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Posts de dezembro 2010

Felizes Festas!

22 de dezembro de 2010 2


            Quisera Senhor,
 
          Neste Natal, armar uma árvore em meu coração e nela pendurar, em vez de bolas, os nomes de todos os meus amigos. Os amigos de longe, de perto. Os antigos e os mais recentes. Os que vejo a cada dia e os que raramente encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes ficam esquecidos. Os constantes e os intermitentes. Os das horas difíceis e os das horas alegres. Os que, sem querer, eu magoei, ou que sem querer me magoaram. Aqueles que conheço profundamente e aqueles de quem conheço apenas pouco mais do que a aparência. Os que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os que já passaram pela minha vida. Uma árvore de raízes muito profundas, para que seus nomes nunca sejam arrancados do meu coração. De ramos muito extensos, para que novos nomes vindos de todas as partes venham juntar-se aos existentes. Uma árvore de sombras muito agradáveis para que nossa amizade seja um momento de repouso das lutas da vida. Que o Natal esteja vivo em cada dia do Ano Novo que se inicia.
  
          Com afeto,
 
                               Lívia

p.s.: volto em 3 de janeiro.

Caos = aeroporto de Amsterdam.

19 de dezembro de 2010 0

      Haja, leitor, que nem muda-de-pimenteira está para dar conta da saga que me aconteceu nos

últimos 4 dias. Pelo pavio italiano do sangue, vai aqui uma crítica ao despreparo, à desorganização 

e ao descaso dos holandeses. Generalizo, e quase que até estenderia a temperatura fervilhante

do sangue a Amsterdam, de que já gostava na imaginação (os canais, as tulipas e as bicicletas são

coisa de magicar paisagens) e de que gostei debaixo de neve, ma non troppo, ah! Não vou espalhar

mais vermelho na face. A Europa tem maravilhas de fazer

cutucos de alegria na alma, mas problemas que, se ocorridos em terras nossas, viriam acrescidos

de um isso-só-acontece-no-Brasil. Injustamente. Quanto mais viajo, mais coloco em

perspectiva o discurso dessas pessoas que gostam muito de ornar o rosto com pretensa

superioridade de cidadãos globalizados, falando mal do próprio país de origem. Sinto

espasmos quando me senta ao lado um ser assim, com sua sacolinha transparente de

free shop cheia de uísques e perfumes. O viajar e o colocar-se no mundo se confundem com os

verbos observar e escolher. Daí que lhe digo: não se tome por eufórico

com este conversê de que na Europa tudo funciona. M-e-n-t-i-r-a. O tecido das culturas é

todo ele feito de coisas maravilhosas e outras bastante ruins, aqui, no Japão, no Brasil ou

na Sibéria. Qualquer ponto do Planeta está fadado a esta gangorra de características.

Vou contar-lhe só minha aventura em Amsterdam.

                Amsterdam. 18h40 do dia 15 de dezembro. Neve e condições climáticas severas levam

ao cancelamento de voos sucessivos. O efeito dominó é compreensível; o outono (lembro que o

inverno começa, oficialmente, neste próximo dia 21) não pede licença para se fazer gelado; somos

todos adultos e bem educados, daí que, conforme o esperado, cumpre-se o direito dos passageiros

e são todos acomodados em hotéis, com transporte e remarcação de voos incluídos. Meu voo,

para Praga, fica, então, reagendado para sexta-feira, no mesmo horário.

           Sexta-feira, 17. Às 13h08, à espera do ônibus do hotel que leva, a cada 30 minutos,

grupos de pessoas para o aeroporto, me deparo com o motorista muito pálido, dizendo ao

funcionário do hotel que não-de-jeito-nenhum-em-tempo-algum-volto-a-dirigir-hoje. O percurso,

de 30 minutos, havia lhe tomado mais de hora e meia, com neve e engarrafamento a bandeiras

despregadas. Resigno-me. Passadas duas horas, trato de me colocar em movimento, atrás

de jeito de ir ao aeroporto e entrar no avião. Informações desencontradas, mais e mais

pessoas lotam o hall do hotel, vindas do aeroporto, em função de cancelamentos. 

Coloco, finalmente, os dois olhos dentro do aeroporto. Caos. Hordas de pessoas. Filas de 3 horas.

Novo cancelamento do meu voo. Embarco na fila interminável, a fim de remarcar, uma vez mais, o

bilhete. Me acenam com o domingo, acrescido de um “com sorte”. As companhias aéreas (no

plural) avisam, coletivamente, que ninguém terá direito à hotel. Argumentam que estão

todos lotados e que cada um deve decidir o que fazer por conta própria. Em alguns dias, deve-se

acessar a página da companhia e solicitar ressarcimento de 60 euros diários. Primeiro, risos

gerais – hotel algum custa isso na Europa, menos ainda em período natalino. Depois,

discussões. Passagens rasgadas. Lágrimas.Pessoas descontroladas. Tumulto.

             Na noite de 16 para 17 de dezembro, duas mil pessoas dormiram no aeroporto de

Amsterdam. Ônibus e trens cancelados: todos ilhados em Schiphol. Consigo a informação

de que o aeroporto proverá camas, às 22h, mas não muitas. Entro na fila com duas horas de

antecedência. Batem 22h. 23h. 24h. Ninguém aparece para explicar coisa alguma. Nem um chá,

nem um café, nem uma só água se materializam. As camas parecem, agora, miragens.

Pessoas dormem no chão, na poltrona de veludo do Papai Noel, e passam um, dois, três

funcionários munidos de ”ouvi dizer que”, “não tenho informações”, “procure a companhia aérea”.

Tudo já está fechado – cafés, restaurantes, lojas – mas não arredo pé. 1h18. Abre-se uma

porta, repentinamente. Na fila, pessoas acordam. Me sinto a caminho de um trem para a salvação:

empurrões, frases misturadas em muitas línguas, cobertores, malas, bolsas, cadeiras. Atravesso o

portão. Cama, travesseiro e cobertor, novíssimos, chegados da loja. Todos dormimos, até às 6h, na

 sala de espera “M”, da qual, por certo, jamais vou esquecer. Crianças, bebês, executivos, orientais,

italianos, tchecos, judeus, brasileiros: vamos, nécessaire à mão, fazer o toalete, cuidar dos

cremes e dos cabelos; alguns vestem pijamas; meias de cores e estamparias diversas sobressaem

nas pontas das camas. Dormimos todos.

               Às 7h02 de sábado, volto para a fila da companhia aérea, do lado comercial do aeroporto.

