, agora, peço licença de nós, para falar aos leitores sobre Roma.
______________________________________________________________________________________________
Direto ao linguine à bolonhesa, leitor. Eis por que Roma, para mim, é mais interessante do que Paris: vive-se, lá. As crianças vão à escola, o tiramisu é feito em casa, o motorista buzina para o carro da frente enquanto gesticula para o transeunte, os casais sentam-se nos banquinhos para viver-a-vida-verdadeira em meio à "turistada", anda-se de quadriciclo em parques históricos. Atenção, muita atenção: o Starbucks NÃO existe em solo italiano, leitor! Não ousa desafiar a tradição italiana dos cafés verdadeiros. Haja personalidade, romanos! Mas, ai, como fumam! Valei-me!
Paris tem os melhores chás (os ingleses são quase sempre do tipo fermentado, black tea, sem o aroma suave e perfumado dos chás verdes e lavandados da França), as mais lindas sapatilhas, o charme das pequenas delicadezas, paisagens oníricas, uma língua très belle, Museus extensíssimos, uma atmofesra mágica. Mas, parafraseando o Felipe, Paris-parece-raptada-pelos-turistas. Onde, raios, estão os parisienses vivendo a vida, enquanto hordas consomem a paris-para-estrangeiros-ver? Ai, a inteireza sem brechas de Roma!
Camadas-de-História.
Não, leitor, não escrevinharei, mais abaixo, sobre as dicas-e-os-lugares-e-as-pizzas-e-os lattes-macchiatos-e-a-capela-sistina-que-é-algo-miraculoso-e-estonteante-mesmo-e-os-guardinhas-que-gritam-no-pictures-please-876-vezes-durante-um-só-dia-de-trabalho-e-tartufo-nero-e-as-2-linhas-de-metrô-e-o-Vaticano-e-a-cúpula-de-são-pedro-e-o-panteão-e-o-preço-da-garrafa-de-água-no-coliseu-originalmente-chamado-de-anfiteatro-flávio. Nananinanão. Farei jejum do guia para turistas (generalizando perigosamente, como notarão). Incensemos Roma, hoje, com um poucachinho só do Mercado de Trajano e do Fórum Romano. Abro parênteses para deixar registrado este roteiro clássico a mais: a Casa em que Lívia morou com o marido, Otávio Augusto - mais tarde, apenas "Augusto", primeiro Imperador de Roma, no ano 27 a.C.-, incrustrada no Monte do Palatino. As ruínas estão ladeadas pelo Coliseu e pelo Circo Máximo. Fecho parênteses.
O Mercado de Trajano, localizado na Via Foro Imperial, foi erguido a pedido do Imperador que dá nome à construção, em 107 d.C. Trajano foi o primeiro Imperador nascido fora de Roma (tem origem espanhola) e a ideia original era a de congregar lojas e escritórios em um único espaço. A História situa este Mercado como o precursor do conceito de shopping center. No andar superior, localizavam-se as atividades administrativas do comércio, e, no térreo, lojas que comerciavam gêneros alimentícios e mesmo artesanato. A planta é semicircular, construída em arcos, com tijolos. Pausa para o café 1. Os italianos tem dessas: muito próximo do Mercado, há uma enorme construção de metrô.

Mercado de Trajano - Roma.
O Fórum Romano fica do lado oposto do Mercado (são do mesmo período), e não por acaso. Tratava-se do centro político e econômico do Império, formando, com o Mercado, quase que um complexo único. O Fórum foi palco do assassinato do Imperador Júlio César, no Senado, por Bruto e Cássio, e abriga o Arco de Tito, todo ele em mármore, construído para celebrar uma derrota da Judéia (hoje, Palestina). Pausa para o café 2: nosso querido amigo Renato Domith Godinho, o pai do Martim, nos levou para conhecer, digamos, mais concretamente, o apaixonante caos romano. Júlio César construiu um Teatro, o Marcelo, em homenagem ao primo, Marcus Claudius Marcellus. Lá estávamos, Felipe e eu, a contemplar a ruína quando, tchãnã: Renato nos explica que a luz acesa através da janela, no que seria a parte de trás do Teatro, é de uma residência. Leitor, uma espécie de "puxadinho" abriga, no topo do Teatro, alguma família romana. É curiosíssimo como a Roma atual se acomoda entre as ruínas imperiais, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.
Correm horas. Encerro aqui, hoje, com verso encantatório: "Escrevo isto para dar testemunho do adverso milagre". Bioy Casares.
Lívia
![]()
Fórum Romano - Roma.

