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Posts de novembro 2010

Neve. E Kutná Hora.

29 de novembro de 2010 5

       Quem dera, leitor, derramar os olhos não apenas nas nuances, mas, antes, nos símbolos

mágicos todos que referendam a neve. Pois que neva já desde sábado, e lá se vão rodopios brancos

pelo ar, macios paralelogramos cheios de pegadas pelo chão, bolinhas quase invisíveis a

despencar, feito alogodões, do céu. E gentes e cachecóis e cores e casacos vão decorando

as ruas, muito vestidas e iluminadas para o Natal - em Praga, os mercados abertos, nas praças

principais da cidade, já perfumam os ventos, com chás e vinhos e doces típicos, artesanatos

e luzes pelas barraquinhas. A grande árvore de Natal, na Praça Velha, acende-se inteirinha à noite,

que se faz a partir das 4-e-pouquinho do que convencionamos chamar-de-tarde-em-paragens-

brasileiras.

               O causo, leitor, é que estou em Praga desde há dias, que a neve chegou assinando feitos

grandes: o aeroporto de Edimburgo está fechado e o Reino Unido enfrenta tempestades brancas

como, dizem os locais, não se vê há muito. Não se consegue voltar! Cá, na República Checa, é coisa

linda de se ver: abre-se a janela do telhado, inclinada em direção às vistas do céu, e vê-se os

brancos a polvilhar as torres das Igrejas, os verdes muito tímidos sugeridos vez ou outra, debaixo

do branco todo, em uma árvore ainda não de todo despenteada. A neve dispensa guarda-chuva:

caem os flocos, não as águas. Bolas de neve amontoadas na palma da mão enregelam as luvas, mas,

ai, que delícia jogar aqueles montes macios e fugir dos que nos são jogados pelas pessoas amadas!

            O pequeno rito que agora me alegra as manhãs consiste no perfume de um cappuccino

fumegante e cremoso, adornado em caneca colorida, com o qual perfumo os primeiros minutos

do dia, colocando os olhos para ver os flocos caindo na paisagem branquíssima da rua, através

da janela. Me comovo com os cães desvestidos, que aguardam, firmes e trêmulos, os donos, à

porta do supermercado, e observo o movimento sutil das vidas que se guardam, que o inverno

faz um bem danado à conformação do caráter. Acrescento como rabo de frase o alarde gráfico

de uma exclamação, pois que sugerir coisas da alma é ousadia por demais.

                              

           Me afasto, por minutos poucos, para ver que tal corre a noite, lá fora. A neve, agora, parece

cremosa e não tanto algodoada, e pode ser que, amanhã cedo, se apresente cristalizada e fina, que

sua aparência física varia conforme os humores do céu. Foi de humor levíssimo, que, no sábado,

abrimos a porta e nevava. Tomamos o rumo de Kutná Hora, cidade que se debrua na Boêmia

Central, num trem que nos dava a conhecer os floreios da neve pelas paisagens todas.

           Kutná Hora não tem a graça encantatória de Tábor, que sua vocação é mais industrial e

menos mágica; faltam as fachadas coloridas e as escadas secretas; também não se veem as cabeças

verdes dos patos. Mas, ora, Kutná Hora nos recebeu com neve, e, de mais a mais, pretende-se

alquímica. Lá está o maior ossuário da Europa, colecionado numa Igreja gótica. Explico. A cidade,

toda ela medieval, não dava conta de enterrar seus mortos, de modo que uma Capela foi erguida

para o abrigo dos ossos. O curioso foi que um monge decidiu ornar a Capela com as ossadas. A

decoração macabra a mim não agrada - pode-se aventar a reflexão sobre a pequeneza humana,

o retorno ao pó, mas, não, leitor, não se me toca, que o que me correu pelos botões, lá dentro,

foi que a humanidade, este ente invisível de que somos parte, está fora-da-casinha desde há muito.

                                                   

            A Capela de Kostnice é do século XIV, mas a decoração tal como se apresenta é do século

XIX. Subterrânea, barroca, foi ornada pelo entalhador checo Frantisek Rint, em 1870, e, a despeito

dos crânios e ossos diversos, chama  a atenção o lustre central, montado com ossos de partes

várias do corpo humano (o lustre eleva-se por sobre uma portinhola onde estão os ossos dos

15 nobres da cidade, à época - !).

                                                              

                 O macabro da Capela não está na crua nudez dos ossos, mas, antes, na comiseração. Não

nos pretendemos tão nus, tão inteiros, com tão pouca couraça. Eis a inversão dos vivos, todos nós

à cata de capas e marroquins que nos cubram as fragilidades e os maus feitos. Em justaposição

quase que premonitória, Kutná Hora abriga, também, a Catedral de Santa Bárbara, a padroeira

dos mineiros, que a cidade foi vivo nascedouro da prata, em tempos medievais, tendo enriquecido

a Coroa Checa.

                                   

         A Catedral, reconhecida em 1403 como Igreja, é decididamente linda, com seus vidros

coloridos à moda Art Noveau, púlpito barroco e um órgão dos anos 1700 que sinonimizam

maravilhas. Neste clima de paradoxos sacros e profanos, havia, ainda, o Museu da Alquimia,

que, infelizmente, estava fechado sem razões de pertinência. A explicação atravessaria terrenos

confusos, assemelhados a algo como os Estados Unidos dividindo a coordenação do local com os

checos, e de modo não de todo simétrico. Lamentei não ter podido conhecer o Museu, que, por

correlação imagística, me remete ao filósofo francês Gaston Bachelard, que não apenas

estudava imagens alquímicas, como as burilava em jogos de palavras.

                                                     

               O chá verde, contudo, servido à moda russa, com limão, seduziu-me desde o primeiro

gole, daí que foram 3 as vezes que bebi a infusão adouradada, que sempre caminhamos por demais,

para ver os lugares sem jejum dos vidros dos meios de transporte, e o frio não era acanhado.

            Conforme caminhamos por esta terra checa, para melhor lhe conhecer o íntimo, mais me

tomo como pasmada diante do aprendizado de algo valiosamente vivo, que tem de ver com o 

modo como o Comunismo ainda paira, em alguma melancolia, no ar, ao mesmo tempo em que

tudo parece em vias de se estar fazendo, de se estar colocando per se. Os checos lembram, às

vezes, personagens de Tchekhov, com virtudes abundantes que estão sempre sendo atropeladas

pelas forças ocultas do caminho, mas, ao contrário deles, sabem que o sol se colocará no

zênite, ocupados que estão em reconstruir,  com beleza, com verdade, com inteireza de valores,

por entre estes meneios históricos não de todo fáceis. A lição, se julgarmos existir alguma, que os

seres simples nunca o colocam em termos tão dantescos, é alquímica em medidas humanas: 

olhemos as perdas e os fracassos nos olhos. E coloquemo-nos, com humildade, a fazer

crescer a vida de dentro.

            A neve se vai fazendo e o chá já está pouco na caneca ainda quente. Hora, pois, de retirar-me

à Pasárgada do sono. Cunho a missiva com selo alquímico, em homenagem singela à República

Checa, de que gosto mais e mais:

           "Que o homem labute, sofra, aprenda, esqueça e volte ao vale escuro de onde veio e recomece

a luta". William Blake.

                                                      Lívia

Mandado Mercosul de Captura.

