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Posts de maio 2011

Liberec.

30 de maio de 2011 3

     Está no dicionário: peculiar corresponde à particular, especial, próprio.

Diz-se isso de seres, lugares ou objetos que magicam, colorem, apalpam,

enfim, o coração da vida. Em viva ousadia, se fosse eu dicionarista, tascaria

um Liberec para descrever o peculiar do vernáculo. Boêmia do Norte, em

terras da República Tcheca, avizinhada à Polônia e à Alemanha. Apresento-lhe,

leitor, Liberec.


                                      

             Não contorne as piscadas dos olhos em palpitações de asas. Calma.

Comecemos pela localização imagética: Liberec localiza-se em um vale,

cercado por montanhas. Numa palavra: verde. Tecla Sap: tem vocação colorida.

Calcada lá na antiga rota do comércio, foi um importante centro têxtil,

apelidado de "Manchester da Boêmia", cuja luminiscência interrompeu-se

 durante a Primeira Guerra Mundial. Coalhada de alemães, a cidade

decolou para uma Arquitetura rara. Preciosa. Peculiar.

                                  

             A praça central da cidade é, aos jeitos da escola-tcheca-de-arquitetura,

cercada de construções coloridas e amalgamentos renascentistas, góticos e

barrocos, a depender do detalhe para o qual se olhe. As ruelinhas estreitas

de pedra lembram muitíssimo a atmosfera de Ouro Preto, em Minas Gerais,

e as andanças são sempre circulares, pois que, no interior da República Tcheca,

desde que se comece o percurso da praça central, os caminhos sempre levam

de volta ao ponto de partida, centro amorável do pequenino universo local.

                         

                 Gustav Klimt, que mora na íris dos meus olhos, deixou legado

em Liberec, nos cortinados pomposos da Ópera. Não pude entrar para ver,

pois que todas as janelas cerravam o bordô clássico dos teatros, mas se

me ponho a imaginar, tenho ideias de sonhos klimtianos, como se tivesse

visto a obra de pertinho. O castelo debrua-se em uma rua imperativa, destas

em que os carros e os semáforos são uma só coisa, abarulhados e velozes.

O de Bratislava ganha em larga escala, mas nem tudo ficou perdido naquela

esquina ruidosa da cidade: logo em frente ao Castelo, um parque cheio de

flores lilases e matizes de verde esconde um segredo particular. Há banquinhos,

destes de praça, feitos para a exatidão azul do céu. E, a depender de como

neles se senta, o jardim, todo ele um círculo fechado, com portãozinho

virado ao lado oposto da calçada, lima a alma, com pássaros que congelam

o tempo em gogós de virtuoses.

           A palavra (vida?!) biblioteca expande-se em idiomas muitos, na fachada

preto-e-branca da Biblioteca Municipal, ampla casa do coração. A prefeitura

é um deslumbre neo-gótico, com certo ar de Bruges, na Bélgica. E então outra

mágica: rododendros. A cidade está cheia destas flores pingadas em cores,

e, de acordo com o que vinha escrito na memória de um banquinho, em

frente à Biblioteca Pública, florescem ao final de maio e no começo de junho,

no justo período em que as pude ver altivas pelos canteiros urbanos, como se

olhassem a cidade desconhecida, sozinhas entre os passarinhos, sem o

auxílio de ninguém que lhes cuide de ver os tons das pétalas por um instante,

a esculpir dia-a-dia suas vidas perfumadas.

             E há o contraste. Na Europa, há ruas e pontos específicos em que

o comércio floresce, mas shopping centers, aos jeitos de um conglomerado

de estabelecimentos espalhados por diversos andares, é coisa rara feito

o arco-íris em Berlim. Inexiste, praticamente. Em Liberec, cidadezinha de

não mais de 100 mil habitantes, cheia de ruas fininhas, colossais edifícios

à moderna agigantam-se na pequenina paisagem. De fazer doer os olhos.

