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Posts de julho 2011

As mãos que cuidam.

21 de julho de 2011 4

    Caros,

    Estava a ler a Folha de S. Paulo, hoje pela manhã, quando me

deparei com a história de um animal.  O Leão

Ariel sofre de uma doença ainda não detectada pelas

 veterinárias que dele cuidam, por meio da qual as células

 sadias do organismo são atacadas pelo sistema de defesa do

 animal.

         A história pode ser lida por meio dos links abaixo.

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/07/leao-tetraplegico-mobiliza-corrente-de-solidariedade-pela-internet.html

http://www1.folha.uol.com.br/bichos/946701-leao-ariel-faz-acupuntura-para-tratar-patas-veja.shtml 

          Na esteira desta casinha cibernética, peço licença ao

leitor para dizer a dor de ver o animal estendido no abraço

do amor, pois que pessoas da qualidade humana dos que dele

se dispuseram a cuidar são infundidas em luz. Se a luta para salvar

um ser do sofrimento, como o faz a família que cuida do leão e

que possui um centro de reabilitação para animais que sofreram

maus tratos, é um grito de beleza e de fé no bom, no belo

e no verdadeiro, é porque são as pequenas coisas, os misérrimos

milagres do amor que levam às grandes.

          A moldura do animal e das mãos humanas que dele

cuidam são fortes demais para que não as compartilhemos.

De todos os escritores que me marcaram a ferro meu coração,

nenhum foi tão capaz de me desvelar os véus da natureza como

Tolstoi. Desejo que todos nós, hoje, nos tomemos em nossa

pequeneza diante da beleza do amor entre este animal que

sofre e esta mão humana estendida, que cuida.

       Quando olho, através da janela do trem, os carneirinhos e bois esparramados

pelo verde da paisagem, e suas maravilhosas cenas do cotidiano,

aos jeitos de um filhote a contemplar o horizonte sentadinho

ao lado da mãe ou um animal adulto a respirar, a vida de

dentro me sufoca o coração. Nunca poderei ser de todo feliz

sabendo que aquele ser contempla os longes em frente ao matadouro platinado que

sempre acompanha as fazendas, aqui na Escócia como no

mundo. Todos os dias, fileiras inteiras de animais são

assassinados para um consumo desenfreado de carne, sangue

e corações (os de galinha, por exemplo). Todos temos as mãos

assassinas. Ainda há pouco, um filhote teve a garganta cortada

para codimentar-se na condição de vitela, em algum lugar.

O abate animal fora da cadeia alimentar natural é hediondo.

        Temos de nos perdoar, sempre, por sermos humanos. 

        Selo com a assinatura de Tchekhov: “As pessoas que têm

uma relação oficial e profissional com o sofrimento alheio,

por exemplo, juízes, policials, médicos, com o correr do tempo,

por força de hábito, ficam a tal ponto curtidas que, mesmo

querendo, só podem tratar seus clientes de maneira formal.

Por esse aspecto, não se distinguem em nada do mujique que

mata carneiros e bezerros num fundo de quintal e não

repara sequer no sangue”.

                                Lívia

Côte d'Azur.

19 de julho de 2011 7

       Sóis chamejantes e águas nuançadas de azuis escancaram

as paisagens naturais da Riviera Francesa. Nice, encravada no

sul da França, é a maior cidade da emblemática Côte d’Azur,

com sua Baía dos Anjos, este nome de tão feliz moldura, a

costear o mar Mediterrâneo.

                 

           Já era tempo de avistarmos o mar, esta imensidão de

tons de opalina, depois do rigoroso inverno cá destes plagos.

As praias na Riviera Francesa, que se sucedem feito cenários

 imagísticos de filme,  são lindas, e há palmeiras, e verdes, e

embarcações, e ventos quentes de sóis esbraseantes, mas o

glamour que vem colado à Côte d’Azur está muito ligado

aos milionários emergentes do final do século XIX e começo

do século XX, que enfastiaram o Mediterrâneo com luxo

por demais, quase que destronizando a natureza assoberbante

local, e estas cores forjadas do dinheiro a granel, que sobem

muitas oitavas na paisagem, chamuscam o encanto natural

do Mediterrâneo. Confesso, leitor, que imaginei mutias vezes,

durante o passeio, que bangalôs e roupas de algodão puro,

em vivas cores, resgatariam Nice e a devolveriam a si mesma.

