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Posts de fevereiro 2012

Andorra, a Mágica.

28 de fevereiro de 2012 5

         Com seus aproximados 460 Km2, o Principado de Andorra é o maior dos pequenos países da Europa, localizado na fronteira franco-espanhola, um enclave deslumbrante dos Pireneus, com sua natureza rochosa em estado bruto, polvilhada de neve, brocados verdes e Igrejas românicas. Cuidemos, pois, de narrar a capital, Andorra-a-Velha, encostando-nos cá nestas almofadas da Antióquia, perfumadas pelas pétalas do hibisco, de que é feito o karkadi, refresco árabe, que aromatizará o relato. Com o rouquejo do relógio, batem as horas da tarde; ouço a chuvinha fina a dançar na janela, ladeando pombinhas sonolentas: é a chuva da primavera banhando as flores que começam a nascer em Praga.

              

          Andorra-a-velha, de vocação catalã, apenas por acaso não se chama Andorra-a-mágica: no inverno, os montes dos Pirineus vestem-se de branco, e, de dentro da cidade, pequenina feito uma noz, a sensação é a de se estar no interior de um círculo, ladeado por abetos e pinheiros flocados, que muralham a paisagem em elevações e declínios topográficos. Costumeiramente, vai-se para Andorra para a prática do esqui ou para a maratona das compras, mas, ora bolas!, há, também, aqueles que, como Felipe e eu, lançam-se ao núcleo de uma cidade para aprender a amá-la, a contemplá-la e a perscrutá-la. "Perderam a tramontana!", poderá argumentar o leitor, ao que respondo, com os olhos molhados, lavados em cores: eu gosto das cornucópias mágicas, dos milagres pequeninos e das cidades dentro das cidades (o núcleo macio que tem toda cidade, e que só se revela em camadas simples e invisíveis, que são a vida local).

                                                  

            Andorra-a-mágica tem um patrimônio de Igrejas românicas que justificam uma trilha. São quase sempre sóbrias, em estilo lombardo, com pedras rústicas, marca inconfundível do período medieval. Ninguém ao redor por quadras inteiras, a neve a cobrir as ladeiras, e, de repente, no topo, uma capelinha rústica, simples como a fórmula da rosa, surge, altiva e isolada, na paisagem, e, logo ali, à esquerda, dois passarinhos claudicam as perninhas finas por entre os galhos nevados de uma árvore despenteada. Nem a mais grosseira camada de sujeira espiritual que envolve a nós, os mortais comuns, escapa ilesa da sensorialidade singela, silenciosa e perfeita de uma paisagem assim.

            Em poucas horas, cruza-se a cidade toda, de ponta a ponta, a pé. Estes lugares magicados pelo inverno são comumente intitulados de países-do-ouro-branco, ganham certa reputação de "requinte", vivem de propagandear os chocolates quentes, e é pela peculiaridade de não ser assim que Andorra-a-mágica tem, por assim dizer, aquele-sangue-que-se-faz-sentir. É simples, rústica, de arquitetura mediana, com montanhas irregulares, jeito plebeu, urbanismo imperfeito. Há qualquer coisa de urbanização dominada pela natureza, na contramão da civilidade à moderna. Estava frio, é verdade, mas nunca antes caminhamos por tantas horas debaixo da neve, sem guarda-chuva, e, sendo a neve tão pouco invasiva em comparação com a chuva, estávamos secos. Só muito raramente pisei em neve tão macia (assim como Dostoiévski distingue uma cidade por ser ou não meditativa, também a neve tem ou não o calibre genuíno da maciez), pouco acidentada pela aridez do cascalho, de jeito que até as pegadas nevadas têm certa peculiaridade em terras andorrenhas. Também foi lá que, caminhando, nos deparamos com a pequeníssima paróquia citadina de Engordany, onde, logo ali, na calçada, um respeitável boneco de neve ia se deixando viver por entre as mãos das crianças, supervisionadas pelo pai, que fazia as vezes de engenheiro-responsável-pelo-projeto. Num tom de baixo como o de um arquidiácono, segredo a você, leitor: está vendo aquelas crianças moldando o boneco de neve? É a vida verdadeira acontecendo.