Curioso, contudo, que não tenha ares de sabidinha nem tampouco seja

desta modernidade opressora, em tabletes e cinzas. Há harmonia, e vem

daí que encasquetei em compreender como e por que, por todas as tróicas postais,

o encaixe parece fácil e simples, entre estes dois universos opostos, na

cidade. Olhei, olhei, olhei. E meu olho direito nublou-se de tanto olhar. Mas,

ai!, desisti de querer decifrar o mistério de Liberec, e suspirei, como se

estivesse diante dos tons fulvos, tostados e cheirosos da canela. É bom e ponto.

              E por falar em rododendros, puxo um dedinho de prosa para chegar

nos gladíolos e crisântemos. Ai, leitor, que lindo está o vestido esverdeado

de Praga, nesta primavera! Sóis chamejantes colorem o tecido furta-cor

das suas roupas, e os voos ligeiros dos perfumes se difundem. Sua etérea

grinalda dourada ganhou a chama demolidora do calor, inundando de

luz as calçadas. Praga está com flores nas tranças, e suas pulseiras de cor

fazem tin-ti-ri-tim conforme a brisa esparrama milagres. E foi assim que

aconteceu um: duas janelas inclinadas num telhado de sótão, destes

que perpendiculam nas casinhas de montanha, emolduram o quarto,

em Praga. A engenhoca que abre e fecha as janelas permite que pouco

delas se escancare, pois que no inverno qualquer fresta é razão de neve

a enregelar a fina pele do corpo, mas eis que Felipe abriu as frestas, para

que a brisa invadisse o quarto. Pombinhas visitma o telhado e como duendes

movidos por fios celestes, uma pena acizentada passou pela estreitíssima

fresta de uma das janelas e foi morar no lençol floral da cama. Uma pena

só. São pequenos milagres cotidianos nos falsos caminhos da vida, e

meu coração conectou-se à pombinha de Paris. Porque na base da vida

estão as palavras simples, que são sempre mais limpas do que as verdades

educadas e mentidas, e que nos ensinam que a graça profunda ( de novo,

a pombinha de Paris) está no cotidiano, e não em algum lugar distante

da vida comum. Aquela peninha, parte indelével de um ser, me causou

impressão profunda, pois que sou e sempre serei pela magia e pela coragem

dos que a sonham.

                Perfumam noites, os ventos escoceses. Hora de selar Liberec:

"É no ínfimo que eu vejo a exuberância". Manoel de Barros.

                                 Lívia


Um tiquinho de Lisboa.

22 de maio de 2011 2

        Não conheci propriamente Lisboa, leitor, daí por

que registro que as impressões aqui tinturadas são

feitas aos pincéis, às furtadelas. Mas, ai!, como fui feliz

por ouvir o bonito idioma português! É verdade clara

como a lua: o português é claro e rico como a caverna

de Ali Babá (com a exceção dos 40 ladrões). Sempre me

impressiono com as ondas audíveis e tonais do português

e com a vastidão de palavras, sortidas feito uma loja

de fitas coloridas, de mil tecidos.

             

          O metrô português é, senão o mais bonito, o

mais novo e limpo em que estive na Europa, e com o

mimoso uso de desenhos coloridos (do carmesim a

um vivo amarelo) para indicar suas linhas. Na esteira

da literária Porto Alegre, há excertos de obras de autores

portugueses escritas nas paredes. Fernando Pessoa - e

escrevo seu nome em lufada diáfana - está lá. Não são

os poemas-no-ônibus, das linhas públicas da capital

gaúcha, mas decoram a imaginação, na espera do zunido

à moderna do trem, na estação de metrô.

          O centro da cidade lembra o centro de qualquer

grande cidade, e embora eu tenha gostado muito mais

de Lisboa do que de Madrid, mesmo numa passagem

de cometa, vapetevupeando o que via ao redor, as ruelinhas e os

e seus nomes me remeteram diretamente aos romances

de Eça de Queirós - trechos como "(...) Tinha cortinas

de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de

seda azul; e sobre a cômoda dois vasos da Vista Alegre

dourados! (...)", de "O Primo Basílio", quase têm

cheiro, cor e textura, e assim senti Lisboa. Muito

 concreta, muito realista.Aos modos do canônico

escritor luso.