               O platô do dinheiro que circunda a região oprime sobremaneira

os sentidos e, assim como estamos acostumados a ver na

América Latina, a desigualdade social em Nice é explícita:

aparece nos rostos dos imigrantes africanos, sobretudo nas ruas

mais distantes à praia. Sempre dói ver a brutalidade do

sistema em ação, aonde quer que se coloque os pés na Terra.

                                                

             Ao vermos as paisagens belíssimas, não pudemos deixar

de observar que, no Brasil, as temos ainda mais bonitas, mas

não havendo esta aura imagética do luxo, a paisagem parece

não cumprir o desejo social que, imaginam os endinheirados,

deveria se curvar a atender. Pois Nice é um balneário de

contrastes, como se vê, leitor.

                  

         O longo passeio pela Promenade des Anglais, Avenida

principal da cidade, tem lá seus ares de Leblon, com bicicletas,

caminhantes e cãezinhos, e chama a atenção pela sujeira. Nice,

 infelizmente, como Paris, tem lixos espalhados a granel.

Pois lá fomos nós, encantadíssimos com a transparência azulíssima

das águas, em direção ao mar, espargindo desejos de caminhar

longamente pela areia, na dança sensual dos pés com as águas,

mas, qual o quê! Na Côte d’Azur, as praias são feitas de cascalhos

ao invés de areia, e rogo confessar que machucam danadamente

os pés, além de impedirem qualquer tentativa de se correr amplamente

pela paisagem ou de se fazer cambalhotinhas no mar, já que o terreno

não é nada fofo. Os europeus largam-se ao sol em toalhas

acomodadas sobre as pedras, e, importante destacar, para que

nenhum brasileiro venha lá com aquele complexo-de-vira-latas,

de que tanto alertava Nelson Rodrigues: cigarros, latinhas,

restilhos de lanches, tudo isso espalha-se pela praia (digo, pelo

cascalho), na beira das águas francesas. Vimos um garotinho a regar

as pedras, a coisa de 3 metros do mar, fazendo da praia o seu

toalete particular.

         Ai de quem estereotipar sempre negativamente

o Brasil e sempre maravilhosamente a Europa! Temos aqui, como

aí, qualidades e defeitos continentais, e não se pode deixar de

relativizá-los, pois que olhar o mundo nos olhos implica, creio,

desvesti-lo das etiquetas turísticas.

               

            Talvez, no que concerne às praias, os europeus ainda

estejam longe de relativizar as suas, mesmo as luxuosas da

Riviera Francesa, pois que no Brasil temos praias absolutamente

maravilhosas, e que, de muitos modos, me remetem mais à

ideia de praia, em contato com a natureza selvagem, do que

os balneários emergentes que ora pipocam pelo mundo.

            Nice surpreende porque, estando a um pezinho da

Itália (ah, a Itália!), e tendo sido italiana até 1860, é mezzo

francesa mezzo italiana. Fala-se francês, desfilam as sapatilhas,

há um certo ar casual-chique que só os franceses vestem com

tanta elegância, mas o centro antigo da cidade, suas artérias

cadenciadas, são pura Itália, ao ponto de as ruelinhas do centro

antigo lembrarem Roma o tempo todo e até o modo como se

fala, como se caminha, como se ri, é italiano. No centro

antigo está a Catedral de Sainte Reparate, uma bela construção

neoclássica em contraste com linhas retas, que mistura-se ao

burburinho das sorveterias em frente.

