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Posts de junho 2011

A vida à milanesa.

28 de junho de 2011 3

         Tremi de riso doce porque voltei a pisar em terras italianas. O sol picou os olhos, na casa dos

 30 graus, em Milão.  Pausa para suspirar, como se uma libélula corresse entre as palavras. 

 Minha casa imaginativa é a Itália, embora bata  cá por dentro um esbraseado coração à brasileira.

                                       

            Milão não tem o charme torrencial de Roma, priscas eras está das terracotas solares que se

entremostram na Arquitetura romana; o moçame exibe sobrancelhas exigentemente milimétricas,

absolutamente em contrário ao belo, que sempre pressupõe alguma falha; e tem lá suas pretensões à

 moda de etiquetaria. Tutto vero. Mas o causo é que Milão está incrustada na Itália e basta

cosi.

             Espalham-se vozes e refeições ao ar livre; os passarinhos pousam às mesas, dando bicadelas

 no que respinga de molhos e massas, ou colocam-se a aventurar os olhos no lufa-lufa das palavras

que se grudam aos ventos (não  há idioma mais sensual do que o italiano), bem acomodados no

 encosto das cadeiras; a vida é sentida em restilhos luminosos na Itália. São caóticos, vivem a

 polemizar, colocando mais parmesão no ragu à bolonhesa da Política, andam na contramão-

atrapalhando-- trânsito, dizem o que se lhes dá na veneta: è tutto vero, para deleite dos soturnos

 alemães e talecoisa, mas duvi-dê-ó-dó que sejam muitas as culturas nas quais

a genuidade, como coisa a ser emanada do âmago e não pretendida a esmo, se sinta de modo tão

forte como na Itália.

                                                

                É preciso ser natural para que certos meneios sejam encantadores, e é exatamente aí que

reside o savoir faire italiano. O modo como  se comunicam com a vida coloca o peso

espitemológico na própria vida e não no controle sobre ela. A Itália é apaixonante e terrivelmente

bagunçada, por certo, mas com o benefício de ser genuína, do mesmo modo que a Alemanha é

contida e organizada com o malefício de ser reprimida. Perdão, leitor, pelas palavras enviesadas

para com a Alemanha, que tem lá suas graças, mas, ai!, que se há de fazer?! Falta bossa, charme, it,

physique du rôle ao país. Definitivamente, a Itália é o país-dos-meus-olhos, como se diz em

 bonito português.

              Em Milão, demos com a cara na famosa parede que guarda a canônica tela de Leonardo da

Vinci, A Última Ceia, no refeitório do Convento Santa Maria delle Grazie, pois que a atendente

explicou, em claro e audível italiano, que as visitas devem ser marcadas com antecedência. Erro

nosso, com gostinho de bagunça italiana. A Feira de Antiguidades, esparramada debaixo de

um sol que só existe na Itália, é o microcosmos milanês, com suas gentes elegantemente vestidas

em tecidos de algodões em tons de marinho, branco e coral, mapas antigos, in-fólios encadernados

com lombadas douradas, estatuetinhas em basalto, broches vintage, e todos os sortidos objetos

dos romances, dormitantes em bancas singelas, bem fixadas nas ruelinhas de cascalho. E logo ali,

no estreito de uma ruela, a Amorino, este nome lindo de fazer fitas ao coração, gelateria que

ganhou, com honrarias em flor (as bolas formam uma flor, em camadas cremosas de sabores, na

casquinha), o título de melhor sorvete das nossas andanças, desancando a cremosa sorveteria de

 Viena, L'Italiana. Aqui, leitor, para a gulodice dos sentidos: http://www.amorino.com/it/  

                                                  

                No marco geográfico de Milão, o Duomo, terceira maior Igreja do mundo, abriga 3.400

estátuas, em uma inacreditável fachada gótica. Eleva-se, em artesanias barrocas, clássicas e

neoclássicas,com seus 157 metros de altura, havendo, no topo da construção, uma flecha feita por

Leonardo da Vinci e uma Madonna debruada em ouro. No centro da Piazza Duomo, na qual se

localiza, está a famosa Galeria Vittorio Emanuele, representante-mor do núcleo chique da cidade,

com lojas caras e Arquitetura belle époque. Seu pórtico majestoso sustenta estruturas de ferro

e cúpulas de vidro, acima, e mármores em todo o chão, abaixo. De 1877, lembra muitíssimo o

protótipo de um shoppping center aristocrático, recheado de lojas emergentes.