24 de novembro de 2010 2

          O frio, cá nestes plagos, ri a bandeiras despregadas. Na BBC, um senhor

de cabelos retintos  promete neve (a palavra rememora, em andaime

mental, o escritor turco Orhan Pamuk: "Neva apenas uma vez em nossos

sonhos") para a segunda semana de dezembro. Não é motivo para arregalarmos os olhos, que é frio parecido

com o do inverno da Serra do Sul - não é o causo de fazermos coisa

 pouca do nosso inverno brasileiro, oras! Por verdade, lhe digo, leitor:  já,

agora, diz-se boa-noite ao vizinho, no elevador,  depois das 16h45, quando o

 céu enegrece e o vento se põe a cantar. Que seria dos perfumes dos chás sem o frio?

 Eis uma das harmonias implícitas do inverno.

          Nesta quarta-feira de enregelar queixos, recebi, pelo pombo-correio

 cibernético, texto escrito para este blogue, daí que peço licença para adiantar o

 fuso e publicá-lo de pronto. Da autora, conto o seguinte: é dessas pessoas que

 desconhecem a palavra impossível. Não se presta a fazer mesuras ao medo.

 Raras vezes conheci nervos de tão persistente tessitura, pois que, para

 muito além de ser sumidade na área da Justiça, Dra. Izaura Maria Soares

 Miranda, Diretora do Departamento de Estrangeiros do Ministério da

 Justiça, é gente como não se faz desde há luas muitas.

            Décadas à frente da Comissão Técnica de Justiça do Mercosul lhe refinaram

as sabenças, daí por que agradeço, com enorme alegria, pela delicadeza de escrever

para esta Escócia suas percepções sobre o delicado tema da Segurança, no

que concerne, de muitos modos, às Migrações. Silenciemos

juntos, leitor, para melhor conjugarmos o verbo ler. Eis o texto:

      O crime organizado transnacional e a cooperação entre os

Estados como forma de combate

     Izaura Maria Soares Miranda

        O movimento migratório no mundo torna-se ainda mais acentuado

com o advento da Globalização, cuja reunião de países em Bloco visa discutir

situações comuns de diversas naturezas e estabelecer ações convergentes

em contextos regionais.

           As matérias ligadas à Segurança ganham mais relevância quando se

considera a integração resultante da Globalização, que gera, entre outros fatores,

 a expansão das atividades de grupos criminosos organizados. Algumas

propostas gloriosas são importadas para a órbita das discussões nos demais

Blocos, o que proporciona amplitude ao contexto das Relações Internacionais,

adaptando-as à realidade fática e legal das localidades diversas daquelas em que

foram erigidas.

        Lembro que vige, na União Européia, importante ferramenta de combate ao

crime transnacional, cujos efeitos a todos importa, consubstanciada em procedimento

denominado Mandado de Captura Europeu, que simplifica sensivelmente a

burocracia verificada em procedimentos de extradição, a fim de que uma pessoa

procurada para responder a um processo criminal, ou para o cumprimento de uma

pena, seja devolvida ao Estado emissor.

             Nesse contexto, foi assinado semelhante instrumento no âmbito do Mercosul,

que consiste no Mandado Mercosul de Captura, cujo objetivo é o de emprestar

celeridade à entrega de criminosos procurados ou condenados por determinados

crimes a um dos Estados do Bloco, para ali ser processado ou cumprir a pena

imposta.

            Trata-se de iniciativa que reveste-se de caráter inconfundível à eficácia

da atuação do Estado no combate ao crime organizado transnacional, já que as

facilidades migratórias, proporcionadas aos cidadãos por meio da integração regional,

são as mesmas que os criminosos utilizam para convulsionar os procedimentos

de captura e inviabilizar o exercício da jurisdição, com vistas à impunidade.

                   Lembro que o crime organizado não respeita fronteiras nem se submete

a critérios técnicos para disseminar suas atividades ilícitas, o que resulta em

evidente desvantagem para o Estado. É fundamental o uso de ferramenta capaz

de viabilizar o enfrentamento das investidas criminosas de forma efetiva, eficaz

e célere, sem, contudo, perder-se de vista valores ínsitos à dignidade da pessoa.

            Uma vez mais, agradeço: obrigada, querida, por colocar-se no

 espaço destas linhas.

                             Lívia


Sedarias coloridas em Tábor.

22 de novembro de 2010 4

        Uma cidadezinha com ares saídos de livro de contos-de-fadas. Apresento-lhe,

leitor, minha visão íntima de Tábor, pequeninamente inscrustada na Boêmia do

Sul, em plenas cores da República Checa.  Formigas-me-mordam se tiver sido

onirismo porque o causo é que creio violentamente na beleza que não se dá

ares de sabidinha e conhecida de Tábor, tanto quanto creio na beleza dos que amo.

Pois que fiquei vivamente encantada com o círculo que se limita à Praça, que é ali

que se veem fachadas vermelhas-que-viram-rosas-para-logo-serem-verdes-

e-então-pátinas-e-góticos-e-telhadinhos-como-ave-nunca-se-viu-iguais! Não

sei contar as fachadas porque são vivas coisas com as quais antes não me havia deparado.

Têm lá um ar oriental (quem já esteve na Rússia me conta que os ares de algumas

fachadas se parecem), um jeito de coisa inventada para contos, e as pessoas não

se dão às vistas; só cuidamos de descobri-las, num frio protagonista, no interior

da Igreja, ou do restaurante, ou do Café, ou, oras, no agasalho aquecido de uma

destas construçõs de fachadas mágicas.

                         

               Há o gótico, o renascentista, a linda Igreja; a cidade tem de ver com Jan Hus, mártir

da Reforma Religiosa checa, queimado vivo, que hoje nos olha imortal, na Praça

Velha, em Praga, como a lembrar que nenhum de nós será salvo da transfiguração

da dor e nem de alguma limpidez de alma. Há o Museu Hussita, a Câmara

Municipal que parece qualquer outra coisa que nada tem a ver com Política.

Mas, ai, eu estou nas tintas é com a beleza, com a mansidão das cores de Tábor.

          Não só estava frio, como havia neblina, de modo que a primeira visão da

cidadezinha mágica, ao sairmos do trem e andarmos metros poucos, dobrando logo

ali à direita, foi a do lago Jordão. Coisa mais bonita de se ver nesta vida, leitor.

Uma casinha (amarelo-ocre, no que parecia ser ao longe) distava dos verdes

meio nublados pela cerração, e os patos, de cabeças também muito verdes, bailavam

sem dar conta do gelo da água. Eis, então, que surgem dois cisnes destes que, de

se contar são puro clichê: com as penas garbosas,  ensinavam a altivez a nós

humanos, ali pasmados. Os cães (há muitos na República Checa) desenhavam

pegadas na pastosidade negra do chão molhado. As águas muito calmas, quase

plácidas, e não nos confundamos: água-rasa-é-água-funda. Ia ali reflexão

das águas, reduzida ao essencial.