           Em Nice, moraram os pintores Chagall e Matisse, além

do escritor Fitzgerald. Em algum ponto do caminho, pendurada

em um penhasco, a mansão que pertenceu ao Nobel de Literatura

Maurice Maeterlinck, hoje um afamado hotel, deve ter abrigado

colmeais, tema do delicioso livro “A Vida das Abelhas”, pequena

joinha de observação da natureza, e sobre o qual já comentei,

en passant, em posts idos.

                 Ao final do Passeio dos Ingleses, vê-se um colossal

Castelo subindo em direção ao céu. Depois de se galgar a

escadaria (pareciam muitos os degraus, mas eu sabia que

levariam ao contato com a natureza), chega-se ao Chateau de

Nice, o Castelo, cuja vista para a Baía dos Anjos faz as vezes

de uma toalha de algodão azul adamascada para os olhos,

com o mar à frente, e, nos meandros do Castelo, verdes de todos

os tons, cheiro de mato, brisa de verão. Felipe e eu demos com

os portões vivamente trancados nas duas tentativas de retorno,

sem qualquer aviso (ah, o adorável caos italiano em terras

francesas!) e percorremos o caminho duplo até encontrarmos,

lá embaixo, a cidade vivíssima, com gentes por todos os lados, espalhadas

pela praça repleta de pizzarias e restaurantes mediterrâneos.

        

              Nice é linda, mas tem lá seus problemas de infraestrutura

a céu aberto, sua quota dolorosa de marginalização social quando

se trata dos imigrantes africanos e vive sob a égide dos gostos

platinados dos milionários.

          No restilho solar de Nice, tomamos o trem que, além de

fazer desfilar o Mediterrâneo através da janela, em 20 minutos

nos levou ao Principado de Mônaco.

            O crepúsculo já transmutou-se de carmesim para a noite

gris, e batem, no relógio, os ponteiros próximos à meia-noite.

Escrevinharei Mônaco na próxima cartinha. Hora de selar a missiva:

 ”Quem cinzelou estrelas no jasmim?” (Florbela Espanca).

                         Lívia

post scriptum: destaque com louvor para a belíssima imagem

dos Alpes, que surgem, altivos ao longe, à linha dos olhos,

através da janela do avião.

* Palácio de Wilanów.

14 de julho de 2011 2

      Já estando espalhadas almofadarias em cores pelo chão,

na mansarda das histórias e nos perfumes de menta do chá,

que faz âmbar a água fervente, voltemos ao passeio varsoviano,

em terras polonesas.                  

          Chovia como estas decoraçãoes feitas a estêncil, numa

cumplicidade entre céu e água que afugenta no inverno, mas

despenca graciosamente no verão, e Geraldo II, nosso anfitrião

que fala polonês a granel, nos levou a conhecer o Palácio de

Wilanów, de belíssimo lastro barroco.

                        

         Sua alcunha vem do século XVII, assinada por arquiteto

italiano, e deixou de ser propriedade privada em 1944. Embora

Varsóvia tenha experienciado o rasgo no coração, por

conta da devastação causada pela Segunda Guerra Mundial, o

Palácio salvou-se, e, em 1962, foi reaberto ao público.

                                        

        Jan III Sobieski, então Rei da Polônia e fundador do Palácio,

era católico, aos jeitos de Luís XIV na França, em um período

de franca disputa entre católicos e protestantes nos plagos europeus,

e, coisas da História, os dois monarcas compartilhavam o

 mesmo gosto arquitetônico. Assim como Versalhes, na França,

Wilanów foi erguido em local distante da capital – no nome do

Palácio é emprestado do município, que fica bem pertinho de Varsóvia.

Ao contrário, contudo, de Luís XIV, absolutista por definição, o Rei polonês

viveu o Palácio no sentido mais residencial do termo, sem

grandes ambições de galgar o posto de Sol e talecoisa.

                 

           Wilanów é labiríntico, recortado por escadarias e aposentos

compactos. Estende-se em pinturas do século XVI até o XIX,

com grande destaque para aquelas assinadas por poloneses.

