Gizes coloridos possuem um senso de presença e importância que o papel artesanal compreende à perfeição – outros papéis também o fazem, mas com algum ceticismo jocoso, que infantiliza a cor ou a relega à pressão invisível do papel previamente decorado. Mimetizar a experiência da cor, quando vinculada às ranhuras de um papel artesanal em branco, me remete ao vocábulo que tão bonitamente usou Octavio Paz para descrever a experiência de se observar o sagrado em nível de inteireza completo, sem brechas, sem véus: teofania.
Evoco a memória imagética do vocábulo “teofania” porque acesso Liubliana, a capital eslovena, no filtro da retina. Estou, ao fazê-lo, em um nível da consciência que anula a viagem em termos de concretudo, no sentido de se conhecer uma cidade de modo turístico, o que me permite narrá-la em nível de fábula. No plano terreno, Liubliana situa-se entre os Bálcãs e a Europa Central, mas é certo que, no plano dos gizes coloridos, é aquele tipo de cidade que, por meio da arquitetura, desloca sua concretude para um nível de etereidade muito particular, existente, também, em Praga, em São Petesburgo e Budapeste. Liubliana é muito imagética em sua topografia – economizo na descrição desta topografia para não dizimá-la com descuido adulto, diminuindo seu onirismo. São verdes e azuis seus gizes de base, com nuances mínimas de cores vibrantes, o que reforça a genuinidade dos vermelhos e amarelos da paisagem, sem comprometer o domínio evidente dos tons de base.
As ruas e paisagens da capital eslovena são cenários fabulescos, quase no sentido de cenário naturalista mesmo. E não o são a despeito da vocação centro-européia (altiva, barroca e onírica) ou como sintoma de um desejo oculto de fazerem de Liubliana uma capital impressionável: são fabulescas frontalmente, aos jeitos dos objetos (ou recortes, ou cenas, ou telas) cheios de significados mágicos, soltos em um palco de teatro. O acesso à magia de cada objeto requer interação simbólica direta entre o olhar do espectador e os sentidos ocultos dos objetos. De longe, sem absorção real do objeto, os olhos não o tocam. Como na mímese ao contrário – só é real o que não se pretende cópia.
Liubliana não é citadina. A batida urbana corre à revelia. Não é campestre, se espera o leitor a oposição simplista dos contrários. Não parece estar decidida a ser uma capital que não quer ser esquecida a nenhum custo, como Paris, nem tampouco a viver altivamente como se todos houvessem esquecido de um seu eventual passado faustoso. Ela coloca-se. É como, leitor, se juntássemos cidades de imponência inquestionável, neste continente europeu, como as capitais da Itália, da França, do Reino Unido, da Alemanha ou da Espanha: neste nível de categorização das cidades, eu pensaria “discurso”, ao passo que Liubliana me remeteria à “monólogo”. Neste nível, ela é a cidade que recupera, sem precisar pedir licença, a voz. E leva-se a termo. Uma sucessão de paisagens naturais mistura-se a um bazar de cenas construídas ao acaso, por meio do encontro de uma ruela com pares de tênis coloridos pendurados em um cordão; os pássaros volteiam pizzarias blasé, ladeadas por pontezinhas; os turistas existem e demandam as mesmas lembrancinhas escalonadas aos pacotes, mas até mesmo estes turistas parecem apresentar componentes etéreos mais elevados do que a média. Fazem mais caso dos dons da paisagem que coloca o projeto urbanístico a serviço da não-domesticação dos pássaros e das árvores (que abundam) do que dos dons pirotécnicos da Arquitetura individualizada. Dizendo de um modo anacrônico, do-tempo-das-profundas (como escrevinhou Jorge Amado): Liubliana é cheia de ligações magicadas não atravessadas por uma decisão prévia de que assim o seja.
Investiga pequenas sabedorias: por que os pardaizinhos pousam a centímetros da mesa e comem pizza? Por que as cestas de palha esticam as cores? E por que são caras? Chove de repente em Liubliana, mas para onde vão os passarinhos se a cidade inteira é casa deles? As florezinhas do centro antigo são rododendros ou pétalas coloridas de giz? Pegar-na-veia-do-coração. Foi assim com a simplicidade de Liubliana. Me pegou na carne macia do coração, leitor.
Porque Liubliana não fala uma linguagem decomposta em castelos, torres, museus, monumentos e arcos, é preciso penetrar-lhe os arcanos e ler suas árvores, seus passarinhos, suas ruas em cascalho. Achei, assim, uma destas cidades inventadas, como açúcares cremosos, coisa lá de se desenhar com gizes de cor. Mas o causo é que existe. Eu estive nela. E com Felipe, pois que, sem ele, seria gris, branco-no-pretopreto, vermelho-sem-bolinhas-brancas.
Como faz, hoje, um esplêndido dia de sol, volto a viver as cores. Reduzo o nível da linguagem e controlo a sobriedade do discurso para prosear imagens, daí por que me desculpo por colocar as palavras para jogar amarelinha, fazer bolhas de sabão, soprar cataventos. Os verdadeiros lugares, eu os guardo na minha caixinha de cidades-jóia, que vou redecorando e ampliando aos jeitos de ser ela já quase um baú – mas não um baú qualquer, destes, assim, marrom-castor-com-arranhões-na-madeira-à-antiga! Não! É um baú com libélulas entalhadas, de asas prateadas. Nele, estão Felipe, eu, e nossas miudezas (o chá, os passarinhos e histórias danadas demuitas). Quando eu o abro, como agora, em que puxei o pedacinho esloveno, todos os enigmas do mundo ficam pequenininhos, pois que, comparados às conchinhas-e-gizes-de-cor-e-selos-de-terras-estranhas-e-exóticas, reduzem-se a zangarias e enfadonhices.
Selo rouxinando as árvores, pois que, hoje, estou com vontade de dançar ciranda com as letras, mas, ai de mim!, seria vaidade barata colar o selo da missiva sem a marca d’água da magia. Eis, aqui, o selo imagético que vai com jeitos de poetizar os Correios e Telégrafos eslavos até o longínquo e querido Brasil: “Eu queria crescer pra passarinho” (Manoel de Barros).
De Praga (quase 30 graus, mesmo à sombra),
Lívia