              À parte as muitas lojas estilizadas em free-shops urbanos, em função dos muito baixos impostos cobrados sobre as mercadorias, e das escolas de esqui, e das Igrejas românicas, e das ruelinhas e ladeiras vazias e nevadas, Andorra-a-mágica é silêncio, contemplação e montanhas, entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França, com uma vocação clara para o Norte, na direção do deus da felicidade. A inteireza sem brechas sempre se comunica com uma genuinidade indisfarçável. Há coisas tão fundamentais sobre o núcleo imagético de uma cidade que centros como Londres e Berlim não compreendem, e assuntos tão sérios, do ponto de vista da vida de dentro de um lugar, pelos quais não se interessam, e que Andorra-a-mágica compreende sem a necessidade do dizer. É uma exceção virtuosa para uma regra comum. Como os jardins japoneses, não seria também abstrata a cadeia de montanhas de Andorra-a-mágica?

                                             

             Vejo o chuvinha fina desaparecer por entre a brisa e as pombinhas sonolentas abrindo os olhos de açúcar. Com a consciência instintiva de estarem vivas, acabam de levantar voo, em dobraduras perfeitas de cinzas. Selo, pois, com um fundo acizentado, decorado com bambus, típicos da estética japonesa: "Uma flor com as pétalas pintadas se abrira antes do tempo. O mestre parou para contemplá-la". (Yasunari Kawabata).

                          Lívia




La Torre di Pisa.

14 de fevereiro de 2012 7

        Com as neves tardias, o branco deixou a linda Praga com jeitos de pintura patinada, salpicada de verdezinhos aqui e pontinhos negros ali, pois que as plantas e as pombas ornam, magicamente, a paisagem invernal. Hoje, no entanto,  as cores são novas! Um infindável amarelo solar invade as casas, através das janelas, e o céu cintila o rastro de gelo por entre os telhados, com as pombas a dançarem, muito alegres, a intuitiva chegada da primavera, que logo há de polvilhar de cores e algodões as cidades européias!

                  

            Vou agora dispersar, como-amendoim-no-prato, esta frente fria (da Sibéria), que trouxe neve a granel no restilho do inverno, pois que o frio nada pode contra o extremo da magia que é subir a Torre de Pisa. Adentramos a Praça dos Milagres, na pequenina cidade da Toscana, vindos da estradinha cheia de ciprestes mediterrâneos. Na Praça, está o maravilhoso complexo religioso de Pisa: o Batistério, o Campanário e a Catedral (maravilhosamente cruciforme, em mármore branco e ranhuras em tons pastel). O complexo espalha uma destas belezas impossíveis de serem desassociadas do conjunto, e a Torre é ainda mais extasiante na moldura da Praça dos Milagres, feliz expressão cunhada pelo poeta italiano Gabriel D"Annunzio, que apreendia a verdadeira noção das imagens oníricas.

                                                                   

              A Torre, leitor, é um fenômeno inigualável para os olhos, pois que a inclinação é tão acentuada quanto as imagens fazem crer, e não apenas: com uma força delicada, emprestada da arquitetura majestosa que a sustenta. A inclinação aconteceu de modo gradativo, em consequência da instabilidade do terreno, com baixíssimo nível de compactação. Em 1174, quem poderia saber que a oscilação provocada pelo som dos 7 sinos da Torre chegaria ao ponto de quase levar ao chão a estrutura inteira, dada a instabilidade do solo? Quase-quase que o edifício inteiro desmoronou, na década de 1990, de modo que mal pudemos crer quando soubemos que, sim, poderíamos subir ao topo.

