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Posts de junho 2012

Atenas. A contemporaneidade.

02 de junho de 2012 3

       Fundada oito séculos antes de Cristo, Atenas, a capital da Grécia, é um destes

lugares que atuam como ponte ao passado psíquico. É o berço da civilização

ocidental, mas é, também, o bilhete geográfico de acesso mais estreito à imagética

dos vocábulos “vitória” e “derrota”. O mundo grego, tal como o era à antiga, funcionava

(generalizando-perigosamente, com o perdão do gerúndio e do advérbio de modo juntos)

sob a base de certezas perfeitas, de modo que as nuances que separavam uma

condição primeva de bonança ou escassez não eram reconhecidas simbolicamente

como de relevo para o resultado do que se buscava. Era o tempo dos absolutos

também nos causos da vida.

                             

              Correram milênios e eis, aqui, o ano de 2012. A Acrópole e o Partenon atuam

como pêndulos, na elevada colina que os sustenta, na Atenas contemporânea, pois

que, embora encapsulem a base fundadora da civilização, a civilização, esta, explicita

uma realidade de nuances fortíssimas, em franca oposição à solidez e à concretude

do mito grego. Atenas é, hoje, como qualquer outra grande capital da América Latina,

pastiche do ideário que a sustenta. Cabem, nesta conta (nuançada, inexata), a

desigualdade social alargada. As moedas tinindo em caixotes de papelão. Os indiferentes.

Os vaticinados. Os tristes. Pelas ruas, arrasta-se o terceiro milênio, com seus falsos

brilhantes. As promessas capitalistas de vidro. Com a diferença de que, para os europeus,

é inédito (ou quase) que milhões vivam assim – cuidemos de arrepiar os cabelos,

leitor, pois que as vivências à européia pouco ensinaram aos civilizados a encarar

a batalha suada com a qual o brasileiro sempre ganhou a injusta medalha no pódio.

A Europa tem pouco traquejo para enfrentar a selva de pedra que lhe vem sendo

apresentada ao vivo e a cores, longe dos noticiários sobre o Terceiro Mundo.

               

             No dueto que dançam a Atenas das capas de revista turísticas e a Atenas das

praças e das ruas ocupadas pela polícia, ouve-se um idioma sonoramente reconhecido,

pois que o espanto, é, também nos infortúnios dos lugares, belo. O idioma grego,

quando ouvido, é, como bem observou o Felipe, uma espécie de espanhol falado

rápido. Curiosa e intrigante é, também, a sinergia algo à espanhola, na cidade. É

como se Madri fosse ali, em diversos pontos da cidade. Ainda se vai processando

o perfumoso cheiro da espanha em terras gregas quando um universo algo turco,

algo árabe, invade os olhos: os souvenirs à grega são forjados em estamparias, tecidos

e identidade não-local. O pezinho grego tem dedos à oriental.

                   

          Corta para as ruas. Ali, o Mediterrâneo à italiana exibe-se aos jeitos dos azeites

de oliva, das perfumosas bergamotas nos pés, dos meneios sanguíneos das altas vozes

a dizer, falar, invocar. O grego fala e gesticula sem jejum de se fazer notar.

             

             Não sei de que modo o inconsciente cuida de jogar luzes na consciência,

mas ele se vai fazendo sentir, em Atenas, como se a cidade fosse um

grande ser vivo a esbravejar o resgate de sua identidade, de seu passado, de sua

base fundadora. De repente o lusco-fusco de estrangeirismos e afinados olhos

deslumbrados diante da Acrópole; de repente, a pobreza, silenciosa. De repente,

então, o choque de encarar as cariátides (vizinhas ao Partenon) cercada de ruínas,

pois que ao redor do sítio arqueológico, está o infortúnio das pessoas – o tão

gasto e espizinhado vocábulo “povo”.

                    

            Não sei, tampouco, se o impacto daquele grito da sociedade grega atual se fez sentir com

tal ferocidade, na minha vida de dentro, porque eu a olhei nos olhos em tempos

vizinhos aos de Istambul, dona de cores e alegrias à flor da pele, mas o fato é que me fez o

talho na alma. Istambul, explosão de gentes, de desigualdades, de paradoxos, vibra

em alaúde de outra envergadura. Ali, a alma ainda está a lustrar os dentes para a

festa da vida. Em Atenas, o luto anuncia vésperas. 

               Atenas arde numa pira européia simbólica, mas há uma tão grande beleza

no sofrimento digno de sua alma, com o passado a fincar-lhe fitas no coração da

civilização ocidental, que me faz pensar nos lugares imagéticos da vitória e da

derrota. Na geografia das histórias dos países, poderia haver um capítulo sobre a

psique da topografia, sobre o inconsciente coletivo das cores em períodos de vitória

e derrota. Haveria de ser um ensaio sobre os devaneios da dor, da perda e da desigualdade,

aos jeitos fenomenológicos dos belos livros de Gaston Bachelard.

                        

             Em Atenas, voltar ao passado que nos bordou civilizadamente à ocidental

implica olhar para o presente das sociedades contemporâneas e perguntar, aos

modos de Dostoiévski, mais de cem anos atrás: “para onde vai o século?!’. O

anacronismo é muitíssimo contemporâneo, ao fim e ao cabo.

           Verso a Grécia de hoje com o selo em tons pegados aos da esperança, com o

 título de Faulkner: “Luz em Agosto” – ou, “Luz para Agosto”, na Grécia.

                       Lívia