Me choco com a quantidade de pessoas espalhadas. Tento, de todos os modos, mudar meu voo,

de domingo (!), para sábado. “Infelizmente, senhora, não podemos fazer nada. A companhia não

proverá hotel nem levará ninguém para fora do aeroporto”. Tento embarcar para Berlim, para,

de lá, pegar um trem até Praga. Voo cancelado. Checo outras possibilidades. Um bilhete para

Paris, no dia 17, custava 2.000 euros (!). Filas, filas, filas. 9h48. Entro em nova fila, na

tentativa de conseguir um trem. 11h26. Consigo comprar, por quase 500 reais, um bilhete de trem

até Praga. Sem ressarcimento da companhia aérea, porque, de acordo com ela, a remarcação do

voo anula o direito de ressarcimento (eu e todos os passageiros do meu voo havíamos tentado

outras duas vezes remarcações, que resultaram em novos cancelamentos). Desconhecidos

trocam ideias, passageiros de companhias diferentes comparam qual é a pior de todas. Caos

cada vez maior. 13h. Chego na estação central. Hordas de pessoas. Chuva. Não arredo pé, torcendo

para que o trem não seja cancelado, a exemplo de vários, no dia anterior. Chega, afinal,

a hora do embarque. 18h45. Atraso de 15 minutos. Vou para a plataforma. Frio de – 11 graus. Nada.

Passam-se outros 15 minutos. Funcionários dizem não saber o que se passa. “Ouvem dizer que”.

Eu, minha mala e todos os passageiros com suas malas voltamos para a sala de espera. Atraso de

mais uma hora. Subo outra vez para o embarque. Nada. Ninguém explica coisa alguma. Volto,

outra vez, para a sala de espera. 40 minutos depois, anunciam que o trem chegará “em alguns

momentos”. Começo a duvidar e procuro manter as esperanças. Avante, oras! 20 minutos e -11

graus ao ar livre depois, entro no trem. 21h40 de sábado. Contados o

atraso de mais de 3 horas e o fato de que o destino final do trem era Moscou, a polícia fiscalizou os

vagões daqueles que parariam em Minsk, o que determinou mais de uma parada para

além das programadas, nas estações, sendo a mais demorada em Berlim. Chego em Praga às 13h08

de domingo.

             Checo o meu voo que sairia hoje, às 18h40, de Amsterdam, no caso de eu não ter comprado

o bilhete de trem. Cancelado. Com sorte, haverá violinos e panetones no aeroporto daquela

cidade, na noite do dia 24, para todos aqueles que continuam nas mãos das companhias aéras, sem

a opção de compra de bilhete de trem. Porque, afinal, ninguém tem obrigação de gastar o dinheiro

das férias em passagens que não serão ressarcidas, para além do dinheiro já gasto com o bilhete

aéreo, cujo voo não aconteceu ainda. É injusto e opressor: quem, por acaso, não puder pagar, por

conta própria, uma nova opção, está fadado ao tratamento grosseiro, abandonador e

determinante dos funcionários das companhias aéreas que estão naquele aeroporto.

           O caos, por conta das condições climáticas, é natural. O descaso e o não-cumprimento das

regras a que têm direito os passageiros, em casos assim, não. Aliás, leitor, muito já ouvi, no

Brasil, sobre o “absurdo” de se comer barrinha de cereal em voos locais. Muitos voos, na Europa,

cobram pela água, pelo suco, pelo cappuccino, pelo chá. E em quase todos paga-se pelo check-in,

incluso no valor da tarifa. Coloquemo-nos no nosso devido lugar, que caprichos assim não

estão sequer a alimentar àqueles que estão espalhados pelas ruas, sem ter o que comer, nem

durante o ano nem tampouco em época natalina.

           O celular estava com a bateria cambaleante e não sou o tipo de pessoa que vive com

parafernálias tecnológicas pela bolsa ou pelas malas. Tentei telefonar para o Felipe, que, estando,

naquele momento, em terras árabes, andava à frente, no fuso horário. Temendo pela bateria, pedi

auxílio à companhia. Que se recusou a emprestar telefone. Quando tentei enviar uma mensagem

eletrônica, computadores também não foram emprestados.  Paga-se, pois, mas, ai, quanta falta

de consideração, de delicadeza e mesmo de empatia humana, diante do caos geral.

                 Ao ler os jornais holandeses, hoje,  pela Internet, descubro que, todos os anos, nesta

época, algum efeito dominó acontece, por conta da neve e do período de festas, e, todos os

anos, a administração do aeoroporto de Amsterdam diz estar preparada. E falha. Se fosse no

Brasil, muito se diria. Pois que se diga, também, que, aqui, as coisas podem ser muito

desorganizadas e mal feitas. Tenho pavor daquelas figuras cheias de soberba que adoram viajar

para falar mal do país de origem – aqueles tipos que o Nelson Rodrigues descreveu como “os

que, a caminho do aeroporto, para Miami, já querem falar inglês com o motorista brasileiro,

se dando ares de importância”. E como abundam!

                 Estou-me nas tampas, leitor. Houve calma durante a saga, que, de algum jeito,

chegaria, porque vou com fé e com coragem, mas a piada que ontem circulava entre nós,

no trem (muitos vinham, como eu, do aeroporto) era a de que se existe um país a ser

evitado e no qual as coisas não funcionam, ele se chama Holanda. Não preciso fazer

uso do alarde da brincadeira, como a lembrar que a generalização é circunstancial, mas não

se deixe tomar por desaviso: evite a Holanda nas próximas semanas. E, podendo, troque

o avião pelo trem. Na cabine em que vim, um passageiro, tcheco, contou ter viajado por

6 longos anos pela Europa, tendo, inclusive, embarcado em direção à Sibéria, e nunca, em

nenhum lugar, assistiu à desordem e à falta de argumentos lógicos como aqueles que

experienciamos em Amsterdam.

                  Sendo o caos no aeroporto um pequeníssimo universo do que corre, isto sim, no

mundo, com seus desmandos e destratos, vou-me com José Saramago, no selo de hoje: “Sendo já

tão mínima coisa no mundo, o somos infinitamente menos nos mapas”.

                                                                              Lívia

p.s.: Praga está linda, nevada e cheia de luzes, a saudar, desde já, a noite de 24.

Anne. E Otto Frank.

16 de dezembro de 2010 2

           Eram 6, os dias de julho de 1942, quando a família Frank escondeu-se

na Prinsengracht, em Amsterdam, por ocasião da ocupação alemã na Holanda.

À entrada da casa, funcionava o comércio de Otto Frank, subdividido em

 armazém,  depósito e escritório comercial. Vendia ele opekta, uma espécie de

 pasta básica para doces, além de especiarias e temperos. Nos

dois andares do edifício, aos fundos, conformou-se um Anexo Secreto, no qual

 viviam 8 pessoas: 4 integrantes da família Frank, 3 da família van Pels e o senhor Fritz Pfeffer.                  

