Com seus aproximados 460 Km2, o Principado de Andorra é o maior dos pequenos países da Europa, localizado na fronteira franco-espanhola, um enclave deslumbrante dos Pireneus, com sua natureza rochosa em estado bruto, polvilhada de neve, brocados verdes e Igrejas românicas. Cuidemos, pois, de narrar a capital, Andorra-a-Velha, encostando-nos cá nestas almofadas da Antióquia, perfumadas pelas pétalas do hibisco, de que é feito o karkadi, refresco árabe, que aromatizará o relato. Com o rouquejo do relógio, batem as horas da tarde; ouço a chuvinha fina a dançar na janela, ladeando pombinhas sonolentas: é a chuva da primavera banhando as flores que começam a nascer em Praga.
Andorra-a-velha, de vocação catalã, apenas por acaso não se chama Andorra-a-mágica: no inverno, os montes dos Pirineus vestem-se de branco, e, de dentro da cidade, pequenina feito uma noz, a sensação é a de se estar no interior de um círculo, ladeado por abetos e pinheiros flocados, que muralham a paisagem em elevações e declínios topográficos. Costumeiramente, vai-se para Andorra para a prática do esqui ou para a maratona das compras, mas, ora bolas!, há, também, aqueles que, como Felipe e eu, lançam-se ao núcleo de uma cidade para aprender a amá-la, a contemplá-la e a perscrutá-la. "Perderam a tramontana!", poderá argumentar o leitor, ao que respondo, com os olhos molhados, lavados em cores: eu gosto das cornucópias mágicas, dos milagres pequeninos e das cidades dentro das cidades (o núcleo macio que tem toda cidade, e que só se revela em camadas simples e invisíveis, que são a vida local).
Andorra-a-mágica tem um patrimônio de Igrejas românicas que justificam uma trilha. São quase sempre sóbrias, em estilo lombardo, com pedras rústicas, marca inconfundível do período medieval. Ninguém ao redor por quadras inteiras, a neve a cobrir as ladeiras, e, de repente, no topo, uma capelinha rústica, simples como a fórmula da rosa, surge, altiva e isolada, na paisagem, e, logo ali, à esquerda, dois passarinhos claudicam as perninhas finas por entre os galhos nevados de uma árvore despenteada. Nem a mais grosseira camada de sujeira espiritual que envolve a nós, os mortais comuns, escapa ilesa da sensorialidade singela, silenciosa e perfeita de uma paisagem assim.
Em poucas horas, cruza-se a cidade toda, de ponta a ponta, a pé. Estes lugares magicados pelo inverno são comumente intitulados de países-do-ouro-branco, ganham certa reputação de "requinte", vivem de propagandear os chocolates quentes, e é pela peculiaridade de não ser assim que Andorra-a-mágica tem, por assim dizer, aquele-sangue-que-se-faz-sentir. É simples, rústica, de arquitetura mediana, com montanhas irregulares, jeito plebeu, urbanismo imperfeito. Há qualquer coisa de urbanização dominada pela natureza, na contramão da civilidade à moderna. Estava frio, é verdade, mas nunca antes caminhamos por tantas horas debaixo da neve, sem guarda-chuva, e, sendo a neve tão pouco invasiva em comparação com a chuva, estávamos secos. Só muito raramente pisei em neve tão macia (assim como Dostoiévski distingue uma cidade por ser ou não meditativa, também a neve tem ou não o calibre genuíno da maciez), pouco acidentada pela aridez do cascalho, de jeito que até as pegadas nevadas têm certa peculiaridade em terras andorrenhas. Também foi lá que, caminhando, nos deparamos com a pequeníssima paróquia citadina de Engordany, onde, logo ali, na calçada, um respeitável boneco de neve ia se deixando viver por entre as mãos das crianças, supervisionadas pelo pai, que fazia as vezes de engenheiro-responsável-pelo-projeto. Num tom de baixo como o de um arquidiácono, segredo a você, leitor: está vendo aquelas crianças moldando o boneco de neve? É a vida verdadeira acontecendo.
À parte as muitas lojas estilizadas em free-shops urbanos, em função dos muito baixos impostos cobrados sobre as mercadorias, e das escolas de esqui, e das Igrejas românicas, e das ruelinhas e ladeiras vazias e nevadas, Andorra-a-mágica é silêncio, contemplação e montanhas, entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França, com uma vocação clara para o Norte, na direção do deus da felicidade. A inteireza sem brechas sempre se comunica com uma genuinidade indisfarçável. Há coisas tão fundamentais sobre o núcleo imagético de uma cidade que centros como Londres e Berlim não compreendem, e assuntos tão sérios, do ponto de vista da vida de dentro de um lugar, pelos quais não se interessam, e que Andorra-a-mágica compreende sem a necessidade do dizer. É uma exceção virtuosa para uma regra comum. Como os jardins japoneses, não seria também abstrata a cadeia de montanhas de Andorra-a-mágica?
Vejo o chuvinha fina desaparecer por entre a brisa e as pombinhas sonolentas abrindo os olhos de açúcar. Com a consciência instintiva de estarem vivas, acabam de levantar voo, em dobraduras perfeitas de cinzas. Selo, pois, com um fundo acizentado, decorado com bambus, típicos da estética japonesa: "Uma flor com as pétalas pintadas se abrira antes do tempo. O mestre parou para contemplá-la". (Yasunari Kawabata).
Lívia

