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Posts de outubro 2010

Confabulando.

28 de outubro de 2010 3

       Já lá se vão 6 anos: no primeiro dia do ano letivo, uma escola em Beslan,

na Ossétia do Norte (Rússia), foi invadida por milicianos que exigiam a retirada

das tropas da Rússia da Chechênia, e o reconhecimento de independência da

república. Nas fotografias, as meninas sorriam com laços de fitas cor-de-rosa pelos

cabelos, por certo ansiosas para o início das aulas. Pulemos o enredo de pânico

que contrasta com a imagem: o resultado foi a morte para mais de 300 pessoas.

Maciçamente, crianças.

            Dois anos antes, um Teatro, em Moscou, foi invadido por insurgentes.

170 pessoas morreram. Estes dois episódios não se pretendem ilustração para o reclame

contra a violência pura e simples; olhemos, um pouco, para o Norte do

Cáucaso, este lugar tão distante da nossa realidade geográfica, e, por isso, alvo

tão facilmente associado ao exotismo, à guerra e ao terror.

                      

               A região do Cáucaso agrega mais de 8 milhões de pessoas, que falam

mais de 30 línguas diferentes, dialetos múltiplos, e são mais de 40 etnias

agrupadas entre turcos, iranianos e caucasianos. Todos os grupos mantêm

uma relação identitária forte com seus próprios costumes, e há, ainda, a

complexa configuração religiosa: à exceção dos ossetas e eslavos, que são, majoritariamente,

cristãos ortodoxos, e dos tártaros, de origem judia, a população restante é

muçulmana. A Chechênia e o Daguestão, cenários mais conhecidos da imprensa,

têm tradição Sufi.

            Ao contrário do que parece, contudo, a violência extremada da região não

está associada diretamente ao nacionalismo ou às questões religiosas. Note bem,

leitor: ambos são elementos fundamentais do caldeirão, mas a preponderância

do terror está mais intimamente ligada às questões históricas, de culturas

habituadas a ter a jugular mordida pelos russos.

          A escalada de violência na região aumentou depois das duas guerras

da Chechênia (1994 – 1996 e 1999 até os dias atuais, respectivamente. Lembro que,

em 2009, o Kremlim anunciou o fim da segunda guerra contra a Chechênia,

mas apenas oficialmente). A resposta de Moscou aos conflitos no Cáucaso

começaram por meio da compra de lealdade de líderes de elites locais ao

Kremlim. Em troca, os russos garantem (conjugo o verbo no presente porque

a estratégia se mantém) o repasse de recursos (mais de 85%

dos recursos financeiros da região são oriundos de Moscou) e a manutenção

do poder dos escolhidos.

       Em 1996, Boris Yeltsin negociou o cessar-fogo com os rebeldes checheno

sugerindo a independência de facto (na prática), e não de jure (garantida

legalmente). Em 1999-2000, a questão chechena foi tema de grande importância

na campanha presidencial do atual Primeiro Ministro russo, Vladimir

Putin. As coisas mudaram, contudo, a partir de 2007. Putin passou a promover

o que ficou conhecido como “chechenização” da região: colocou

no poder o Presidente Ramzan Kadyrov, que é um conhecido corrupto

 checheno, envolvido no assassinato da jornalista investigativa

Anna Politovskaya, uma das vozes mais críticas da Política da região. Parênteses:

durante o governo Putin, 11 jornalistas foram assassinados (veneno foi

o principal catalisador na maioria dos casos) e nenhum foi investigado.

 Fecho parênteses.

      Desde então, a Economia chechena avançou (languidamente) e o apetite pela

secessão diminuiu. Putin, ao contrário de Yeltsin, prometeu aos russos que

não negociaria, em hipótese alguma, com os rebeldes, durante a segunra guerra

da Chechênia. A imagem de um líder forte, centralizador e estrategista,

enraizada na cultura soviética, garantiu boa parte da reserva de prestígio de

Putin – ainda hoje, com Medvedev na Presidência, Putin é a figura política

mais poderosa da Rússia, de acordo com pesquisa de opinião recente.

       As sucessivas tentativas de insurgência, por parte do Cáucaso, são

manifestações em prol da independência das repúblicas, mas esta região não

se tornou pobre depois da queda da URSS. A região é pobre desde sempre.

 Inconformados com a corrupção arraigada, a falta de canais políticos legítimos

de expressão, os níveis absurdos de desemprego, a ausência de eleições

(os líderes locais são apontados por Moscou. recentemente, Medvedev

conferiu um sopro de “democratização” ao Cáucaso: agora, Moscou recebe

uma lista com 3 indicações de nomes e elege o que melhor lhe convém.

antes, inexistia lista – !), os jovens (sobretudo, homens) buscaram na religião

uma opção política e o comprometimento com a causa religiosa implica

ir contra todos aqueles que não a conclamam. O islamismo promete, aos jovens,

diminuir a violência, equalizar o sistema social e elevar a oferta de empregos.

Os jovens não acreditam, desde os anos 80, que a Rússia vá resolver seus

problemas e, agora, buscam soluções alternativas, como a religião. E que

outras soluções teriam? Não há lei a ser invocada nem Democracia que

os respalde minimamente no direito ao básico.

             Moscou conseguiu alcançar

grande parte dos objetivos de Putin na região, e relativa estabilidade, sobreutdo

na Chechênia. Contudo, exportar o modelo de patronato alcançado com

Ramzan, para as outras repúblicas, é difícil porque os aliados são esparsos.

               Moscou tem opções (apontar homens fortes e mandados para governar

as repúblicas da região ou democratizar a Política caucasiana. A segunda opção

está fora de cogitação), mas não tem estratégia definida, a não ser a tática

do patronato.

                Ir ao Daguestão, visitar a Chechênia e colocar os dois olhos na

matriz de real destes lugares  são desafios, leitor. Diz-se que só

com conhecidos locais e escolta, mas deve haver jeito mais simples.

 O problema das línguas às dezenas, da região, é que são elas -como conversar

com os locais sem intermediação é um problema. Estou a pincelar o Cáucaso,

rapidamente, por conta da minha dificuldade em abstrair conceitos de pessoas.

Me ponho a maquinar jeito de, algum dia, ir ter com os caucasianos. Deixar

que digam, tirá-los das estatísticas, dar-lhes rosto. Entender o nível de dor

contida no discurso do caucasiano médio, e não do político do alto

 escalão. Confabulo romanticamente. Perdão, leitor. Estou encharcada

de algumas revisitas à História e daí que a cachola quer saber de ir a campo.

             Selo? Creio num bem simples: ” Nossa única defesa contra a morte

é o amor”. Saramago.

                       Lívia

Escrevinhando Berlim.

