A pequena frase, colhida no Museu dos Escritores,
em Dublin, emoldura uma definitiva percepção acerca da
capital da Irlanda: "Em outras cidades, pessoas inteligentes
saem para fazer fortuna. Em Dublin, pessoas inteligentes
vão para casa e escrevem livros" (em inglês, no original:
"In other towns, clever people go out and make money. In
Dublin, clever people go home and write their books").
A frase é de autoria da escritora irlandesa Anne Enright, cuja
obra não conheci, importante assinalar, mas cujo excerto,
debruado em letras brancas em fundo preto, cutucou-me os
olhos, à entrada do Museu. Pois, Dublin, leitor, vale muitos
derredéis-de-mel-coado, na deleitosa expressão de João Ubaldo
Ribeiro.
A capital da Irlanda associa-se a muitos confeitos
paisagísticos: o rio Liffey (risquemos cá que tem uns ares de
córrego), os genótipos vikings (e celtas!), o Trinity College
(Universidade mais antiga da Irlanda, que abriga o Livro de
Kells, todo ele obra de monges celtas, notável herança dos
tempos medievais, narrada em iluminuras), Leprechauns
(duendices do folclore irlandês, que espalham magiquices
verdes em ouropel), o Castelo (com um divinal jardim de
ares normandos), a Catedral de São Patrício (com passamares
neo-góticos). E a faustosa altivez irlandesa, das genuínas,
sem pretensões à moda.
Isso tudo, entrementes, são filigranas, cortinas, alfombras
e tapeçarias. Pois que tudo se transmuta em ares intróitos, como
a debruar o que de fato é e em tudo está, na cestaria de
maravilhas irlandesas: tome James Joyce, William Yeats,
Samuel Beckett, George Bernard Shaw, Brendan Behan,
Jonathan Swift e Oscar Wilde. Não nos encareceremos
apenas aos cânones, pois que, na esteira da herança literária
irlandesa, aprendi, em Dublin, autores novos, aos jeitos de
Elizabeth Bowen, Mary Lavin e Maura Laverty. Todas, como
se vê, mulheres escritoras, na Irlanda que, de muitos modos,
escapou dos ares vitorianos.
O Museu dos Escritores (www.writersmuseum.com)
reúne, em uma atmosfera quase anacrônica, sem festeios e
meneios excessivos, objetos e histórias de autores irlandeses a
granel (por certo, não se pode contar que todos lá estejam, dada
a feliz existência de muitos e muitos deles, na cidade),
concatenados cronologicamente. O casarão abriga, nos
andares superiores, uma ampla sala de música, obras de Arte e
o lúdico espaço para o teatro infantil.
Todas as coisas, lá dentro, estão delicadamente atadas
a um amor comum, movido por uma corda que serpenteia os
livros. Há um véu gris em Dublin, mas, à diferença do de
Londres, é de uma elegância ímpar: a chuva fina e os
restilhos de névoa se fazem concretos apenas quando já se está
abrigado ou, no tique-taque da mágica, fazem a gentileza de
esperar que o caminhante contemple os longes, os acimas do
céu e os abaixos que circundam os pés, para só então se
anunciarem. Se tal não é a elegância da natureza irlandesa,
espelhos com molduras alambicadas, à antiga, é
que não o são, ora pois!
Dublin carrega uma aura de sentido sempre inescapável,
tremendamente marcante, pois que raramente uma cidade
real exerce tanta influência em seus escritores. Balzac e Paris,
Borges e Buenos Aires, Manuel Bandeira e Passárgada, García
Márquez e Macondo: todos nutriam um apego quase místico
às cidades (reais ou imaginárias) que lhes davam a matéria
do devaneio. Dublin exerceu, psicanaliticamente, a negativa
transversada em permanência nas obras de muitos escritores
irlandeses, sendo Joyce o autor de maior enlevo entre eles
também nesta questão.
Joyce jamais simulou seu sentimento de desprezo pela
cidade, e, no entanto, Dublin está, direta e indiretamente,
em todas as suas obras, enxertando todos os seus enredos.
Serelepice minha, achei que, diante do túmulo de Joyce,
em Zurique, o sorteio das cidades que Felipe e eu havíamos
elencado nos levaria para Dublin, mas o cânone nos
mandou para Copenhague, que imediatamente interpretei
como sendo uma ponte para Karen Blixen.
Dublin, assim, me faz pensar nos desvãos da inconsciência
da Literatura, que, antes de alcançarem o alçapão da
consciência, estão encharcados das memórias, sobretudo e
notadamente as da infância, para onde sempre e sempre e
sempre e sempre voltamos. Esta, creio, é a beleza da
presentificação das cidades, dos lugares, das paisagens, que
filtramos com os olhos da casa da infância. Não ouso imaginar
o sentido de Dublin para Joyce, pois que, tendo eu pavor de ser
invadida, julgo terrível invadir a Literatura joyciana com
achismos à moderna. A nota reverbera em sentido de devaneio,
de pensamento imagético, portanto: Dublin, ao que parece,
está acima dela mesma; é ela e as circunstâncias de
Joyce.
Brisas iridescentes dão voz ao sol que atravessa a janela
na desliquescente Praga, a cidade que me arrebata por qualquer
poro, a qualquer tempo. O verão chameja as cores da natureza,
em vestidos algodoados de carmesim, magenta e branco, das
florezinhas locais. A natureza, lá fora, me chama. Hora, pois,
de selar a cartinha, que vai em selo russo via Correios e
Telégrafos tchecos: "Pois cada selvagem tem algo sagrado pelo
que está disposto a sofrer e não se render. Mas onde está o
sagrado para o homem do nosso tempo?" (Tolstoi).
Lívia