              Vivia, ali, Anne Frank. 13 anos. Judia. Alemã. Leitora voraz.  Tudo se

passou como um torvelinho:  uma estante giratória, com livros de contabilidade

e auditoria típicos, escondia a porta do esconderijo, no andar superior do

escritório. Nas janelas do vestíbulo, papel opaco, de fibra de vidro, omitia

os aposentos enegrecidos e amplos, do resto do mundo. Três funcionários,

feitos estes de tessitura humana altruísta, alimentavam, cuidavam e escondiam

os 8 judeus das turvas vistas alemãs. Trabalhavam, à normalidade, sem deixar

rastro que fosse de medo, para não acusar, inconscientemente, os que lá se

guardavam.

                    

         Anne saía-se bem no jogo aventuroso das letras; Margot, sua irmã, era

confiada aos números. Durante a manhã, não se podia falar, no esconderijo, pois que,

no andar de baixo, os clientes poderiam ouvir sussurros. E desconfiar. Depois

do almoço, as meninas estudavam. Anne lia e decorava as paredes com recortes

de filmes e estrelas de cinema. Sabiam, os da família, que ela, então com 13 anos,

 mantinha um diário, que guardava para si com naturalidade, como se faz quando se quer contar

os primeiros amores do colégio, na pré-adolescência. O diário era nominado Kitty.

                          Contados 2 anos da vida segredada, bateram as 10 horas e 30 minutos

do dia 4 de agosto de 1944. A viatura estacionou em frente ao edifício. Levou

os 8 clandestinos. Deportados, primeiramente, para o campo de Westerbork,

foram para Auschwitz mais tarde. Anne e Margot morreram, as duas, de tifo,

em Bergen-Belsen, na Alemanha, tendo ficado para trás, meses antes, a mãe, separada

 em Auschwitz. Margot se foi primeiro. Anne, dias depois. Os corpos

foram jogados entre cadáveres. Faltava pouco mais de um mês

para a libertação. Anne estava, então, com 15 anos.

         

                 Otto Frank sobreviveu. Depois de se saber viúvo, empreendeu viva

busca pelas filhas, até encontrar uma ex-companheira de campo das meninas, que confirmou a morte de

ambas, subscritou e deu fé no que disse. A Cruz Vermelha, em densa grafia,

também comunicou a perdas, muito tempo depois. Miep Giles, uma das leais funcionárias

do patriarca, à época do esconderijo, recolheu, pouco depois de os 8 terem sido

levados, papéis e objetos pessoais de todos, imaginando restituir-lhes aos donos, no futuro. O diário

de Anne Frank estava entre eles e foi atualizado e editado por ela, Anne, semanas antes

da deportação, quando ouviu, no rádio, autoridade holandesa anunciar que todos os

escritos do período poderiam ser publicados, mais tarde, como testemunhas

da História. Anne, que sonhava ser escritora, colocou-se a organizar as

anotações que ela deixou escrito que, um dia, gostaria de transformar em romance.

                  Miep

                Nunca se soube quem foi o traidor, quem denunciou o grupo. Mas

quem quer que tenha sido não se difere dos traidores de todos os dias, que estão

entre nós, que nos traem a fé, a coragem e os direitos. Importa

que a resignação não se confunda com o futuro, daí que Otto Frank recebeu

de Miep, anos depois, o diário de Anne. Em 1947, depois de inúmeras tentativas,

conseguiu publicá-lo, coletivizando, na singularidade de um diário adolescente, a voz dos

tantos e muitos que sacrificaram o lombo das emoções ao jugo nazista.

          Pouco tempo depois da detenção dos 8 clandestinos, o Anexo Secreto foi

esvaziado. Em 1960, transformou-se em Museu. Otto Frank quis que os

quartos permanecessem vazios para sempre, razão pela qual maquetes,

elaboradas de acordo com as descrições dele, dispõem a ordem dos aposentos

aos olhos de quem visita a casa.

                                                                           

           Não correram águas pelo rosto, apesar da contração muscular,

 durante o percurso que por lá fiz. Rangiam as tábuas dos aposentos, com as pisadas duras de

 todos nós, os modernos cidadãos

do mundo democrático, que lá estávamos no dia em que empreendi a visita.

Ia com o coração trancado, em rosto altivo, que não conheci, na medida da

carne, o mal alemão. A emoção que me ia presa à garganta, contudo, era ardida de

fazer bolha. Na casa, houve uma vez a família. Está no remarcado clarão

da Literatura ocidental, em Tolstoi: Todas as famílias felizes se parecem. Cada

família infeliz é infeliz à sua maneira. Pois que me fincou a alma, ao andar

por aquela casa, o barulho daquelas ausências. Até que, tendo percorrido

o itinerário apresentado aos turistas, tendo lido as insígnias, tendo visto

muitos trechos originais do diário, havendo escutado depoimentos e pousado

os olhos nas fotografias, despenquei, trêmula: uma fotografia, em preto e branco,

bastante singela, de Otto Frank, captada com a alma de um instante de dor

agudíssima, me colocou em vivo pranto. A cabeça, branca, inclinada com uma dignididade

elegante, curvada pouquíssimos milímetros à altura de uns olhos baixos, num aposento

da casa vazia, me contou a história inteira. Eu não precisava ter ido até lá. Anne

continuaria sendo iconizada com importância nas leituras que fiz, na adolescência,

se não tivesse visto e vivido a casa. A fotografia do único sobrevivente, contudo,

me serviu para uma lição completa, talheres e aparelhos de jantar integralmente

à mesa das emoções. A sobrevivência ao desmoronamento de uma família inteira

não se poderia contar num livro de milhão de palavras. Aquela foto me fez

o corte no tecido do coração.

               Otto Frank sobreviveu. Que houve o amargo, que foram feitas as

injustiças, é posto e aclarado. Mas também ele, ao fundar o Museu, empreendeu

viagens pelo mundo, com o desejo, simples até, se consideradas as razões

por que tantos palestram nos dias que correm, de contar uma história sem

transformá-la em objeto de martírio. Todos queremos reivindicar dores, todos

nos justificamos pelo mal que nos foi causado, que somos seres carentes de

atenção psicanalítica e imorredoura, daí por que tanto me comovi com o pai de

Anne. Que confiou o passado à elaboração de um presente, à epoca em que

ainda viveu, pois que escolheu o caminho bom, belo e verdadeiro.