        As cenas urbanas têm seu quê mundializado:

vendedores de drogas abordavam andantes, no centro,

num chiado de "shshsh"; atravessada esta centa 

 íngreme do caminho, alcançamos as águas. E,

mesmo debaixo do escuro céu português, à noite,

a cor verde do chá a céu aberto se fazia vista no

Porto de Lisboa. Não sucede ser de todo limpo, pois que

o perfume não parece atrair borboletas-caudas-de-andorinha,

como o sensóreo cheiro da natureza sadia, mas

era verde, da mesma cor do Danúbio ao-vivo-e-a-cores.

            Os prédios e a paisagem arquitetônica mais à

moderna lembram muitíssimo os do Brasil, e, à cata

de sinais à brasileira, saudosa que estou da terrinha,

deparei-me com uma filial de "O Boticário", em lustrado

português. A informalidade do motorista de ônibus que

nos levou à Fátima confundia-se com a de qualquer motorista

brasileiro, e mesmo com aquele acento peculiar dos

portugueses, os ares do condutor eram muito brasileiros.

           Lisboa ajeita-se no tempo do pipilar do milhafre,

que nem me pareceu ritmada às pressas de uma Londres

nem tampouco aos jeitos das queridas cidades do interior,

ritmadas num tempo vagoroso.

            Não houve, desta vez, tempo para prosearmos

com a cidade, caminharmos por ela para vermos a cortina

do seu mundo de dentro erguer-se, mas uma certa

dinâmica invisível no modo como as coisas funcionam

me familiarizou com os plagos brasileiros.

          O que vi e me chegou de Lisboa, das poucas facetas

que dela pude acessar, parece repleto dos romances

portugueses. Não consegui me desvencilhar das tardes

vendo Portugal pelas palavras, nas férias de verão da

escola, na casa da minha vó, com Eça de Queiróz a

ensinar palavras de sons novíssimos e pouco usados,

que eu amava. Lisboa também me pareceu muito

a residência de uma senhora bonachona destas de

livros, com pastéis de nata e cheiros de salgados

assados. Tem um ar anacrônico numa paisagem

iberoamericana, e, se houve dor ao sentir a paisagem,

foi a de uma melancolia grave, marcada pelos pesados

ares de uma colonização violenta e difícil de nosso lado,

no Brasil.

              Lisboa merece uma visita inteirinha, e quando

a fizermos, aqui a narrarei com inteireza, sem brechas.

         Selo com a tessitura da beleza e da simplicidade,

briquebraqueando os ventos imperativos de Edimburgo,

pois que é verdade que devemos aos portugueses o idioma

imaginativo nominado p-o-r-t-u-g-u-ê-s, apesar do feroz

ato de dor imposto por uma colonização.

            "Às vezes, ouço passar o vento. E só de ouvir

o vento passar, vale a pena ter nascido". (Fernando Pessoa).

                    Lívia




Vienando.

15 de maio de 2011 2

Acendo a haste da lamparina perfumada com jasmim

para escrever esta palavra: Viena. Na primeira vez que

estive na capital austríaca, o inverno rendilhava neves

e a cidade, vestida de branco, exibia sua aura majestosa

em ruas enfeitadas para receber o Natal. Foi como se eu

tivesse sido roubada, a vida inteira, daquele momento

de beleza. Viena me ensinou a noção abstrata de beleza,

mas não desta beleza fácil, feito bilhete de roda-gigante

depois da primeira volta, mas desta beleza nuançada,

historiada, luminescente.