Mármores, do carrara ao travertino, alternam-se, em um

quase jogral de verdes, brancos e pretos. A simpática senhorinha

 da galeria nos salvou de quaisquer dúvidas sobre a mobília,

pois que, encasquetados com a Capela que se seguia ao quarto

 do Rei, cuidou de entabular diálogo em vivíssimo idioma local

 com Geraldo e nos ensinou algo importante

 acerca de um móvel de jacarandá debruado em preto e

 dourado: o que parecia ser um depositário de objetos sacros,

 era, na verdade, escrivaninha do Secretário Real.

         Os jardins, que espiamos de longe, replicam uma villa italiana

magnífica, que, em contraste com o Palácio barroco, à francesa,

funciona quase como cenografia, dada a impecável

restauração recente, que a fachada denota. Viena, a cidade

amada, também exerce clara influência na construção, pois que

há uma aura majestosa bem aos gostos vienenses no acabamento

perfeito dos aposentos principais do Palácio. Chopin, aliás, está para

Varsóvia como Mozart para Viena.

             

         Apesar de a construção ter sido preservada durante a

Guerra, o interior do Palácio foi saqueado pelos alemães, e a

repatriação das peças recuperadas aconteceu nos idos de 1960, há

não muito. De algum modo, é possível ver toda uma iluminação

polonesa em Wilanów, como se as ardências por que passaram,

na pira das Guerras, os poloneses, se fizessem coisas vivas por

meio das histórias recontadas pelos objetos por entre os quais

nos movemos, dentro dele – ou serão os objetos que se movem?!

Há poltronas com braços e espaldar guarnecidos de couro

tacheado, florões modern-style, estojos de cetim negro com

medalhas e pingentes, lustres de suspensão em cristal, cadeiras

Regência, escrivaninhas com pórticos nos quais estão encaixados

relógios. Enquando caminhávamos, não podia deixar de

pensar na vida secreta daqueles objetos, nos respiros quietos da casa.

Toda uma vida sub-reptícia se movimentava, dinâmica, no

interior de balaústres de escada, pés de abajur, gradis de aposentos,.

As cores, embora sóbrias, não se deixam banalizar, vindas lá

dos séculos XVII. Qual o quê! Ultramarindo, cobaldo, lápis-

lazúli, e, por que não tascarmos logo, o verde não era dos

olivas, mas dos verdes-veroneses típicos da Monarquia. Como vê,

leitor, só faltou o Rei surgir lépido, a nos receber, de suíças, com

o traje da época das últimas diligências.

              Havendo aspirado o perfume da História, Geraldo,

que é destes seres solares, de alma risonha, carinhosamente nos

levou para tomar chá, e, ora-ora, lá estava o Dilmah (com “h”),

ao qual já fiz menção nesta casa cibernética, e na esteira da

água cheirosa, faço uma importante correção:  aqui recomendei

vivamente o chá Dilmah, dando a ele procedência australiana.

Errei, leitor. Mea culpa, mea máxima culpa. Há um contato

telefônico na Austrália na caixinha, que confundiu-me os fusos.

Geraldo  notou que a procedência é do Sri-Lanka. Isso confere

ainda mais autenticidade ao Dilmah, que a Austrália sempre me pareceu

por demais sabidinha para combinar com um chá verde do Sri-Lanka,

ora bolas!

         Escrevinho o agradecimento felipeliviano ao querido

Geraldo, que agora esperamos (com seu futuro cachorro) em

Praga.

             Corre, lá fora, a cantiga de ninar da chuva. Hora de

selar a missiva, com o desejo de que a sexta-feira nasça com

o vermelho do sol a pintar o rostinho das flores neste verão:

“O sol, irresponsável ao extremo, desenhava sombras geométricas

no linóleo”. Cees Nooteboom.

                                      Lívia

nota bene: democrática, a administração

polonesa de Wilanów optou pela máxima acesso-gratuito-a-todos,

e, em razão disso, a visita à ala principal do Palácio não tem custo.

Absolutamente admirável.