                                                                                         

            Otto Frank diz, em uma das gravações, mais ou menos assim: “Sabia

que Anne mantinha um diário e ela me havia pedido para não lê-lo, à época

do esconderijo. Eu nunca o li, respeitando o pedido dela. Quando Miep me

entregou os escritos, anos depois, demorei muito tempo para conseguir iniciar

a leitura e o que posso dizer, porque sempre estive em ótimos termos com

Anne, é que muitos pais não conhecem verdadeiramente os filhos porque não convivem

verdadeiramente com eles”. Anne, pelo que mais conta o pai, nos depoimentos, era

menina tímica e recolhida, tendo apresentado, em seu diário, uma vida interior

rica e alegre. Tendo aberto o canal de sua alma ao diário, foi o diário que

apresentou, por sua vez, a alma bonita de Anne ao pai.

         Também nós, os humanos, no exercício da família, desconhecemos os que amamos. Há

os que invadem, os que tiram, os que humilham. Os que mentem. Os que

não cumprem com a palavra empenhada: está nos livros porque sempre

esteve na vida. Mas há, também, os que dignificam, os que se lançam na aventura

de se fazerem melhores para si e para os outros. Os que não impõem datas, não

expulsam, não atormentam. Me pus a pensar muito em Tolstoi (este hábito

tão infantil, como se espécie de meu avô fosse ele, em não tendo conhecido

os meus) e no transpasse de sua vida. Se houve dores, e não poucas, Anne

por certo também viveu entre sonhos e, de muitos modos, depois de já se

ter ido, ajudou a reelaborar a vida pós-morte, no campo de concentração, do

pai, que ficou para publicar sua história. Se houve infortúnio, tendo acabado

a família, ela os ressignificou lendo, e, durante o período de reclusão,também

o fez ao escrever. Tenho ímpetos de ousadia, leitor, em escrever o abaixo, mas

me corre com tal segurança íntima que não posso deixar de o fazer: ai de nós,

com a sorte cravada no peito, que temos, no espaço do mundo, os livros, que

nos reformam os olhos e as almas para melhor ajustarmos as nuances dos seres

e das histórias. Nenhum de nós passará incólume à dor, nesta Terra, mas em

havendo livros, e em havendo fé na douradura do sol, e em havendo um único

ser em quem se possa confiar na jornada, somos plenos e felizes. Quanto mais

me tenho deparado com a História, nesta Europa, e com as histórias, nesta vida,

mais me convoca o simples, mais me atrai o singelo, mais me aterrorizam os anúncios

e os ditos, que, sabemos nós, não são nunca cumpridos por quem os brada. Eu confio nos gestos

daqueles que amo no núcleo do coração e dos tantos anônimos, generosos, que me estenderam

pequenos milagres, por simples apelo do bem.

                 É fato que há, sempre, um comércio abrasivo de ideias e de palavras,  a envolver

personagens históricas, daí que, creio, nos devemos acautelar em enaltecer o que apenas

imaginamos ter sido as emoções dos que

se já foram, havendo tantos, anônimos, a padecer, ao nosso redor, mas Anne e Otto, cada

qual ao seu modo, cumprem sem dizer. Há beleza, e escorrida, na imagem deste homem que resgatou

a vida emocional ao resgatar a voz da filha, que coletivizou família e milhões de anônimos.

               Há trechos bonitos, porque simples e pueris, do diário de Anne, mas gostaria de pedir licença

para selar a cartinha, hoje, sem recitatura e versos,  apenas com a fotografia  que humanizou o

sentido do meu dia, em casa dos Frank (www.annefrank.org), que

me  propiciou  comoção íntima de amplíssima (e silenciosa) moldura.

    (neste espaço, tentei, inúmeras vezes, anexar a fotografia a que faço menção.

como não há modo de o fazê-lo, em função de problemas na postagem de imagens, peço perdão,

leitor, e, também, a delicadeza de que, havendo interesse, procure, no “Google”,

por “otto frank + arnold newman”, sendo, este último, o fotógrafo, com vistas a

visualizar a imagem referida)

                                                                            Lívia

p.s.:  perdão, leitor: uma vez mais, as tecnicalidades do sistema (que palavra feia, esta, “sistema”,

quando existem outras como “deliquescer”, tão bonitamente macia!) atrapalham a digitalização

das fotos postadas. Espero, em breve, poupá-los de parágrafos tão cimentados sem algumas

imagens a intercalá-los.

De Amsterdam.

15 de dezembro de 2010 1

     Não se pode barganhar com as surpresas de Natal, pois que aconteceu de novo,

leitor: ao me preparar para deixar Amsterdam, hoje, deparei-me com duas

horas de atraso para a partida. Mais duas horas somaram-se à continha, e,

em função da neve, em Praga, o voo foi cancelado, daí que ficarei mais dois dias

em Amsterdam, havendo o Natal a vestir com boniteza a cidade, e as bicicletas (a granel)

a cruzar as pontezinhas sobre os canais. Eis aí um pequenino encantamento

natalino – quem, afinal, não acredita em palavras mágicas como s-i-n-s-a-l-a-b-i-m

e p-ó-d-e-p-i-r-l-i-m-p-i-m-p-i-m em dias com surpresas assim (rima pobre,

para adornar a singeleza da imagem)?!

            Em sendo já bastante tarde e tendo chegado há pouco, peço licença,

leitor, para comparecer a este colóquio cibernético amanhã, que, sendo

diurna e tendo acabado de entrar em férias, gostaria de recolher-me mais cedo

por estes dias. Volto, contudo, para compartilhar a visita bonita a casa em que

escondeu-se Anne Frank e a família, durante a perseguição nazista aos judeus.

 Ver esparramarem-se os sonhos é coisa que encharca a vida de dentro por

mais de um dia, daí que ainda estou a elaborar a experiência de ter estado em lugar tão

habitado, ainda, por uma família esfacelada. Que a dor é a de saber que Anne,

poucos dias antes de morrer, encontrou-se com uma amiga, no campo de

concentração, e ressignificou, com palavras, o sentido da sua orfandade, do

abandono imposto a ela e à irmã, pelo horror nazista,  que

não ter pai nem mãe (o dela ainda estava vivo, sem que ela mesmo o

soubesse) é talho para a alma elaborar a vida inteira. O pai de Anne,

Otto Frank, sobreviveu ao Holocausto, e, como só um ser de natureza

rara o consegue, sobreviveu, também, às lembranças. Foi ele quem, de modo

obstinado, reencontrou-se com a filha, ao persistir na publicação do

diário, que só encontrou e leu depois da morte dela. Muito há

para contar, pois. Paro aqui.

           Selo, com delicadeza: “Na morte, não. Na vida. Está na vida o mistério.

Em cada afirmação ou abstinência”. Henriqueta Lisboa.        

                  Lívia

Dois presentes para os olhos.

