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Posts do dia 26 outubro 2010

Escrevinhando Berlim.

26 de outubro de 2010 4

     Era domingo e chovia. Berlim, toda ela protegida atrás dos vidros,

em arranha-céus que competem com os de Nova York,travou

uma luta arraigada com meu íntimo. De um lado, o símbolo magnânimo

da Prússia, da República de Weimar, da ex-Alemanha Oriental,

da ex-Alemanha Ocidental. Do Muro. De outro, o cinza, o concreto,

os canteiros de obras, os vazios urbanos, a arquitetura excessivamente

contemporânea, os amplos panos de vidro. Berlim não me

seduziu. Estou, agora, generalizando precocemente, que a

alma da cidade é toda ela muito sentida e de não pouca personalidade,

mas não a coloco nos termos urbanos de Paris, Roma, Londres,

Praga e mesmo Copenhague. E se não o faço, e se assim ela

não se mostra, é porque Berlim carrega, em suas costas surradas,

um lombo calejado, com a História a lhe atravessar as vísceras,

nem sempre com trégua. Berlim, esta altiva senhora, merece e invoca,

com naturalidade, respeito. Que sua história é das mais doídas.  A capital alemã não toma para si

a alcunha da vitimização, o que não quer dizer que isso lhe torne

o caminho mais suave. Forte desde o princípio, ainda hoje

apresenta-se inteira em sua vocação mais rapidamente

sentida: a de sucessivos reerguimentos depois de muitas quedas.

           Berlim está dividida, literalmente, em mitte (meio),

o centro. À época da Guerra Fria, era o ponto exato

da divisão entre o Leste e o Oeste da cidade. Hoje, abriga o

Parlamento, a Chancelaria Federal e escritórios a granel.

É curioso observar como o nacionalismo alemão, tão presente

na retórica, vai de encontro aos fatos: o principal Banco

da Alemanha não pertence aos alemães. É de propriedade majoritária

de investidores estrangeiros. Não se pode desconsiderar a

importância da manutenção da identidade, este algo tão valioso,

sobretudo neste mundo controverso, e o importante é que

o poder da marca de um Banco nacional supera a percepcao

de quem o maneja. Assim também acontece com detalhes

pequeníssimos, como o sorvete. O coração branco no fundo

vermelho, logomarca da nossa Kibon, é, leitor, o símbolo

mais poderoso do capitalismo mundial nos países da Europa!

Explico. A cada país europeu, assume um novo codinome:

Langnese (Alemanha), Algida (Itália), Frisko (Dinamarca),

Miko (França), Walls (Reino Unido). Neste mosaico de

ressignificados locais, ouso inserir Berlim. A harmonia do

conjunto é híbrida, da Arquitetura aos ícones de referência.

Tenhamos em mente, contudo, o senso histórico: dividida em duas,

Berlim, ainda hoje, tem uma paisagem fragmentada.

                 

              A famosa Alexanderplatz, praça central da antiga Berlim

Oriental, apresenta vácuos e espaços vazios, que raramente

parecem lembrar o conceito de praça. A popular antena-de-Berlim,

Berliner Fernsehturm, polui o visual do centro, sobretudo à

noite, com suas cores fluorescentes a dançar pelo mastro.

Os prédios comerciais, altíssimos, são inteiramente feito

de vidro e aço, assim como a maioria dos shoppings, galerias

e estações de trens. Muitos centros comerciais apresentam-se

ao estilo Bauhaus, mas em uma leitura inautêntica, que

remete ao concreto, ao cinza e às logomarcas das lojas.

            Invoco, contudo, a atenção para o fato de que são

estas impressões atravessadas pelo gosto pessoal. Não se

deixe enlevar pelo que escrevo gratuitamente, sem aguçar

o senso crítico. Isto posto, vamos do cinza para as cores.

Comecemos pelas tonalidades vertiginosas de amarelo e vermelho que pintam

as árvores neste outono gelado. São exageradamente lindas,

as árvores em suas cores combinadas, num dégradé quase

mágico. É fato: também as árvores conversam e cuidam

de apurar, juntas, o senso estético da natureza. Berliner

Don, a Catedral de Berlim, bombardeada durante a

Segunda Guerra Mundial,  foi reinaugurada em 1993 (depois de 4

décadas sob restauro), e deslumbra. Embora não seja, de fato,

uma Catedral, dadas suas raízes evangélicas, é um tesouro

neoclássico. A vista, das escadarias do edifício central,

abriga o complexo de Museus. Tudo está localizado na

Unter den Linden, avenida que reúne edifícios barrocos

e neoclássicos da era imperial.