26 de outubro de 2010 4

     Era domingo e chovia. Berlim, toda ela protegida atrás dos vidros,

em arranha-céus que competem com os de Nova York,travou

uma luta arraigada com meu íntimo. De um lado, o símbolo magnânimo

da Prússia, da República de Weimar, da ex-Alemanha Oriental,

da ex-Alemanha Ocidental. Do Muro. De outro, o cinza, o concreto,

os canteiros de obras, os vazios urbanos, a arquitetura excessivamente

contemporânea, os amplos panos de vidro. Berlim não me

seduziu. Estou, agora, generalizando precocemente, que a

alma da cidade é toda ela muito sentida e de não pouca personalidade,

mas não a coloco nos termos urbanos de Paris, Roma, Londres,

Praga e mesmo Copenhague. E se não o faço, e se assim ela

não se mostra, é porque Berlim carrega, em suas costas surradas,

um lombo calejado, com a História a lhe atravessar as vísceras,

nem sempre com trégua. Berlim, esta altiva senhora, merece e invoca,

com naturalidade, respeito. Que sua história é das mais doídas.  A capital alemã não toma para si

a alcunha da vitimização, o que não quer dizer que isso lhe torne

o caminho mais suave. Forte desde o princípio, ainda hoje

apresenta-se inteira em sua vocação mais rapidamente

sentida: a de sucessivos reerguimentos depois de muitas quedas.

           Berlim está dividida, literalmente, em mitte (meio),

o centro. À época da Guerra Fria, era o ponto exato

da divisão entre o Leste e o Oeste da cidade. Hoje, abriga o

Parlamento, a Chancelaria Federal e escritórios a granel.

É curioso observar como o nacionalismo alemão, tão presente

na retórica, vai de encontro aos fatos: o principal Banco

da Alemanha não pertence aos alemães. É de propriedade majoritária

de investidores estrangeiros. Não se pode desconsiderar a

importância da manutenção da identidade, este algo tão valioso,

sobretudo neste mundo controverso, e o importante é que

o poder da marca de um Banco nacional supera a percepcao

de quem o maneja. Assim também acontece com detalhes

pequeníssimos, como o sorvete. O coração branco no fundo

vermelho, logomarca da nossa Kibon, é, leitor, o símbolo

mais poderoso do capitalismo mundial nos países da Europa!

Explico. A cada país europeu, assume um novo codinome:

Langnese (Alemanha), Algida (Itália), Frisko (Dinamarca),

Miko (França), Walls (Reino Unido). Neste mosaico de

ressignificados locais, ouso inserir Berlim. A harmonia do

conjunto é híbrida, da Arquitetura aos ícones de referência.

Tenhamos em mente, contudo, o senso histórico: dividida em duas,

Berlim, ainda hoje, tem uma paisagem fragmentada.

                 

              A famosa Alexanderplatz, praça central da antiga Berlim

Oriental, apresenta vácuos e espaços vazios, que raramente

parecem lembrar o conceito de praça. A popular antena-de-Berlim,

Berliner Fernsehturm, polui o visual do centro, sobretudo à

noite, com suas cores fluorescentes a dançar pelo mastro.

Os prédios comerciais, altíssimos, são inteiramente feito

de vidro e aço, assim como a maioria dos shoppings, galerias

e estações de trens. Muitos centros comerciais apresentam-se

ao estilo Bauhaus, mas em uma leitura inautêntica, que

remete ao concreto, ao cinza e às logomarcas das lojas.

            Invoco, contudo, a atenção para o fato de que são

estas impressões atravessadas pelo gosto pessoal. Não se

deixe enlevar pelo que escrevo gratuitamente, sem aguçar

o senso crítico. Isto posto, vamos do cinza para as cores.

Comecemos pelas tonalidades vertiginosas de amarelo e vermelho que pintam

as árvores neste outono gelado. São exageradamente lindas,

as árvores em suas cores combinadas, num dégradé quase

mágico. É fato: também as árvores conversam e cuidam

de apurar, juntas, o senso estético da natureza. Berliner

Don, a Catedral de Berlim, bombardeada durante a

Segunda Guerra Mundial,  foi reinaugurada em 1993 (depois de 4

décadas sob restauro), e deslumbra. Embora não seja, de fato,

uma Catedral, dadas suas raízes evangélicas, é um tesouro

neoclássico. A vista, das escadarias do edifício central,

abriga o complexo de Museus. Tudo está localizado na

Unter den Linden, avenida que reúne edifícios barrocos

e neoclássicos da era imperial.

           

             Caminha-se belamente pela charmosa avenida quando,

ao final dela, avista-se o ícone alemão de grande

envergadura histórica: o Portão de Brandemburgo, com

suas seis colunas dóricas a elevar, no alto, uma quadriga.

Quadriga esta que morou bons anos na França: Napoleão

cuidou de levá-la para seus plagos, como símbolo da vitória,

depois de invadir a cidade por meio do Portão. De volta

para casa, em 1814, a quadriga não de todo fixou-se em paz,

no alto do monumento. Tendo estado voltada para o Oeste,

desagradou Stalin, que mandou que invertessem sua posição.

Para Leste, com os olhos voltados para Berlim Oriental.

Por ora, nada-de-novo-no-front: está posicionada como na

origem. E em casa.

           Caminha-se, caminha-se, caminha-se, e, onde,

raios, estão os restaurantes?! Em pleno centro, ponto de

interesse de turistas (na Alemanha,

delicados, sem a invasiva máquina a

ler a matriz de real em substituição aos sentidos),

nada de restaurantes. Cafés aos montes – o que, aliás,

é outro elogio à cidade. Muitos Cafés charmosos e um chá

de sabor suave e predominantemente verde. Chama-se

MeBmer, a marca dos que provei. A mistura de chá branco

com chá verde é particularmente especial. Sabor quase

macio. É facilmente encontrado em supermercados e

delicatessens, Cafés e restaurantes. A caixinha custa algo

em torno de 2 euros e as misturas de sabores são muito

harmoniosas – eu, que não gosto de mel, adorei o de menta

com o composto das abelhas. Se for à Alemanha e gostar

de chá,  experimente (os alemães, aliás, foram

os primeiros grandes bebedores de chá desta Europa,

ao contrário do que se pensa, creditando o hábito aos ingleses

desde sempre). Mas voltemos aos restaurantes:

a sorte  sorri quando se encontra um italiano. Em

Berlim, o cardápio das trattorias mantêm um

padrão: há quase sempre, no menu, a opção “tripasta”, invariavelmente

uma mistura fixa de nhoque ao molho de tomate, spaghetti

ao molho pesto e penne à bolonhesa. Benissimo!

          

           Diz-se que a vida noturna, na cidade, é majestosa,

para os notívagos de plantão. Sinto, leitor, em não poder

lhe informar a respeito, que nenhuma intimidade mantenho

com o tema. Chama a atenção, pelas ruas, contudo,

a menor incidência de cigarros, se comparada àquelas

do Reino Unido e da Itália. O tabaco (assim como a bebida)

é assunto de saúde pública para

os ingleses, em razão de os jovens fumarem e beberem

muito. É comum encontrar colegiais aparentando pouco

menos que o dobro da própria idade, em decorrência da

pele embaçada e das olheiras ainda discretas. Na Alemanha,

contudo, há menos fumaça.