Na segunda visita, foi a vez de, aos moldes das

bonequinhas russas, abrirmos novos invólucros mágicos,

ao acessar outras paisagens da cidade. Já desprovida

de seus casacos invernosos, Viena exibia, então,

um certo ar de monja, preparando-se para a nova estacao,

cumprindo, em lufadas menos geladas, sua passagem

para a primavera. O sol já tinha lá um tom róseo, nem

salmão nem cor-de-rosa, em uma espécie de combinação

absorvente das duas cores. Schonbrunn, o Palácio,

erguia-se, luminoso, em tons rosados de sol, pois

que do jardim de onde o víamos, a lição incessantemente

se colocava: Viena é uma das cidades mais belas e

magnéticas da Europa. Ali, compreendi os cenários

imagéticos da literatura européia do século XIX. Ainda

há, na cidade, algo à beira da sociedade excessivamente

aristocrática e pérfida dos séculos idos, mas de um modo

que se mistura e dilui à Viena contemporânea.

Colocando o coração na bandeja austríaca nesta

terceira visita, encontrei a cidade solar, com a temperatura

mais assemelhada ao verão brasileiro que experienciei desde

que caminho por estes plagos. Viena me ensinou, desta

vez, a contemplar o verde, e, ave!, como são milhares,

os seus tons! Árvores e folhas e ramos e jardins em tríades

de verde-alface, verde-garrafa e verde-esmeralda. Havia

cães como nunca os vi em raio de felicidade anterior,

a aquecer os pelos debaixo de um sol douradamente

metálico, aos jeitos das pinturas de Klimt, cujas

obras dormem no divinal Belvedere, o Museu a que

rendi homenagens em outra missiva, ao discorrer

meu amor por Viena. Outra vez, passamos em frente

a uma das residências em que viveu Beethoven,

contemplamos os caminhos dos Habsburgo, espiamos

a fachada da Universidade, tomamos o sorvete favorito

do ranking europeu de cremosidade. Mozart outra vez por

todos os poros e vitrines, e de novo o telhado colorido

da Catedral, em vivo contraste com o edifício gris

de alcunha medieval. E a sensação, de novo, que tem

de ver com os lugares em que, magicamente, nos

remetem ao lar. Viena me faz sentir na casa da alegria,

pois que, aos modos de Roma e Praga, amo a cidade

violenta e apaixonadamente.

Não sei contar os trifólios felpudos e aromáticos

que decoram as ruas, a tanchagem de um rosado intenso

ao sol, e as delicadas flores violeta, cujo nome desconheço,

que recendem à lavanda. O imaginário europeu de

verão, em plena primavera, tem lá suas engraçadices,

pois que uma pequena "praia" artificial, que consiste

em uma larga tira de areia na qual são distribuídas

cadeiras e mesas de plástico branco, simula os apetrechos

do calor paradisíaco que persegue os sonhos dos europeus.

Na moldura dos estereótipos que as andanças nos

ensinam a observar de perto, noto que as mulheres,

aqui, não cultivam a palidez por consciência, como tanto

se alardeia no Brasil. Qual o quê! Se não douram a pele

é por pura falta de sol, leitor, pois que ando abismada

com o consumo abissal de maquiagem usada para

artificializar a pele em bronze, cá neste pedacinho do Globo.

São quase cor de laranja, mas, por certo, creem as européias

que estão douradas ao modo dos trópicos. Em Lisboa,

uma porção de jovens ostentava seus chapéus de palha,

à brasileira, com Havaianas (que, em Londres, não

saem por menos de 69 euros, o par), mesmo na casa

dos 19 graus. Em Edimburgo, não é incomum encontrar

homens de bermuda e chinelos de dedo pelas ruas,

com 17 graus de temperatura. A noção imagética de calor

me tem feito pensar na benevolente natureza brasileira,

pois que embora o inverno seja a estação preferida

da alma, convidativo ao lar, aos livros e à construção

do caráter, nada pode ter mais abracadabra do que

os rostinhos das flores, os dizeres gingados dos passarinhos

e as cores vivas da primavera e do verão. Tenho cá

uma coleção de imagens coladas no coração, de cenas

deslumbrantes tomadas ao acaso, da natureza em

pleno exercício de ser e estar. E, aproveitando o mote,

mas trocando de sorte, tomo parte humilde num

pedido singelo. Em havendo, no mundo, a cruel

hierarquia dos seres, por qualquer razão o ser-humano

se crê em maior medida de direitos na Terra, e, na

esteira de tamanho insulto, crudeliza e mata animais.

