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Para onde me levou Joyce.

18 de outubro de 2010 5

     O outono inglês enregela Nicholson Street, que espiei há pouco, através

da janela, daí por que aqueço a casa de dentro com chá – verde com menta.

Rememorizemos: quando em Zurique, Joyce-me-mandou-para-Copenhague

e o causo é que havia um motivo mágico implícito: Joyce recomendou-me à

casa da Baronesa. Karen Blixen, escritora dinamarquesa, me acompanhou

alguns anos atrás, a caminho do Quênia.  No trajeto, li A Fazenda Africana,

o maravilhoso romance (autobiográfico), de 1937, que celebrizou-se no

cinema (“Entre Dois Amores”), com Meryl Streep no papel de Blixen,

 e Robert Redford transformado em Denys Hatton.

     

          O livro, leitor, foi reeditado no Brasil, há 3 ou 4 anos, com tradução

caprichada, pela CosacNaify, numa edição linda, que compõe a

 “Coleção Mulheres  Modernistas” (tem também Virginia Woolf e Katherine

Mansfield na caixinha colorida).

          Vamos, pois, à Baronesa Blixen. Peguei o trem em Copenhague às 13h12

e cheguei em Rungsted, localizada na riviera dinamarquesa, Norte de

Copenhague, às 13h58. O sol matizava as cores vibrantes dos barquinhos

ancorados no Porto, e, mesmo fazendo frio, não havia flor que, nos

canteiros das calçadas, não estivesse inclinada, em deleite coletivo com as

 outras plantas, a escorregar pelo amarelo solar. Bicicletas, bicicletas,

 bicicletas – comento quando chegar a vez de Copenhague, na quarta.

     Logo ali, dobrando a esquina, tendo os barcos todos ancorados no Porto,

de um lado, e um casarão branco, cercado de verde, do outro, antevi a

plaquinha: Museu Karen Blixen.

      Entrei, então, leitor, na casa da Baronesa – casa esta onde nasceu

e morreu. A experiência foi bastante forte, razão pela qual chorei alegrias -

e não poucas. Joyce me levou até lá.

                                

       A casa foi comprada pela família em 1879, os aposentos principais estão

mantidos à perfeição, como se a dona da casa fosse entrar a qualquer

momento. Karen lá nasceu em 1885, e morreu em 1962. A história dela,

leitor, precisa chegar antes de nos sentarmos em frente à lareira, na sala de

jantar.

     Karen Blixen casou-se com um primo, o Barão Blixen-Finecke, com quem

partiu para o Quênia, por conta do empreendimento de uma fazenda de café.

No primeiro ano de casamento, contraiu sífilis, transmitida pelo marido,

doença com a qual lutou durante toda a vida. Separou-se oito anos depois e

gerenciou, sozinha, a partir de então, a fazenda, onde morou durante 17

anos. Foi lá que começou a escrever e foi lá, também, que se apaixonou

pelo piloto inglês Denys Hatton, com quem viveu uma relação intensa até

a morte dele, ocasionada pela queda do avião que pilotava, em 1931. Blixen,

então, retornou à casa em Rungsted, na Dinamarca, tendo a fazenda custado

uma falência e lhe dado, em contrapartida, o belo exercício da vida em

contato com a África selvagem e o reencontro consigo mesma. O pai de

Blixen suicidou-se quando ela era, ainda, criança, ao descobrir ser

portador de sífilis. Não ouso chamar a atenção para o que seria “irônico” 

porque a maquinaria misteriosa das famílias me é sagrada,

 mas o doloroso da história é que ela teria se curado da doença. O que a

teria matado, dizem os registros do Museu, foi a quantidade de metais

danosos que continou ingerindo, a pedido dos médicos. Morreu em 1962,

com 35 quilos, tendo perdido metade do estômago, incapaz de ingerir

alimentos sólidos.

                          


          Entra-se na casa da Baronesa com os pés bem protegidos por uma

sapatilha de tecido, a pedido do Museu.  No andar superior, está a

 biblioteca particular e todos os livros escritos por ela. Misturam-se a eles

 pequenos objetos que prenunciam a África, mas com muita delicadeza,

 quase que sem se fazer  notar. Porque está aí o verdadeiro pertencimento

 de uma casa, creio: na harmonia das histórias contadas pelos objetos.

No hall que dá acesso à “Sala de Jantar”, telas pintadas por ela – Blixen

 estudou Belas Artes na juventude e retomou a pintura no período africano

-  e a história de uma família: retratos, móveis pertencentes à mãe, a mesa

 de jacarandá, flores (muitas flores, que ela adorava arranjá-las, coloridas,

 e espalhá-las pela casa), samovares russos nunca usados (fiz questão de

 perguntar porque, leitor, se o samovar é russo, há chá!), um biombo

 francês com pintura oriental. Sentei-me num dos sofás e lá fiquei.

