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Posts de abril 2012

Liubliana e as miudezas.

27 de abril de 2012 6

          Gizes coloridos possuem um senso de presença e importância que o papel artesanal compreende à perfeição – outros papéis também o fazem, mas com algum ceticismo jocoso, que infantiliza a cor ou a relega à pressão invisível do papel previamente decorado. Mimetizar a experiência da cor, quando vinculada às ranhuras de um papel artesanal em branco, me remete ao vocábulo que tão bonitamente usou Octavio Paz para descrever a experiência de se observar o sagrado em nível de inteireza completo, sem brechas, sem véus: teofania.

             Evoco a memória imagética do vocábulo “teofania” porque acesso Liubliana, a capital eslovena, no filtro da retina. Estou, ao fazê-lo, em um nível da consciência que anula a viagem em termos de concretudo, no sentido de se conhecer uma cidade de modo turístico, o que me permite narrá-la em nível de fábula. No plano terreno, Liubliana situa-se entre os Bálcãs e a Europa Central, mas é certo que, no plano dos gizes coloridos, é aquele tipo de cidade que, por meio da arquitetura, desloca sua concretude para um nível de etereidade muito particular, existente, também, em Praga, em São Petesburgo e Budapeste. Liubliana é muito imagética em sua topografia – economizo na descrição desta topografia para não dizimá-la com descuido adulto, diminuindo seu onirismo. São verdes e azuis seus gizes de base, com nuances mínimas de cores vibrantes, o que reforça a genuinidade dos vermelhos e amarelos da paisagem, sem comprometer o domínio evidente dos tons de base.            

               As ruas e paisagens da capital eslovena são cenários fabulescos, quase no sentido de cenário naturalista mesmo. E não o são a despeito da vocação centro-européia (altiva, barroca e onírica) ou como sintoma de um desejo oculto de fazerem de Liubliana uma capital impressionável: são fabulescas frontalmente, aos jeitos dos objetos (ou recortes, ou cenas, ou telas) cheios de significados mágicos, soltos em um palco de teatro. O acesso à magia de cada objeto requer interação simbólica direta entre o olhar do espectador e os sentidos ocultos dos objetos. De longe, sem absorção real do objeto, os olhos não o tocam. Como na mímese ao contrário – só é real o que não se pretende cópia.

                   Liubliana não é citadina. A batida urbana corre à revelia. Não é campestre, se espera o leitor a oposição simplista dos contrários. Não parece estar decidida a ser uma capital que não quer ser esquecida a nenhum custo, como Paris, nem tampouco a viver altivamente como se todos houvessem esquecido de um seu eventual passado faustoso. Ela coloca-se. É como, leitor, se juntássemos cidades de imponência inquestionável, neste continente europeu, como as capitais da Itália, da França, do Reino Unido, da Alemanha ou da Espanha: neste nível de categorização das cidades, eu pensaria “discurso”, ao passo que Liubliana me remeteria à “monólogo”. Neste nível, ela é a cidade que recupera, sem precisar pedir licença, a voz. E leva-se a termo. Uma sucessão de paisagens naturais mistura-se a um bazar de cenas construídas ao acaso, por meio do encontro de uma ruela com pares de tênis coloridos pendurados em um cordão; os pássaros volteiam pizzarias blasé, ladeadas por pontezinhas; os turistas existem e demandam as mesmas lembrancinhas escalonadas aos pacotes, mas até mesmo estes turistas parecem apresentar componentes etéreos mais elevados do que a média. Fazem mais caso dos dons da paisagem que coloca o projeto urbanístico a serviço da não-domesticação dos pássaros e das árvores (que abundam) do que dos dons pirotécnicos da Arquitetura individualizada. Dizendo de um modo anacrônico, do-tempo-das-profundas (como escrevinhou Jorge Amado): Liubliana é cheia de ligações magicadas não atravessadas por uma decisão prévia de que assim o seja.

                                                               

                  Investiga pequenas sabedorias: por que os pardaizinhos pousam a centímetros da mesa e comem pizza? Por que as cestas de palha esticam as cores? E por que são caras? Chove de repente em Liubliana, mas para onde vão os passarinhos se a cidade inteira é casa deles? As florezinhas do centro antigo são rododendros ou pétalas coloridas de giz? Pegar-na-veia-do-coração. Foi assim com a simplicidade de Liubliana. Me pegou na carne macia do coração, leitor.

                                                   

            Porque Liubliana não fala uma linguagem decomposta em castelos, torres, museus, monumentos e arcos, é preciso penetrar-lhe os arcanos e ler suas árvores, seus passarinhos, suas ruas em cascalho. Achei, assim, uma destas cidades inventadas, como açúcares cremosos, coisa lá de se desenhar com gizes de cor. Mas o causo é que existe. Eu estive nela. E com Felipe, pois que, sem ele, seria gris, branco-no-pretopreto, vermelho-sem-bolinhas-brancas.