                                

         Não posso parar de dizer Tábor porque há mais, leitor. No labirinto das ruelinhas,

que são todas muio estreitas e curvilíneas, olhávamos para o céu pintado de preto,

que pombas voavam às pamparras, e uma portinhola aberta, nos fundos da Igreja,

só podia ser sinal de aventura. Entramos. Subimos escadas que ora eram curtas, ora

eram lagras, ora com madeirame que rangia, ora havia proibição de seguir caminho e o outro

lado se abria, ora se passava por debaixo do sino enferrujado lá do alto, ora

houve caminhos-dos-sem-fim. Chegar até o cume era coisa de conto de fadas: um velhinho

carrancudo prostou-se à porta, cobrando lá o seu quinhão, que dava direito a ver,

do alto, de mais de 4 janelas diferentes, Tábor inteirinha e colorida. Pois quando

se olha de volta, vê-se este senhor sentado à mesa, numa sala cheia de selos e

dinheiros antigos (até cruzeiros lá se tinha), latas de chá enferrujadas, mapas

amarelados à venda. Será possível, então, que Kafka, ao invés de realizar o fantástico,

sabia mesmo é que a realidade é cheia de camadas, cheia de portais

secretos, quando abrimos os olhos para ver? Que Praga, leitor, tem exotismos

surreais, sendo as vitrines com sabões em pó dos mercados-da-esquina o mais

simples deles. Mas não vou narrar graças outras porque seria uma espécie de síntese

a resumir, invadindo o clima encantatório de Tábor, que me ponho a rememorar.

                        

                 Entre sedas e passamarias de paisagens, viajar de trem tem, ainda, a vantagem

de permitir que se leia com nostalgia. Olha-se através do vidro e lá se vai,

como a vida, o pedacinho da paisagem já no passado. E como é bonito ver as coisas

vivas em movimento: as folhas, os ventos, as chuvas (sóis também, por certo,

mas já são noites as naturezas por aqui, depois das 16h30), como também em

movimento íntimo a vida de dentro, em contato com o livro no farfalhar do trem.

            Os trens, aliás, são outro motivo de personalidade-a-observar. Na Itália,

a abertura das portas de um vagão para outro faz um barulho engraçado-como-o-quê;

ao passo que na França são pouco ruidosas; na Dinamarca, os trens são limpos e modernos;

na República Checa, antigos e melancólicos.

                Tábor tem seus vícios de cidade de interior, suas filiais-moderninhas-

do-comércio-cosmopolita-das-capitais ( o sorvete cremoso da ruazinha em frente ao

Relógio Astronômico, de Praga, está lá, em Tábor, na mesma confeitaria de nome

italiano em terras checas), sua intempérie escondida com o relógio para o passeio

de domingo, mas não está aí, afinal, a misericórdia para nós, os modernos-cidadãos

globais? A transfiguração há de existir é na simplicidade do passeio com o cachorro,

no anseio comum por um sorvete cremoso de praça. Colocar a alma para arder

na pira do cotidiano já é ambicionar coisa por demais, tomar do mundo o indizível,

que é tão mais bonito.

            Tenho para mim que o mundo é cada vez mais secreto e se quer menos

explicado e dissecado e analisado e colocado à mesa, sob as ordens gélidas de

bisturi. Daí Kafka. Daí, aliás, Fernando Sabino, que defendia que o artista deveria

ser, mais e mais, um amador, especialmente quanto à técnica. Para Fernando, Tolstoi

era amador, enquanto que o nosso Machado era um profissional. Grafou ele algo

assim: "A excessiva consciência profissional da Arte amesquinha o artista e cada

defeito a menos é um pecado a mais". Assim creio Tábor, tão pouco afeita ao olho

que explica a Arquitetura, o período, os séculos-e-séculos-amém. A cidade

transfigura-se para quem lhe quiser ver. Que quem for apenas para olhar,

vai ter de se haver com a realidade profana, sem arder mistérios.

               Coloco, hoje, um selo lindíssimo na missiva, que, falando em Tábor,

falo também de deslumbre, e eis que coisa assim sinto por demais pelas

singelas secretices orientais.  Rimbaud: "Está no Ocidente, mas livre para ir

morar no seu Oriente, por antigo que o julgue - e de morar bem ali".

                                            Lívia

Delicado dilema europeu.

19 de novembro de 2010 2

         O tema da migração e seus rótulos mais frequentes, como "estrangeiro", "requerente de

 asilo" e "refúgio", são politicamente poderosos na Europa contemporânea, uma vez que

interligam a questão da Segurança (especialmente, em nível doméstico) a temas de

identidades cultural que sustentam a ordem interna desde o pós-Guerra.

          A despeito das diferentes políticas migratórias definidas por países europeus

culturalmente diferentes entre si, o continente atraiu grandes levas de trabalhadores

estrangeiros nas décadas de 1950 e 1960. França e Alemanha, especialmente,

precisavam de mão-de-obra barata, difícil de ser encontrada em seus respectivos

mercados internos. Desde os 1980, contudo, as políticas migratórias européias vêm

se referindo aos efeitos "nocivos" advindos da entrada dos não-europeus, tidos como perigo

imediato às identidades nacionais. Aclaro, leitor, que, me refiro, aqui, ao "migrante" como

categoria geral, na qual estão incluídos os imigrantes, os requerentes de asilo e os refugiados.


         O fato é que o número de migrantes, em terras européias, é enorme, e o fenômeno

aumenta às largas, sobretudo porque, em geral, as famílias vêm ao encontro dos membros

que para cá se dirigem, em busca não apenas de empregos, como de benefícios sociais -

Saúde e Educação no topo da lista. No pequeno recorte da vivência, compartilho

a observação do cotidiano: na Universidade, são maioria os norte-americanos, os gregos

e os asiáticos. Sou a única brasileira da classe, que reúne mais de 40 pessoas, e, ainda assim,

note-se o jogo de construção identitária: me nomino e atuo como brasileira, especialmente

em questões que dizem respeito direto à raiz nacional, mas tenho acesso aos benefícios

europeus por ser, também, cidadã italiana. Em muitas medidas, portanto, meu discurso

identitário está contaminado pelas minhas relações fortes com o Brasil, ainda que, como

cidadã da União Européia, esteja apta a ver os de fora da Comunidade como outros.

 O paradoxo é que, para além da legalidade que me propicia a cidadania européia

genuína, sou eu própria outra, brasileira, o que não pode, creio, me conceder o direito

de reparar por sobre os ombros dos estrangeiros, nem como européia, nem como sul-americana.

                      

              O multiculturalismo é um tema de delicadeza amplíssima, baseado, no âmbito

da UE, em 3 questões de relevo mais evidente: a significação cultural do controle das fronteiras européias e

o limite ao movimento livre de pessoas, bens e serviços para os não-membros da UE;

a assimilação dos migrantes, por parte das comunidades locais;  e a relação entre a integração

européia e o desenvolvimento de sociedades de fora.

            Feito campânula de vidro, está claro que muitos migrantes são oriundos de países

colonizados pelos europeus. Desde a II Guerra Mundial, a Alemanha é, no continente, o maior receptor

de migrantes, que representam mais de 10% da população que lá vive. Marroquinos,

tunisianos e argelinos perfazem quase 6% da população atual da França. O Reino Unido,

por sua vez, recebe muitos cidadãos europeus, vindos de outros países do continente, com

destaque para o Chipre e a Grécia. O causo é que as crises econômicas, a queda da oferta

de empregos e um ensaio não de todo sutil do retorno da Direita ao poder, em muitos países,

tornam cada vez mais competitiva a distribuição de Saúde, Educação, empregos,

aposentadorias e mesmo de facilidades para a aquisição da casa própria. Simplificar

 a questão, contextualizando-a apenas em níveis político-econômicos, leitor, não seria justo.

