Está no dicionário: peculiar corresponde à particular, especial, próprio.
Diz-se isso de seres, lugares ou objetos que magicam, colorem, apalpam,
enfim, o coração da vida. Em viva ousadia, se fosse eu dicionarista, tascaria
um Liberec para descrever o peculiar do vernáculo. Boêmia do Norte, em
terras da República Tcheca, avizinhada à Polônia e à Alemanha. Apresento-lhe,
leitor, Liberec.
Não contorne as piscadas dos olhos em palpitações de asas. Calma.
Comecemos pela localização imagética: Liberec localiza-se em um vale,
cercado por montanhas. Numa palavra: verde. Tecla Sap: tem vocação colorida.
Calcada lá na antiga rota do comércio, foi um importante centro têxtil,
apelidado de "Manchester da Boêmia", cuja luminiscência interrompeu-se
durante a Primeira Guerra Mundial. Coalhada de alemães, a cidade
decolou para uma Arquitetura rara. Preciosa. Peculiar.
A praça central da cidade é, aos jeitos da escola-tcheca-de-arquitetura,
cercada de construções coloridas e amalgamentos renascentistas, góticos e
barrocos, a depender do detalhe para o qual se olhe. As ruelinhas estreitas
de pedra lembram muitíssimo a atmosfera de Ouro Preto, em Minas Gerais,
e as andanças são sempre circulares, pois que, no interior da República Tcheca,
desde que se comece o percurso da praça central, os caminhos sempre levam
de volta ao ponto de partida, centro amorável do pequenino universo local.
Gustav Klimt, que mora na íris dos meus olhos, deixou legado
em Liberec, nos cortinados pomposos da Ópera. Não pude entrar para ver,
pois que todas as janelas cerravam o bordô clássico dos teatros, mas se
me ponho a imaginar, tenho ideias de sonhos klimtianos, como se tivesse
visto a obra de pertinho. O castelo debrua-se em uma rua imperativa, destas
em que os carros e os semáforos são uma só coisa, abarulhados e velozes.
O de Bratislava ganha em larga escala, mas nem tudo ficou perdido naquela
esquina ruidosa da cidade: logo em frente ao Castelo, um parque cheio de
flores lilases e matizes de verde esconde um segredo particular. Há banquinhos,
destes de praça, feitos para a exatidão azul do céu. E, a depender de como
neles se senta, o jardim, todo ele um círculo fechado, com portãozinho
virado ao lado oposto da calçada, lima a alma, com pássaros que congelam
o tempo em gogós de virtuoses.
A palavra (vida?!) biblioteca expande-se em idiomas muitos, na fachada
preto-e-branca da Biblioteca Municipal, ampla casa do coração. A prefeitura
é um deslumbre neo-gótico, com certo ar de Bruges, na Bélgica. E então outra
mágica: rododendros. A cidade está cheia destas flores pingadas em cores,
e, de acordo com o que vinha escrito na memória de um banquinho, em
frente à Biblioteca Pública, florescem ao final de maio e no começo de junho,
no justo período em que as pude ver altivas pelos canteiros urbanos, como se
olhassem a cidade desconhecida, sozinhas entre os passarinhos, sem o
auxílio de ninguém que lhes cuide de ver os tons das pétalas por um instante,
a esculpir dia-a-dia suas vidas perfumadas.
E há o contraste. Na Europa, há ruas e pontos específicos em que
o comércio floresce, mas shopping centers, aos jeitos de um conglomerado
de estabelecimentos espalhados por diversos andares, é coisa rara feito
o arco-íris em Berlim. Inexiste, praticamente. Em Liberec, cidadezinha de
não mais de 100 mil habitantes, cheia de ruas fininhas, colossais edifícios
à moderna agigantam-se na pequenina paisagem. De fazer doer os olhos.
Curioso, contudo, que não tenha ares de sabidinha nem tampouco seja
desta modernidade opressora, em tabletes e cinzas. Há harmonia, e vem
daí que encasquetei em compreender como e por que, por todas as tróicas postais,
o encaixe parece fácil e simples, entre estes dois universos opostos, na
cidade. Olhei, olhei, olhei. E meu olho direito nublou-se de tanto olhar. Mas,
ai!, desisti de querer decifrar o mistério de Liberec, e suspirei, como se
estivesse diante dos tons fulvos, tostados e cheirosos da canela. É bom e ponto.
E por falar em rododendros, puxo um dedinho de prosa para chegar
nos gladíolos e crisântemos. Ai, leitor, que lindo está o vestido esverdeado
de Praga, nesta primavera! Sóis chamejantes colorem o tecido furta-cor
das suas roupas, e os voos ligeiros dos perfumes se difundem. Sua etérea
grinalda dourada ganhou a chama demolidora do calor, inundando de
luz as calçadas. Praga está com flores nas tranças, e suas pulseiras de cor
fazem tin-ti-ri-tim conforme a brisa esparrama milagres. E foi assim que
aconteceu um: duas janelas inclinadas num telhado de sótão, destes
que perpendiculam nas casinhas de montanha, emolduram o quarto,
em Praga. A engenhoca que abre e fecha as janelas permite que pouco
delas se escancare, pois que no inverno qualquer fresta é razão de neve
a enregelar a fina pele do corpo, mas eis que Felipe abriu as frestas, para
que a brisa invadisse o quarto. Pombinhas visitma o telhado e como duendes
movidos por fios celestes, uma pena acizentada passou pela estreitíssima
fresta de uma das janelas e foi morar no lençol floral da cama. Uma pena
só. São pequenos milagres cotidianos nos falsos caminhos da vida, e
meu coração conectou-se à pombinha de Paris. Porque na base da vida
estão as palavras simples, que são sempre mais limpas do que as verdades
educadas e mentidas, e que nos ensinam que a graça profunda ( de novo,
a pombinha de Paris) está no cotidiano, e não em algum lugar distante
da vida comum. Aquela peninha, parte indelével de um ser, me causou
impressão profunda, pois que sou e sempre serei pela magia e pela coragem
dos que a sonham.
Perfumam noites, os ventos escoceses. Hora de selar Liberec:
"É no ínfimo que eu vejo a exuberância". Manoel de Barros.
Lívia

