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Posts de agosto 2011

Cestaria de escritores de Dublin.

30 de agosto de 2011 2

        A pequena frase, colhida no Museu dos Escritores,

em Dublin, emoldura uma definitiva percepção acerca da

capital da Irlanda: Em outras cidades, pessoas inteligentes

saem para fazer fortuna. Em Dublin, pessoas inteligentes

vão para casa e escrevem livros” (em inglês, no original:

“In other towns, clever people go out and make money. In

Dublin, clever people go home and write their books”).

A frase é de autoria da escritora irlandesa Anne Enright, cuja

obra não conheci, importante assinalar, mas cujo excerto,

debruado em letras brancas em fundo preto, cutucou-me os

olhos, à entrada do Museu. Pois, Dublin, leitor, vale muitos

derredéis-de-mel-coado, na deleitosa expressão de João Ubaldo

 Ribeiro.

            

              A capital da Irlanda associa-se a muitos confeitos

paisagísticos: o rio Liffey (risquemos cá que tem uns ares de

córrego), os genótipos vikings (e celtas!), o Trinity College

(Universidade mais antiga da Irlanda, que abriga o Livro de

Kells, todo ele obra de monges celtas,  notável herança dos

tempos medievais, narrada em iluminuras), Leprechauns

(duendices do folclore irlandês, que espalham magiquices

 verdes em ouropel), o Castelo (com um divinal jardim de

ares normandos), a Catedral de São Patrício (com passamares

 neo-góticos). E a faustosa altivez irlandesa, das genuínas,

sem pretensões à moda.

                  

              Isso tudo, entrementes, são filigranas, cortinas, alfombras

 e tapeçarias. Pois que tudo se transmuta em ares intróitos, como

a debruar o que de fato é e em tudo está, na cestaria de

maravilhas irlandesas: tome James Joyce, William Yeats,

Samuel Beckett, George Bernard Shaw, Brendan Behan,

 Jonathan Swift e Oscar Wilde.  Não nos encareceremos

apenas aos cânones, pois que, na esteira da herança literária

 irlandesa, aprendi, em Dublin, autores novos, aos jeitos de

 Elizabeth Bowen, Mary Lavin e Maura Laverty. Todas, como

se vê, mulheres escritoras, na Irlanda que, de muitos modos,

 escapou dos ares vitorianos.

           

          O Museu dos Escritores (www.writersmuseum.com)

 reúne, em uma atmosfera quase anacrônica, sem festeios e

meneios excessivos, objetos e histórias de autores irlandeses a

granel (por certo, não se pode contar que todos lá estejam, dada

 a feliz existência de muitos e muitos deles, na cidade),

concatenados cronologicamente. O casarão abriga, nos

andares superiores, uma ampla sala de música, obras de Arte e

o lúdico espaço para o teatro infantil.

                            

             Todas as coisas, lá dentro, estão delicadamente atadas

 a um amor comum, movido por uma corda que serpenteia os

livros. Há um véu gris em Dublin, mas, à diferença do de

Londres, é de uma elegância ímpar: a chuva fina e os

restilhos de névoa se fazem concretos apenas quando já se está

 abrigado ou, no tique-taque da mágica, fazem a gentileza de

esperar que o caminhante contemple os longes, os acimas do

  céu e os abaixos que circundam os pés, para só então se

 anunciarem. Se tal não é a elegância da natureza irlandesa,

 espelhos com molduras alambicadas, à antiga, é

que não o são, ora pois!


         Dublin carrega uma aura de sentido sempre inescapável,

 tremendamente marcante, pois que raramente uma cidade

 real exerce tanta influência em seus escritores. Balzac e Paris,

 Borges e Buenos Aires, Manuel Bandeira e Passárgada, García

 Márquez e Macondo: todos nutriam um apego quase místico

 às cidades (reais ou imaginárias) que lhes davam a matéria

do devaneio.  Dublin exerceu, psicanaliticamente,  a negativa

transversada em permanência nas obras de muitos escritores

irlandeses, sendo Joyce o autor de maior enlevo entre eles

também nesta questão.

                  

        Joyce jamais simulou seu sentimento de desprezo pela

cidade, e, no entanto, Dublin está, direta e indiretamente,

em todas as suas obras, enxertando todos os seus enredos.