                           Havendo contribuído para o ápice das óperas na Europa, debrucei-me, em sonhos,

diante de um Teatro alla  Scala fantástico, aos jeitos das Casas de Ópera que se veem em Praga e

em Viena. Ao vivo e a cores, é bastante menor do que o alvoroço da minha imaginação, mas não

se fie o leitor nas aparências, pois que o Scala abrigou obras-primas de Verdi, Bellini e, talento

dos nossos plagos, Carlos Gomes, que ali estreou O Guarani, com libreto baseado na obra de José

 de Alencar. O público do Teatro é exigente aos jeitos de ter vaiado, ali, Luciano Pavarotti, em

 1992, durante uma apresentação de Otello.

               Gosto, leitor, em especial, do fato de a Itália ser anacrônica, como todas as pessoas e

lugares que contam. A Milão modernizante do capitalismo global contrasta com os vestígios do

passado, ainda que sem qualquer comparação de relevo ao que se vê, do mesmo modo, em Roma.

Tendo atravessado os séculos, desde o XV, o Castello Sforzesco é uma pequena jóia em perímetro

urbano. Senta-se, em um dos banquinhos-da-vida-verdadeira que moram debaixo das copas das

árvores, e ali se respira a atmosfera do passado, pois que o Castelo foi residência do Duque de

Milão, Ludovico Sforza, e, hoje, abriga coleções de obras de Arte, espalhadas em Museus e Galerias

de Arte em seu recinto.

                Em minha coleção de memórias inesquecíveis de imagens particulares está a de um

domingo de sol, sentada com Felipe nos Jardins Públicos milaneses, respirando o ar cheiroso

da natureza, toda ela misturada entre cães maravilhosamente felizes, vozes italianas entrecortando

os barulhos das bicicletas e dos pequeninos pôneis, infelizes seres amarrados em cercas para

passeios escravistas. Cuidei de acarinhar o rosto macio de um deles, e, ai de mim!, morri por 8

 vidas ao me deparar com aqueles olhos tristes. Se houvesse ducado que me bastasse, num átimo

 levaria embora o bichinho, soltando-o em área de natureza selvagem, na qual pudesse ser

 inteiramente.

                  Eu cortinaria, ainda, com muitas rendarias as palavras, mas vou encurtando a prosa que

a noite se coloca entre as nuvens, lá fora: bebemos chás verde à provençal e com jasmim no final

do caminho de ruelas que abriga a Feira de Antiguidades. Soprava um algo mágico que só se veem

nestas histórias de duendes e carochinhas, já desde o nome da Casa de Chás. Repare, leitor,

na beleza sonora das palavras: Di Violedi di Liquirizia. Não soa como perfumes nevoados?

Pois em Via Madonnina número 10, escolhemos os chás num cardápio de papel à antiga, que dizia

 assim: "Un profumo d'aventure e di poesia si espande da ogni tazza di tè". É por coisas assim que

 eu acredito na pulsante mágica do cotidiano, graça profunda de todos os milagres.

                 Para a Itália, sopro meu coração.

                              Lívia

Nota bene: Pequena avaria na publicação das imagens. Perdão, leitor.


Passarinheira Oslo.

13 de junho de 2011 7

         Madonna mia! Mesmo que eu apelasse para o recurso do inaudito,

convocando imagens cheirosas, como marzipãs de Siena, tamarindos

e cinábrios, ou cardamomos ardidos no chá, faria pouca justiça a algumas

imagens inebriantes de Oslo, na Noruega.

             

             Logo que chegamos, a chuva dançava sobre os meus sonhos, que

desejavam, ardentemente, o sol, pois que Edimburgo raramente ultrapassa

a casa dos 18 graus e gosta de banhar-se debaixo das águas do céu. Sob o

véu da chuva, Oslo vestia-se com uma capa transparente, mezzo-cinza,

mezzo-prateada, esmaecida. No restilho das primeiras impressões,

delicadas sabedorias de execução se foram fazendo, e a tal ponto que,

ao final da viagem, eu suportava não sem dor a perda da comunhão com

a cidade, que se revelou charmosa, verde (muito verde) e, aos modos da

Suécia, da Dinamarca e da Islândia, marcada por aquela beleza escandinava

que raras vezes vi em igual quilate nesta Europa.