 8 minutos, talvez. O lugar é calmíssimo, as pessoas são respeitosas, não há

 hordas preocupadas com as fotografias.

         Caminhei coisa de metro e meio, pelo corredor, e deparei-me com a

“Sala Verde”, usada por ela, no retorno da África, nos períodos de inverno,

e oferecida aos hóspedes, durante o resto do ano. A decoração é simétrica,

sempre: dois vasos, duas telas, dois jogos de porcelana. No escritório que

pertenceu ao pai, está o abajur que acompanhava suas incursões literárias,

à noite, no Quênia. Os quartos, leitor, não estão disponíveis, mas há, ainda,

um pequeno tesouro na casa: a área verde.

           Karen Blixen doou a propriedade, antes de morrer, e pediu para

que o terreno amplo da parte de trás fosse dedicado aos pássaros, que ela

amava tanto quanto as flores. Caminhei pelo verde, onde há, também,

uma pontezinha japonesa, e eis que, numa clareira mais escondida, onde

mora um carvalho imenso, de copa muito, muito larga, está a lápide,

simples, onde se lê: Karen Blixen. Não há frases, datas, exageros de ordem

alguma.  O que há, leitor, é um carvalho enorme abraçando, do alto, a

lápide, cuidando para nela soprar algumas folhas. A perfeita fusão com a

natureza, entre partes da natureza – o carvalho, os pássaros, Karen Blixen.

Tolstoi tem um conto que narra divinamente esta mistura, ainda que, na

história dele, a protagonista carregue valores opostos aos da Baronesa.

Chama-se “Três Mortes” ( a CosacNaify publicou o conto em “O Diabo

e outras histórias”. Se pegar o livro para ler, vá ao encontro de “Kholstomér”.

Um primor).

                Karen Blixen assinou muitos livros como Isak Dinesen, seu pseu-

dônimo, e, em 1954, perdeu o Nobel para Hemingway. Recentemente,

a Academia Sueca abriu seus arquivos ao público e soube-se, então, que,

em 1959, Karen Blixen era a franca favorita ao Nobel, tendo sido, no

último momento, refutada, porque um dos votantes argumentou que 4

Prêmios já haviam sido entregues a autores escandinavos. Reflexão

de um minuto diante do fato. Silencio aqui.

            A Fazenda Africana é um livro de grande valor, especialmente pelas

quantidades generosas de alma que moram na história. O famoso conto da

autora, A Festa de Babette, é mágico, e também foi adaptado para o cinema,

 mas chamo a atenção para Sete Narrativas Góticas, que tem elementos de

literatura fantástica – anacronismo, metamorfoses, onirismo. Não se abre

à leitura de imediato, não tem o perfume da África de A Fazenda Africana

nem as especiarias gastronômicas de A Festa de Babette, e, ainda assim,

é uma beleza, se comparado ao conjunto da obra.

           Sugiro uma pequena incursão pelas letrinhas blixianas, acompanhada

de um cappuccino fumegante, na próxima visita à biblioteca. Aliás, no

Museu Karen Blixen,  há um Café cheiroso e colorido. Há,

no Quênia, um outro Museu dedicado a ela, mas  não se trata da casa onde

viveu – reúne os objetos usados no filme.

          Sendo Literatura, será sempre amor a palavra, daí que me despeço

com a viva recomendação de Flaubert: “Leia para viver”, mas tendo a

missiva se abastantado, mais de um selo é requerido paraa  postagem.

Comemorativo à Karen Blixen: “Você já foi ousada. Não permita que a

amansem”. Isadora Duncan.

       Até quarta, com Copenhague.

                             Lívia



Comentários (5)

  • cherokee diz: 19 de outubro de 2010

    MEGNIFICO!!!!!!!!! Lembro do filme.Uma obra prima com dois atores excepcionais.
    Livia,tua visão sobre momentos exclusivos teus sobre Literatura e autores são de uma grandeza sem limites.Parbéns!Teus “blogues” limpam a alma de quem os lê.

  • PP diz: 19 de outubro de 2010

    Belíssimo post. Nunca li Blixen, mas vejo que devo fazê-lo correndo.

  • Margarida diz: 21 de outubro de 2010

    A descrição que fazes da casa da escritora Karen Blixen é muito linda!!! Vi os dois filmes que foram citados . Ótimos. Já estou de posse do livro ” A Fazenda Africana” e pretendo inicir a leitura logo.
    Os teus textos fazem isso com a gente, Lívia! Nos levam para lugares lindos, apresentam conjeturas interessantes e nos dão uma vontade ENORME de ler. Parabéns por tudo isso!

  • Salgueiro diz: 22 de outubro de 2010

    E a foto da lápide com a árvore? Fiquei curioso

  • bino diz: 23 de outubro de 2010

    O livro-filme Entre dois Amores é uma obra pirma, e quem não leu o livro leia porque ele é melhor do que o filme! bino

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