           

             Caminha-se belamente pela charmosa avenida quando,

ao final dela, avista-se o ícone alemão de grande

envergadura histórica: o Portão de Brandemburgo, com

suas seis colunas dóricas a elevar, no alto, uma quadriga.

Quadriga esta que morou bons anos na França: Napoleão

cuidou de levá-la para seus plagos, como símbolo da vitória,

depois de invadir a cidade por meio do Portão. De volta

para casa, em 1814, a quadriga não de todo fixou-se em paz,

no alto do monumento. Tendo estado voltada para o Oeste,

desagradou Stalin, que mandou que invertessem sua posição.

Para Leste, com os olhos voltados para Berlim Oriental.

Por ora, nada-de-novo-no-front: está posicionada como na

origem. E em casa.

           Caminha-se, caminha-se, caminha-se, e, onde,

raios, estão os restaurantes?! Em pleno centro, ponto de

interesse de turistas (na Alemanha,

delicados, sem a invasiva máquina a

ler a matriz de real em substituição aos sentidos),

nada de restaurantes. Cafés aos montes - o que, aliás,

é outro elogio à cidade. Muitos Cafés charmosos e um chá

de sabor suave e predominantemente verde. Chama-se

MeBmer, a marca dos que provei. A mistura de chá branco

com chá verde é particularmente especial. Sabor quase

macio. É facilmente encontrado em supermercados e

delicatessens, Cafés e restaurantes. A caixinha custa algo

em torno de 2 euros e as misturas de sabores são muito

harmoniosas - eu, que não gosto de mel, adorei o de menta

com o composto das abelhas. Se for à Alemanha e gostar

de chá,  experimente (os alemães, aliás, foram

os primeiros grandes bebedores de chá desta Europa,

ao contrário do que se pensa, creditando o hábito aos ingleses

desde sempre). Mas voltemos aos restaurantes:

a sorte  sorri quando se encontra um italiano. Em

Berlim, o cardápio das trattorias mantêm um

padrão: há quase sempre, no menu, a opção "tripasta", invariavelmente

uma mistura fixa de nhoque ao molho de tomate, spaghetti

ao molho pesto e penne à bolonhesa. Benissimo!

          

           Diz-se que a vida noturna, na cidade, é majestosa,

para os notívagos de plantão. Sinto, leitor, em não poder

lhe informar a respeito, que nenhuma intimidade mantenho

com o tema. Chama a atenção, pelas ruas, contudo,

a menor incidência de cigarros, se comparada àquelas

do Reino Unido e da Itália. O tabaco (assim como a bebida)

é assunto de saúde pública para

os ingleses, em razão de os jovens fumarem e beberem

muito. É comum encontrar colegiais aparentando pouco

menos que o dobro da própria idade, em decorrência da

pele embaçada e das olheiras ainda discretas. Na Alemanha,

contudo, há menos fumaça.

           Berlim apresenta um custo de vida razoável, e,

no que tange à sensorialidade dos sabores, uma gama infindável

de chocolates, incluindo sabores de violeta e o clássico

marzipan, a pasta suave de amêndoas doces. Há excelentes

livrarias, com títulos e autores dos melhores,  e mesmo seções para

bibliófilos, com capas coloridas e papéis especiais. Estou

às voltas com Herta Müller, que lerei pela primeira vez

(em inglês). E por falar em dedo de prosa, recomendo, com

singeleza, Seda, do italiano Alessandro Baricco.

Em terras alemãs, voltei com a versão do belo romance

no idioma original, para azeitar  a intimidade bonita

com a língua, que estudo com amor. O livro, em português,

tem uma bonita capa à oriental, pela Cia das Letras, e

é sensorial na medida do que se pretende um sonho. A leitura

tem ares de fábula, o enredo é econômico, as palavras são escolhidas

a dedo, sem desperdício de sentidos. Havendo possibilidade

de recolhimento para estar em companhia literária, orne-se

 a alma com a leitura do Baricco. É, no mínimo, sensorial.

           Valei-me! Já é muito noite, leitor. Vou-me-embora

para-Pasárgada. O selo, hoje, será ibérico, em contraste

com o centro-norte europeu. Ei-lo:

     "Uma mentira são duas degradações; deixamos de nos respeitar porque afirmamos

o falso e deixamos de respeitar o outro porque o lançamos

em erro". Eça de Queiroz.

                       Lívia