                           

            Oslo estende-se pelos fiordes noruegueses, e, no contraste com

a natureza acizentada, voltada para as águas profundas, e com o verde

prorrompante da área urbana, tijolinhos à vista ornam casas e fachadas

que parecem burgos, e há, ainda, arranha-céus prateados, paquistaneses e

suas lojas de tecidos coloridos, contrastes e paradoxos, pontas e meadas.

         O olhar escandinavo, que abocanha prêmios sequenciais em design

e arquitetura, é presentíssimo em Oslo. Por entre linhas retas, panos de vidro,

madeira e aço são marcas fortes no aeroporto sustentável, que muito

se parece com o de Reiquiavique, na Islândia, e na belíssima Ópera,

construção ultramoderna, que se dilui entre os fiordes, em larguíssimas

 porções de mármore branco de Carrara, estão os símbolos de uma quase divisão

 entre terra e água, com vista esplendorosa para a natureza. De imediato,

 nota-se a proximidade conceitual com o estilo de Oscar Niemeyer. No

 contexto das águas, circundada pelos fiordes, a luminosidade feroz faz

 da construção uma beleza sólida, concreta, o que, talvez, em terra, no

espectro do centro urbano, não funcionasse de maneira tão harmônica.

                      A cidade está repleta de canteiros de obras, e, na esteira de um

 feriado local, as linhas do transporte público foram afetadas por

interrupções, mas conseguimos alcançar a livraria antes que suas

portas fossem cerradas de todo. Dali, Felipe e eu experienciamos a

 iconografia pop das referências modernas, pois que algumas telas da

 contemporaneidade permeam o imaginário social quase que em níveis

arquetípicos. "O Grito", do pintor norueguês Edvard Munch, está na

"Galeria Nacional de Oslo", e das suas pinceladas expressionistas, do

conteúdo fatal de sua dor, nada é preciso dizer.

                                                      

            A tela é menor do que sua alma simbólica, de espectro gigantesco,

e as cores não de todo se dizem pungentes, mas quase sussurram, apesar

do grito, que é preciso duvidar da matriz de real; a realidade, na tela,

não é negociável. O mundo, para Munch, é a crença no destino fatal.

Órfão de mãe aos 5 anos, perdeu, para a morte, duas irmãs, e, para a vida,

o mundo de dentro da irmã caçula, que sofria de transtornos mentais.

O mundo, em Munch, nos escapa porque é menor do que o universo

interior, e nos esmaga porque não há espaço, nele, para que se caiba

a alma de dentro.

           A Galeria, que guarda, ainda, as vivas tintas de El Greco, Picasso,

Ekeland e Monet, não fica longe da casa em que viveu o escritor realista

Henrik Ibsen. A casa, transformada em Museu, localiza-se quase em frente

ao Palácio, residência oficial da Família Real norueguesa. Sobre a

mansarda, estenderei letrinhas mais abaixo, pois o causo é que começo a

divagar. Voltemos ao Ibsen: soubemos que tinha ele o molho de chaves

dos jardins reais, e que, tão logo surgisse, encurvado em sua capa de tecido

negro, os guardas deveriam para ele abrir passagem. Ibsen está, no largo

universo das palavras, espalhado pelas calçadas de Oslo, em excertos

noruegueses, misturado à própria personalidade da cidade, como se as

palavras fossem, elas próprias, chaves para se acessar a Noruega.

                                      

             O Rei, a Rainha e a trupe monárquica vivem numa casinhola

em tons amanteigados, de lindos jardins esverdeados, e uma curiosíssima

noção de Democracia: nem portas, nem cadeados, nem portões impedem

qualquer um de nós, viventes do mundo, de jogar, vamos dizer, uma

pedrinha de cascalho em quaisquer dos janelões (de linhas quase sempre

retas) na mansarda, a chamar o Rei. Não duvido que, vez ou outra, lá

venha ele, bocejante, jornal em uma das mãos, por detrás da vidraça,

 acenando, com a mão que resta livre, para os súditos ali em frente, a

coisa de 2 metros abaixo de sua janela. Pompa?! Circunstância?! Qual

o quê! Na casa, pelo menos, parece viver gente-como-a-gente, esse

tecido fibrado de amores e dores. Ah, o que os literatos russos teriam

dizer a respeito!