                                          

             Era uma manhã de domingo, e, por ser muito cedo, as hordas de turistas ainda não abundavam. Felipe e eu éramos dois pontinhos em meio a um grupo agigantado de japoneses. Demos voltas e passadas ao redor da Torre e olhamos e rimos e celebramos e inquirimos e rimos de novo e íamos neste grau da alegria maravilhosa de uma descoberta mágica quando descobrimos, por completo acaso, que não apenas existia possibilidade de se subir ao topo da Torre (que ficou fechada por 11 anos e reabriu em 2001), como havia dois exatos lugares vagos para a aventura nos próximos 15 minutos! E há quem duvide dos milagres cotidianos, Deus-meu! Japoneses por todos os lados, nós e um italiano-de-novela, que insistia em querer colocar ordem nos felizes nipônicos que guardavam, agitados, seus pertences, para a aventura: Aluccinante, bradava o italiano-de-novela, em franca referência à alegria nipônica que ele julgava desorganizada (na Itália!). Mas quem se importa com ordem, em pleno minuto de sonho?! Ma va!

             Nós (e os japoneses) atravessamos o pequenino pórtico que dá entrada ao interior da Torre e a sensação, leitor, é fantástica: dada a inclinação da construção, ora sente-se o corpo pender para a direita, ora para a esquerda; a força da gravidade quase que nos puxa em vários momentos; um encanto, como sempre diz a personagem Natacha, de Tolstoi! A escadaria, em caracol, tem pedacinhos dos idos de 1700, e era nisso que não conseguia parar de pensar conforme subíamos, escoltados pelos nossos colegas de aventura, os japoneses.

            Do topo, a cidade de Pisa faz gracejos em tons de terracota, contraste de cor com a arquitetura pisana da Praça dos Milagres, assim cunhada por conta do predomínio gótico com ares islâmicos, oriundos das relações comerciais com a Espanha e a África, no período medieval. A cada passada, sente-se a inconformidade do chão, no topo da Torre, e é genuína a sensação mágica de se estar voando num tapete mágico, cujas inconstâncias se devem às inclinações do voo, pelos ares. Contornamos o topo, fiz graça por debaixo de um imenso sino, testamos os declives debaixo dos nossos pés, e então sentamos para contemplar Pisa e o domo da Catedral, à altura dos nossos olhos enfeitiçados, que custavam a crer que, sim, estávamos numa construção iniciada nos anos de 1700, possivelmente inclinados se observados ao longe, sorvendo a beleza do céu, bem acima das nossas cabeças. O vento, lá no alto, serpenteava os fios dos cabelos, realçando a manhã-luminosa-num-domingo-no-topo-da-Torre-de-Pisa.

                                  

                     Impressiona, leitor, a monumental artesania dos andares. A Torre, cilíndrica, alcança os quase 56 metros de altura, distribuídos em 7 andares, e, do solo, a percepção ilusória é a de que o topo parece mais reto em relação à inclinação do corpo do edifício. No interior da Torre, contudo, é clara a percepção de que a inclinação é real da base ao topo. A verticalização, marca registrada do estilo gótico, acentua a simbologia de elevação terrena em direção ao céu.

              Quando atravessamos o pórtico de saída da Praça dos Milagres,  olhamos várias vezes para trás, beliscando os sentidos, e bem ali, às nossas costas, erguia-se, na amplidão, a Torre de Pisa, juncada pela brisa, pois que coube à Torre existir em uma paisagem de pintura à antiga, sem verniz à moderna. O dia já estava todo vestido de alegrias.

             No dia de São Valentim destes plagos, o selo tem fundo vermelho, debruado em salpiques de rosa, na viva tessitura do amor.  Para Felipe, conjugo o amor em letrinhas: "Vou a ti, seguindo a luz dos teus olhos, subindo por ela, caminhando pelo teu olhar, como por uma escadaria de astros" (Cecília Meireles).

                                             Lívia




Andiamo a Firenze!

