Já lá se vão 6 anos: no primeiro dia do ano letivo, uma escola em Beslan,
na Ossétia do Norte (Rússia), foi invadida por milicianos que exigiam a retirada
das tropas da Rússia da Chechênia, e o reconhecimento de independência da
república. Nas fotografias, as meninas sorriam com laços de fitas cor-de-rosa pelos
cabelos, por certo ansiosas para o início das aulas. Pulemos o enredo de pânico
que contrasta com a imagem: o resultado foi a morte para mais de 300 pessoas.
Maciçamente, crianças.
Dois anos antes, um Teatro, em Moscou, foi invadido por insurgentes.
170 pessoas morreram. Estes dois episódios não se pretendem ilustração para o reclame
contra a violência pura e simples; olhemos, um pouco, para o Norte do
Cáucaso, este lugar tão distante da nossa realidade geográfica, e, por isso, alvo
tão facilmente associado ao exotismo, à guerra e ao terror.
A região do Cáucaso agrega mais de 8 milhões de pessoas, que falam
mais de 30 línguas diferentes, dialetos múltiplos, e são mais de 40 etnias
agrupadas entre turcos, iranianos e caucasianos. Todos os grupos mantêm
uma relação identitária forte com seus próprios costumes, e há, ainda, a
complexa configuração religiosa: à exceção dos ossetas e eslavos, que são, majoritariamente,
cristãos ortodoxos, e dos tártaros, de origem judia, a população restante é
muçulmana. A Chechênia e o Daguestão, cenários mais conhecidos da imprensa,
têm tradição Sufi.
Ao contrário do que parece, contudo, a violência extremada da região não
está associada diretamente ao nacionalismo ou às questões religiosas. Note bem,
leitor: ambos são elementos fundamentais do caldeirão, mas a preponderância
do terror está mais intimamente ligada às questões históricas, de culturas
habituadas a ter a jugular mordida pelos russos.
A escalada de violência na região aumentou depois das duas guerras
da Chechênia (1994 - 1996 e 1999 até os dias atuais, respectivamente. Lembro que,
em 2009, o Kremlim anunciou o fim da segunda guerra contra a Chechênia,
mas apenas oficialmente). A resposta de Moscou aos conflitos no Cáucaso
começaram por meio da compra de lealdade de líderes de elites locais ao
Kremlim. Em troca, os russos garantem (conjugo o verbo no presente porque
a estratégia se mantém) o repasse de recursos (mais de 85%
dos recursos financeiros da região são oriundos de Moscou) e a manutenção
do poder dos escolhidos.
Em 1996, Boris Yeltsin negociou o cessar-fogo com os rebeldes checheno
sugerindo a independência de facto (na prática), e não de jure (garantida
legalmente). Em 1999-2000, a questão chechena foi tema de grande importância
na campanha presidencial do atual Primeiro Ministro russo, Vladimir
Putin. As coisas mudaram, contudo, a partir de 2007. Putin passou a promover
o que ficou conhecido como "chechenização" da região: colocou
no poder o Presidente Ramzan Kadyrov, que é um conhecido corrupto
checheno, envolvido no assassinato da jornalista investigativa
Anna Politovskaya, uma das vozes mais críticas da Política da região. Parênteses:
durante o governo Putin, 11 jornalistas foram assassinados (veneno foi
o principal catalisador na maioria dos casos) e nenhum foi investigado.
Fecho parênteses.
Desde então, a Economia chechena avançou (languidamente) e o apetite pela
secessão diminuiu. Putin, ao contrário de Yeltsin, prometeu aos russos que
não negociaria, em hipótese alguma, com os rebeldes, durante a segunra guerra
da Chechênia. A imagem de um líder forte, centralizador e estrategista,
enraizada na cultura soviética, garantiu boa parte da reserva de prestígio de
Putin - ainda hoje, com Medvedev na Presidência, Putin é a figura política
mais poderosa da Rússia, de acordo com pesquisa de opinião recente.
As sucessivas tentativas de insurgência, por parte do Cáucaso, são
manifestações em prol da independência das repúblicas, mas esta região não
se tornou pobre depois da queda da URSS. A região é pobre desde sempre.
Inconformados com a corrupção arraigada, a falta de canais políticos legítimos
de expressão, os níveis absurdos de desemprego, a ausência de eleições
(os líderes locais são apontados por Moscou. recentemente, Medvedev
conferiu um sopro de "democratização" ao Cáucaso: agora, Moscou recebe
uma lista com 3 indicações de nomes e elege o que melhor lhe convém.
antes, inexistia lista - !), os jovens (sobretudo, homens) buscaram na religião
uma opção política e o comprometimento com a causa religiosa implica
ir contra todos aqueles que não a conclamam. O islamismo promete, aos jovens,
diminuir a violência, equalizar o sistema social e elevar a oferta de empregos.
Os jovens não acreditam, desde os anos 80, que a Rússia vá resolver seus
problemas e, agora, buscam soluções alternativas, como a religião. E que
outras soluções teriam? Não há lei a ser invocada nem Democracia que
os respalde minimamente no direito ao básico.
Moscou conseguiu alcançar
grande parte dos objetivos de Putin na região, e relativa estabilidade, sobreutdo
na Chechênia. Contudo, exportar o modelo de patronato alcançado com
Ramzan, para as outras repúblicas, é difícil porque os aliados são esparsos.
Moscou tem opções (apontar homens fortes e mandados para governar
as repúblicas da região ou democratizar a Política caucasiana. A segunda opção
está fora de cogitação), mas não tem estratégia definida, a não ser a tática
do patronato.
Ir ao Daguestão, visitar a Chechênia e colocar os dois olhos na
matriz de real destes lugares são desafios, leitor. Diz-se que só
com conhecidos locais e escolta, mas deve haver jeito mais simples.
O problema das línguas às dezenas, da região, é que são elas -como conversar
com os locais sem intermediação é um problema. Estou a pincelar o Cáucaso,
rapidamente, por conta da minha dificuldade em abstrair conceitos de pessoas.
Me ponho a maquinar jeito de, algum dia, ir ter com os caucasianos. Deixar
que digam, tirá-los das estatísticas, dar-lhes rosto. Entender o nível de dor
contida no discurso do caucasiano médio, e não do político do alto
escalão. Confabulo romanticamente. Perdão, leitor. Estou encharcada
de algumas revisitas à História e daí que a cachola quer saber de ir a campo.
Selo? Creio num bem simples: " Nossa única defesa contra a morte
é o amor". Saramago.
Lívia