 O curso da xenofobia e de algum racismo estão, direta ou indiretamente, conectados

 a um discurso chauvinista bastante forte. É sabido por todos nós que a Globalização acelera o

empobrecimento dos mais pobres e o enriquecimentos dos mais afortunados, do

 mesmo modo que é sabido que, desde que o mundo aí se colocou, indivíduos não de todo

 adonados de consciência, buscam vantagens aonde quer que lhes

seja possível. Pois tendo a Europa um elevado padrão de vida, recebe pedidos abundantes de

refúgios político e econômico, e, neste jogo de gentes muitas, há, de fato, aqueles que

vêm para se beneficiar do sistema social, unicamente, o que incomoda muito os cidadãos europeus.

          A questão que se coloca, e cada vez mais premente, é a do posicionamento da UE

acerca do tema, para além das Políticas domésticas dos Estados-Membros. Em 2008,

a então Presidência Francesa da UE pactuou uma Política de Migração e Asilo,

ambivalente em muitas medidas porque, de um lado, relaciona-se com o medo

de que a chegada de não-cidadãos fortaleça o terrorismo e desestabilize as identidades

nacionais, o que vem de encontro à retórica da UE, alinhada com vocábulos como

"valores comuns", "identidade européia" e "vínculos históricos".

     Por outro lado, a UE promove campanhas contra a xenofobia, o racismo e o

 nacionalismo exacerbados. Diante do panorama econômico ruim, os cidadãos

tendem a enxergar os estrangeiros como competidores na busca por empregos e colocações.

                                                  

          Alarguemos nossos recursos íntimos, cuidando de não cair na armadilha falsa

de apresentar resposta imediata para dilema tão cheio de filigranas, que traz consigo

ressignificações históricas, culturais, globalizantes, econômicas, políticas e sociais. É

evidente que a Europa atua sem lançar véu sobre a arrogância e que não escapa

à superioridade que acredita legitimar-lhe a personalidade, mas o que sabemos nós sobre

o sentimento de invasão cultural tão heterogêneo, tão acentuadamente calcado em códigos

mobilizadores da humanidade, como a Religião, a Moral e os Costumes? Qualquer

 lado para o qual se olhe haverá de ter suas dores próprias, e nunca estamos habilitados para julgar

tecido de tão particular tessitura.

              Dizia lá a muito mágica Adélia Prado que não-aceito-mais-que-ninguém-arreie-

em-cima-de-mim-os-seus-brasões, coisa de se poder evocar pelos muitos que tentam e não

conseguem fazer a vida cá nestes plagos europeus, por não terem, carimbado no

passaporte, o aval que lhes afiance a vida. O causo é que também os europeus trazem

consigo marcas arraigadas de perdas. E não poucas. Entender-lhes não é coisa simples,

mas é justo que o tentemos e que lhes respeitemos as razões.

              Faz-se o tempo de partir. Selo com fundo rosado: "Se queres ser universal,

fala da tua aldeia". Tolstoi.

                                                  Lívia



*Londres? Uma Viena, por gentileza!

17 de novembro de 2010 3

      (*parafraseando título de artigo publicado em revista checa, sobre Viena. No original: "Uma

Viena, por favor!")

      Londres é uma cidade cosmopolita, como se sabe desde sempre, mas peço licença,

leitor, para hesitar diante dela. Colocar-se em questão de amores com uma cidade é coisa tão pessoal que

creio ser importante aclarar: eis aí meu gosto pessoal se fazendo, que cada cidade tem

seu objeto próprio de amor. Pois Londres me faz sentir oprimida. Nela mora a marca

peculiar do excesso. Não me tome por generalista, que há maravilhas condensadas em

qualquer lugar em que se vá neste mundo (especialmente nos menos roubados pela

civilização ordeira que somos nós, os visitantes muitos), contudo, eis que Londres não

polvilha meus sentidos como o fazem, por exemplo, Viena e Copenhagen (articulando

a intuição, arrisco escrevinhar que Amsterdam também deve ser enfeitiçada por demais).

            Para Londres, tanto se lhe dá se faz-se o dia ou

se já há muito a noite acontece: o ritmo é o mesmo. Em Londres, cabem tantas coisas

e pessoas, que o indistinto das delicadezas, dos pequenos milagres, passa escorregado pelo

trivial. Na Londres contemporânea, bebe-se o chá sem que muito se dê por ele (faz mais

brilho bebê-lo com a naturalidade esquecida do que com a atenção de dois ou três minutinhos.

Importante diferenciar porque esquecer-se de algo para incorporá-lo ao cotidiano implica

ignorá-lo enquanto objeto visto e acarinhado pelos sentidos; atentar com naturalidade,

sendo já o hábito incorporado, é coisa diversa, que implica olhar e perceber, reconhecer,

dar-se por feliz em viver o pequeno milagrezinho do rito), como se o cheiro de poejo e

matricária esmagados não exalasse lá alguma mágica, energizando olfato e o paladar.


                  

              Não coloco os pés na paisagem metafórica do futuro, que ainda muito quero ter com

Londres - sabê-la mais humana e menos automática, talvez. Aqueles outdoors anunciando

produtos demais, aquelas gentes fumando e caminhando rápido demais, o gênio inglês

já gris quase que por hábito do que por distinção e personalidade, a roda-viva da qual

se corre atrás. Podemos, no entanto, dizer nós que as capitais do mundo também não carregam

esta opacidade opressora? Mas, ai, leitor, não estamos a misturar tamarindo com cinábrio!

O que se quer é amar as cidades em suas delicadezas e mistérios, em sua capacidade de nos

colocar em xeque a vida e as culturas, e, de certo modo, as cidades nos ensinam também

a nos voltar para dentro da casa da alma, que os lugares de fora são as projeções dos

lugares de dentro. E Londres é notívaga, fumante, bebe às favas, congrega os cheiros

de fumaça, é-tanta-coisa-que-tudo-é-nada-e-nada-é-tudo. Às cambulhadas", como diria o Machado.

Eu, cá, sou diurna, gosto de ver os bichos acordando e dormindo segundo as regras da natuerza,

saúdo o céu azul do mesmo modo que me guardo quando ele se recolhe, cinzelado, e me

 desespero com barulhos e luzes e gentes e estímulos assim, reunidos a um só tempo. Ai,

se a gente não corre pra dentro de si, como nos gastam os estímulos excessivos de lugares assim!

Stendhal escreveu que, quase sempre, um homem ama, na mulher eleita, o que

ama na vida (valendo a mesma regra para nós, mulheres, em relação aos homens), e eis

aí, creio, o evidente paralelo com os lugares. Minha vida de dentro dá para o

recolhimento, talvez daí a impossibilidade de viver

no ritmo de lugares onde impera algum excesso (os piores são os envernizados, que

se creem modernos antes mesmo de o serem), mas Londres tem suas graças, que

a mágica não é exclusividade dos escandinavos, oras! E um dos truques é 221B Baker street,

residência de Sherlock Holmes, esta personagem fantástica que adoro desde pequena.

           Elementar, meu caro Watson, a casa é uma criação fictícia, daí por que perfeita,

um portal valioso para a imaginação. As escadas rangem, ao modo das residências inglesas

antigas; há lareira; todos os objetos (a lupa, o casaco, o violino, os livros - muitos - ,

os mapas, os tubos de ensaio, a marca do refinamento em objetos de prata enegrecidos

pelo tempo, as correspondências) lá estão, para deleite de nós, os leitores.  Príncipe Charles mandou carta ao detetive,

tendo sua Secretária Real assinado de punho próprio, com timbre monárquico, o texto.

Há o quarto de Holmes, há o quarto de Watson, há a sala principal, o hall, o toalete.

E, eis que de súbito, dou com Watson, quando desço as escadas estreitas da residência.