14 de dezembro de 2010 3

         Entrou para dentro dos olhos, e não sem gulodice, a montanhosa Pitlochry,

cidadezinha vitoriana, cheia de charme, incrustada feito pequena joinha, no coração da Escócia,

 fazendo fronteira com as Highlands. A neve estava esparramada pelo chão e o frio, ai, foi dos mais severos já

experienciados – tendo perdido apenas para Hradec Králové, nas terras

tchecas! Para se poder “ver”, mentalmente, a cidadezinha, imagine, leitor,

o cenário típico de um inverno europeu nas montanhas, feito, à perfeição

imagística, para feriados. Pois Pitlochry, que até hoje tem

status de “burgo”, com seus pouco mais de 2.500 habitantes, é natureza e ar

puros, viva terra dos senhores e senhoras felizes da terceira idade. Caminham eles,

muito tranquilos e corados, pelas ruazinhas íngremes, cheias de casinhas à

moda inglesa dos anos 1800. Uma graça.

                   

             A Rainha Vitória (a própria, leitor: aquela que nominou, na História, o período

vitoriano) fincou os dois pés em Pitlochry e fez-se o feitiço: a cidade é renomada

por ser destino turístico, mas não do tipo que recebe hordas-e-máquinas-

fotográficas-e-Starbucks. Pitlochry dá a sensação de lugar-para-iniciados,

pequena beleza descoberta fora do mapa do mundo turístico. Montanhas

com picos nevados, gaivotas, verde, verde, verde: das nuances que se quiser

encomendar. Sendo este um outono invernoso e gelado e havendo, na cidade,

pouco mais de dois mil moradores, cenas belas remeteram à coisa de livro:

uma senhora, cajado apoiado na neve, caminhava, em passadas lentas, com

seu cachorro tão peludo quanto se pode esperar de um urso, num chão

íngreme e cheiroso de mato, havendo o barulho do córrego a musicar a cena.


                                         

             Ao se atravessar uma ponte, sobe-se uns metros íngremes e gira-se: a natureza

por excelência, num recorte mental inesquecível. Daí que Pitlochry é terra

de alpinistas, praticantes de canoagem e terreno, por excelência, dos jogadores

de golfe. Ouvi dizer que há duas destilarias, mas, sabendo desde o começo, leitor,

que não bebo, não posso dizer patavinas sobre os lugares estes. Vou, contudo,

deixar o registro de que, na cidadezinha, não há restaurante italiano (ma va!).

Foi este o causo por que descobrimos que a cidade é famosa pela criação

de salmão. Lá fomos nós experienciá-lo, e, sim, uma beleza! Também

descobrimos, ao pedirmos o chá de sempre, que lá há sabores maravilhosos,

guardados em bules orientais. Pergunta-daqui-fuça-dali, o exotismo da cidade

pequenina: os chás estes são japoneses, importados pela Alemanha, que os vendem

para Pitlochry, no Reino Unido. Eis aí um quase causo de sabores que se assemelham

às bonequinhas russas (matrioshkas), cada qual tendo passado por um pedacinho

da geografia planetária para se fazer quentinho e perfumado (www.wellmondo.com).

                      

             A cidade é cortada pelo rio Tummel, que, ao que nos pareceu, é ampla

e queridamente admirado pelas gaivotas, alternadas na contemplação das águas.

Aprendi mais uma coisa nova, em Pitlochry: o que é um fish tea. Acreditei, resoluta,

no que me contavam as duas palavras juntas (peixe + chá)

e supus tratar-se de um chá-de-peixe, oras! Pois aprendi que se trata,

 na verdade, de sopa de peixe apimentada, à moda

jamaicana – em teoria, lhes apresento a iguaria, que, na prática, não faço

contas de experimentá-la em futuro largo. Aliás, eis um mistério que se propaga

por esta Europa: as sopas são, invariavelmente, adocicadas. Que jeito! As sopas

de lentilha são, ou batidas (e levemente doces) ou uma mistura de muitas coisas

com grãos de lentilhas (e igualmente doce). Minestrone? Confunde-se com

molho de tomate fervente e alguns legumes sugeridos no vermelho todo do

prato. Tomei uma sopa verdadeira (salgada, quentinha, com pão caseiro e

queijo ralado) em um restaurante italiano de Praga. Nunca mais vi sombra dela

em outro lugar.

                     Pitlochry é pequenina, de modo que, por certo, cobrimos quase

que toda a cidade a pé. A não muitos quilômetros adiante,está Loch Ness,

habitada pelo mundialmente conhecido monstro-do-lago-Ness. Este

mistério da zoologia, contudo, é coisa para visita nova.

             Trocando o mote, mas seguindo em terras escocesas, recomendo

 vivamente um segundo presente aos olhos: 3 telas do pintor holandês Johanes

Vermeer (1632 – 1675), pintadas entre os anos de 1653 e 1656, estão

expostas nas Galerias Nacionais da Escócia, nesta bonita Edimburgo. Em oposição

aos trabalhos posteriores de Vermeer, as 3 telas (A Alcoviteira, Cristo na

casa de Marta e Maria e Diana e suas Companheiras) possuem temática

religiosa. O contraste entre sombra e luz está lá, impecável, desde o início

de suas incursões. Como são conhecidas apenas 35 de suas pinturas, em

todo o mundo (o Louvre abriga algumas delas), a exposição é de um

simbolismo quase mágico. E porque a Arte não deve ser privilégio de poucos,

a exibição O Jovem Vermeer é gratuita. Acaricie os olhos, leitor, aqui:

http://www.nationalgalleries.org/whatson/exhibition/5:368/18513

                  

                             

                  Volto para lhes dizer um tiquinho de Amsterdam, na quarta.

Vou-me, agora, que já estou a olhar para o relógio como para um ser vivo (a

imagem é do escritor russo Tyniánov, em O Tenente que Tange). Adorno

o selo com a insígnia de Lygia Fagundes Telles: “No centro, o sedutor globo

de vidro – o mundo em cores com suas terras e mares, iluminado por uma

discreta luz interior”.

                                                        Lívia

post scriptum: peço perdão pelas poucas imagens, mas a causa é técnica.

Assim que o problema resolver-se, mais imagens voltarão a exibir-se, neste

espaço cibernético.

A l'heure du thé.