           Berlim apresenta um custo de vida razoável, e,

no que tange à sensorialidade dos sabores, uma gama infindável

de chocolates, incluindo sabores de violeta e o clássico

marzipan, a pasta suave de amêndoas doces. Há excelentes

livrarias, com títulos e autores dos melhores,  e mesmo seções para

bibliófilos, com capas coloridas e papéis especiais. Estou

às voltas com Herta Müller, que lerei pela primeira vez

(em inglês). E por falar em dedo de prosa, recomendo, com

singeleza, Seda, do italiano Alessandro Baricco.

Em terras alemãs, voltei com a versão do belo romance

no idioma original, para azeitar  a intimidade bonita

com a língua, que estudo com amor. O livro, em português,

tem uma bonita capa à oriental, pela Cia das Letras, e

é sensorial na medida do que se pretende um sonho. A leitura

tem ares de fábula, o enredo é econômico, as palavras são escolhidas

a dedo, sem desperdício de sentidos. Havendo possibilidade

de recolhimento para estar em companhia literária, orne-se

 a alma com a leitura do Baricco. É, no mínimo, sensorial.

           Valei-me! Já é muito noite, leitor. Vou-me-embora

para-Pasárgada. O selo, hoje, será ibérico, em contraste

com o centro-norte europeu. Ei-lo:

     ”Uma mentira são duas degradações; deixamos de nos respeitar porque afirmamos

o falso e deixamos de respeitar o outro porque o lançamos

em erro”. Eça de Queiroz.

                       Lívia

Das weisse Band*.

25 de outubro de 2010 4

   ( * A Fita Branca)

    Falemos sobre terror. A maquinaria do mal não possui

inteireza. Apresenta-se cheia de brechas,ornada em

 máscaras – ainda que, em se tratando da condição

humana, não sempre de modo consciente. No início

deste ano, assisti ao A Fita Branca, ganhador da

Palma de Ouro, no Festival de Cannes, em maio do

ano passado. Michael Haneke assinou a direção de

A Professora de Piano (2001) e conhece os meandros

alegóricos da dor: a fotografia austera de A Fita

Branca é a própria frieza que compõe a  história,

num jogo de luz e sombra, preto e branco. 

         Vamos, pois, ao enredo: em 1913, um vilarejo

alemão, cuja dinâmica se assemelha ao sistema feudal,

é acometido por episódios de crueldade extremada, que

ataca núcleos diferentes da comunidade. Ninguém,

contudo, sabe quem pratica os atos.

          Friedel, o narrador, é professor, e sua alma sensível

contrasta vivamente com o radicalismo do mal, secretamente

elaborado no íntimo das personagens. A história tem

lugar um ano antes da Primeira Guerra Mundial, mas

é a Alemanha hitlerista que se coloca em plena gestação,

diante do telespectador.

          O chocante da catástrofe nazista diz respeito íntimo

à doença social da Alemanha da primeira metade do

século XX, que apoiou e sustentou uma figura doentia,

paranóica e reprimida no poder. O puritanismo protestante

é elevado à décima potência, no filme, por meio de uma

imagem simples, e, por isso, poderosa: crianças

reprimidas, adultos austeros, hipocrisia azeitando ambos.

           A cena mais forte talvez seja a de um delicado

pássaro tendo o corpo atravessado por um punhal,

meticulosamente limpo e arrumado em cima de uma

mesa meticulosamente limpa e organizada. Um pastor

pune dois dos filhos, à mesa do jantar, atando, num dos

punhos de cada um, a fita branca. A alcunha de

“pureza” que o pai ressignifica ao atar o branco nas crianças

é rapidamente assimilada como o símbolo da crueldade,

pelos filhos. O pai esforça-se por reprimir o íntimo,

mas os filhos sabem exatamente quem ele é e de que

modo o discurso reverso narra a história da sua vida.

 Uma geração amarga parece inocular

o vírus do ressentimento na geração mais jovem,

representada pelas crianças, que serão os adultos

simpatizantes do nazismo, anos mais tarde.

            Alonguei-me na rememorização desta história,

que me encharcou por um dia inteiro, porque dialoga

à perfeição com a exibição do Museu de História

 Alemã (www.dhm.de/english), em Berlim:

Hitler e os alemães. Desde o último dia 15 de

 outubro, até 6 de fevereiro de 2011, a catástrofe

nazista é apresentada sob o fio condutor da

Propaganda, este elemento tão fundamental dos

regimes totalitaristas. A curadoria evitou dispor, aos

 olhos do público, objetos pessoais de Hitler, para

 evitar manifestações emocionais em larga escala.


          Folhetos, panfletos, cartazes e papéis em

 demasia narram o discurso nazista; uniformes vários, com

 caveiras a indumentar as lapelas, apresentam-se

inertes, através do vidro; um Hitler desgovernado,

 de gestos reprimidos até a alma, discursa em trechos

 documentados pela câmera. Também o momento

 em que o corpo deste ser é encontrado,

pelos soviéticos, é apresentado aos olhos de um

público predominantemente alemão – quase todas as legendas

das peças apresentadas não foram traduzidas por inteiro

para o inglês.


          Na Alemanha, a negação do holocausto é crime,

passível de cadeia.

A fila, para a exibição, alonga-se,

chegando a desenhar uma curva. Purgar a doença é

parte fundamental da cura alemã. Esqueça-se a personificação

corpórea por um momento, nominada Adolf Hitler;

pensemos na abstração íntima dos alemães, que,

cônscios dos horrores nazistas, apoiaram, mantiveram

 e sustentaram percepções muito próprias do mal, ao

 dar materialidade ao próprio desejo, por meio do

 nazismo. Hitler, como se sabe, tinha origens

bastante modestas e envergonhava-se enormemente do

 fato. Não tinha olhos nem cabelos claros tampouco

compleição física robusta. O poder que aspirou e os

ideais pavorosos que impôs àqueles que não preenchiam

os requisitos arianos são exemplos quase infantis da

megalomania doentia. Insisto, contudo: mas, e

 a sociedade alemã? Aqueles muitos que educaram

 suas crianças adornando o pássaro assassinado para

 que a ordem fosse exemplarmente mantida?

           Quem de nós, ao experienciar a dor dos alemães,

que  purgam com olhos arregalados uma escolha recen-

tíssima (não são tantos os anos a separar aquele tempo

deste, tão modernamente “são”), pode não sentir vergonha

da própria condição humana? Não vamos, aqui,

simplificar a História, adjetivando os fatos, que são

sempre as pequenas coisas que levam às grandes, mas

não consigo evitar a imagem hipotética de Tolstoi,

este ser igualmente doente, porque acometido pela visão

muito clara do bem, a observar o mundo. Sua retirada

do mundo, tão silenciosa, tão simples.