Quando me descobre brasileira, fala comigo em português-tinindo-de-castiço. Ahá! Truque básico: aprendem

4 ou 5 palavrinhas dos idiomas dos turistas e aplicam-nas para impressioná-los. Eu, me

dando ares superiores, confirmo a regra íntima: não se deixe contaminar pelo cinismo

do mundo tão rapidamente. E funciona! Eis que Watson conhece a Geografia brasileira, tendo

é claro, o cuidado de sempre entrelaçar as frases com a personagem, que me lembra,

polidamente, que sempre gostou de Geografia. Conversamos sobre as eleições presidenciais,

que ainda estavam por acontecer, e até arrisquei um outro tema da trivialidade, para

testar-lhe o português (o ego tentando ensombrecer a magia). É tudo verdade: Watson

estava lá e Holmes poderia chegar a qualquer momento. Estive em casa do detetive e trouxe

comigo o cartão de visitas, que não-troco-nem-por-todos-os-chás-da-China.

                  

                      Não estou a fantasticar tangerinices: no quarto de Holmes,

abri os armários e procurei, no livro em repouso na mesa de cabeceira, algum sublinhado

específico, tendo, também, observado as partituras muito gastas (o que nos faz supor que

foram sempre muito usadas) ao lado do violino. O cheiro de tabaco bem lembrava aquele

perfume pouco marcado do jasmim à noite, quando o vento dissipa as notas da flor, com

suavidade. Não ouvi as rodas do cabriolé, sugerindo a chegada do dono da casa, mas

fucei atá não mais poder, leitor. A menininha que eu fui é que narra isso tudo, tendo

arregalado os olhos em bolas.

                   

                 O dia, hoje, foi-se às 16h12, mais cedo do que o habitual, frio de enregelar

abelhas,  que as vejo aqui e ali, beijando as flores para abastecer o colmeal. Vou-me para

a casa de dentro, que algum chá perfumado farei logo mais. Eis o selo: "Toda crise

da sociedade é, definitivamente, uma crise da imaginação". Alberto Manguel.

                        Lívia




Em casa bela.

15 de novembro de 2010 6

       Nomina-se Praga como a-pequena-Paris, mas creio que o adorno bonito não lhe faz

justiça. Sir Thomas Browne, escritor inglês que tinha lá o pezinho nas coisas alquímicas,

cria que Deus nos oferecia o mundo sob 2 aspectos: como natureza e como livro. Boa serva

de ambos, reconheço em Praga um pequeno mundo, cabendo nele, leitor, as duas faces

da moeda.

           Para não derramar encantamento, que o frasco é dos pequenos, encurto grafando que

Praga refina a realidade em muitas medidas -  é exótica-como-o-quê em coisas que mais se

assemelham a estripulias de duendes - , fazendo-a menos grosseira. Mas, ai, pulemos

o conúbio apaixonado, que Praga se fará presente nas linhas de abaixo. O causo foi que

na minha quarta visita à cidade, houve lá uma sorte saída da cartola que me propiciou

correr os olhos pelo interior do Palácio Arquiepiscopal, residência do Arcebispo de Praga, Cardeal Minoslav

 Vlk, que abriga uma série de 8 tapeçarias francesas, dos idos de 1700,  intitulada Novas Índias. A natureza

selvagem e a tropicalidade do Brasil (!) e da África são os temas dos bordados. Há detalhes curiosos, como o

 fato de uma única árvore abrigar mais de 3 tipos de frutas. Zebra, rinoceronte, tartaruga-marinha,

peixes (muitos), onça e araras convivem no mesmo quadrame. As tapeçarias contrastam

lindamente com o interior da residência.

                                    

         O Palácio está incrustado ao lado do Castelo, e, de seu terraço, enxerga-se

a silhueta completa de Malá Strana, "Cidade Pequena", que é Praga por excelência.

As cores das fachadas, os ladrilhos, a Ponte Carlos, a Igreja de São Nicolau, o Museu

Nacional, a Igreja de Santa Ludmila, o Teatro Nacional: a vista é absoluta, completa.

A-estibordo (se estibordo é o lado direito de quem olha para a proa), está o Monastério

Strahov, muito, muito branco, ocupando largos metros de terra.

                Como o Palácio data dos anos 1500, abriga, em seu interior, camadas de Arte de fases

distintas. Há uma Capela privada do Período Renascentista, com relíquias de 1413, como

os bustos de São Pedro e São Paulo. À esquerda de quem ingressa no recinto, Nossa Senhora

de Fátima, face levissimamente inclinada à direita, observa. Emocionante, a sensação.

Não saberia precisar se o aroma era de heliotrópio ou cidra, mas havia perfumes de há muito,

no ambiente.

             No salão em que estão os retratos dos Arcebispos, uma mesa (possivelmente, de jacarandá)

para 18 pessoas ocupa o centro. Foi ali que o Papa Bento XVI fez suas refeições, por ocasião

de sua visita à Praga, em setembro de 2009, que coincidiu com as duas décadas de

extinção do comunismo no País (Revolução de Veludo). Se considerarmos o design, as formas, os objetos,

a disposição espacial e a decoração, o Palácio é predominantemente Barroco, Rococó e Renascentista,.

O famoso mármore da República Tcheca, Slivenec, apresenta-se, esculpido, em diversos

portais, e, ai!, existe uma entrada secreta, ao gosto sherlockiano. Os brasões e as inscrições

em latim são discretos, no conjunto, e dois salões, menores, têm suas paredes vestidas com

padronagens inspiradas na Arte Japonesa. Na mesa de centro de cada um dos salões, um vaso

de porcelana chinesa reina, delicado.

          Anjos voejam, no topo das portas de um destes salões, e eu juraria que são esculpidos,

não fosse o socorro do atento anfitrião, que explicou tratar-se de pintura. À perfeição,

profundidade e perspectiva brincam com os sentidos. Peço licença, leitor, para o déjà-vu:

a Capela Sistina e seu efeito tridimensional, dadas as devidíssimas proporções.

                                

                  Malá Strana tem essas vibrações quase-aurais, pois que, especialmente agora,

em que o dia se transmuta em noite às 16h55, veste-se toda com candelabros. As fachadas

dos edifícios testemunham o óleo-do-caroço-de-algodão queimando, cheiroso. E é nesta

cidade-pequena que está, também, a Igreja de Santa Maria da Vitória, que guarda a imagem

do Menino Jesus de Praga. E que bonito é, o Menino! Suas vestes coloridas estão

expostas num Museu dentro da Igreja (uma das capas foi bordada à mão pela Imperatriz

Maria Tereza), mas o Menininho é quem comove, naquele momento de reclusão

íntima a que nos submetemos quando estamos em convescote com Deus, apontando

pensamentos e sensações cheios de boniteza. Eis, leitor, que o Brasil lá está. Desde 2007,

uma imagem de Nossa Senhora Aparecida mora no Santuário do Menino Jesus de Praga.

Entronizada ao lado do Menininho, compõe, com ele, o símbolo de devoção dos muitos

brasileiros e latino-americanos que peregrinam no Santuário, anualmente.