Serelepice minha, achei que, diante do túmulo de Joyce,

em Zurique, o sorteio das cidades que Felipe e eu havíamos

elencado nos levaria para Dublin, mas o cânone nos

mandou para Copenhague, que imediatamente interpretei

como sendo uma ponte para Karen Blixen.

      Dublin, assim, me faz pensar nos desvãos da inconsciência

 da Literatura, que, antes de alcançarem o alçapão da

consciência, estão encharcados das memórias, sobretudo e

notadamente as da infância, para onde sempre e sempre e

 sempre e sempre voltamos. Esta, creio, é a beleza da

 presentificação das cidades, dos lugares, das paisagens, que

 filtramos com os olhos da casa da infância. Não ouso imaginar

 o sentido de Dublin para Joyce, pois que, tendo eu pavor de ser

 invadida, julgo terrível invadir a Literatura joyciana com

achismos à moderna. A nota reverbera em sentido de devaneio,

de pensamento imagético, portanto: Dublin, ao que parece,

está acima dela mesma; é ela e as circunstâncias de

Joyce.

                     

           Brisas iridescentes dão voz ao sol que atravessa a janela

na desliquescente Praga, a cidade que me arrebata por qualquer

 poro, a qualquer tempo. O verão chameja as cores da natureza,

 em vestidos algodoados de carmesim, magenta e branco, das

 florezinhas locais. A natureza, lá fora, me chama. Hora, pois,

de selar a cartinha, que vai em selo russo via Correios e

 Telégrafos tchecos: “Pois cada selvagem tem algo sagrado pelo

 que está disposto a sofrer e não se render. Mas onde está o

 sagrado para o homem do nosso tempo?” (Tolstoi).

                                      Lívia


  

Glasgow.

11 de agosto de 2011 3

         Na esteira inglesa, Glasgow, centro industrial pulsante

do século XIX, está na Escócia, mas tem ares londrinos, com

sopro vintage. As fachadas vitorianas alternam-se com floreiras

de cores vibrantes; as ruelinhas, intermitências em pedra,

têm ares de ilustração, pois que os letreiros à antiga quase

conversam com as chaminés, que estão no topo de quase todas

as residências da cidade.

                

            Glasgow é a maior cidade da Escócia, abriga a principal

área comercial do Reino Unido depois de Londres, e com frequência

suas notas são pressionadas para baixo, na comparação com a

linda Edimburgo. Ora, o causo é que Edimburgo é terra mágica,

cenário de livro, com locações imagéticas quase irreais, daí que

qualquer comparação entre uma cidade vocacionada para a

indústria será injusta! Coloquemos, pois, assim: Glasgow é

charmosa e anacrônica de um modo que Londres jamais

conseguirá ser. Edimburgo está na caixinha das cidades-jóia,

razão pela qual não lhe cabe ofuscar os plagos glasgownianos.

              

            Nos rumos arquitetônicos, as Catedrais da Europa são

maravilhas de escorrer sentidos, e a de Colônia, em particular,

é espantosamente linda, sendo minha favorita. Ao adentrar, contudo,

a Catedral de Glasgow, tive certeza absoluta de que entrava

num espaço de vibrações mágicas. Me tocou profundamente.

Ali, antes ainda do século VII, existiu um monastério celta.

Gótica em todos os detalhes, o único contraste em cor está

nos vitrais, cujas luzes difusas iluminam o interior gris. Há

cenas da vida na Idade Média a emblematizar paredes, e, como

num fantástico teatro, a Catedral parece ter múltiplas dimensões,

pois que se vai abrindo feito aqueles livrinhos infantis, nos quais

os recortes de imagens elevam-se, verticalmente, conforme as

páginas são abertas. Tem ares de dobradura, origami, estamparias

manuais. 

                     

            As letras que inundam os textos à antiga, expostos em

pesados livros de couro, lembram iluminuras, e vêm acompanhadas

de ilustrações que bem poderiam ser coisa de miniaturistas ortodoxos.

