Era domingo e chovia. Berlim, toda ela protegida atrás dos vidros,
em arranha-céus que competem com os de Nova York,travou
uma luta arraigada com meu íntimo. De um lado, o símbolo magnânimo
da Prússia, da República de Weimar, da ex-Alemanha Oriental,
da ex-Alemanha Ocidental. Do Muro. De outro, o cinza, o concreto,
os canteiros de obras, os vazios urbanos, a arquitetura excessivamente
contemporânea, os amplos panos de vidro. Berlim não me
seduziu. Estou, agora, generalizando precocemente, que a
alma da cidade é toda ela muito sentida e de não pouca personalidade,
mas não a coloco nos termos urbanos de Paris, Roma, Londres,
Praga e mesmo Copenhague. E se não o faço, e se assim ela
não se mostra, é porque Berlim carrega, em suas costas surradas,
um lombo calejado, com a História a lhe atravessar as vísceras,
nem sempre com trégua. Berlim, esta altiva senhora, merece e invoca,
com naturalidade, respeito. Que sua história é das mais doídas. A capital alemã não toma para si
a alcunha da vitimização, o que não quer dizer que isso lhe torne
o caminho mais suave. Forte desde o princípio, ainda hoje
apresenta-se inteira em sua vocação mais rapidamente
sentida: a de sucessivos reerguimentos depois de muitas quedas.
Berlim está dividida, literalmente, em mitte (meio),
o centro. À época da Guerra Fria, era o ponto exato
da divisão entre o Leste e o Oeste da cidade. Hoje, abriga o
Parlamento, a Chancelaria Federal e escritórios a granel.
É curioso observar como o nacionalismo alemão, tão presente
na retórica, vai de encontro aos fatos: o principal Banco
da Alemanha não pertence aos alemães. É de propriedade majoritária
de investidores estrangeiros. Não se pode desconsiderar a
importância da manutenção da identidade, este algo tão valioso,
sobretudo neste mundo controverso, e o importante é que
o poder da marca de um Banco nacional supera a percepcao
de quem o maneja. Assim também acontece com detalhes
pequeníssimos, como o sorvete. O coração branco no fundo
vermelho, logomarca da nossa Kibon, é, leitor, o símbolo
mais poderoso do capitalismo mundial nos países da Europa!
Explico. A cada país europeu, assume um novo codinome:
Langnese (Alemanha), Algida (Itália), Frisko (Dinamarca),
Miko (França), Walls (Reino Unido). Neste mosaico de
ressignificados locais, ouso inserir Berlim. A harmonia do
conjunto é híbrida, da Arquitetura aos ícones de referência.
Tenhamos em mente, contudo, o senso histórico: dividida em duas,
Berlim, ainda hoje, tem uma paisagem fragmentada.
A famosa Alexanderplatz, praça central da antiga Berlim
Oriental, apresenta vácuos e espaços vazios, que raramente
parecem lembrar o conceito de praça. A popular antena-de-Berlim,
Berliner Fernsehturm, polui o visual do centro, sobretudo à
noite, com suas cores fluorescentes a dançar pelo mastro.
Os prédios comerciais, altíssimos, são inteiramente feito
de vidro e aço, assim como a maioria dos shoppings, galerias
e estações de trens. Muitos centros comerciais apresentam-se
ao estilo Bauhaus, mas em uma leitura inautêntica, que
remete ao concreto, ao cinza e às logomarcas das lojas.
Invoco, contudo, a atenção para o fato de que são
estas impressões atravessadas pelo gosto pessoal. Não se
deixe enlevar pelo que escrevo gratuitamente, sem aguçar
o senso crítico. Isto posto, vamos do cinza para as cores.
Comecemos pelas tonalidades vertiginosas de amarelo e vermelho que pintam
as árvores neste outono gelado. São exageradamente lindas,
as árvores em suas cores combinadas, num dégradé quase
mágico. É fato: também as árvores conversam e cuidam
de apurar, juntas, o senso estético da natureza. Berliner
Don, a Catedral de Berlim, bombardeada durante a
Segunda Guerra Mundial, foi reinaugurada em 1993 (depois de 4
décadas sob restauro), e deslumbra. Embora não seja, de fato,
uma Catedral, dadas suas raízes evangélicas, é um tesouro
neoclássico. A vista, das escadarias do edifício central,
abriga o complexo de Museus. Tudo está localizado na
Unter den Linden, avenida que reúne edifícios barrocos
e neoclássicos da era imperial.