                    

              Mantendo o mote, compartilho uma leitura recente de que gostei muito. Antes,

porém, explico: Pablo Neruda, o poeta chileno, nasceu Ricardo Basolato. Adotou o

"Neruda" em homenagem ao escritor checo Jan Neruda. Pois ganhei (em inglês) o Povídky

Malostranské (tecla SAP: Contos do Pequeno Bairro, nominadamente Malá Strana), escrito

em 1877. A burguesia checa é satirizada, predominam temas relacionados à doença

e à morte e não há economia nas referências: Malá Strana é o fio condutor de todas

as histórias. Na edição que ganhei, o editor faz referência ao fato de muito pouco se ter

alterado na paisagem do bairro desde 1877. É verdade, leitor. Deixo a pequenina sugestão,

alargando-a um pouco: caminhar pelas ruas de Malá Strana, e algumas semanas depois,

tendo já ido ao fundo da alma as percepções apreendidas, ler Jan Neruda.


                     

                 Desabam, já, luminescências do céu. Estrelas, por certo. Hora de selar a epístola:

                 "A palavra voo é uma palavra em que tudo fala aos sentidos". Balzac.

                                           Lívia



Haja quem lhe encontre a chave.

12 de novembro de 2010 4

        Sentada à porta do sonho expansionista, a Rússia não cede fiapo que seja de sua

soberania, de sua independência e de sua personalidade. Que saiba a União

Européia, leitor, este poder mais civilian e tão menos frontal

              Coloquemo-nos, leitor, a observar um rio historiado, ou seja, um rio que deixou

de ser selvagem. Os russos têm, hoje, um Presidente liberal, que insiste na modernização

da burocracia da máquina, que defende a ampliação das relações comerciais com o reso

do mundo, que não é siloviK (oriundo da KGB), mas que é instrumento de manejo

de alguém mais poderoso, sabidamente, Vladimir Putin, e que não detém a habilidade política

nem tampouco o carisma inquestionável do antecessor. Menos bélico, talvez, mas

muito almofadado também, especialmente para um povo acostumado a cortar

as dificuldades às brutas, que a História do país não deixa de sinonimizar com a História

da adversidade. E há os clãs e oligarquias, que, generalizando perigosamente, à moderna,

são a nomenklatura (máfia russa) da contemporaneidade. Os níveis de corrupção

no Governo russo são elevados e é estranhíssimo pensar que o próprio Putin é

presidente de um Partido ao qual sequer é filiado. O sistema político na Rússia é tão

enigmático quanto complexo, e nós, os modernos-democráticos-ocidentais, logo

corremos a analisá-lo, réguas e canetas â mão, mas viver sob a égide deste sistema

é coisa que não se conhece no dorso. Podemos advogar, e não sem razão, que a

Rússia não é um país democrático, apesar do discurso modernizador e liberal; podemos

observar o histórico de paranóia, desconfiança e defesa que caracteriza a cultura russa;

podemos nominá-los sanguinários e bélicos (ver-Stalin); podemos, ainda com razão,

argumentar que a Rússia mostra os dentes mais vezes do que sorri; mas quem de nós

sabe e conhece a circunstância que molda a cultura de uma sociedade habituada

a viver na casa do carrasco, com a cabeça abaixada para conferir-lhe algum

respeito (inventivo que seja, que o poder é sempre inventado para poder existir)?

         Da Rússia muito se diz, muito se conjectura, muito se espera, muito se teme,

muito se quer saber. A clareza é princípio dos latinos, daí por que não se pode esperar

claridade de 3 mil velas de um povo que aprendeu a desconfiar, tendo de se haver consigo e com as armas de que dispunha. A Rússia é complexa politicamente, mas o é muito mais culturalmente. Daí o

fascínio. Haja quem lhe encontre a chave.

            Os europeus temem e respeitam a Rússia, querem-na muito perto, mas ela

não se deixa ludibriar pela psicologia felina típica dos europeus - arranhar com as unhas

para acariciar com as patas. Estou, já, como vê, leitor, a bradar o valor da resistência

russa, mas não nos deixemos tomar por este tipo de sentimento simples, que o

jogo é sempre mais dúbio quanto mais complexos são os componentes. Nesta peleja

entre os russos e os europeus, penso, claramente sugestionada pelo tema naive,

em O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, que coloca em xeque a nobreza da Arte

e o preço que o artista paga por ela. Os russos não barganham com sua independência

desde nunca, e os europeus esperam entrega. Rendição. Até certo ponto,

a manutenção do discurso da desconfiança, que personaliza a Rússia, já é quase

pastiche de si mesmo, e resultado, talvez, de uma perda de confiança no absoluto porque,

abrindo mão deste algo tão grande que sempre a justificou, quem seria a Rússia?

E quais valores seriam colocados no lugar dos que se teriam ido? Sobretudo:

isso significaria ter de tomar para si os valores europeus? Não sejamos

arrogantes, pensando sequer em articular a língua para responder coisa tão íntima,

tão própria no seio de uma sociedade que, além de tudo, não é a nossa. Apontar

respostas simples, banalizando as dores alheias, é coisa presunçosa por demais. Não

sejamos tão adultos. Não se pode conhecer o mago sem, antes, entender sua magia.

A Rússia não quer suas questões discutidas pelo resto do mundo, faz de tudo para que

lhe façam apenas uma-ligeira-passada-em-revista, mas está exposta desde sempre

aos olhos deste mesmo mundo. Como numa bandeja.

              Talvez, os russos estejam, na verdade, expondo-se muito menos aos olhos

da Europa, na contramão do que tanto quer o Ocidente, porque esteja crescendo muito

rapidamente por dentro. Algo está em transformação na cultura russa, e parece

que este algo é coisa para ser sentida, como todas as coisas que contam, apenas daqui

a duas, quem sabe três, gerações. Não os apressemos, que as coisas sólidas se fazem

melhor no tempo de dentro, nunca aos olhos do mundo, creio.

             Cá em Praga, de onde envio a missiva, intui-se o som da fricção

das pontas da chuva pelas janelas, logo mais. Hoje, então, ao invés de selo,

mando imagem, para que se possam os olhos fechar, conferindo protagonismo

ao som da chuva: vaso de porcelana azul ultramarino, de onde se tira um pincel

com cerdas de bambu, para uma pintura japonesa. O som, levíssimo, das cerdas

do pincel a correr pela folha (em papel de arroz, cuja textura é igualmente delicada, em

harmonia com os barulhos mínimos das fricções) não rouba o protagonismo dos barulhos

da chuva, harmonizando o conjunto.

                                  Lívia



Sem jejum de se amar Viena.

11 de novembro de 2010 2

   Os alquimistas catalogavam o rubi como uma pedra ardente - o carbúnculo,

esta palavra impositiva (imortalizada-magicamente-por-sir-arthur-conan-doyle-

em-o-carbúnculo-azul), que invoca o carvão e se refere ao fogo interno da pedra.

Imagine, leitor, pois, o carbúnculo incandescente em tons variáveis. Pense, agora,

em uma atmosfera cujo silêncio (porque não é ela barulhenta e ruidosa) só pode

ser quebrado pelo fio da História: arquitetônica, cultural, política, social, musical (eis

que as rimas pobres fazem graça, na frase de acima). A regra: a primeira sensação que

lhe chegar pela vida de dentro é aquela que deverá ser tomada em consideração.

E o que você verá, neste-exercício-de-observar-o-carbúnculo, é Viena.      

                                          

         Suponhamos que você, leitor, considere o fogo um elemento seco. As pedras preciosas,

que saibamos, também não porejam. Viena é uma jóia. A arquitetura reúne

elementos barrocos, neoclássicos, góticos e renascentistas, e não passa de um temperamento

tornado visível: naquela cidade, a vida pulsa, sem deixar de, sutilmente, comunicar sua

 imponência elegante, porque sem arestas e sobras. Não vou, hoje, geografar

pontos demais da cidade. Estarão firmes, presentes, mas não em excesso;

quero, antes, comunicar a cidade, dizê-la, que é coisa diferente de

apresentá-la. Peço licença, pois, para amar em letras escorridas, Viena.