09 de dezembro de 2010 2

         Invoquemos, hoje, a mágica das infusões. Em se bebendo chá, há que se

observar um princípio oculto, o taoísmo. No Japão, a cerimônia do chá

(Chanoyu) implica um encontro com o silêncio, com a inação, daí que, numa sala

japonesa típica, o vazio é essencial. Se, por exemplo, uma flor inclina-se, delicada,

num solitário, o vaso sempre será liso ou transparente porque a concentração

deve estar na flor e quaisquer elementos visuais adicionais terminarão por

reduzir o essencial, transformando-o em exagero. O escritor japonês Kakuzo  Okakura escreveu,

em 1906, O Livro do Chá, um belo texto sobre a cerimônia do chá, mas com

ênfase no que de essencial deve existir em quaisquer ritos contemplativos. É

dele a conhecida frase: “O chá não possui a arrogância do vinho; a auto-consciência

do café; nem tampouco a inocência do cacau”.

               Peço licença para, hoje, fazer pequena reverência ao chá, tomando

com alegria o pedido da Margarida, em comentário de dias atrás. Batuquemos

a prosa num teclado, pois, cheiroso.                    

            Sou daqueles seres para os quais o hedonismo confunde-se com um líquido

perfumado, de tom quase sempre adouradado, em temperatura candente. O chá

é quase um imperativo ético para o corpo. Não apenas restitui-lhe a

saúde como o coloca em contato direto com a percepção sensorial.

              Não sou, contudo, Deus-me-livre-guarde,

uma tecnicista dos sabores. Trocando em míudos: ave!, não me correm os

desejos de atuar com caras e bocas, ditando princípios, sabores e marcas. O

que me interessa é a intimidade com. A relação alegre que se estabelece por meio

de. O chá me coloca o humor em rendados bonitos: ao escolher, intuitivamente

(que se puser nisso o pensamento vai-se a graça) a caneca, aquecer a água e

correr os dedos pelas caixinhas coloridas da prateleira da cozinha, já sou inteira

uma coisa em festa que se apruma com a vontade de ingerir o líquido quentinho. O chá

tem, ainda, a vantagem de ser quase adorno da solidão. O café (perdão, leitor,

mas não apenas não bebo café preto por absoluto pavor do gosto, como sou

terrivelmente inflexível: só com leite em porções largas!) tem qualquer coisa

de esquecido: bebe-se o café pensando no trabalho a concluir, na noite que

se encomprida com exigências burocráticas numa mesa de madeira cheia

de canetas pretas. Ou azuis. Nunca coloridas. Eu sei, eu sei, eu sei: estou generalizando

perigosa e injustamente, mas, ai, me esparramo a criticar o café como medida

de defesa intransferível do chá.                

            Comecemos por esta Europa. Foram os alemães que, primeiro, introduziram

o chá ao continente. Perderam espaço quando os ingleses passaram a importar

o produto em ampla escala comercial, ali por volta de 1678.  Diz-se que, nos dias

que correm, os chineses e os indianos são os que mais bebem chá, levando-se

em conta o tamanho de suas respectivas populações. Depois, vêm o Reino Unido,

o Japão e a Rússia. A Turquia, em sexto lugar, e aí, então, Estados Unidos e

Irã.

             Estes dados são, convenhamos, caracóis e miudezas, que o grande

descobridor do chá teria sido um certo Shen Nong, vivente lá muito antes de

Cristo, na China. Há um sempre comentado grande-tratado sobre o chá, escrito

por um senhor de nome Lu Yu, intitulado “O Clássico do Chá”, que jamais

encontrei. No compêndio este, o senhor Yu descreve (diz-se que, em livros

de outros autores) um total de 25 utensílios necessários para a elaboração do

chá. O melhor de todos os chás, ainda de acordo com o senhor Yu, é o verde.

Coloquemos um tiquinho mais de especiarias neste relato ainda cheio de pequenos

dados: Catarina, a Grande, foi quem introduziu o chá na Rússia (que, atualmente,

consome tanto a infusão que, em textos políticos, encontra-se com facilidade menções

ao famoso “Grupo do Chá”, no qual o Primeiro-Ministro Vladimir Putin coordena

discussões políticas, aos sábados pela manhã, com seus principais auxiliares

no Governo). Lá, não basta que o chá seja verde: o limão é fundamental. O leite

acrescido ao chá, este costume tão inglês, nasceu na França, lá pelos idos

de 1680.  E os ingleses adoraram.

                               

             Adorne-se com calma, leitor, que logo chegarei neles, nos chás, propriamente.

Estou,ainda, me deliciando com o compartilhamento do tema, oras! No Japão, a cerimônia do chá encerra

4 princípios: harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. Aparentemente opostos

à sensualidade, são,  na verdade, a essência da mesma, mas, para isso, é

preciso que se percorra duas vezes o caminho completo dos sentidos.

           Em termos imagísticos, o chá nos lança sobre o universo sensorial

sem fazer jejum de magia. E não haveria, na sutileza e na delicadeza do rito de se beber

um chá, alguma coisa que lembra a literatura impressionista de Yasunari

Kawabata? E, em havendo, talvez não se possa nominar, que a leitura, creio,

é mais coisa de se experienciar do que de se dizer e proclamar.

            Vão, aqui, compartilhamentos de gosto pessoal, de modo que peço a

delicadeza de tomá-los todos como sugestões singelas. O chá verde é sempre

maravilhoso, sobretudo quando o sabor é suave e não tanto amargo. Combinado

com alguns outros sabores, torna-se especialmente bom. No Brasil, o

Chá verde com limão, da Oetker, é dos meus preferidos. Deixe-me, aliás,

leitor, comentar que são, na prática, apenas 4 os tipos de chás existentes:

o verde, o branco, o preto e o oolong, todos originários da mesma planta, a

Camellia Sinensis. O que os diferencia, e largamente, é a fermentação. Os

chás de sabores outros, como menta, camomila e lavanda, são denominados

tisane, não provenientes da mesma planta de que vem o chá.

           Vamos, agora, direto a bebericar o líquido perfumado: a inglesa Twinnings

tem uma variedade imensa de chás (incluo, aqui, tisanes), mas sendo o gosto

inglês tipicamente voltado ao chá preto, os sabores são marcados e quase sempre

amargos. Houve causo de, dando vez à curiosidade, eu escolher um chá intitulado

Lapsang Souchong, preto, da marca. O sabor lembrava algo salgadamente

defumado. Terrível. Mas há quem aprecie, daí que sugiro uma visita ao sítio da marca

(www.twinnings.co.uk). Deles, o Indian Chai, com especiarias, é uma pequena

maravilha. Com um tiquinho de leite, fica apimentado, mas com suavidade.