A jóia está no subterrâneo. Uma cripta, reconhecidamente tesouro

da arquitetura inglesa, na qual está a tumba de Saint Mungo,

o patrono de Glasgow. O cenário é peremptoriamente árido,

mas de uma força vibratória inescapável, que contrasta com

as cores paisagísticas do lado de fora, ao ar livre.

         Nos jardins que circundam a Catedral, deparei-me com

uma ponte para a memória: lá, como em casa de Karen Blixen,

na Dinamarca, uma árvore de copas largas abraça uma lápide.

Karen Blixen está enterrada nos jardins da casa onde nasceu e

morreu. Na perfeita fusão com a natureza. A Catedral de Glasgow

emana uma força imperativa, um insível que se faz sentir por

meio das paredes góticas, mas não somente: há um campo energético

que remonta a séculos de História medieval.

            Felipe e eu fomos positivamente surpreendidos por

 Glasgow, depois de a cidade se ter desvestido de sua roupa

 industrial, alcunha de seu cartão de visitas.

            Visitamos a lendária Escola de Glasgow, obra canônica do designer

e arquiteto escocês Charles Rennie Mackintosh. Em se tratando

de Art Noveau, Mucha será sempre meu franco favorito. Há

um excesso de linhas geométricas, qualquer coisa de matemática

que me impedem de gostar de Mackintosh, mas, ai!, que boniteza

foi poder ter espiado a famosa casa de chás à inglesa que teria

sido a primeira a eternizar o gosto pela infusão, em terras da

Rainha. Mackintosh a decorou misturando a harmonia perfeita

da arte japonesa com geometrias à moderna. A amada Porto

Alegre, com seus poemas no ônibus, adotaria à perfeição esta

delicadeza: nos mapas de Glasgow, um “M” figura em pontinhos

espalhados no cenário urbano. São construções que passaram

pelas mãos do gênio de Mackintosh, como num museu a céu

aberto.

                  

                              

       

            Mas a paisagem tem mais! O causo é que em nenhum

outro lugar, fora dos livros, havia visto uma roca de fiar ao

vivo e a cores, em pleno movimento das lãs. Cena linda de se

ver em plena praça, onde também assistimos à deliquescente

natureza. Corujas selvagens, criadas por um casal que as mantêm

em espaço de preservação, tomavam sol às 3 e bolinha de uma

tarde na cidade. Debruei as mãos em afofar as penas de um

bebê coruja de 6 meses, de gênio marcado, com olhos cor de

âmbar. Dona coruja me bicou os dedos, que eu deixei serem

bicados por quase 4 vezes, derretidamente encantada com

o milagre de ver sua alma a falar pelos olhos.

             Glasgow me faz pensar na concretude das cidades de

almas leves, pois que, embora encasacada com o figurino do

aço, da máquina e da indústria, a cidade, em seu âmago, está uma

oitava acima da suavidade, sem chegar a ser delicada, mas

irrompe em uma beleza inesperada.  Um pouco assim também

é Brno, na República Tcheca, apesar de os matizes irromperem

em personalidades urbanas muito distintas.

        Sopram brisas que prometem sóis para amanhã, em nosso

caminhozinho para uma cidade talhada pelos celtas. Mentolado

 pelo chá, o selo vai em conformidade com a noite, lá fora:

“O crepúsculo já turvara completamente o céu. Apenas no

Ocidente empalidecia um resto de auréola rubra” (Gógol).

                       Lívia


Verniz, o Principado de Mônaco.

03 de agosto de 2011 3

         No Principado de Mônaco, a paisagem divinal da natureza

contrasta fortemente com a artificialidade urbana. Invoquemos

o verniz, a película comum nos revestimentos abrilhantados

dos objetos, para a aldrava da porta monegasca. No acanhado

espaço geográfico que lhe cabe, de 2 quilômetros quadrados,

Mônaco empilha edifícios, amontoa carros reluzentes, e,

aperta-daqui-aperta-dali, espreme um microestado ao redor

de um muito bem engravatado cassino de luxo, o lendário

Montecarlo, nome emprestado do bairro onde está instalado -

um dos 11 de Mônaco.