                           

        Apreendamos o interior do carbúnculo, pois: o complexo que reúne museu,

biblioteca, apartamentos imperiais, Igreja, foi residência dos Habsburgo, que reinaram

longamente com seu Império Austro-Húngaro (decaído por completo apenas nos idos

de 1900), e chama-se Hofburg. Incrustrado numa área de onde se vê, também, o

Parlamento, é belíssimo e majestoso. Quase indizível porque requer a vivência

para se dizer. No centro da cidade, está a Stephansdom (Catedral de Santo Estevão),

a Catedral mais gótica nas quais já derramei a íris, cujo edifício muito gris, do século

XIII, contrasta com 250 mil azulejos vitrificados, no telhado. A nave da Igreja conduz

a um fundo colorido, que impacta especialmente por conta da predominância

do cinza. Foi lá que Mozart se casou com Constanze. A residência do compositor (localizada à Domgasse, 5), muito próxima

da Catedral, é, hoje, um Museu. Infelizmente, leitor, Mozart, que foi-se embora

do mundo em condições econômicas parquíssimas, é o grande pastiche mercenário

de Viena, um pontinho a escurecê-la. O compositor aparece rodando em bolas muito douradas

e brilhantes pelas vitrines; figura em invólucros de chocolates; é

serigrafado em sacolas de lojas; estampa objetos vulgares; Mozart intitula as

 lojas de souvenir (conforme indicação precisa de um leitor que deixou comentário em post anterior, que, por certo,

lá esteve, muitas  assim intitulam-se "Principalmente Mozart, e outros

souvernirs" - grifos meus). Mozart foi rejeitado em Viena e aclamado em Praga,

qundo vivo, e não deixa de ser interessante observar o desvio comportamental

dos seres de algum interesse, que ora agridem, ora elogiam. Não passa despercebido

o desequilíbrio da sociedade capitalista, que comercializa arbitrando o passado do gênio que

pisoteou.

      Curioso, leitor, muito curioso, é que Mozart, Klimt e Strauss (chegaremos

ao Danúbio - que é, diga-se, verde) inundam as referências turísticas locais, nominando

objetos e estabelecimentos, garantindo o lucro dos comerciantes, mas nada de Freud.

Silêncio sepulcral. Freud está, creio, em reduto específico, na Geografia da cidade, porque

o causo é que nada se vê, se ouve ou se diz a respeito, no universo das gentes

locais. Não estive no Museu, que abriga a casa e o hall de seu então consultório,

mas o cidadão que visita Viena conhece melhor Klimt, muito menos íntimo

dos comentários do mundo, do que Freud.

           

         Em Praga, mora o sorvete que elegeria-como-o-melhor-de-toda-a-

minha-vida, mas ali na Lugeck 7,  L'Italiana zomba da artesania italiana. O sorvete

mais cremoso mora em... Viena. Arriscamos a gastronomia local e eis a surpresa:

o primeiro lugar em que o arroz apresenta-se, acompanhante dos melhores, pelos

pratos. Nesta Europa,  inexiste arroz frequente nas refeições principais, o que causa

algum espanto ao paladar.

         O complexo arquitetônico clássico de Viena desaparece ao norte do Danúbio, onde

estão as organizações internacionais e os escritórios, com fachadas modernas, mas

também muito pouco charmosas. Strauss roubou, para sempre, o Danúbio, que

sempre será mais vienense do que europeu (é o segundo maior rio do continente

e corta muitas outras capitais), com sua valsa de 1867, o Danúbio Azul.

O rio é  deliquescente, exatamente como se imagina; a valsa toca, ininterrupta, nos voos da Austrian Airlines; muitos canais atravessam a cidade, para além do braço principal: a cor, no

entanto, é verde.

        Perdemos,  leitor, a beleza comentada do barroco Schonbrunn, o castelo onde

casou-se Dom Pedro I com Dona Leopoldina. Desde 1996, é Patrimônio da Humanidade,

legitimado pela UNESCO, mas não houve tempo de se haver com ele, que viajar, creio,

nada tem de ver com o cumprimento da maratona de metros muitos. Vai-se

com inteireza, mas sem a urgência que barganha com as cifras do turismo mundial.

Mas, ai, que o Castelo merecia, ah, merecia uma visita larga e ampla! Viena é daquelas

cidades que merecem mais de duas visitas para compreensão mínima de sua totalidade.

Assim também Roma e Praga, que são sempre múltiplas e desdobráveis.


         Não se pode resistir ao gênio de Mozart, apesar do que com ele faz o comércio

excessivo: inteiramente branco, seu pequenino busto mora, agora, perto

dos nossos livros. Que Viena deixa marcas lindas por dentro, que se querem

visíveis na vida de fora. Marcamos, pois, com o branco-do-mozartinho, Viena.

           Vai a sugestão (que tenho pavor dos tais "aconselho-isso-e-aquilo-ouro", que

invocam para si um tal conhecimento que não tenho, leitor, nem de Viena, nem

da Europa, que cheguei faz pouco, e que, por certo, jamais terei, que são grandes demais

as coisas do mundo, feitas para nos dar a consciência da pequeneza que nos habita):

 se passar pela Europa, privilegie Viena (elaborando agora, a cidade faz pensar

no temperamento sevilhano, em que a leveza se alterna com o trágico. Não confundamos

o comentário com a vida: não estive em terras espanholas - ainda. A comparação é subjetiva, que

a menção se faz porque as personagens ibéricas dizem muito sobre o modo de

ser do lugar).

             

            Corre a lua. Porque se trata de alquimia (carbúnculo-e-talecoisa), insisto:

para sentir Viena, é preciso vivê-la, que creio injusto apenas narrá-la. Eis o

selo, na medida desta vivência: "As palavras só retêm a realidade depois de a ter

assassinado; deixam escapar o que há nela de mais importante: a presença".

(Simone de Beauvoir).

                                                      Lívia



Der Kuss.

08 de novembro de 2010 2

      Gustav Klimt (1862 - 1918) foi um artista em quem, por certo, corria o calor de um vermelho

forte, numa intensidade inquebrantável. As telas de Klimt sempre me colocaram na

condição da serpente: mesmerizada. Estive eu, leitor, diante de O Beijo (em alemão,

Der Kuss / 1907 -1908), e ter estado diante da tela não reforçou o festejo de que foi

alvo, durante o século XX, toda ela inspirada tão vivamente em mosaicos bizantinos.

Não. Foi o caso de me voltar para dentro, por alguns instantes, sem festejos aparentes,

e concluir que a Arte é mesmo um imperativo mágico, se não se funda em uma base de reflexão.

                                         

    A beleza da presentificação da tela, a centímetros da íris gotejante do verde que eu tentei,

em vão, matizar na policromia das flores do vestido pintado, era dessas que podam a

inteligência criativa. Toma por completo os olhos. Relaciona-se diretamente com a identificação pelo

aparato: é uma tela que mobiliza instâncias profundas da psique, que convoca arquétipos,

e, de um modo muito sutil, sugere o universo íntimo da penumbra e dos lençóis. Não.

