Sóis chamejantes e águas nuançadas de azuis escancaram
as paisagens naturais da Riviera Francesa. Nice, encravada no
sul da França, é a maior cidade da emblemática Côte d'Azur,
com sua Baía dos Anjos, este nome de tão feliz moldura, a
costear o mar Mediterrâneo.

Já era tempo de avistarmos o mar, esta imensidão de
tons de opalina, depois do rigoroso inverno cá destes plagos.
As praias na Riviera Francesa, que se sucedem feito cenários
imagísticos de filme, são lindas, e há palmeiras, e verdes, e
embarcações, e ventos quentes de sóis esbraseantes, mas o
glamour que vem colado à Côte d'Azur está muito ligado
aos milionários emergentes do final do século XIX e começo
do século XX, que enfastiaram o Mediterrâneo com luxo
por demais, quase que destronizando a natureza assoberbante
local, e estas cores forjadas do dinheiro a granel, que sobem
muitas oitavas na paisagem, chamuscam o encanto natural
do Mediterrâneo. Confesso, leitor, que imaginei mutias vezes,
durante o passeio, que bangalôs e roupas de algodão puro,
em vivas cores, resgatariam Nice e a devolveriam a si mesma.
O platô do dinheiro que circunda a região oprime sobremaneira
os sentidos e, assim como estamos acostumados a ver na
América Latina, a desigualdade social em Nice é explícita:
aparece nos rostos dos imigrantes africanos, sobretudo nas ruas
mais distantes à praia. Sempre dói ver a brutalidade do
sistema em ação, aonde quer que se coloque os pés na Terra.

Ao vermos as paisagens belíssimas, não pudemos deixar
de observar que, no Brasil, as temos ainda mais bonitas, mas
não havendo esta aura imagética do luxo, a paisagem parece
não cumprir o desejo social que, imaginam os endinheirados,
deveria se curvar a atender. Pois Nice é um balneário de
contrastes, como se vê, leitor.
O longo passeio pela Promenade des Anglais, Avenida
principal da cidade, tem lá seus ares de Leblon, com bicicletas,
caminhantes e cãezinhos, e chama a atenção pela sujeira. Nice,
infelizmente, como Paris, tem lixos espalhados a granel.
Pois lá fomos nós, encantadíssimos com a transparência azulíssima
das águas, em direção ao mar, espargindo desejos de caminhar
longamente pela areia, na dança sensual dos pés com as águas,
mas, qual o quê! Na Côte d'Azur, as praias são feitas de cascalhos
ao invés de areia, e rogo confessar que machucam danadamente
os pés, além de impedirem qualquer tentativa de se correr amplamente
pela paisagem ou de se fazer cambalhotinhas no mar, já que o terreno
não é nada fofo. Os europeus largam-se ao sol em toalhas
acomodadas sobre as pedras, e, importante destacar, para que
nenhum brasileiro venha lá com aquele complexo-de-vira-latas,
de que tanto alertava Nelson Rodrigues: cigarros, latinhas,
restilhos de lanches, tudo isso espalha-se pela praia (digo, pelo
cascalho), na beira das águas francesas. Vimos um garotinho a regar
as pedras, a coisa de 3 metros do mar, fazendo da praia o seu
toalete particular.
Ai de quem estereotipar sempre negativamente
o Brasil e sempre maravilhosamente a Europa! Temos aqui, como
aí, qualidades e defeitos continentais, e não se pode deixar de
relativizá-los, pois que olhar o mundo nos olhos implica, creio,
desvesti-lo das etiquetas turísticas.

Talvez, no que concerne às praias, os europeus ainda
estejam longe de relativizar as suas, mesmo as luxuosas da
Riviera Francesa, pois que no Brasil temos praias absolutamente
maravilhosas, e que, de muitos modos, me remetem mais à
ideia de praia, em contato com a natureza selvagem, do que
os balneários emergentes que ora pipocam pelo mundo.
Nice surpreende porque, estando a um pezinho da
Itália (ah, a Itália!), e tendo sido italiana até 1860, é mezzo
francesa mezzo italiana. Fala-se francês, desfilam as sapatilhas,
há um certo ar casual-chique que só os franceses vestem com
tanta elegância, mas o centro antigo da cidade, suas artérias
cadenciadas, são pura Itália, ao ponto de as ruelinhas do centro
antigo lembrarem Roma o tempo todo e até o modo como se
fala, como se caminha, como se ri, é italiano. No centro
antigo está a Catedral de Sainte Reparate, uma bela construção
neoclássica em contraste com linhas retas, que mistura-se ao
burburinho das sorveterias em frente.
Em Nice, moraram os pintores Chagall e Matisse, além
do escritor Fitzgerald. Em algum ponto do caminho, pendurada
em um penhasco, a mansão que pertenceu ao Nobel de Literatura
Maurice Maeterlinck, hoje um afamado hotel, deve ter abrigado
colmeais, tema do delicioso livro "A Vida das Abelhas", pequena
joinha de observação da natureza, e sobre o qual já comentei,
en passant, em posts idos.
Ao final do Passeio dos Ingleses, vê-se um colossal
Castelo subindo em direção ao céu. Depois de se galgar a
escadaria (pareciam muitos os degraus, mas eu sabia que
levariam ao contato com a natureza), chega-se ao Chateau de
Nice, o Castelo, cuja vista para a Baía dos Anjos faz as vezes
de uma toalha de algodão azul adamascada para os olhos,
com o mar à frente, e, nos meandros do Castelo, verdes de todos
os tons, cheiro de mato, brisa de verão. Felipe e eu demos com
os portões vivamente trancados nas duas tentativas de retorno,
sem qualquer aviso (ah, o adorável caos italiano em terras
francesas!) e percorremos o caminho duplo até encontrarmos,
lá embaixo, a cidade vivíssima, com gentes por todos os lados, espalhadas
pela praça repleta de pizzarias e restaurantes mediterrâneos.

Nice é linda, mas tem lá seus problemas de infraestrutura
a céu aberto, sua quota dolorosa de marginalização social quando
se trata dos imigrantes africanos e vive sob a égide dos gostos
platinados dos milionários.
No restilho solar de Nice, tomamos o trem que, além de
fazer desfilar o Mediterrâneo através da janela, em 20 minutos
nos levou ao Principado de Mônaco.
O crepúsculo já transmutou-se de carmesim para a noite
gris, e batem, no relógio, os ponteiros próximos à meia-noite.
Escrevinharei Mônaco na próxima cartinha. Hora de selar a missiva:
"Quem cinzelou estrelas no jasmim?" (Florbela Espanca).
Lívia
post scriptum: destaque com louvor para a belíssima imagem
dos Alpes, que surgem, altivos ao longe, à linha dos olhos,
através da janela do avião.