                                    

            Como faz, hoje, um esplêndido dia de sol, volto a viver as cores. Reduzo o nível da linguagem e controlo a sobriedade do discurso para prosear imagens, daí por que me desculpo por colocar as palavras para jogar amarelinha, fazer bolhas de sabão, soprar cataventos. Os verdadeiros lugares, eu os guardo na minha caixinha de cidades-jóia, que vou redecorando e ampliando aos jeitos de ser ela já quase um baú – mas não um baú qualquer, destes, assim, marrom-castor-com-arranhões-na-madeira-à-antiga! Não! É um baú com libélulas entalhadas, de asas prateadas. Nele, estão Felipe, eu, e nossas miudezas (o chá, os passarinhos e histórias danadas demuitas). Quando eu o abro, como agora, em que puxei o pedacinho esloveno, todos os enigmas do mundo ficam pequenininhos, pois que, comparados às conchinhas-e-gizes-de-cor-e-selos-de-terras-estranhas-e-exóticas, reduzem-se a zangarias e enfadonhices.                                   

               Selo rouxinando as árvores, pois que, hoje, estou com vontade de dançar ciranda com as letras, mas, ai de mim!, seria vaidade barata colar o selo da missiva sem a marca d’água da magia. Eis, aqui, o selo imagético que vai com jeitos de poetizar os Correios e Telégrafos eslavos até o longínquo e querido Brasil: “Eu queria crescer pra passarinho” (Manoel de Barros).

               De Praga (quase 30 graus, mesmo à sombra), 

                             Lívia

O espelho imagético de Zagreb.

16 de abril de 2012 8

         Zagreb é uma capital pequena, destas que enchem as fotografias com recortes de cúpulas e fachadas barrocas, com seus cidadãos pacatos a sorver a vida no parque. Esboça, é verdade, um viés de beleza centro-européia muito típico, como também faz artesanias eslavas à perfeição, mas há qualquer coisa de favas-contadas, alguma coisa que nos olha diretamente no rosto sem se pronunciar às claras.

                          

         Creio mais judicioso dizer: Zagreb convoca paisagens tradicionais, mas sem idiossincrasias próprias. O exercício de polir a gema está comprometido de maneira sutil, apesar da beleza altiva do centro antigo, das ruelas, da conformação arquitetônica citadina. Na parecença com cidades outras é que reside este it cuja ausência se faz sentir. Aos jeitos de um excerto do escritor argentino Julio Cortazar, que nomina os cheiros que um lugar lhe evoca, Zagreb atuou, mais do que como uma cidade a ter explorado o núcleo macio e sanguíneo do seu coração, do que como um imperativo da memória: nas ruelas medievalescas, Talin e Vilnius me eram invocadas; na ampla praça cercada de construções altivas por todos os lados, as cidades do interior da República Tcheca se diziam; na avenida principal,  o centro de São Petesburgo surgia, enfileirado em lojas comerciais de fachadas assemelhadas. A beleza de Zagreb passou a categorizar uma visão crítica que aproxima o padrão estético das cidades européias, e, por extensão, o modo como o percebemos.

                                                         

             Felipe e eu isolamos, por algum tempo, palafréns-e-corcéis, e nos pusemos a minhocar o cerne do belo, no que tange às cidades européias. Categorizamos, assim, de solapa, as cidades cuja beleza possuem sua viga mestra na genuinidade (como as das terras italianas) ; aquelas que delineiam-se a partir das águas (como Estocolmo); as que fazem do rio seu adereço de maior envergadura (como Praga); as de construções altaneiras e imponentes (aos jeitos de Viena); as de personalidade incontestável (Paris). Temo corromper com as palavras uma explicação algo sutil, que pertence menos à definição do que ao campo visual de uma cidade, mas o direi do modo mais simples: toda e qualquer cidade é única em sua marca-a-ferro, sua insígnia própria, mas há, em paralelismo, cidades que, além de serem elas mesmas, são espelhos reminiscentes de outras.

                                    

             Assim, talvez, Zagreb. Que fique claro que, aqui, não me refiro à História de um povo, à claudicante e imperiosa marcha de um passado que é o temperamento de uma cidade tornado visível. Me refiro, antes, à apreensão da psique de uma cidade à primeira vista, narrada pelas suas construções, cores, disposições, praças e parques. A Europa comparte um código de beleza que, olhada com extrema delicadeza, nos desvãos menos esperados, embaça o olhar no longo prazo. Em verdade, a correção precisa ser tão honesta quanto a percepção (com o perdão absoluto da rima pobre, leitor): quanto mais se corre mundo, mais se reveem os lugares amados nos lugares recém-descobertos. Aí estando a comunhão que casa intensamente a beleza do Velho Mundo com os olhos que o apreciam.

             Assim como o filtro mágico de Tristão (o da Isolda, na Literatura) simbolizou, sempre, o amor em sua feição psicológica mais direta, também a beleza das cidades européias passam a atuar como filtro para as novas cidades do continente que vão sendo descobertas. É curiosa a relação de oposições entre uma cidade opressora, como Moscou, e uma cidade de beleza quase perfumada, como Zagreb, mas mais ainda a de similitude entre Zagreb e as capitais dos países bálticos, ou mesmo entre Zagreb e as cidades do interior da República Tcheca, pois que a chave da abóbada de Zagreb, nestas duas últimas comparações, é um pouco a de reforçar a beleza já vista, já apreendida, e, de certo modo, assimilada.