          Nada destas frivolidades simbólicas e generalícias, nada de Palácio que

dê pistas de que seu Rei tenha cara-de-frasquinho-de-farmácia, como

grafou Gógol, em topetes moldados com gel. O tom que se pretende

nas nuances entre o bege e o amarelo - "manteiguinha", de acordo com

minha avó - está para as fachadas de Oslo como o verde azafamado está

para as fachadas ministeriais de Brasília. Intrigante, a escolha do

"manteiguinha", mas, ora, por mil luas!, Oslo é tendência nas escolas

de design, deve saber o que faz com a palheta!

              O sol, tomando de empréstimo os cabelos do Felipe, venceu, por

fim, a chuva, e, ai!, desenhei alegrias com o vermelho do coração! Visitamos

um museu ao ar livre, força descomunal da beleza: no "Parque Vigeland",

o escultor que lhe empresta o nome narra o mundo real, na contramão

das paisagens de dentro de Munch. 212 esculturas rodopiam, dançam,

dão-se as mãos, carregam e sonham crianças, invencionam sorrisos,

em sequências inacreditáveis de deliquescência.

                Gustav Vigeland, escultor norueguês, comprometeu-se em fazer

do Parque seu atelier em troca de um teto, por parte do Governo, e como

a Arte não barganha, nunca e jamais, com a vida, seu teto foi o céu de

algodões celestes de Oslo, pois que em nenhum outro lugar desta Terra

senti o magnetismo vivo da confiança tão lindamente simples:

os pássaros, às dezenas, rodopiavam, aproximavam-se, quase

encostavam-se em nós, os humanos, e havia gaivotas, e patinhos, e pardais,

 e todos dançavam, esculturas vivas, por entre o campo magnético da

 paz, da harmonia e dos banquinhos-da-vida-verdadeira, de onde

assistimos cães e alegrias fundidos num único vocábulo, que

quer dizer a-m-o-r.

                       

             Oslo me ganhou as bordas da alma, e o fez por se revelar sem

brechas, com suas metades de luz (sol) e de sombra (chuva), e com

doçura. Pássaros. Pássaros. Pássaros. No parque. Voando na mesma

direção. Sempre.

           Pequenina memória: eu e Felipe tomamos chá verde na antiga estação de trem que,

hoje, é casa dos laureados com o Nobel da Paz. Construção benfazeja,

à beira das águas norueguesas, mas, ai!, Morfeu me chama já há muito,

daí que neste conto tasco logo um ponto!

           Selo com os perfumes diáfanos da noite que agora chega, a borrifar

sono nos olhos: "Todo conhecimento da intimidade das coisas é

imediatamente um poema". Gaston Bachelard.

                              Lívia


A paisagem que circunda um Castelo.

09 de junho de 2011 2

             Uma pequena cidade da Boêmia Central, Benesov (com o acento

circunflexo ao contrário pingado no "s"), faz as vezes de atalho para

um Castelo, destes que colorem fantasias imagéticas nos livros. Pois neste

Castelo, nominado Konopiste, morou aquele que entrou para a História

Contemporânea do Ocidente como o gatilho da Primeira Guerra Mundial.

Francisco Ferdinando, sucessor do trono austro-húngaro, comprou o

Castelo em 1887, e ali viveu, com a família, até o ano de 1914, quando

foi assassinado, em Sarajevo. Ao que se sabe, colecionou armas,

tapeçarias e obras de Arte, mantidas no local.

      

             Fundado no século XIII, muito antes de abrigar o dono famoso,

o Castelo tinha ares góticos, aos jeitos medievais, tendo sido reformado,

com o correr das luas, o que lhe imprimiu enlevos barrocos. O passeio entre

os verdes que circundam a construção lembram Dorothy nos campos de

Oz - se não tomar cuidado, esta bela campina lhe roubará o resto da

existência! A natureza sussura, ali. E há paz. Sossego. A vida tranquila

do tempo, esparramada na simplicidade do silêncio.