 * Havendo postado a informação acima, recebi a correção que

 segue, abaixo, do querido Geraldo, expert em Polônia, e a quem

agradeço muitíssimo pela retificação! Ei-la cá:

PS: Se me permite, gostaria de fazer uma pequena observação

 com relação à “nota bene”, apresentada ao fim do texto. A

visita ao Palácio Wilanów é gratuita apenas aos domingos.

Nos demais dias da semana, cobra-se taxa de 20 zł (algo em

 torno de 11 reais).

O menino de cabelos de sol.

12 de julho de 2011 4

Hoje, vou pedir licença ao leitor para contar um conto, longe dos causos das viagens.

Vamos alforriar os sentidos, cuidando de esparramar almofadas de cores raiadas

pelo chão, neste recinto cibernético perfumado de cerejas (que vermelham os pratos brancos),

amorinhas e framboesas, e logo aqui, por entre as pernas cruzadas à turca, abramos o livro

das histórias. No mais aceso lufa-lufa, uma lâmpada com pretensão à moda de Aladim aclara

a noite lá fora – que está, conforme o causo descrito por Gógol, cheia de “estrelas formndo

grupinhos e brincando de cabra-cega”.

O causo é que Felipe e eu gostamos de colocar o pé na estrada e os olhos, mistura

aquarelada de curiosidade e observação , no mundo. Por isso, também nossa casinha é ela toda

um mundo, com nossos livros, chás e outras magiquices do cotidiano, pois que gostamos de

viver a casa tanto quanto  gostamos de viajar pelo mundo. Corremos para explorar uma cidade

nova, na viva dinâmica das histórias da vida a desfilar  pelos olhos, e, nos intervalos, nos

encasacamos no lar, que a verdade-verdadeira é a de que somos bichos-do-mato, gostamos do

nosso canto, do nosso sossego, que, ave!, como dizia lá a Lispector, se a gente não se guarda,

Deus meu, como as demandas lá fora nos roubam! Esta história é, pois,  para Felipe, que mora no

quarto mais bonito do meu coração.

Era uma vez um menino de cabelos de sol que faziam rima com um par de pedrinhas azuis.

De costumes avoengos, o menino, danado de quietinho, era doido por livros de histórias e

Histórias, e a tal ponto que um cortinado de grinaldas lhe fazia brilhar os cabelos, acendidos

por anjos-da-guarda que cuidavam do leitorinho. Um dia, enquanto tecia palavras para salvar a

burocracia dos memorandos, um destes duendes de chapéu comprido, que os fazendeiros

islandeses conhecem, literalmente, na palma da mão, escorregou em nuvens e, tchibum!,

recitou a cantilena mágica errada, causando um ruído de comunicação que fez surgir, no meio

do livro,  uma garotinha espevitada, destas que falam,  assim, pelos cotovelos, tanto quanto

bolhas de sabão em dia de verão.

                                             

 

A menina, que falava a-não-mais-poder, costumava se sentar num banquinho, ao lado do

seu cachorro caramelado, perto do qual ela lia como quem reza com o coração, e algo que

poderia parecer mágica, fábula, história da dona baratinha, aconteceu! O duende espatifou-se

entre as páginas do livro dela, caído lá das alturas do céu, e a menina desandou a tagarelar, que,

afinal, ora essa, que história é essa de invadir o livro dos outros, quando se está vivendo a vida

verdadeira num banquinho!

                    

O duende puxou do bolsinho uma caixa pequenina, que a menina logo abriu, e dela

saltitaram palavras, que formavam o vocábulo -a-m-o-r.  Tintas de todas

as cores desenhavam corações por entre as letrinhas. À razão de 4 cores por catavento, o

menino de cabelos de sol e a menina tagarela sorriram. E, quando ele falava, as palavras eram

todas feitas de açúcar-cande, numa calma de além-mar. Ela arregalou os dois olhos redondos,

sorriu ardidamente para ele, e, sinsalabim, os cabelos dele acenderam-se que nem sonhou

Aladim! Nunca na vida o amor da garotinha foi tão bonito como neste címbalo.

