Tremi de riso doce porque voltei a pisar em terras italianas. O sol picou os olhos, na casa dos
30 graus, em Milão. Pausa para suspirar, como se uma libélula corresse entre as palavras.
Minha casa imaginativa é a Itália, embora bata cá por dentro um esbraseado coração à brasileira.
Milão não tem o charme torrencial de Roma, priscas eras está das terracotas solares que se
entremostram na Arquitetura romana; o moçame exibe sobrancelhas exigentemente milimétricas,
absolutamente em contrário ao belo, que sempre pressupõe alguma falha; e tem lá suas pretensões à
moda de etiquetaria. Tutto vero. Mas o causo é que Milão está incrustada na Itália e basta
cosi.
Espalham-se vozes e refeições ao ar livre; os passarinhos pousam às mesas, dando bicadelas
no que respinga de molhos e massas, ou colocam-se a aventurar os olhos no lufa-lufa das palavras
que se grudam aos ventos (não há idioma mais sensual do que o italiano), bem acomodados no
encosto das cadeiras; a vida é sentida em restilhos luminosos na Itália. São caóticos, vivem a
polemizar, colocando mais parmesão no ragu à bolonhesa da Política, andam na contramão-
atrapalhando-- trânsito, dizem o que se lhes dá na veneta: è tutto vero, para deleite dos soturnos
alemães e talecoisa, mas duvi-dê-ó-dó que sejam muitas as culturas nas quais
a genuidade, como coisa a ser emanada do âmago e não pretendida a esmo, se sinta de modo tão
forte como na Itália.
É preciso ser natural para que certos meneios sejam encantadores, e é exatamente aí que
reside o savoir faire italiano. O modo como se comunicam com a vida coloca o peso
espitemológico na própria vida e não no controle sobre ela. A Itália é apaixonante e terrivelmente
bagunçada, por certo, mas com o benefício de ser genuína, do mesmo modo que a Alemanha é
contida e organizada com o malefício de ser reprimida. Perdão, leitor, pelas palavras enviesadas
para com a Alemanha, que tem lá suas graças, mas, ai!, que se há de fazer?! Falta bossa, charme, it,
physique du rôle ao país. Definitivamente, a Itália é o país-dos-meus-olhos, como se diz em
bonito português.
Em Milão, demos com a cara na famosa parede que guarda a canônica tela de Leonardo da
Vinci, A Última Ceia, no refeitório do Convento Santa Maria delle Grazie, pois que a atendente
explicou, em claro e audível italiano, que as visitas devem ser marcadas com antecedência. Erro
nosso, com gostinho de bagunça italiana. A Feira de Antiguidades, esparramada debaixo de
um sol que só existe na Itália, é o microcosmos milanês, com suas gentes elegantemente vestidas
em tecidos de algodões em tons de marinho, branco e coral, mapas antigos, in-fólios encadernados
com lombadas douradas, estatuetinhas em basalto, broches vintage, e todos os sortidos objetos
dos romances, dormitantes em bancas singelas, bem fixadas nas ruelinhas de cascalho. E logo ali,
no estreito de uma ruela, a Amorino, este nome lindo de fazer fitas ao coração, gelateria que
ganhou, com honrarias em flor (as bolas formam uma flor, em camadas cremosas de sabores, na
casquinha), o título de melhor sorvete das nossas andanças, desancando a cremosa sorveteria de
Viena, L'Italiana. Aqui, leitor, para a gulodice dos sentidos: http://www.amorino.com/it/
No marco geográfico de Milão, o Duomo, terceira maior Igreja do mundo, abriga 3.400
estátuas, em uma inacreditável fachada gótica. Eleva-se, em artesanias barrocas, clássicas e
neoclássicas,com seus 157 metros de altura, havendo, no topo da construção, uma flecha feita por
Leonardo da Vinci e uma Madonna debruada em ouro. No centro da Piazza Duomo, na qual se
localiza, está a famosa Galeria Vittorio Emanuele, representante-mor do núcleo chique da cidade,
com lojas caras e Arquitetura belle époque. Seu pórtico majestoso sustenta estruturas de ferro
e cúpulas de vidro, acima, e mármores em todo o chão, abaixo. De 1877, lembra muitíssimo o
protótipo de um shoppping center aristocrático, recheado de lojas emergentes.
Havendo contribuído para o ápice das óperas na Europa, debrucei-me, em sonhos,
diante de um Teatro alla Scala fantástico, aos jeitos das Casas de Ópera que se veem em Praga e
em Viena. Ao vivo e a cores, é bastante menor do que o alvoroço da minha imaginação, mas não
se fie o leitor nas aparências, pois que o Scala abrigou obras-primas de Verdi, Bellini e, talento
dos nossos plagos, Carlos Gomes, que ali estreou O Guarani, com libreto baseado na obra de José
de Alencar. O público do Teatro é exigente aos jeitos de ter vaiado, ali, Luciano Pavarotti, em
1992, durante uma apresentação de Otello.
Gosto, leitor, em especial, do fato de a Itália ser anacrônica, como todas as pessoas e
lugares que contam. A Milão modernizante do capitalismo global contrasta com os vestígios do
passado, ainda que sem qualquer comparação de relevo ao que se vê, do mesmo modo, em Roma.
Tendo atravessado os séculos, desde o XV, o Castello Sforzesco é uma pequena jóia em perímetro
urbano. Senta-se, em um dos banquinhos-da-vida-verdadeira que moram debaixo das copas das
árvores, e ali se respira a atmosfera do passado, pois que o Castelo foi residência do Duque de
Milão, Ludovico Sforza, e, hoje, abriga coleções de obras de Arte, espalhadas em Museus e Galerias
de Arte em seu recinto.
Em minha coleção de memórias inesquecíveis de imagens particulares está a de um
domingo de sol, sentada com Felipe nos Jardins Públicos milaneses, respirando o ar cheiroso
da natureza, toda ela misturada entre cães maravilhosamente felizes, vozes italianas entrecortando
os barulhos das bicicletas e dos pequeninos pôneis, infelizes seres amarrados em cercas para
passeios escravistas. Cuidei de acarinhar o rosto macio de um deles, e, ai de mim!, morri por 8
vidas ao me deparar com aqueles olhos tristes. Se houvesse ducado que me bastasse, num átimo
levaria embora o bichinho, soltando-o em área de natureza selvagem, na qual pudesse ser
inteiramente.
Eu cortinaria, ainda, com muitas rendarias as palavras, mas vou encurtando a prosa que
a noite se coloca entre as nuvens, lá fora: bebemos chás verde à provençal e com jasmim no final
do caminho de ruelas que abriga a Feira de Antiguidades. Soprava um algo mágico que só se veem
nestas histórias de duendes e carochinhas, já desde o nome da Casa de Chás. Repare, leitor,
na beleza sonora das palavras: Di Violedi di Liquirizia. Não soa como perfumes nevoados?
Pois em Via Madonnina número 10, escolhemos os chás num cardápio de papel à antiga, que dizia
assim: "Un profumo d'aventure e di poesia si espande da ogni tazza di tè". É por coisas assim que
eu acredito na pulsante mágica do cotidiano, graça profunda de todos os milagres.
Para a Itália, sopro meu coração.
Lívia
Nota bene: Pequena avaria na publicação das imagens. Perdão, leitor.