02 de fevereiro de 2012 7

           Que ninguém o engazope, leitor: a Itália é a autêntica vocação solar da Geografia! Ora é o Berlusconi, ora é o Capitão Schettino; é o folhetim, depois os madona-mia gritados; o trânsito é caótico, falam-todos-ao-mesmo-tempo-agora, o próprio panem et circenses da Europa. È tutto, tutto vero, mas eu escrevo, em letras possantes: eu amo a Itália. Vá ser maravilhosa assim nos sonhos! Aquela cor variante entre o amarelo-ocre e o terracota que inunda as casas italianas, com o sol a bater em cheio nas lascas imperfeitas das paredes, toldoadas por verdes e caramanchões, é a compreensão viva da beleza. Anda-se um passo e tome um pedaço do Império Romano; dobra-se a esquina e lá está a Igreja na qual dormem, eternizados, Michelângelo, Dante Alighieri e Galileu; mira-se uma nuvem rosada contra o céu matinal e surge a torre de um Castelo de séculos-e-séculos-amém: ora, mas-assim-é-de-matar, como se diz por aí! Nem com mil prismas piramidades a atmosfera mágica da Itália poderia ser imaginada, se não existisse!

            

                  Lá fomos nós, Felipe e eu, olhar Florença nos olhos. No entretempo onírico, Florença tem qualquer coisa do DNA de Veneza, embora lhe falte o ar imagético e definitivamente sonhático desta última. É a Itália anacrônica, de outros tempos, com ruelas de pedra, Castelos à antiga, papelarias que nem o Ali Babá alcança na mais encantatória das Literaturas, e, mamma mia, Florença é a casa do "Davi" renascentista de Michelângelo. Estou por demais encharcada do feitiço italiano, nestas linhas, daí por que não cabe, neste momento, discorrer sobre o assombro, o epicentro emocional que a escultura causou ao meu mundo de dentro. Carta à parte, selada com a flor-de-lis, símbolo de Florença, escrevinharei sobre o "Davi". Voltemos à Florença. Vez em quando, eu olhava de través, por pirraça, para os lados, apenas para me certificar de que ali existia uma realidade, e a abundância de obras de Arte por centímetro quadrado me esmagava. É a própria trintena de centelha divina, genialidade humana e assombro terreno.

                       

              Em sua roupa monocromática, marrom-glacê, Florença é toda feita de pedras não polidas, cingidas por uma atmosfera passada bastante  forte. Aos pés do rio Arno, as famosíssimas Galerias Uffizi abrigam "O Nascimento da Vênus" e "Primavera", de Boticelli, e Michelângelo-e-da-Vinci-e-Giotto-e-Ticiano-e-Rubens-e-Rafael. Numa palavra: o maior acervo de Arte Renascentista do mundo, onde uma porta secreta (aberta ao público apenas mediante reserva) conduz ao"Corredor Vasariano", mais de um quilômetro de passagem, construído para Cosimo I, que iniciou a Dinastia Médici, poderio absoluto, em Florença, durante o período do Renascimento. Para não ser morto pelos inimigos, atravessava o corredor, fechado, para ir de casa ( Palácio Pitti) ao "escritório" (hoje, Galerias Uffizi).

                      

              Fomos visitar as tumbas de Dante, Michelângelo e Galileu, na bonita e rústica "Basílica de Santa Cruz". Raras vezes senti a força emanar a um ponto tão delicado, diante dos que já se foram. Subimos até a cúpula do Domo octogonal da Catedral de Florença, obra máxima de Filippo Brunelleschi, e toda a cidade descortinou-se ao longe, com a pátina terracota das construções italianas a embaciar a retina. Havia, ali, uma certeza definitiva e magnânima dos gênios renascentistas, ao apresentar a Arquitetura específica de uma época.

                 Debaixo da requintada simplicidade do sol, descobrimos a Gelateria "Perseu", que entrou no "top 3" da nossa caça à cremosidade e ao sabor dos sorvetes, cá por estas andanças européias. Cultivar uma sensibilidade sorveteira daquele nível é coisa dos juízos ainda operantes dos gênios florentinos! Anote aí, leitor: Piazza della Signoria 16, em frente ao divinal "Palácio Velho", dos anos de 1300 -  hoje, sede da Prefeitura. Vale mil derréis-de-mel-coado, como diz lá o João Ubaldo Ribeiro.

                        

            Selo desejando caminhos sidéreos, que levem para a maravilhosa Itália: "Via trita, via tuta" (Caminho trilhado, caminho seguro).

              Arrivederci a presto!

                          Lívia