Sóis de selos,

Lívia

Varsóvia.

04 de julho de 2011 4

            Varsóvia confunde-se com os trágicos véus bélicos da Europa e ostenta cicatrizes soviéticas

a céu aberto, em concretados edifícios gris, de espectro stalinista e arquitetura neo-gótica, de um

lado, e cores e barrocos e a vida pulsando no legado de Chopin, de outro. A capital polonesa e seu

destino fatal, alinhavado a memórias excruciantes, ao modo da deportação dos judeus ao

Campo de Concentração de Treblinka, ao Pacto de Varsóvia e ao Gueto de Varsóvia, é, hoje, uma

cidade cosmopolita sem ares de sabidinha. Não cabe, nela, a alma majestosa de Praga ou Viena,

mas aí, talvez, esteja sua maior qualidade, pois que não está a mimetizar pretensas belezas que,

na História recente, lhe foram destruídas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Varsóvia supertou todas as minhas expectativas e entrou para a caixinha das cidades-jóia.

                                      

              A modernização da capital inspira-se, vez em quando, na Arquitetura de Berlim, de que não

gosto, com seus arranha-céus em aço e panos de vidro, mas tem o mérito encantador de ter

reconstituído, na medida da naturalidade possível, sem tentativas artificialistas, o centro antigo

(Stare Miasto), com suas fachadas barrocas e clássicas, seus platôs a céu aberto e a fusão quase

lúdica com seu filho mais ilustre, Frédéric Chopin. Se houvesse um Ministério da Sensibilidade no

árido cenário político do mundo, todas as cidades poderiam replicar esta pequenina mágica

polonesa: banquinhos de praça espalham-se pelo centro de Varsóvia, e, em cada um, ao clique

de um botão, pode-se ouvir Polonaises e Noturnos de Chopin! Caminhando, o tempo todo se ouve

o piano a rondilhar os ares, ao clique de um dedinho humano. Em Oslo, excertos de Ibsen

espalham-se pelas calçadas, fundindo a cidade com a Literatura, e, em Varsóvia, o piano preenche

a identidade da cidade. Vai aí um esboço de cidades-magia, pois.

                                                                

            A língua polonesa, esta pedra de cantaria sofisticada, lembra muitíssimo o idioma tcheco, e

os vocábulos intercambiam-se o tempo todo, ciranda viva de grafias distintas e sons

assemelhados. Nosso querido amigo Geraldo,  que ora habita a capital polonesa, fez as vezes de

tradutor, e, ora-ora-senhores, ajeitando um tiquinho aqui e outro acolá, o Felipe transmutou o

tcheco e arriscou um polonês que serviu de ponte para diálogos curtos com o taxista e a simpática

senhorinha do Museu, no Palácio Wilanów!

               Varsóvia é arborizada por demais, com parques a granel, e muito caminhável. Os chás

verdes, que tomamos aos montes, são da boa leva dos que temos encontrado na Europa Central e

do Leste. Vou cuidar de evocá-los quando narrar as andanças pelo Palácio, pois que ando a

fazer cambalhotas com o tempo. Volto acompanhada de chá de verbena menta, mas, ai!, antes

de ir-me, pequeno idílio de amor: estou  cada vez mais irremediavelmente apaixonada pelo Leste

Europeu, que é, para mim, a verdadeira Europa dos sonhos, véu melancólico de beleza e

anacronismo. Qualquer viagem pelo continente europeu tem de, necessariamente, incluir a Europa

 do Leste.

                                                 

            O selo vai em conformidade com os ventos que anunciam chuva de verão, lá fora: “Algo

enorme, plúmbeo, arrasta-se de encontro ao sol. Sobre este algo enorme, irrompe um raio, ora

aqui, ora ali, em ziguezagues vermelhos. Ouvem-se ribombos longínquos de trovão. (…) Daqui a

pouco, vai desabar uma chuva de maio e começará uma tempestade verdadeira”.  (Tchekhov)

                                         Lívia