                   

              Benesov chama a atenção por, primeiro, destoar da escola-tcheca

de-arquitetura: a praça central não convida ao hedonismo das fachadas;

serve-se de banquinhos e verdes com ares de playground, muito mais

no sentido de se viver a praça do que de se contemplar, a partir dela, a

Arquitetura local. Não foge, contudo, a um padrão peculiar do interior

da República Tcheca: também ela tem um restaurante italiano de atmosfera

balinesa, com ícones indianos e almofadas de cetim em púrpura, espalhadas por

chaise longues amadeiradas. Há qualquer coisa de ambições metidas

a sabidinha, nestes restaurantes modernos das pequenas cidades, mas

não atino em saber por que a culinária italiana se coloca entre os ares balineses,

nas andanças em terras tchecas!

                                    

              De Benesov até o Castelo de Konopiste, nos difundimos, caminhantes,

pela natureza. Algumas imagens, debruadas pelo calor divinal de quase

30 graus, que tanto contrastam com a primavera de 17 graus de Edimburgo,

serão para sempre lembradas no solar da minha coleção de memórias

paisagísticas. Do mais profundo verde-garrafa até o mais pálido lilás,

eu ia pelas mãos da natureza, e conforme articulávamos palavras, Felipe

e eu, toda a sorte de hierarquia entre vida e morte dos animais e plantas acontecia por entre

aqueles verdes, na florescência da natureza selvagem. E havia o cheiro

bom de terra molhada, misturado aos eucaliptos. A subida até o Castelo

tem muito do contraste europeu: aqui, respira-se a atmosfera do

passado medieval; ali, a pulsante contemporaneidade; logo descortina-se

um episódio inteiro da Arte; mais adiante, voltam-se 4 casas na reconstrução

de construções arruinadas pelas Guerras. Ora, com a breca essa de que

a Índia é uma colcha-de-retalhos! Magnética bem vi que é, mas o continente

europeu é que parece ter sido, pela ação do tempo, contrabandeado, tantas

são as possibilidades visuais.


               Havendo percorrido 9 cidades tchecas, começo, só agora, a

compreender a complexidade dos contrastes. Muito vagarosamente, o

conteúdo inconsciente que venho apreendendo no conjunto destes países

europeus vai iluminando os fluxos da consciência. E do mesmo modo

que a falta de brechas da Itália me apaixona, a máscara de polidez excessiva,

de controle absoluto dos sentidos, que tanto permeia a cultura inglesa

e sua comunicação indireta, me incomoda. É sub-reptícia  demais para

se poder agir contra ela de maneira franca. A noção de beleza dos

escandinavos, dos gestos aos risos, me lembra muitíssimo o refinamento

simples dos japoneses, e assim como os alemães me fazem sombras à

alma, os austríacos, que com eles dividem códigos comuns, me

assomam em encantamentos. Pois que tudo é nuance e noção de

perspectiva. Conforme se vai caminhando pelo mundo, a desigualdade,

a extratificação social e a ambivalência da consciência aumentam uma

oitava. Também no mundo "civilizado", ou, sobretudo nele, se vê a

opressão humana com vigores de ferro. Todos os dias, a caminho do

trabalho, vejo o mesmo cão, ladeado por dois seres narcotizados em drogas,

mas são os olhos do cão que me aterrorizam. O pedido de socorro, mudo,

cristalino, daquele par de íris castanha, me assombra debaixo do azul

cintilante do céu. Me faz lembrar o desconcertante "Olhos

de Cão Azul", lindo recorte do realismo fantástico de García Márquez.

 Aquela dor me oprime com violência. Nas palavras de

Faulkner, "toda a vida que resta para aquele ser parece ser drenada

para os seus olhos, urgente, irremediável".

              Todas as viagens, nesta primavera, me têm levado ao coração

da natureza selvagem. Como um tigre solto em área protegida, a capa

de civilidade européia contrasta com o sangue pulsante das paisagens,

e é fortíssima, a sensibilidade desconcertante com que vejo o protesto

silencioso desta carga da natureza.

                  Salpicam luzes no céu, que hoje platina uma só cor, acizentada,

sem ventos. Na esteira desta comunhão com a natureza que me tem

hipnotizado, selo com Dostoiévski: "A sensação de plenitude da vida

me tirava o fôlego".

                          Lívia