Não preciso dizer os porquês, havendo sensibilidade e

empatia de se estar no mundo, com aqueles que leem

esta cartinha. O causo é que, em havendo consciência,

leitor, não consuma produtos feitos aos custos da morte

de animais. Em podendo, evite, exercite, pequenina e

anonimamente, a comunhão do bom, do belo e do

verdadeiro. Em Viena, um grande telão, no centro

piatonal da cidade, exibia o sofrimento dos bois, na

viva ardência de experienciar o mal pelas mãos humanas.

Não direi o que quer que seja sobre as touradas. Sobre

as brigas de galo. Sobre as caçadas. Sobre a cultura

do sangue. Aqui deixo um grande espaço em branco,

pois que a vida das palavras guarda o grito para tentar

o verbo. O fazer. Que dizer é nada.

Na próxima vez em que embalar o coração em

Viena, será verão, e, debaixo do céu austríaco,

aprenderei os vibrantes tons de turquesa, nos algodões

das manhãs.

Antes do selo, não posso me furtar de pedir

perdão pelos repetidos atrasos indelicados nestes

Correios e Telégrafos cibernéticos. Perdão, leitor.

O causo é que aviso aos navegantes que, por ora, haverá

atrasos circunstanciais na postagem. As razões têm

de ver com o fato de ter entrado eu na fase crucial do

Mestrado e com o amalgamento dos desafios da vida,

pois que comecei a trabalhar em área totalmente

nova, e até que tudo caiba na moldura dos dias, com os cuidados

que merecem os conhecimentos novos, leiga que

sou em praticamente tudo sobre o mundo, estarei no

intensivo aprendizado do que não sei. Mas logo volto

a debruar letrinhas, pois que minha alma é toda

ela das palavras, das cores e das historias.

Que a semana se tome por cor, na viva chama

dos verdes austríacos. "Já que a Arte é o trabalho

nobre de um ser humano, não deve resultar das

ações de um especialista". (Yoshikawa)

Lívia


Fátima. Porque há o amor.

02 de maio de 2011 2

      Durante muito tempo, acreditei que a personalidade,

este ente invisível que nos contorna, desabasse sobre

nós já feita. Nas fases desérticas da vida, contei com

o apoio irrestrito de Nossa Senhora de Fátima, e,

temperando a ferro e fogo meu espírito, fui tendo

de aceitar, com todas as limitações e defeitos que

sustentam meu edifício inteiro, que a parte mais

dolorosa, a mais difícil e também a mais trabalhosa

da jornada nesta Terra, implica a recompensa querida:

o burilamento do espírito.

            Quando se carrega, por dentro, um sangue

vulcânico, tudo é razão para erupções e todos os

sentidos vivem em alerta constante, num exercício

de hiper sensibilidade demasiada, por meio da qual

todas as coisas são (supostamente) inferidas, lidas

e desvendadas. Todos os obstáculos da vida implicam,

em alguma medida, inabilidade de temperamento. Por

difícil que seja, e é, a recompensa de burilá-lo vale cada derretimento

à viva queimadura da experiência: molda-se um temperamento

como molda-se um caráter. 

            O que de pior existe no mecanismo invisível

da inconsciência é o fato de que sempre tendemos

a bater na quina da mesma mesa: as dificuldades

imputadas por um temperamento, qualquer que seja

ele, pois que cada um encontra suas facilidades e

dificuldades no universo do mundo, tendem a se

repetir, viciosamente. Só um comprometimento

interior, pessoal, absolutamente íntimo, com os

próprios defeitos, ensina, pequenissimamente,

pois que a tarefa é para a vida toda, a evoluir. E são

muitas tentativas longas para cada pequeno resultado,

mas valem cada entrega, cada tentativa de fazer

melhor o que, costumeiramente, se faz por hábito

e vício de comportamento. Porque sempre há de existir

consciência.