          Os chás mais suaves e refrescantes, contudo, são os franceses.  Descobrimos,

por acaso, o Comptoirs Richard (www.comptoirsrichard.fr), ao pedirmos um

chá em Paris. Não apenas anotei o nome da loja de onde havia nos chegado aquele,

como fomos até lá e encontramos cores, perfumes e caixas mágicas. O chá

verde com jasmim é dos melhores e há, ainda, o Jardim das Maravilhas, que

mistura o verde com um suave toque frutado. Ainda em Paris, a Mariage

Fréres (www.mariagefreres.com) é um lugar de estonteante perfume. Uma das

lojas está no Louvre, e é impossível não captar a atmosfera quase de lenda

oriental do estabelecimento. Os chás são muitíssimo recomendados, mas não

lhe posso dizer que tal, leitor, porque, além de assustadoramente cara, padece

um pouco do próprio veneno: o charme é excessivo, quase construído. Prefiro

um Café pequenininho, com flores pelas mesas, em caneca de cerâmica pintada

à mão e já bastante usada. Nesta mesma linha, Londres ostenta sua

Fortnum & Mason (www.fortnumandmason.com).

            O chá MeBmer, alemão, é uma beleza, e baratíssimo, encontrado no

supermercado. O verde com jasmim da Dilmah (sem trocadilhos), de procedência

australiana, é excelente – encontrado também, no supermercado, em Praga.

                Para aqueles que gostam de sabores mais cítricos, o chá verde com jasmim

e laranja da norte-americana Starbucks. Sendo meu cúmplice nestas

aventuras, o Felipe gosta muitíssimo deste verde com laranja. Deixe ver que

outros… Ah, sim, o chá Masala, facilmente encontrado em lojas que vendem

produtos indianos, é gostoso por demais – sugiro, com singeleza, um poquinho

de leite, para apartar-lhe o fundo apimentado das especiarias. A página da

Tazo (www.tazo.com) é pura graça, com sua xícara fumegante, daí que deixo

a sugestão por mero gosto dos olhos.

             No resumo da ópera deste post de cunho pessoal, deixo a sugestão

dos verdes com jasmim e dos pretos com especiarias. A graça mesmo é descobri-los,

que ir atrás de marcas-e-blends já é sair da roda dos feitiços para se entrar

na dos consumos guiados. É coisa muito diferente, leitor, do que coloco aqui,

com afeto (mas sem açúcar, que o sabor do chá se perde por completo), a

dividir. A gostosura do chá é o pequeno rito da escolha da caneca, da água

fervente a se transmutar cheirosa, e nada tem que ver com preços e maisons.

Indo ao supermercado, acarinhe as caixinhas coloridas e descubra que feitiço

produz ele ao borbulhar na água. Não há mistério tão bonito quanto o da

mágica do dia-a-dia.

           E porque há imperfeição no mundo, lhe conto que um muito aclamado

chá, conhecido pelos iniciados como Dragon Well, descoberto, por acaso,

por um Imperador chinês, que experienciou uma folha de chá na água, é

o supremo sabor líquido, mas inacessível aos comuns, como nós. Não lhe

 posso dizer que tal me pareceu porque não

o experimentei, dada a aura de mistério que o esconde, na China.

               Como livros são tantas alegrias, vão aqui, para além do que já

fiz menção, 3 leituras recentes. Em língua inglesa, infelizmente, que as opções

sobre o tema são mais comuns do que em língua portuguesa (embora nem

de longe o inglês se compare, em bossa, cocada e savoir faire, com nosso

deliquescente português):

- Saberi, Helen. Tea. A Global History. Reaktion Books: London, 2010;

- Pettigrew, Jane & Richardson, Bruce. Tea Classified - A tealover’s

companion. The National Trust: London, 2005;

- Mair, Victor & Hoh, Erling. The True History of Tea. Thames & Hudson:

London, 2009; e

- Faulkner, Rupert. Tea: East & West. The Victoria and Albert Museum:

London, 2003.

            Apesar da graça toda com o assunto, a história das culturas e dos países

se apresenta implicitamente nestes livros sobre o chá, havendo, naqueles

de qualidade superior (como o do Okakura), temas de relevo, sendo o chá

apenas o condutor narrativo. O The True History of Tea é bastante bom,

com viés sociológico dos hábitos e costumes. Os outros de acima tratam

da história do chá propriamente, seu comércio e sua disseminação no

mundo. Valem tão somente pela graça.

                   Aclara-se o dia. Me perdoe pela falta de imagens, mas foi com custo

que consegui costurar duas apenas. Creio haver problemas com a tecnologia.

 Selo, hoje, com singelo provérbio (chinês): “Espero que

da próxima vez, ao invés de lutarmos, possamos tomar chá juntos”.

                              Lívia

 

Por se olhar lá fora.

06 de dezembro de 2010 1

       Mea culpa, mea máxima culpa, leitor: ausentei-me por período vasto, e não

vão aqui desculpas rendadas, que depois que a coisa é feita, vai-se embora a

nobreza da intenção. O causo foi que a neve, esta mágica branca que se soma

ao frio persistente desta Europa, deixou-me enredada em Praga por exatos

11 dias. Creia, tamanho caos no aeroporto de Edimburgo não se comparou às

muitas idas ao aeroporto de Praga, de mala e livro na mão, para tentativas de

embarques sucessivos. Que houve delícia nestes 11 dias é fato consumado, mas

a mudança cartográfica bagunçou minha rotina, e, ai de mim!, gosto de uma certa

ordem na cadência dos dias.

           Ocorreu que, no embalo da bagunça aérea, havia compromissos acadêmicos

a cumprir, e foi no remendo do improviso que, de lá mesmo, me coloquei a

ordená-los. Daí por que não coloquei os olhos no espaço das epístolas

cibernéticas – não-podia-sair-de-dentro-de-mim-nem-para-pescar, trocando

um pouco as letrinhas do gênio Manoel de Barros. Estou, contudo, de volta,

 para contar que Edimburgo está maravilhosamente

branca, toda prosa, em roupa de gala branca. E há músicas natalinas e chás

quentes e luzes coloridas numa imensa roda-gigante, na calada da tarde-noite.

Praga está igualmente majestosa, com seus mercados natalinos a céu aberto,

debruando perfumes de biscoitos típicos, artesanatos e músicas, nas praças

principais. Em Praga, a neve nos faz mais seguros, que é jogada areia no branco

das ruas, para melhor aderência das passadas. Aqui, contudo, as finíssimas

placas de gelo, escorregadias, alternam-se com camadas grossas de neve, num

perigo constante. Hoje, chuva de neve a manhã inteira! O bom da neve é que,

além de macia (arrisco um quase-cremosa), é absolutamente respeitosa: com

duas ou três chacoalhadas, os casacos voltam à compostura elegante e seca de

minutos anteriores. Nada de molhação ou umidade excessiva.