Caminha-se belamente pela charmosa avenida quando,
ao final dela, avista-se o ícone alemão de grande
envergadura histórica: o Portão de Brandemburgo, com
suas seis colunas dóricas a elevar, no alto, uma quadriga.
Quadriga esta que morou bons anos na França: Napoleão
cuidou de levá-la para seus plagos, como símbolo da vitória,
depois de invadir a cidade por meio do Portão. De volta
para casa, em 1814, a quadriga não de todo fixou-se em paz,
no alto do monumento. Tendo estado voltada para o Oeste,
desagradou Stalin, que mandou que invertessem sua posição.
Para Leste, com os olhos voltados para Berlim Oriental.
Por ora, nada-de-novo-no-front: está posicionada como na
origem. E em casa.
Caminha-se, caminha-se, caminha-se, e, onde,
raios, estão os restaurantes?! Em pleno centro, ponto de
interesse de turistas (na Alemanha,
delicados, sem a invasiva máquina a
ler a matriz de real em substituição aos sentidos),
nada de restaurantes. Cafés aos montes - o que, aliás,
é outro elogio à cidade. Muitos Cafés charmosos e um chá
de sabor suave e predominantemente verde. Chama-se
MeBmer, a marca dos que provei. A mistura de chá branco
com chá verde é particularmente especial. Sabor quase
macio. É facilmente encontrado em supermercados e
delicatessens, Cafés e restaurantes. A caixinha custa algo
em torno de 2 euros e as misturas de sabores são muito
harmoniosas - eu, que não gosto de mel, adorei o de menta
com o composto das abelhas. Se for à Alemanha e gostar
de chá, experimente (os alemães, aliás, foram
os primeiros grandes bebedores de chá desta Europa,
ao contrário do que se pensa, creditando o hábito aos ingleses
desde sempre). Mas voltemos aos restaurantes:
a sorte sorri quando se encontra um italiano. Em
Berlim, o cardápio das trattorias mantêm um
padrão: há quase sempre, no menu, a opção "tripasta", invariavelmente
uma mistura fixa de nhoque ao molho de tomate, spaghetti
ao molho pesto e penne à bolonhesa. Benissimo!
Diz-se que a vida noturna, na cidade, é majestosa,
para os notívagos de plantão. Sinto, leitor, em não poder
lhe informar a respeito, que nenhuma intimidade mantenho
com o tema. Chama a atenção, pelas ruas, contudo,
a menor incidência de cigarros, se comparada àquelas
do Reino Unido e da Itália. O tabaco (assim como a bebida)
é assunto de saúde pública para
os ingleses, em razão de os jovens fumarem e beberem
muito. É comum encontrar colegiais aparentando pouco
menos que o dobro da própria idade, em decorrência da
pele embaçada e das olheiras ainda discretas. Na Alemanha,
contudo, há menos fumaça.
Berlim apresenta um custo de vida razoável, e,
no que tange à sensorialidade dos sabores, uma gama infindável
de chocolates, incluindo sabores de violeta e o clássico
marzipan, a pasta suave de amêndoas doces. Há excelentes
livrarias, com títulos e autores dos melhores, e mesmo seções para
bibliófilos, com capas coloridas e papéis especiais. Estou
às voltas com Herta Müller, que lerei pela primeira vez
(em inglês). E por falar em dedo de prosa, recomendo, com
singeleza, Seda, do italiano Alessandro Baricco.
Em terras alemãs, voltei com a versão do belo romance
no idioma original, para azeitar a intimidade bonita
com a língua, que estudo com amor. O livro, em português,
tem uma bonita capa à oriental, pela Cia das Letras, e
é sensorial na medida do que se pretende um sonho. A leitura
tem ares de fábula, o enredo é econômico, as palavras são escolhidas
a dedo, sem desperdício de sentidos. Havendo possibilidade
de recolhimento para estar em companhia literária, orne-se
a alma com a leitura do Baricco. É, no mínimo, sensorial.
Valei-me! Já é muito noite, leitor. Vou-me-embora
para-Pasárgada. O selo, hoje, será ibérico, em contraste
com o centro-norte europeu. Ei-lo:
"Uma mentira são duas degradações; deixamos de nos respeitar porque afirmamos
o falso e deixamos de respeitar o outro porque o lançamos
em erro". Eça de Queiroz.
Lívia