A tela não comunica o sensualismo típico que marca outras telas klimtianas, mas talvez

exatamente por isso seja tão inebriante. É muito sensualista. Seduzir, diz-se, é crer que se sabe o que o outro

deseja. Na contramão da sedução diretamente explícita, esta tela remete a um tempo

condicionado de amor, mais ou menos ao modo que os gregos intitulavam "o momento

oportuno", a "ocasião favorável", com seu vocábulo kairos.

         Não exporei, aqui, argumentos para cilindrá-lo, leitor, que a tela é belíssima e

funesta, num barroco sufocantemente elegante, com suas alegorias  geométricas,

em cores que profanam um dourado esparramado com destreza, sem sobras. O que gostaria

de compartilhar é a sensação. O levíssimo movimento do íntimo a agitar-se diante da obra

de arte. Quanto mais distantes as relações entre duas realidades, está claro que mais forte será

a imagem. Nesta tela, o dito da Isadora Duncan (você-já-foi-ousada-não-permita-que-a-

amansem) se coloca inacabado, e, se faço menção ao "inacabado" é porque algo está

em vias de se fazer. A mulher encontra-se submissa porque sente-se que é muito forte,

com os dois joelhos dobrados, o rosto inclinado angulosamente para o beijo do homem,

que comunica ardor, num compasso muito afinado com o medo extasiado do semblante dela. Julgarão paternal, em certa medida,

a imagem, que invoca proteção arquetípica, e, a feição drástica, a entrega doce, correspondem

ao ser que anseia proteção.

         Pensemos, contudo, leitor, nas metáforas do corpo. Sabe-se pouco sobre a vida íntima

de Klimt, que ele punha um véu de reserva sobre seus amores, mas o consenso (e sempre

duvidemos dele!) do meio crê que, na tela, figura ele próprio, Klimt, com Emilie Floge,

que teria sido a paixão crucial de seu caminho. Emilie não era dada ao jugo dos desmandos

masculinos, pois que enfrentava o homem amado, e Klimt a teria pintado lânguida não por desejo de submissão chauvinista, mas

pela inteireza do arquétipo, da entrega desta mulher a um homem que a possa acessar

sem jejum de brechas. A doçura, este lençol de linho passado a ferro, nunca se revela tão

inteira quando se coloca, quando não tem medo de se fazer presente num mosaico de

altivez.

                        

           Pretendo narrar espaço e ambiente referentes à obra, mas quero, antes,

alargar as sensações, que ainda me encharcam, de lá ter estado. O belo, nesta tela,

e aqui discorro a pena sob a égide do distanciamento estético, reside na

exploração de recursos da própria alma. Esta mulher,

apropriada de sua vida interior, exibe o semblante do ser que se coloca inteiramente nas mãos

do homem que a adorna, sem traço de jugo a curvar-lhe os joelhos. Esta tão desnuda fragilidade

me comove porque eis aí a força, creio, do amor: fragilizar-se, diante do ser amado, implica

conhecimento interior o bastante para explorar recursos que não aqueles do ditame clássico

da sociedade moderna, em que a força, invocada para se afirmar o desejo, dá lugar a nuances

mais sofisticadas do seu humanismo.  Há a força, que tudo nutre, e há a fragilidade, que

obriga o ser a explorar os recursos da própria alma. Como um tigre capturado na selva e solto

em área protegida. Eis a imagem que enxergo na mulher atada

 linda e arquetipicamente por este homem.

         A maior coleção de obras de Klimt do mundo, na qual inclui-se O Beijo, está

em um dos mais belos edifícios de Museus mundiais (o superlativo repetido, aqui, não é diabrura

deste post; a beleza magnânima se impõe sem precisar de quem a legitime, no caso deste

edifício), o Belvedere (www.belvedere.at), em Viena, na Áustria. O Belvedere Superior

abriga a galeria austríaca, com obras dos séculos XIX e XX, estando os Museus Barroco

e Medieval na parte inferior.

                            

           A atmosfera do Museu, especialmente do vasto jardim que liga os edifícios inferior e

superior, remete muitíssimo ao Museu Rodin, em Paris. Viena, lindíssima e divinal, que

amei como quem descobre a fórmula do que faz de um lugar, um lugar mágico, está vestida

para o outono, com suas árvores amareladas contrastando com o malva de muitos edifícios

barrocos e clássicos, daí por que não vi flores no jardim do Museu, mas o céu, muito

plúmbeo, parecia solenizar aquela entrada à casa de tantos Klimts, que perfilam coloridos,

o edifício que foi casa de verão principesca. Também lá está uma coleção larguíssima

de Egon Schiele (1890 - 1918), expressionista austríaco. Klimt trabalhava com linhas sinuosas,

mosaicos, espirais micênicas, olhos egípcios ao compor muitas figuras, círculos, e folhas

de ouro e prata, numa aura simbolista que ele transformou em Art Noveau, esta prática

tão lindamente exercitada, também, pelo tcheco Alphonse Mucha.

          Judith (1901), a viúva judia, uma das telas mais aclamadas de Klimt, está

 em uma das paredes do Belvedere. A prestigiosa Adele Bloch Bauer (1907),

leitor, mora, contudo, na Neue Galerie (www.neuegalerie.org), em Nova York, que visitei

alguns anos atrás, e considerei a pequena jóia da viagem. Explico. Trata-se de uma Galeria

de Arte austríaca e alemã, pequena e elegante, quase localizada discretamente num ponto

da fervilhante quinta-avenida, que contrasta vivamente com seu modo guardado

e fora da rota turística da rua famosa. Com singeleza, deixo a sugestão da visita, que

vale mais do que o confronto com as hordas e suas máquinas fotográficas, que

assolam os grandes museus.

           Volto os olhos recordativos para a tela. Guardada em uma espécie de caixa

envidraçada, que rouba-lhe o impacto inicial, O Beijo amplifica a fragilidade cúmplice

de um homem de uma mulher imperativos na compreensão de que nunca se é tão

forte como quando há coragem para se colocar a fragilidade nas mãos do outro.

Atenção, contudo, leitor: a referência não combina com estratagemas, repertório

de armas. A fragilidade só pode bastar-se a si mesma depois de ter experienciado

a força e de ter retido, desta força, o mais importante: a exploração dos recursos

da própria alma.

               O cheiro bom de canela e cardamomo dos chás perfuma os ventos gelados,

que já desde 4-e-meia-da-tarde o dia se foi e apresentou-se a noite, na Escócia.

                Recolho-me, pois que é hora, selando a epístola:

         "Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que

quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida do universo e de nós mesmos.

No último, no fim do homem e do mundo, há mistério e eu creio nele". (Lima Barreto)

               Lívia 






Post-it.

05 de novembro de 2010 3

    Peco perdao, leitor, por este assassinato injustissimo com o Portugues, mas escrevo de um teclado que nao o do meu computador - desconfigurado, portanto, para a boniteza que [e nossa lingua portuguesa. E nao somente: os fusos do Mestrado estiveram desencontrados com os do blogue, nos ultimos dias, com premencias um tanto persistentes, dai por que lhe peco desculpas pela ausencia deselegante, sem bilhete previo. Volto, contudo, na segunda-feira, com perfumacoes austriacas.

    A noite pega cheiros de chuva, avivando o contento de Fernando Pessoa ("Alegra-me ouvir a chuva porque ela [e o templo estar aceso"). O selo vai molhado, cheio de luz: "Mas a minha alma tem de ser de Deus: senao como [e que ela podia ser minha?". Guimaraes Rosa.

                   Livia