Quem dera, leitor, derramar os olhos não apenas nas nuances, mas, antes, nos símbolos
mágicos todos que referendam a neve. Pois que neva já desde sábado, e lá se vão rodopios brancos
pelo ar, macios paralelogramos cheios de pegadas pelo chão, bolinhas quase invisíveis a
despencar, feito alogodões, do céu. E gentes e cachecóis e cores e casacos vão decorando
as ruas, muito vestidas e iluminadas para o Natal - em Praga, os mercados abertos, nas praças
principais da cidade, já perfumam os ventos, com chás e vinhos e doces típicos, artesanatos
e luzes pelas barraquinhas. A grande árvore de Natal, na Praça Velha, acende-se inteirinha à noite,
que se faz a partir das 4-e-pouquinho do que convencionamos chamar-de-tarde-em-paragens-
brasileiras.
O causo, leitor, é que estou em Praga desde há dias, que a neve chegou assinando feitos
grandes: o aeroporto de Edimburgo está fechado e o Reino Unido enfrenta tempestades brancas
como, dizem os locais, não se vê há muito. Não se consegue voltar! Cá, na República Checa, é coisa
linda de se ver: abre-se a janela do telhado, inclinada em direção às vistas do céu, e vê-se os
brancos a polvilhar as torres das Igrejas, os verdes muito tímidos sugeridos vez ou outra, debaixo
do branco todo, em uma árvore ainda não de todo despenteada. A neve dispensa guarda-chuva:
caem os flocos, não as águas. Bolas de neve amontoadas na palma da mão enregelam as luvas, mas,
ai, que delícia jogar aqueles montes macios e fugir dos que nos são jogados pelas pessoas amadas!
O pequeno rito que agora me alegra as manhãs consiste no perfume de um cappuccino
fumegante e cremoso, adornado em caneca colorida, com o qual perfumo os primeiros minutos
do dia, colocando os olhos para ver os flocos caindo na paisagem branquíssima da rua, através
da janela. Me comovo com os cães desvestidos, que aguardam, firmes e trêmulos, os donos, à
porta do supermercado, e observo o movimento sutil das vidas que se guardam, que o inverno
faz um bem danado à conformação do caráter. Acrescento como rabo de frase o alarde gráfico
de uma exclamação, pois que sugerir coisas da alma é ousadia por demais.
Me afasto, por minutos poucos, para ver que tal corre a noite, lá fora. A neve, agora, parece
cremosa e não tanto algodoada, e pode ser que, amanhã cedo, se apresente cristalizada e fina, que
sua aparência física varia conforme os humores do céu. Foi de humor levíssimo, que, no sábado,
abrimos a porta e nevava. Tomamos o rumo de Kutná Hora, cidade que se debrua na Boêmia
Central, num trem que nos dava a conhecer os floreios da neve pelas paisagens todas.
Kutná Hora não tem a graça encantatória de Tábor, que sua vocação é mais industrial e
menos mágica; faltam as fachadas coloridas e as escadas secretas; também não se veem as cabeças
verdes dos patos. Mas, ora, Kutná Hora nos recebeu com neve, e, de mais a mais, pretende-se
alquímica. Lá está o maior ossuário da Europa, colecionado numa Igreja gótica. Explico. A cidade,
toda ela medieval, não dava conta de enterrar seus mortos, de modo que uma Capela foi erguida
para o abrigo dos ossos. O curioso foi que um monge decidiu ornar a Capela com as ossadas. A
decoração macabra a mim não agrada - pode-se aventar a reflexão sobre a pequeneza humana,
o retorno ao pó, mas, não, leitor, não se me toca, que o que me correu pelos botões, lá dentro,
foi que a humanidade, este ente invisível de que somos parte, está fora-da-casinha desde há muito.
A Capela de Kostnice é do século XIV, mas a decoração tal como se apresenta é do século
XIX. Subterrânea, barroca, foi ornada pelo entalhador checo Frantisek Rint, em 1870, e, a despeito
dos crânios e ossos diversos, chama a atenção o lustre central, montado com ossos de partes
várias do corpo humano (o lustre eleva-se por sobre uma portinhola onde estão os ossos dos
15 nobres da cidade, à época - !).
O macabro da Capela não está na crua nudez dos ossos, mas, antes, na comiseração. Não
nos pretendemos tão nus, tão inteiros, com tão pouca couraça. Eis a inversão dos vivos, todos nós
à cata de capas e marroquins que nos cubram as fragilidades e os maus feitos. Em justaposição
quase que premonitória, Kutná Hora abriga, também, a Catedral de Santa Bárbara, a padroeira
dos mineiros, que a cidade foi vivo nascedouro da prata, em tempos medievais, tendo enriquecido
a Coroa Checa.
A Catedral, reconhecida em 1403 como Igreja, é decididamente linda, com seus vidros
coloridos à moda Art Noveau, púlpito barroco e um órgão dos anos 1700 que sinonimizam
maravilhas. Neste clima de paradoxos sacros e profanos, havia, ainda, o Museu da Alquimia,
que, infelizmente, estava fechado sem razões de pertinência. A explicação atravessaria terrenos
confusos, assemelhados a algo como os Estados Unidos dividindo a coordenação do local com os
checos, e de modo não de todo simétrico. Lamentei não ter podido conhecer o Museu, que, por
correlação imagística, me remete ao filósofo francês Gaston Bachelard, que não apenas
estudava imagens alquímicas, como as burilava em jogos de palavras.
O chá verde, contudo, servido à moda russa, com limão, seduziu-me desde o primeiro
gole, daí que foram 3 as vezes que bebi a infusão adouradada, que sempre caminhamos por demais,
para ver os lugares sem jejum dos vidros dos meios de transporte, e o frio não era acanhado.
Conforme caminhamos por esta terra checa, para melhor lhe conhecer o íntimo, mais me
tomo como pasmada diante do aprendizado de algo valiosamente vivo, que tem de ver com o
modo como o Comunismo ainda paira, em alguma melancolia, no ar, ao mesmo tempo em que
tudo parece em vias de se estar fazendo, de se estar colocando per se. Os checos lembram, às
vezes, personagens de Tchekhov, com virtudes abundantes que estão sempre sendo atropeladas
pelas forças ocultas do caminho, mas, ao contrário deles, sabem que o sol se colocará no
zênite, ocupados que estão em reconstruir, com beleza, com verdade, com inteireza de valores,
por entre estes meneios históricos não de todo fáceis. A lição, se julgarmos existir alguma, que os
seres simples nunca o colocam em termos tão dantescos, é alquímica em medidas humanas:
olhemos as perdas e os fracassos nos olhos. E coloquemo-nos, com humildade, a fazer
crescer a vida de dentro.
A neve se vai fazendo e o chá já está pouco na caneca ainda quente. Hora, pois, de retirar-me
à Pasárgada do sono. Cunho a missiva com selo alquímico, em homenagem singela à República
Checa, de que gosto mais e mais:
"Que o homem labute, sofra, aprenda, esqueça e volte ao vale escuro de onde veio e recomece
a luta". William Blake.
Lívia