          Perdão, leitor, por mais esta pequenina

 sugestão, mas tendo estado  ele encharcado da

condição  humana, e da observação dos tipos

variados que cá habitam, insisto no livro de contos

 O diabo e outras histórias, de Tolstoi.

     O conto Depois do Baile é a transposição do olhar

 para o ver. Quando escreveu esta história, Tolstoi já

estava plenamente definido em suas escolhas

políticas, morais e religiosas.

   O meio, neste conto, determina tudo. A personagem

que detém o poder, na história, é um coronel, respeitado

por todos. Quem são estes todos é a primeira questão.

O coronel é pai da mulher pela qual se apaixona o personagem

central e o canal da alma deste personagem aparece

por inteiro neste trecho: “Quanto mais eu me apaixonava,

mais incorpórea ela se tornava para mim… o objeto

do meu amor esteve sempre vestido de bronze”. O fato é

que o pai da moça, apesar de belo, aristocrático e

educado, é brutalmente a força do mal encarnada.

O pai, o avesso do que é feito o sentimento nobre do

 amor, é visto como a extensão da moça, feito também de

candura e beleza. Amar esta moça significaria, para este homem, aceitar

este pai, a representação da anuência do mal. O filtro

do bem, aqui, é elaborado por meio da consciência. Como não

observar o mal (o pai), aparelhado num bem (a moça),

sem deixar de ver este mal, apesar da intermediação

da moça?

            Leitor, tagarelo deselegantemente, que lá

fora a noite dialoga com o vento. Sou pela natureza:

vamos cuidar de ouvi-los. Despeço-me, pois.

            Selo tosltoiano, num verso habitável: “Reinava

a alegria e o viço tanto no céu e na Terra como no coração

do homem”.

                        Lívia


           

Elogio à Escandinávia.

20 de outubro de 2010 9

         Shakespeare imortalizou a Dinamarca com o famoso excerto há-algo-de-

podre-no-reino-da-dinamarca, e é sabido que ele fazia referência à

Inglaterra natal, mas não importa: a Dinamarca entrou, desde então, no

imaginário dos povos, por meio do dito popular. Leitor, agradeçamos à

Shakespeare! Os dinamarqueses são – arriscarei abarcar os escandinavos,

no conjunto, balizada apenas por uma rápida visita à Suécia, país ao qual quero

retornar, e logo - especiais. Para sensorializar Copenhague, faça assim:

pense na bicicleta gasta e querida, que lhe acompanhou em algum pedacinho

da vida; imagine-se chegando ao trabalho estacionando esta sua bicicleta

debaixo de um céu matizado de azul (detalhes são fundamentais: há cestinha,

por exemplo?); visualize ruas nas quais os carros são minoria – tecla SAP:

nas quais eles são o elemento estranho – e bicicletas, maioria; entre numa

livraria qualquer e veja uma capa com ares de fábula, que promete

(em dinamarquês) histórias de Hans Christian Andersen; saia da loja de

livros, agora, e depare-se com uma floricultura a céu aberto. Copenhague

é o clichê da estatística: a cidade é linda, limpa, organizada. A cultura é

muito curiosa. Lê-se, em outdoors:Carlsberg: provavelmente, a melhor

cerveja”. Lembre-se, leitor, de que não bebo gota de álcool, de modo que não

lhe poderei confirmar o dito. Chamo a atenção para o slogan  porque o

“provavelmente”, para além do charme agregado ao marketing, aparece

qualificando mais produtos locais. A sensação é mais ou menos a seguinte:

o dono da empresa lhe diz, com franqueza, olha-comenta-se-que-é-a-melhor-mas

você-talvez-não-goste-e-sempre-poderá-haver-controvérsia. Aí observa-se,

ao atravessar a rua, que o sinal pode estar fechado e nenhuma bicicleta nem

tampouco carro se faz notar ao longe, mas ninguém dá o passo de misericórdia.

O escandinavo só atravessa a rua quando o sinal abre. Junto isso com o

“provavelmente” e penso: eis, aí, um povo sincero!

                              

           O trem, por mais de uma vez, chegou antes da hora, mas desculpas mesmo

a atendente pediu, em viva voz, em função de a calefação de um dos vagões

não funcionar. “Nós realmente lamentamos muito. Por favor, se estiver com

frio, procure qualquer outro vagão no qual acomodar-se”. E  Copenhague

cumpre o que promete também no que tange aos fiscais. Explico. Sucede

que em vários países da Europa compra-se um ticket para o metrô (ou

para o trem, ou para o ônibus) e entra-se, simplesmente. Há máquinas para

validação do bilhete, mas não há funcionário por perto, a conferir.

Inexiste a figura do “cobrador”. Conta-se com o senso e a consciência do

usuário do transporte público. Está escrito, e muito grandemente, que se

 o fiscal entrar e a pessoa estiver sem o bilhete, paga multa ( e alta). Em

 Roma, diz-se que é preciso ser muito azarado para cair na “amostragem”

do fiscal, que aparece vez cá, outra lá. Pena que seja assim.

    Copenhague tem fiscal para todas as paradas do trem, mesmo que a distância

entre elas seja de dois minutos. Sorrindo, lá está ele, checando quem ali

comprou e validou o bilhete. Pois já muito impressionada com a organização,

ia a caminho do aeroporto, e, naturalmente, várias outras pessoas com

 malas estavam no metrô. Entra o fiscal. Ahá! Um rapaz não tinha o bilhete.

Achou que, já a caminho do aeroporto, não seria pego.

Finamente, o fiscal dançava, com a caneta, os números da conta. O rapaz

 parecia se  justifiicar. O fiscal, bastante educado, consentia (“entendo,

 claro”), mas lei é lei (“contudo, aqui está a conta”). Os dinamarqueses

pagam impostos bastante altos e os serviços funcionam. Não vai aqui a

reclamação típica, de que paga-se uma fortuna de impostos no Brasil.

Não entremos nesta discussão rasteira.

       Copenhague cobra taxas altas e tudo, aliás, como na Suiça, é bastante caro,

mas as coisas, da pequena caneca de café ao mais bonito dos objetos, são de

 um  bom gosto exemplar. Não há excessos.

         Nem todas as cidades que ganham o título de mais-feliz

da-europa, como Copenhague, se abrem facilmente. Sabem elas que alguma

coisa fora de lugar é fundamental para se cultivar sanidade. Pois,

leitor, as livrarias, em Copenhague, estranhamente localizam-se no último

andar de lojas de departamento (cheias). Os donos de tais lojas por certo

têm acesso a algum estudo psicológico desconhecido do resto das pessoas,

que comprova que cozinhas-invocam-livros.  A maioria das livrarias

 localiza-se no último andar da loja de departamento e ao fundo. Depois da

 loja de utensílios (todos muito bonitos)  de cozinha. Os primeiros livros

 avistáveis, nas prateleiras, são, é claro, de culinária. Eis aí a mágica da

 publicidade dinamarquesa acontecendo outra  vez.