            O intróito, um tanto quanto "nova era", me

é, apesar disso, absolutamente caro, pois que há

muito queria ir à Capelinha de Nossa Senhora de

Fátima na cidade que a nomina, em Portugal, e a

visita me conformou o espírito com uma certeza

que incomoda o ego, que faz cócegas à vaidade

humana que nos habita: é preciso, sempre, sempre,

sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, e

continuadamente, querer ser melhor, e não na roda

da vida, mas na roda do espírito. Qualquer que seja

a fé, qualquer que seja a motivação, desde que

vibrada em bons desejos e boas querências.

E erramos, e erramos outra vez, e erramos de novo.

 Porque é difícil, porque há resistência, porque o

sótão dos botões de cada um de nós conhece os

 próprios caminhos de acionamento da pane e da 

avaria no sistema. Vez e outra, faço um esforço

 imenso comigo mesma, tão íntimo quanto

 particular, para sanar um defeito que me

 incomoda às alturas ou um defeito que se

vai enraizando nas dinâmicas da minha relação com

a vida. Para encontrar um ínfimo êxito. Que me

frustra. E então aquele

êxito me dá coragem para mais um passinho, pequenino,

mas um passinho, na dificuldade do meu defeito, e

outra vez tudo desaba, cai ao chão. Porque, mesmo

tentando, erro. Porque, quantas vezes, mesmo

tentando, empenhada e inteiramente, me deparo

com a viva e concreta limitação. Com a dificuldade

clara que o desejo de evoluir impõe. E assim se vai

iluminando um caminho que, imperfeito, excessivamente sensorial, todo ele

infestado de defeitos, encontra uma luz aqui, outra acolá. Cada

avanço, pequeno que seja, desde que inteiro, sem

brechas, comprometido com a evolução, é o coração

celebrado em fitas coloridas.

         Tenho estado, leitor, muito guardada na plenitude

dos meus defeitos, muito em guerra com eles, muito

entranhada num olhar vulcânico aos ares-de-sabidinho

dos meus mecanismos inconscientes, que não os

quero soltos à regalia das vontades, ao modo da letra do

Caymmi - eu-nasci-assim-eu-cresci-assim-vou-ser-

sempre-assim, gabrieeeeela. Qual o quê! Vem logo sobre

mim essa paralisante cessação do ser, este desejo

imperioso de estar por me tornar, pois que, imperfeita,

julgo a minha própria medida na medida do mundo.

           Aqueles que, por razão de caminhada, já duelaram

com mangustos ou já sentaram-se às

portas da casa da dor, convocariam o passado a lhe justificar

a têmpera. É um erro apoiar-se nas tragédias eventuais

de um passado para agir com assertividade no presente.

Pois que a vida é luz, é entrega, é desejo de serenidade,

é o profundo amor, que, em sua razão

de existir, nos ensina que a graça profunda está

na reflexão. No real desejo de se querer melhor, ao

custo da vaidade, do ego e do inconsciente.

           Ter podido estar com Nossa Senhora de Fátima

me colocou em alegria silenciosa, daquelas que

escancaram todos os gritos porque moram na

casa de dentro. Aqueles que, como eu, sofrem, em

vaidade, por não poderem ser de uma bondade

intacta, inquebrantável, temperam o espírito nas

pequenas (ai, e como são mínimas e frustrantes para

nós, os modernos, tão ávidos por resultados imediatos,

por conquistas emocionais repentinas!) tentativas

de lapidar o espírito. Compartilho tão pessoal

escrevinhação porque me coloquei espontaneamente

entre as mãos do otimismo e da fé, e sou, desde sempre,

guardadora da certeza de que a coragem expande-se

com o uso. Mas, ave!, não basta a coragem dos feitos

humanos; das epopéias clássicas de superação em

batalhas, projetos graúdos e produtividades dantescas,

lustrosas aos olhos. Difícil é a epopéia de se querer

melhor, pois que todos nos pretendemos melhores,

mas querer tornar-se melhor implica saber que estamos

longe de qualquer possibilidade de sê-lo, e como

jamais o seremos, os centímetros serão sempre

marcas bonitas e encorajadoras de novas tentativas,

de novos desvios da quina da mesma mesa, de

entrega à coragem de se saber pequeno, humano

e falível.