               A beleza de Praga pressupõe o véu sensual que a encobre, daí ser sempre multifacetada, embora, para ser verdadeiramente Praga, seja necessária a existência das torres, recortadas por entre o rio Vltava. Para mim, a beleza sempre deve pressupor alguma falha, daí por que são os caminhos sidéreos, quase sempre tortuosos, de ruelinhas de cascalho com ladeiras e portinholas pequeninas, que me espantam, repentinamente, num quadro de beleza extasiante. Eles como que desoprimem as paisagens de sustentarem uma Arquitetura que dispensa comentários elogiosos, como é a desta anacrônica Europa, permitindo que caiam ao chão, vez ou outra, cansadas da bandeja com a Renascença, o Barroco, o Gótico, o Neoclássico.

            Zagreb foi uma terça parte da maravilha de nele estar, pois que se decompôs em muitas outras cidades amadas e admiradas, que cuidei de registrar nas cambalhotas da retina. E, como bem observou o Felipe, os caminhos da Croácia para a Eslovênia estão entre os mais lindos que já vimos, através das janelas dos trens. Por certo iremos rever estes mesmos caminhos (ladeados de árvores folhadas,  já muito verdes, e pássaros adejando ao redor de alguns ninhos silenciosos) em espelhos imagéticos de outras janelas de trens, revestido da poderosa luz do céu croata - ou, ao menos, é este o desejo volitivo das paisagens que amamos.

             Sinto o perfume da terra molhada. É a chuva. Cai como se fossem retalhos de tecido adamascado, muito macia e  fina. Abro o estojo de caligrafia em laca vermelha, para guardar o pincel com o qual assino esta missiva - borro, sem intenção, o cantinho do papel, o que não compromete a beleza da tinta. Selada em Praga: "O que mais invejo são as pessoas naturais com sua própria carcaça" (Adélia Prado).

                                    Lívia           

Bilhetim esloveno-croata.

09 de abril de 2012 0

Observo, encantada, que a Páscoa, nesta Europa do Leste, é a celebração da vida pós-inverno. Nas ruas, nas praças, nas vitrines, nos restaurantes: ovinhos coloridos (as pessankas) abundam, com ninhos e passarinhos estampados a granel. Não há, aqui, o hábito de se presentear as pessoas queridas com ovos de chocolate. O sentido da Páscoa é duplo: o renascimento de Cristo e de todos os seres, com a chegada da primavera.

Nunca, jamais, vi tantos ninhos, ouvi tantos passarinhos e observei tantas homenagens a eles. No bonito Brasil, o sol abunda, as estações alternam-se às nuances, de modo que é sempre tempo de se estar ao redor das aves, de amá-las. Aqui, nesta época, depois de meses de silêncio, os pássaros trinam maravilhosamente, há ninhos por todas as árvores, ovinhos em todos os lugares, pois que, no inverno, toda natureza se guarda, nos vãos molhados da terra. Ver os pássaros, vivíssimos, felizes, a gorjear e a fazer ninhos é, na simplicidade clara de uma vela, a-coisa-mais-linda-do-mundo.

Felipe e eu tomamos os rumos da Croácia nesta Páscoa, onde ovos imensos, do tamanho das pessoas, pintados à mão, artesanalmente, confeitam jardins, nos mercados ao ar livre. As árvores, no ensolarado Zagreb, já estão todas folhadas, vestidas para os verdes bailes do verão, que a natureza anuncia. Tulipas coloridas pelas ruas, misturadas a toda sorte de flores heliotrópicas, que viram-se em busca do sol. De Zagreb, arrepiamos-caminho para Liubliana, na Eslovênia. A cidade, cujo nome contém a palavra "amor", é uma jóia. A começar pela paisagem que se avista desde o trem, de Zagreb até aqui.

Mas, ai!, meus caracóis já cuidam de querer contar as andanças por terras croatas e eslovenas, e o causo é que, hoje, vim ao jardim desta casa cibernética, para desejar uma Páscoa encharcada de vida, união e alegria, pois que é no renascimento da natureza, destas coloridas aves que ora cuidam de entrançar seus ninhos e acarinhar seus ovinhos, que está o sentido do amor.

Voltarei com os dedos de prosa, aos jeitos das andanças por estes belos plago e escrevinho o desejo de uma Páscoa ornada em doçura - a da vida, não apenas a do chocolate. Que seja alegre. E leve.

Lá fora, o céu varre as estrelas, com chuva. Selo com a insígnia que leva, ao leitor, o que vejo em Liubliana, a cidade do amor: "É a hora muito profunda em que os insetos do jardim estão completamente extasiados, ao perfume da gardênia e à brancura da lua". Cecília Meireles.

Dos jardins de Liubliana,

Lívia