                     

             Em Copenhague, fui de trem para Malmo , na Suécia. A cidade é

uma graça, com o mesmo espírito de Copenhague, mas com um quê de

Zurique: no inverno (e o outono, nestes plagos, já está na casa dos graus

negativos, em muitos países), a cidade parece, ao contrário de tantas outras,

que se vestem em cores e bonitezas para abraçar o frio, ficar triste.

Estive um só um dia em Malmo, de modo que tenha em conta que

 estou generalizando perigosamente.

            Procurando por sorvete (sim, as pessoas também tomam sorvete no

inverno e deixo a sugestão pequenina: o artesanal da ruazinha em frente ao

 Relógio Astronômico, em Praga, ganha dos italianos), só apareceu

 McDonalds. O Felipe, que lê em sueco, traduziu lindamente uma surpresa:

 o lanchinho infantil oferece de brinde, para as crianças, livros. Uma porção

 de títulos, para os  leitorezinhos escolherem.A menina da mesa ao lado lia

 ”Hilma”. 

           Em Malmo está, também, o prédio mais alto da Suécia. Ei-lo:

                                

 O salmão tem sabor delicado e pode-se, com sorte, ganhar um lápis de cor

com livrinho para colorir, no restaurante, que conta a história de Dolores,

uma coelha cor-de-rosa de grandes olhos, que apresenta os benefícios

da alimentação saudável. Guardo o meu, parcialmente pintado, que

cor bonita mesmo eu vi sentada no banquinho, observando os patos de

penas muito verdes pelas cabeças, convivendo harmoniosamente com

os humanos, no centro de Malmo, e num jardim bonito, em Copenhague.

                Me recolho, que a lua está toda colocada no céu há muito. Mas,

antes, ressalto a bela coleção de Degas exposta no Glyptotek Museum

(www.glyptoteket.dk) , em Copenhague. O Museu é pequeno, tem um

jardim de inverno magnífico, e, apesar do movimento, nada de hordas com

máquinas fotográficas. Não posso, também, deixar de observar que A

Pequena Sereia está, pela primeira vez, fora de casa. A obra, de 1913,

 homenagem à personagem de Hans Christian Andersen,  ganhou final

 feliz na versão da Disney,e  está na China. Em substituição a ela, uma

exposição chinesa. A aura, contudo, permeia Copenhague toda. Meio

 beleza, meio cidade.

            Selo com Balzac: “A esperança é uma memória que deseja”.

                    Lívia


Para onde me levou Joyce.

18 de outubro de 2010 5

     O outono inglês enregela Nicholson Street, que espiei há pouco, através

da janela, daí por que aqueço a casa de dentro com chá – verde com menta.

Rememorizemos: quando em Zurique, Joyce-me-mandou-para-Copenhague

e o causo é que havia um motivo mágico implícito: Joyce recomendou-me à

casa da Baronesa. Karen Blixen, escritora dinamarquesa, me acompanhou

alguns anos atrás, a caminho do Quênia.  No trajeto, li A Fazenda Africana,

o maravilhoso romance (autobiográfico), de 1937, que celebrizou-se no

cinema (“Entre Dois Amores”), com Meryl Streep no papel de Blixen,

 e Robert Redford transformado em Denys Hatton.

     

          O livro, leitor, foi reeditado no Brasil, há 3 ou 4 anos, com tradução

caprichada, pela CosacNaify, numa edição linda, que compõe a

 ”Coleção Mulheres  Modernistas” (tem também Virginia Woolf e Katherine

Mansfield na caixinha colorida).

          Vamos, pois, à Baronesa Blixen. Peguei o trem em Copenhague às 13h12

e cheguei em Rungsted, localizada na riviera dinamarquesa, Norte de

Copenhague, às 13h58. O sol matizava as cores vibrantes dos barquinhos

ancorados no Porto, e, mesmo fazendo frio, não havia flor que, nos

canteiros das calçadas, não estivesse inclinada, em deleite coletivo com as

 outras plantas, a escorregar pelo amarelo solar. Bicicletas, bicicletas,

 bicicletas – comento quando chegar a vez de Copenhague, na quarta.

     Logo ali, dobrando a esquina, tendo os barcos todos ancorados no Porto,

de um lado, e um casarão branco, cercado de verde, do outro, antevi a

plaquinha: Museu Karen Blixen.

      Entrei, então, leitor, na casa da Baronesa – casa esta onde nasceu

e morreu. A experiência foi bastante forte, razão pela qual chorei alegrias -

e não poucas. Joyce me levou até lá.

                                

       A casa foi comprada pela família em 1879, os aposentos principais estão

mantidos à perfeição, como se a dona da casa fosse entrar a qualquer

momento. Karen lá nasceu em 1885, e morreu em 1962. A história dela,

leitor, precisa chegar antes de nos sentarmos em frente à lareira, na sala de

jantar.

     Karen Blixen casou-se com um primo, o Barão Blixen-Finecke, com quem

partiu para o Quênia, por conta do empreendimento de uma fazenda de café.

No primeiro ano de casamento, contraiu sífilis, transmitida pelo marido,

doença com a qual lutou durante toda a vida. Separou-se oito anos depois e

gerenciou, sozinha, a partir de então, a fazenda, onde morou durante 17

anos. Foi lá que começou a escrever e foi lá, também, que se apaixonou

pelo piloto inglês Denys Hatton, com quem viveu uma relação intensa até

a morte dele, ocasionada pela queda do avião que pilotava, em 1931. Blixen,

então, retornou à casa em Rungsted, na Dinamarca, tendo a fazenda custado

uma falência e lhe dado, em contrapartida, o belo exercício da vida em

contato com a África selvagem e o reencontro consigo mesma. O pai de

Blixen suicidou-se quando ela era, ainda, criança, ao descobrir ser

portador de sífilis. Não ouso chamar a atenção para o que seria “irônico” 

porque a maquinaria misteriosa das famílias me é sagrada,

 mas o doloroso da história é que ela teria se curado da doença. O que a

teria matado, dizem os registros do Museu, foi a quantidade de metais

danosos que continou ingerindo, a pedido dos médicos. Morreu em 1962,

com 35 quilos, tendo perdido metade do estômago, incapaz de ingerir

alimentos sólidos.

                          


          Entra-se na casa da Baronesa com os pés bem protegidos por uma

sapatilha de tecido, a pedido do Museu.  No andar superior, está a

 biblioteca particular e todos os livros escritos por ela. Misturam-se a eles

 pequenos objetos que prenunciam a África, mas com muita delicadeza,

 quase que sem se fazer  notar. Porque está aí o verdadeiro pertencimento

 de uma casa, creio: na harmonia das histórias contadas pelos objetos.