           Nossa Senhora de Fátima me cuidou sempre

porque não apenas me colocou na rede da beleza,

no espaço de uma vida que não me coloca em posição

de pedir, mas só de agradecer, como tempera,

continuadamente, meu espírito; exige de mim

mudanças; me quer resiliente ao jeito do mundo

e não ao jeito da minha vaidade. O mistério das

coisas reside no compartilhamento dos defeitos,

no reconhecimento das limitações, e na violenta

certeza de que outra vez, de novo, sempre, o passo

precisa ser dado. Mesmo que se deixe tudo desabar,

mesmo que caiam os pratos todos, a tentativa de

corrigir os defeitos existe. Não foi possível, ainda,

vencê-los todos, mas quando se quer, sempre se pode. E vamos

de novo moldar o vício das incertezas, os medos

das perdas, as lembranças das dores, os esgarçamentos

familiares da máquina do tempo.

      Lá vamos outra vez porque o espírito ama, e ama

profundamente, e é no amor, creio imperiosamente,

que está o milagre. É na experiência do amor que

todas as limitações individuais expandem-se, capazes

de se transformarem em burilamentos quase imagéticos,

de tão bonitos, para a vida. Em amando o Felipe, por

exemplo, me humanizo e me recoloco continuadamente

na esteira da vida, no desejo de ser espiritual e

emocionalmente mais capaz de, no cotidiano terreno,

expandir o amor por ele no amor ao crescimento com

ele. E todas as vezes em que me senti, ao modo da

madeira, escrava rígida de minhas tecnologias psíquicas,

pensei na trituração dos nós da madeira pela tempestade, e, depois,

na vagarosa, demorada, mas concreta e verdadeira,

inundação da seiva. Ali está o milagre. Ali, na

pombinha que salvamos da dor, mas não da vida,

é que está a graça profunda. 

       Se me coloco, aqui, hoje, com tamanha abertura do

canal da alma, na contramão do que costumeiramente

aprovo, sendo todos nós tão individualistas e focados

nos dizeres sobre e de nós mesmos, é porque, em

agradecimento à Nossa Senhora de Fátima, por

todos os desertos atravessados e por todas as bençãos

que recebi da vida, aprendo, cotidianamente, que,

se eu quiser a recompensa da paz, da serenidade,

da plenitude que um amor profundo me traz - mas,

ai dos meus!, a mulher feroz em mim ama e

guerreia sempre à beira, diz sempre

vulcanicamente, expressa-se sem meias-tintas -,

tenho de explorar os recursos da própria alma. É

porque a doçura é metade inequívoca de mim, é

base primeira dos meus sentidos e é nela que quero continuar morando,

sempre. Os recursos da alma são amplos e

largos e luminosos quando, depois de burilados a

ferro e fogo, se revelam lapidados.

            Fátima é lugar coalhado de gente, e há gentes

de todas as qualidades, e são mimetizados muito

rituais de fé, e há cumprimento de promessas

doídas de se ver, mas é no encontro com a pequenez

do espírito, com os encalacrados defeitos, que

agradeço aos céus por lá ter estado. E pela fé. Pela fé

na vida de todas as coisas boas, belas e verdadeiras.

Minhas palavras não têm outra rota senão meu

agradecimento humilde, no cotidiano do enfrentamento

de mim mesma para ser melhor, ao amor de Felipe.

Que em tudo é e em tudo está dentro de mim.

      Selo, hoje, com os joelhos dobrados, em agradecimento

à Nossa Senhora de Fátima, por cada dádiva e por

cada deserto do caminho, que ambos me têm moldado

na viva compreensão de que é preciso fazer melhor,

tentar melhor, e ser melhor. A qualquer tempo. Em

qualquer circunstância. A vida, em sendo toda ela

a casa do amor, está banhada em luz. E é para ela

que vamos.

         "É você que eu puxo para mim, mundo adorável".

(Virginia Woolf).

                  Lívia