                    

        O Cassino brinca de ilusionista, com mármores Carrara e

Travertino, ornados por douraduras.  Em

tudo nota-se o esforço para impressionar. Pompa e circunstância

para, com o perdão do leitor, enganar-os-trouxas, esta expressão

tão cara à minha vó. Corre a lenda que Castelos e Palácios foram

perdidos no Cassino, desabrigando nobres aos borbotões. Sabe-se

lá o que corre entre o tico-e-o-teco de quem empenha as noites

na contagem das perdas, Dostoiévski dissecou a atmosfera da

ruína à perfeição, em O Jogador, mas o causo é que, fundado

em 1856, o cassino monegasco resiste às crises econômicas globais

com galhardia. Para-onde-caminha-o-século!

                             

         Logo em frente ao cassino este, vê-se aquele que é

considerado o mais-luxuoso hotel local - que não fulgura; antes,

oprime. Observada de um ponto elevado do país, Mônaco lembra muito a geometria

social dos tempos modernos: prédios, prédios, prédios, prédios

e prédios apinhados. Fiquei surpresa em ter, diante dos olhos,

os edifícios que custam as fortunas mais ambicionadas do

Planeta, pois que são bastante deselegantes, especialmente se

comparados às silhuetas elegantemente harmônicas e sinuosas

das cúpulas das cidades da Europa do Leste. Comprimidas pelo

 cinturão irregular dos prédios,  estão as embarcações luxuosas – se, por luxo, entende-se empregados

ziguezagueando para lá e para cá, pessoas fumando e o verniz

(sempre ele) em cor a reluzir ao sol.

              O caminho que interliga Nice e Mônaco é uma jóia da

natureza, um convite à vida provençal, com vestidos de algodões,

piqueniques ao vento, flores coloridas, azuis e verdes a desenhar

as águas. Daí o choque para os olhos, talvez, ao se avistar uma

Mônaco construidinha e artificial, um paraíso fiscal, uma terra

para um cassino, em ambiente tão selvagelmente natural.

Paradoxalmente, não se trata de sofisticação do olhar; a agressão

aos olhos decorre justamente do olhar descivilizado, que a paisagem

do sul da França orna com abundância, e que, aclimatado aos

solfejos naturais, impressiona-se com a artificialidade seguinte.

          É fato que as ruelinhas de Mônaco são lindas. Há gaivotas tomando sol,

nos pórticos de pedra; luminiscências cheirosas do Mediterrâneo;

a bola solar em raios abundantes. A Catedral de São Nicolau,

 onde está enterrada Grace Kelly, em arte tumular, foi erguida com

pedras brancas, em romântico bizantino, e está a caminho

do roteiro mais bonito do país (os dedos insistem em querer

digitar “cidade”, veja só!), que leva ao “Museu Oceanográfico”.

               O Museu, que já foi dirigido por Jacques Costeau,

eleva-se em um penhasco, à beira de um precipício que costeia

o mar, lindamente. Magnífica construção ladeada por jardins

e terraços em pedra, o Museu existe para contar a vida marinha

do Mediterrâneo – por ora, compartilha com o público, um momento

privado: o casamento Real.

           Por falar em realeza, o Palácio é deveras acanhado,

arquitetonicamente. Em se tratando de ícones locais, a graça

está nas ruas que perfazem o GP de Fórmula-1, que saltam

aos olhos, com marcas de derrapagens e rememorações das

corridas espalhadas pelas vitrines.

        Abraçada ao passeio lindo que fizemos em Mônaco, não

me sai da memória aquela natureza cheirosa, altiva e vicejante

da Côte d’Azur. A atmosfera mágica da Riviera Francesa impõe

que o olhar comece pelas bordas, como no jogo de gô, de modo

que a narrativa urbana não ofusque a deliquescente trintena

de cores vivas da região. A natureza, naquelas terras encravadas

entre a Itália e França, é quase um recife à flor da água, entre

as cores das grinaldas de verdes e das centáureas azuis.  Porque

o Mediterrâneo, aos jeitos dos pintores impressionistas, é uma

narrativa de incidência de luzes, em cores complementares.

              Esparramam-se brisas, lá fora, por entre cheiros de

verbena menta. Selo a missivinha na esteira dos perfume da natureza: 

“O ar torna-se tépido, aromático. Cheira a cereja-do-mato,

trigo-sarraceno e junquilho”. Tchekhov.  

                                 Lívia