No hall que dá acesso à “Sala de Jantar”, telas pintadas por ela – Blixen

 estudou Belas Artes na juventude e retomou a pintura no período africano

-  e a história de uma família: retratos, móveis pertencentes à mãe, a mesa

 de jacarandá, flores (muitas flores, que ela adorava arranjá-las, coloridas,

 e espalhá-las pela casa), samovares russos nunca usados (fiz questão de

 perguntar porque, leitor, se o samovar é russo, há chá!), um biombo

 francês com pintura oriental. Sentei-me num dos sofás e lá fiquei.

 8 minutos, talvez. O lugar é calmíssimo, as pessoas são respeitosas, não há

 hordas preocupadas com as fotografias.

         Caminhei coisa de metro e meio, pelo corredor, e deparei-me com a

“Sala Verde”, usada por ela, no retorno da África, nos períodos de inverno,

e oferecida aos hóspedes, durante o resto do ano. A decoração é simétrica,

sempre: dois vasos, duas telas, dois jogos de porcelana. No escritório que

pertenceu ao pai, está o abajur que acompanhava suas incursões literárias,

à noite, no Quênia. Os quartos, leitor, não estão disponíveis, mas há, ainda,

um pequeno tesouro na casa: a área verde.

           Karen Blixen doou a propriedade, antes de morrer, e pediu para

que o terreno amplo da parte de trás fosse dedicado aos pássaros, que ela

amava tanto quanto as flores. Caminhei pelo verde, onde há, também,

uma pontezinha japonesa, e eis que, numa clareira mais escondida, onde

mora um carvalho imenso, de copa muito, muito larga, está a lápide,

simples, onde se lê: Karen Blixen. Não há frases, datas, exageros de ordem

alguma.  O que há, leitor, é um carvalho enorme abraçando, do alto, a

lápide, cuidando para nela soprar algumas folhas. A perfeita fusão com a

natureza, entre partes da natureza – o carvalho, os pássaros, Karen Blixen.

Tolstoi tem um conto que narra divinamente esta mistura, ainda que, na

história dele, a protagonista carregue valores opostos aos da Baronesa.

Chama-se “Três Mortes” ( a CosacNaify publicou o conto em “O Diabo

e outras histórias”. Se pegar o livro para ler, vá ao encontro de “Kholstomér”.

Um primor).

                Karen Blixen assinou muitos livros como Isak Dinesen, seu pseu-

dônimo, e, em 1954, perdeu o Nobel para Hemingway. Recentemente,

a Academia Sueca abriu seus arquivos ao público e soube-se, então, que,

em 1959, Karen Blixen era a franca favorita ao Nobel, tendo sido, no

último momento, refutada, porque um dos votantes argumentou que 4

Prêmios já haviam sido entregues a autores escandinavos. Reflexão

de um minuto diante do fato. Silencio aqui.

            A Fazenda Africana é um livro de grande valor, especialmente pelas

quantidades generosas de alma que moram na história. O famoso conto da

autora, A Festa de Babette, é mágico, e também foi adaptado para o cinema,

 mas chamo a atenção para Sete Narrativas Góticas, que tem elementos de

literatura fantástica – anacronismo, metamorfoses, onirismo. Não se abre

à leitura de imediato, não tem o perfume da África de A Fazenda Africana

nem as especiarias gastronômicas de A Festa de Babette, e, ainda assim,

é uma beleza, se comparado ao conjunto da obra.

           Sugiro uma pequena incursão pelas letrinhas blixianas, acompanhada

de um cappuccino fumegante, na próxima visita à biblioteca. Aliás, no

Museu Karen Blixen,  há um Café cheiroso e colorido. Há,

no Quênia, um outro Museu dedicado a ela, mas  não se trata da casa onde

viveu – reúne os objetos usados no filme.

          Sendo Literatura, será sempre amor a palavra, daí que me despeço

com a viva recomendação de Flaubert: “Leia para viver”, mas tendo a

missiva se abastantado, mais de um selo é requerido paraa  postagem.

Comemorativo à Karen Blixen: “Você já foi ousada. Não permita que a

amansem”. Isadora Duncan.

       Até quarta, com Copenhague.

                             Lívia



Magicando Praga.

11 de outubro de 2010 8

       Ovocny trh 579/6, Praha 1. Eis aí, leitor, o endereço do belo (em tom pastel, a cor da fachada é verde-água) Estates Theatre (www.estatestheatre.cz), em Praga, popularmente conhecido como o Teatro-de-Mozart. Foi lá que, em 29 de outubro de 1787, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart estreou Il Dissolutto Punito, Ossia il Don Giovanni (o dissoluto, no caso, é Don Giovanni, que explica a simplificação do título conferido à ópera).  Na ocasião, o próprio Mozart regeu uma das récitas.  E não somente. A Clemência de Tito, composta logo depois de A Flauta Mágica, foi apresentada pela primeira vez também em Praga, neste mesmo Teatro. Viena, em contraponto, recebia com indiferença as obras de Mozart, e não por acaso: o Imperador Joseph II era fã declarado da ópera italiana.

Estate theatre Prague

         A personagem de Don Giovanni é - repare que estou generalizando perigosamente -, um sedutor, que cativa as donzelas por exercício egóico (ainda que a comédia tinture o enredo, em grande parte da história). Se você pensou no Don Juan, de Moliére, leitor, está a um passo de captar o sentido da lenda que corre por terras tchecas: diz-se que Giácomo Casanova, o escritor, participou da organização do enredo da ópera, por ser amigo do autor do libreto (onde aparecem as falas e os cantos que compõem a ópera), Lorenzo da Ponte.

       Ao Teatro: o edifício, concluído em 1783,  é uma pequena jóia da Arquitetura Clássica. Simples, equilibrado e harmonioso.  No interior, papéis, cartas e trechos de partituras testemunham as bastantes visitas de Mozart à Casa. Pode-se dizer que, de muitos modos, sente-se o músico adentrando o recinto, que permanece tal como era no século XVII. A acústica é majestosa. As Bodas de Figaro, de Mozart, ópera em 4 atos, transcorreu em condição aurática. Leitor, uma beleza!

       Ajustemos, contudo, um pouco mais os olhos dos sentidos: na Ópera Estatal de Praga (www.opera.cz), O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, aveludou o interior do edifício neo-rococó. A cenografia esteve impecável e as bailarinas colocaram os olhos em voo, muito mais do que o restante do elenco. O interior do edifício é majestoso e sugiro, leitor, o acesso ao “Virtual Tour”, na página acima postada, para que os detalhes da arquitetura interior não passem despercebidos. Praga, toda ela, carrega uma atmosfera melancólica e altiva, que muito se assemelha às caixinhas de música das fábulas.

