Fundada oito séculos antes de Cristo, Atenas, a capital da Grécia, é um destes
lugares que atuam como ponte ao passado psíquico. É o berço da civilização
ocidental, mas é, também, o bilhete geográfico de acesso mais estreito à imagética
dos vocábulos "vitória" e "derrota". O mundo grego, tal como o era à antiga, funcionava
(generalizando-perigosamente, com o perdão do gerúndio e do advérbio de modo juntos)
sob a base de certezas perfeitas, de modo que as nuances que separavam uma
condição primeva de bonança ou escassez não eram reconhecidas simbolicamente
como de relevo para o resultado do que se buscava. Era o tempo dos absolutos
também nos causos da vida.
Correram milênios e eis, aqui, o ano de 2012. A Acrópole e o Partenon atuam
como pêndulos, na elevada colina que os sustenta, na Atenas contemporânea, pois
que, embora encapsulem a base fundadora da civilização, a civilização, esta, explicita
uma realidade de nuances fortíssimas, em franca oposição à solidez e à concretude
do mito grego. Atenas é, hoje, como qualquer outra grande capital da América Latina,
pastiche do ideário que a sustenta. Cabem, nesta conta (nuançada, inexata), a
desigualdade social alargada. As moedas tinindo em caixotes de papelão. Os indiferentes.
Os vaticinados. Os tristes. Pelas ruas, arrasta-se o terceiro milênio, com seus falsos
brilhantes. As promessas capitalistas de vidro. Com a diferença de que, para os europeus,
é inédito (ou quase) que milhões vivam assim - cuidemos de arrepiar os cabelos,
leitor, pois que as vivências à européia pouco ensinaram aos civilizados a encarar
a batalha suada com a qual o brasileiro sempre ganhou a injusta medalha no pódio.
A Europa tem pouco traquejo para enfrentar a selva de pedra que lhe vem sendo
apresentada ao vivo e a cores, longe dos noticiários sobre o Terceiro Mundo.
No dueto que dançam a Atenas das capas de revista turísticas e a Atenas das
praças e das ruas ocupadas pela polícia, ouve-se um idioma sonoramente reconhecido,
pois que o espanto, é, também nos infortúnios dos lugares, belo. O idioma grego,
quando ouvido, é, como bem observou o Felipe, uma espécie de espanhol falado
rápido. Curiosa e intrigante é, também, a sinergia algo à espanhola, na cidade. É
como se Madri fosse ali, em diversos pontos da cidade. Ainda se vai processando
o perfumoso cheiro da espanha em terras gregas quando um universo algo turco,
algo árabe, invade os olhos: os souvenirs à grega são forjados em estamparias, tecidos
e identidade não-local. O pezinho grego tem dedos à oriental.
Corta para as ruas. Ali, o Mediterrâneo à italiana exibe-se aos jeitos dos azeites
de oliva, das perfumosas bergamotas nos pés, dos meneios sanguíneos das altas vozes
a dizer, falar, invocar. O grego fala e gesticula sem jejum de se fazer notar.
Não sei de que modo o inconsciente cuida de jogar luzes na consciência,
mas ele se vai fazendo sentir, em Atenas, como se a cidade fosse um
grande ser vivo a esbravejar o resgate de sua identidade, de seu passado, de sua
base fundadora. De repente o lusco-fusco de estrangeirismos e afinados olhos
deslumbrados diante da Acrópole; de repente, a pobreza, silenciosa. De repente,
então, o choque de encarar as cariátides (vizinhas ao Partenon) cercada de ruínas,
pois que ao redor do sítio arqueológico, está o infortúnio das pessoas - o tão
gasto e espizinhado vocábulo "povo".
Não sei, tampouco, se o impacto daquele grito da sociedade grega atual se fez sentir com
tal ferocidade, na minha vida de dentro, porque eu a olhei nos olhos em tempos
vizinhos aos de Istambul, dona de cores e alegrias à flor da pele, mas o fato é que me fez o
talho na alma. Istambul, explosão de gentes, de desigualdades, de paradoxos, vibra
em alaúde de outra envergadura. Ali, a alma ainda está a lustrar os dentes para a
festa da vida. Em Atenas, o luto anuncia vésperas.
Atenas arde numa pira européia simbólica, mas há uma tão grande beleza
no sofrimento digno de sua alma, com o passado a fincar-lhe fitas no coração da
civilização ocidental, que me faz pensar nos lugares imagéticos da vitória e da
derrota. Na geografia das histórias dos países, poderia haver um capítulo sobre a
psique da topografia, sobre o inconsciente coletivo das cores em períodos de vitória
e derrota. Haveria de ser um ensaio sobre os devaneios da dor, da perda e da desigualdade,
aos jeitos fenomenológicos dos belos livros de Gaston Bachelard.
Em Atenas, voltar ao passado que nos bordou civilizadamente à ocidental
implica olhar para o presente das sociedades contemporâneas e perguntar, aos
modos de Dostoiévski, mais de cem anos atrás: "para onde vai o século?!'. O
anacronismo é muitíssimo contemporâneo, ao fim e ao cabo.
Verso a Grécia de hoje com o selo em tons pegados aos da esperança, com o
título de Faulkner: "Luz em Agosto" - ou, "Luz para Agosto", na Grécia.
Lívia