                                                      

           Cuidemos, pois, de nos sentar nas almofadas macias e coloridas do

 chão: é tempo de assuntar, que são muitos os dias sem dedo de prosa. Não vão aqui hidras ou

 grifos ou dragões: em Hradec Králové, na Boêmia do Leste, o duelo corporal

estabeleceu-se com os 13 graus negativos. Nós, viventes deste mundo largo de

Deus, caminhamos pela cidade vazia, tendo-a inteirinha para o deslumbre dos

olhos. O trem atrasou mais de hora para partir. Quando colocou-se a zunir,

as paisagens surgiram, lindas, através das janelas. Neve, neve e neve, refinando

a realidade dos seres: nunca, para mim, a transição das estações fez tanto sentido, aos

sacolejos da vida de dentro, como neste outono (inverno só a partir de 21 de

dezembro). Observar o recolhimento dos seres, a reflexão imperiosa da

 natureza, é parecido com se ter um avô, destes de barba branca, já curtido

na vida, que, com o pincenê de há anos, pernas

cruzadas numa poltrona de espaldar alto, diz: venha-cá-meu-filho-que-vou-lhe-ensinar-

duas-ou-três-coisas-sobre-a-vida. E vive-se, no correr de uma estação, lições

que, às vezes, anos inteiros não deixam se fazer ver. Feliz de quem, na largueza

da vida, tem um avô assim. Quem não o tem, também o pode inventar, e vem

a calhar que, na esteira do inverno que se anuncia, se transmute em natureza, a ensinar, com

gestos os mais simples, de que é feita a vida que não se vê, atrás dos véus daquela

que se apresenta. Nem sempre bonita, que, sabemos nós, o mundo está cheio

de dor. Não se pode olhar a cidade, majestosa e prometida, quando se vê um

pedinte enrolado em mantas, muito digno, com seu cachorro igualmente enovelado

em cobertas, a esmolar, de encontro às músicas natalinas da rua. Não usemos

o tosltoismo para nos crer justos e bondosos, que temos casa, comida e chá quente,

daí que a carapuça nos serve e com fineza de tamanho. Eu faço menção ao bom

exercício dos olhos. Olhemos, simplesmente. Do mundo nosso, este que fazemos

todos os dias, e que, orgulhosos, encaramos como mundo-a-vencer, como gente-a-

se-fazer, cabe surrupiar uma nesga da canção do Chico: mesmo calada a

boca / resta o peito. Dói.

 

                 

              Desenhei um atalho com os parágrafos, em pleno causo de Hradec Králové,

porque gostaria, leitor, de escrever muitas palavras sobre o que me corre pelos

olhos, neste outono, mas acontece que o caso mesmo é de silêncio. Como pretender

a reforma do mundo, sem a reforma tão dita, falada, comentada, debatida, e,

cansada de prometida, da vida de dentro? Em tom delicado, à moda de uma

Convenção da era eduardiana, compartilho a alma pasmada. Chega de dizê-la que,

desde Moisés, sabemos que a palavra é divina, e voltemos ao ponto de partida

deste atalho: os 13 graus negativos de Hradec Králové.

                    

            Via-se lindezas nas fachadas, que, sendo esta a terceira cidade do interior

da República Tcheca que percorremos, compreendo, agora, ser, o belo, capricho bem

cuidado dos tchecos. Como são lindas as fachadas dos edifícios e monumentos e

Castelos e Igrejas das Praças! A noção de Praça também é diferente daquela

que concebemos em cultura brasileira: em geral, trata-se de um quadrilátero muito

amplo, todo ocupado por fachadas coloridas e deslumbrantes e antigas, feitas

quase que para o distanciamento estético por excelência. Afastando-se um pouco

da fachada que se quer admirar, o espaço revela-se perfeito para a distância

dos sentidos. As Praças parecem feitas para o exercício dos olhos  e não

tanto para a vivência física das passadas a esmo, em direção a um banco de areia.

Ruelinhas aparecem logo em seguida, e é possível, meio magicamente,

eleger um percurso para conhecê-las, que sendo a topografia meio labiríntica,

sempre se topa com surpresas novas num espaço mínimo. O rio Elba, em estado

de gelo absoluto, foi uma visão, com seu silêncio normativo. Beleza sem adornos,

com a alma sevalgem a desafiar a paisagem.

            De hábito, sempre caminhamos da estação de trem até a Praça antiga da

cidade visitada, e nunca, nestas cidades pequenas, tomamos condução. Fomos,

bravamente, caminhantes solitários naquele frio ardido de gelado – não vai

aqui qualquer jogo literal, que tão logo entrei em espaço aquecido, descobri o

rosto escarlate como se um sol de 30 graus me houvesse marcado, sem a barreira

de um filtro solar. Mas o trato do corpo é muito simples, mesmo que a alma

seja difícil, e esta é uma das lições preciosas que nos impõe a natureza: o corpo

se adapta, que também as reclamações copóreas  são importantes para o

aprendizado da dor, tornando a celebração íntima das alegrias menos banal,

num contraste que se estabelece por meio do fenômeno da atenção. Sente-se

e nomeia-se, intimamente, a dor, para que não se dê por comum a sensação e a nominação

da alegria, num equilíbrio de significados.

            Venho sendo educada por Tchekhov e Gogol, nos últimos dias, e não

posso rir a bandeiras despregadas: aprendo a domar, com a difícil imposição

da vontade, a alma que me vai inconstante. Que privilégio, este, de termos, ao

alcance das mãos, portais que nos colocam em contato imediato com nossos

defeitos e impotencialidades. Sem livros, nunca conheceríamos o valor da

não-ação, que é, por sentido mágico, a ação de um silêncio a se voltar para

dentro.

               Como vê, leitor, divago a abrir janelas para dentro, que o outono

me tem dado paisagens que são, isoladas, histórias inteiras de vidas desconhecidas.

Não há o que não se revele num cenário de neve. Não é tempo de raspar, da

ponta dos dedos, muito mais que o que me corre pelos olhos, que a noite

cai emboscando frios para nós, que nos cuidamos no calor das casas, e também

para aqueles que estabelecem diálogos mudos com a própria sorte, lá fora.

               Fecho esta missiva desejando bons livros para esta noite, que, de

raro em raro, temos as vidas transformadas por eles, e, fatalmente, nos

humanizamos por nos sabermos tão pequenos, tão egoístas e de tão pouca fé

nos milagres da vida. Eu acredito e creio, piamente, em cada um deles, e, hoje

vivi para presenciar mais de um, nos olhos de um cachorro triste, que

experimentou afeto. E deixou de se mover.

             O selo é de matizes muitos, que é preciosidade das raras. Ei-lo cá:

              “O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências.

Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se

dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.

Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o

seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência,

é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria

consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que

tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão

nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro

nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em

plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com

o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho

do homem que merece o seu nome”.

               (de uma carta de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino).

                                  Lívia