                                       

                                                                                                        Ópera Estatal de Praga

              O Mestrado me afastará deste plago cibernético por alguns dias. Volto na próxima semana, tendo, antes, soprado o verso, em homenagem à Mozart: “Gênio é aquele que o dedo de Deus esmaga contra um muro”. Jean Paul Sartre.

                                                                           Lívia


Carta para Felipe - selo romano.

06 de outubro de 2010 3

      (Atenção, leitor! Esta é uma carta sobre Roma da qual participará, implicitamente, Felipe. Impressões colhidas a 4 olhos e a 2 almas, pois.)

      cúmplicemeu,

     Sorvo água quente, com um Comptoir Richard. O chá de versão verde com jasmim. Perfumando a noite, que elabora, lá fora, um vento dos mais gelados. Que tal Praga, nesta quarta-feira exigente? E o azul licoroso dos seus olhos? Penso, aqui, na hora cheia do relógio astronômico, fazendo graça na Praça  (rima pobre para uma imagem nobre). Sexta está quase aí – levarei caixa nova de chás e também um artigo com os tchecos e os alemães, mas, agora, peço licença de nós, para falar aos leitores sobre Roma.

______________________________________________________________________________________________

       Direto ao linguine à bolonhesa, leitor. Eis por que Roma, para mim, é mais interessante do que Paris: vive-se, lá. As crianças vão à escola, o tiramisu é feito em casa, o motorista buzina para o carro da frente enquanto gesticula para o transeunte, os casais sentam-se nos banquinhos para viver-a-vida-verdadeira em meio à “turistada”, anda-se de quadriciclo em parques históricos. Atenção, muita atenção: o Starbucks NÃO existe em solo italiano, leitor! Não ousa desafiar a tradição italiana dos cafés verdadeiros. Haja personalidade, romanos! Mas, ai, como fumam! Valei-me!

        Paris tem os melhores chás (os ingleses são quase sempre do tipo fermentado, black tea, sem o aroma suave e perfumado dos chás verdes e lavandados da França), as mais lindas sapatilhas, o charme das pequenas delicadezas, paisagens oníricas, uma língua très belle, Museus extensíssimos, uma atmofesra mágica. Mas, parafraseando o Felipe, Paris-parece-raptada-pelos-turistas. Onde, raios, estão os parisienses vivendo a vida, enquanto hordas consomem a paris-para-estrangeiros-ver? Ai, a inteireza sem brechas de Roma!

     Camadas-de-História.

      Não, leitor, não escrevinharei, mais abaixo, sobre as dicas-e-os-lugares-e-as-pizzas-e-os lattes-macchiatos-e-a-capela-sistina-que-é-algo-miraculoso-e-estonteante-mesmo-e-os-guardinhas-que-gritam-no-pictures-please-876-vezes-durante-um-só-dia-de-trabalho-e-tartufo-nero-e-as-2-linhas-de-metrô-e-o-Vaticano-e-a-cúpula-de-são-pedro-e-o-panteão-e-o-preço-da-garrafa-de-água-no-coliseu-originalmente-chamado-de-anfiteatro-flávio. Nananinanão. Farei jejum do guia para turistas (generalizando perigosamente, como notarão). Incensemos Roma, hoje, com um poucachinho só do Mercado de Trajano e do Fórum Romano. Abro parênteses para deixar registrado este roteiro clássico a mais: a Casa em que Lívia morou com o marido, Otávio Augusto - mais tarde, apenas “Augusto”, primeiro Imperador de Roma, no ano 27 a.C.-, incrustrada no Monte do Palatino. As ruínas estão ladeadas pelo Coliseu e pelo Circo Máximo. Fecho parênteses.

        O Mercado de Trajano, localizado na Via Foro Imperial,  foi erguido a pedido do Imperador que dá nome à construção, em 107 d.C. Trajano foi o primeiro Imperador nascido fora de Roma (tem origem espanhola) e a ideia original era a de congregar lojas e escritórios em um único espaço. A História situa este Mercado como o precursor do conceito de shopping center. No andar superior, localizavam-se as atividades administrativas do comércio, e, no térreo, lojas que comerciavam gêneros alimentícios e mesmo artesanato. A planta é semicircular, construída em arcos, com tijolos. Pausa para o café 1. Os italianos tem dessas: muito próximo do Mercado, há uma enorme construção de metrô.

                              

                                                                                               Mercado de Trajano – Roma.

              O Fórum Romano fica do lado oposto do Mercado (são do mesmo período), e não por acaso. Tratava-se do centro político e econômico do Império, formando, com o Mercado, quase que um complexo único. O Fórum foi palco do assassinato do Imperador Júlio César, no Senado, por Bruto e Cássio, e abriga o Arco de Tito, todo ele em mármore, construído para celebrar uma derrota da Judéia (hoje, Palestina). Pausa para o café 2: nosso querido amigo Renato Domith Godinho, o pai do Martim, nos levou para conhecer, digamos, mais concretamente, o apaixonante caos romano.  Júlio César construiu um Teatro, o Marcelo, em homenagem ao primo, Marcus Claudius Marcellus. Lá estávamos, Felipe e eu, a contemplar a ruína quando, tchãnã: Renato nos explica que a luz acesa através da janela, no que seria a parte de trás do Teatro, é de uma residência. Leitor, uma espécie de “puxadinho” abriga, no topo do Teatro, alguma família romana. É curiosíssimo como a Roma atual se acomoda entre as ruínas imperiais, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.                             

              Correm horas. Encerro aqui, hoje, com verso encantatório: “Escrevo isto para dar testemunho do adverso milagre”. Bioy Casares.

                                                                         Lívia

                                            

                                                                                                                     Fórum Romano – Roma.

 

 

 

Queixa.

04 de outubro de 2010 5

      (em papel de arroz, tinta preta. escrito a mão)

     Comecemos pela insígnia. A visão da Arte, àquela época, era tão sombria, que cunhou-se, durante o Renascimento, o termo gótico, em alusão à barbárie comumente atribuída ao Período Medieval. Não nos deixemos enganar pelo termo historicamente pejorativo. Derramar a cor da íris em uma Rosácea é quase que como intuir: perfila-se contra o céu uma Catedral. A beleza da Arquitetura Gótica impulsiona os olhos para a noção da verticalidade: torres, abóbadas nervuradas (os arcos são bastante visíveis), ogivas. A Engenharia, diga-se, tem grande participação no que se vê. A Arte Gótica, do século XII, apresenta-se inteira, toalete feita, rendas engomadas, na Catedral de Notre Dame (1163), em Paris.

      Construída de acordo com o que os arquitetos denominam três-corpos-verticais-separados-por-maciços-contrafortes (tecla SAP: três portais dão acesso a três naves, sendo uma central e duas laterais), a Catedral apresenta uma fachada quase mística, com santos e reis cristãos misturados aos gárgulas. Os vitrais coloridos, típicos das Catedrais, além de catalisadores de luz matizada para o interior das construções, tinham, no começo, a função de transmitir, àqueles que não sabiam ler, as histórias narradas nas Escrituras. 

                           

                                            Catedral de Notre Dame – Paris

       As rosáceas, que lembram muitíssimo a Arte bizantina, espalham-se pelas Catedrais góticas, mas, em Notre Dame, a simbologia circular do sol (Jesus Cristo) e da rosa (Maria) remete muito fortemente aos ideais cristãos. Aliás, Notre Dame não foi inaugural, na Arte Gótica. É consenso, entre os historiadores, que a Basílica de St. Denis (1140), também localizada em Paris, é a precursora da Arquitetura Gótica européia, e não apenas pelas inovações estética e técnicas da época, mas, sobretudo, em função do prestígio e da proeminência que os franceses imprimiram ao projeto, para impressionar os vizinhos.

        E por falar neles - nos franceses, leitor – , Sarkozy, no século XXI, faz piruetas para impressionar os colegas da União Européia (durante a presidência da França, no Bloco, foram instaladas torneiras de material nobre nas dependências de Bruxelas, para fazer crer que dinheiro não é problema para Paris), mas o sol brilhou mesmo foi para Napoleão Bonaparte, no interior de Notre Dame. Ao assumir o regime monárquico, em 2 de dezembro de 1804, Napoleão tirou a coroa das mãos do Papa Pio VII, e se autoproclamou Imperador. Na ocasião, Josefina, sua esposa, foi coroada, também por ele, Imperatriz francesa. A História afirma que o Papa já sabia, de antemão, que assim seria. Napoleão lhe teria dito, antecipadamente, que devia a si mesmo sua coroação e que, por isso, ele próprio realizaria o rito. A cena pode ser contemplada em A Consagração do Imperador Napoleão I e Coroação da Imperatriz Josefina, de Jacques-Louis David. A obra (óleo sobre tela), encomendada por Napoleão, está no Museu do Louvre (www.louvre.fr).

                                          

                                         Consagração do Imperador Napoleão I – Jacques-Louis David

             Do distanciamento estético que a Catedral nos exige, para melhor ser vista, destaco as hordas (ai, leitor!) de turistas instrumentados com aqueles olhos sintéticos que são as câmeras fotográficas, em geral. É como se não olhassem para ela (a Catedral). Veem, mediados pelas lentes das máquinas, uma aliada para a prova de que estiveram em solo francês; analisam ângulos, discutem posições dos parentes espalhados pelos portões. Eu-te-grito-esta-queixa: por que é que a Arte, afinal, este algo tão capaz de nos alterar e nutrir, caiu na armadilha moderna (e grosseira) de ser plano-de-fundo-das-fotografias? Não, leitor, não vamos arriscar um Walter Benjamin. Lá no Museu Rodin (porque este post situa-se em Paris), uma sacolinha pop abriga pen drivers moldados na forma de uma escultura do artista. O que será que Auguste Rodin pensaria do próprio Museu, contemplando a falta de sensibilidade humana ( e o que dizer do mau gosto da sacolinha, com letras que se pretendem em dimensão 3D?) ? Aqui deixo um grande espaço em branco, o que servirá para indicar que o silêncio preenche o final deste texto.

        Selo a epístola com Rodin, pois: “Eu saí do nada em busca de um espetáculo de amor”.

                      Lívia

Os ingleses no mapa do Papa.

01 de outubro de 2010 5

      Em 1982, Karol Woitila, o Papa João Paulo II, desembarcou no Reino Unido para uma visita de caráter pastoral. No dia 16 de setembro passado, Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, realizou um feito inédito, do ponto de vista político: concretizou a primeira visita em missão oficial de um Pontífice ao país, que é maciçamente anglicano, em 500 anos. Tamanho feito impressionou a Coroa, que encarregou o Duque de Edimburgo, marido da Rainha Elizabeth II, de recebê-lo no Aeroporo de Edimburgo. A Soberana, também Chefe da Igreja Anglicana, recebeu o Pontifíce no Holyrood Palace, sua residência oficial em Edimburgo, logo depois.

                                  

     Foram 4 dias de visita ao Reino Unido, com o objetivo de reconciliar as Igrejas Católica e Anglicana, divorciadas desde o século XVI. Estima-se que sejam 6 milhões o número de católicos britânicos. Matéria publicada pelo The Times divulgou que apenas 14% da população foram a favor da visita. Doeu no bolso do contribuinte, leitor. Sendo a visita de caráter oficial, mais da metade dela foi paga pelos cofres britânicos. A conta? Quase R$55 milhões. Contudo, ao contrário do que apregoaram os meios de comunicação mundiais, as ameças mais ruidosas de protesto contra o Papa – em sua maioria por conta da passividade papal em relação aos crimes de pedofilia na Igreja –  não se concretizaram na Escócia, a não ser por umas poucas camisetas de veto explícito à visita. A Polícia local calculou que 100 mil pessoas estiveram presentes à passagem do Pontífice, na Princess Street, principal avenida da cidade, e os aplausos foram intensos. Apesar dos festejos populares, muitos intelectuais proeminentes do país foram contrários à missão em caráter oficial. Em documento coletivo, afirmaram que “não aceitam a máscara da Santa Sé como Estado”, em alusão às omissões da Igreja nos casos de pedofilia.

          O Papa encontrou-se com o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron (do Partido Conservador - “tory), e também esteve com a líder interina da oposição, Harriet Harman (do Partido Trabalhista). Tony Blair, convertido ao catolicismo, participou da Missa rezada pelo Papa na Catedral de Westminster, em Londres. Com a expansão da União Européia (UE), sobretudo a partir de 2004, os católicos encontraram espaço na cena política inglesa. Bento XVI afirmou que a Religião desempenha um papel fundamental na Política, no que tange à aplicação da Razão. O Direito inglês baliza muitos sistemas legais no resto do mundo, e, segundo ele, está em harmonia com a Doutrina Social da Igreja. ” Fé não desvaloriza a Ciência“, apregoou.

          Os britânicos veem com cautela a aproximação da Santa Sé junto à União Européia, de um modo geral, e ao Reino Unido, em particular. Como se sabe, os ingleses são fortes defensores de sua autonomia, e não por acaso resistiram em ingressar na UE, muito antes de De Gaulle vetá-los por tantos anos. Contudo, o Papa tem em comum com a Grã-Bretanha a defesa do ingresso da Turquia no Bloco europeu. A Santa Sé não tem poder político para influenciar ativamente o debate europeu sobre o tema, ainda que, ideologicamente, suscite a questão.

           Molhos simbólicos à parte, leitor, deixo o selo: “Os pais sensíveis dão aos seus filhos raizes e asas. E também um mapa”. Provérbio Chinês.

                      Lívia