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Atenas. A contemporaneidade.

02 de junho de 2012 3

       Fundada oito séculos antes de Cristo, Atenas, a capital da Grécia, é um destes

lugares que atuam como ponte ao passado psíquico. É o berço da civilização

ocidental, mas é, também, o bilhete geográfico de acesso mais estreito à imagética

dos vocábulos "vitória" e "derrota". O mundo grego, tal como o era à antiga, funcionava

(generalizando-perigosamente, com o perdão do gerúndio e do advérbio de modo juntos)

sob a base de certezas perfeitas, de modo que as nuances que separavam uma

condição primeva de bonança ou escassez não eram reconhecidas simbolicamente

como de relevo para o resultado do que se buscava. Era o tempo dos absolutos

também nos causos da vida.

                             

              Correram milênios e eis, aqui, o ano de 2012. A Acrópole e o Partenon atuam

como pêndulos, na elevada colina que os sustenta, na Atenas contemporânea, pois

que, embora encapsulem a base fundadora da civilização, a civilização, esta, explicita

uma realidade de nuances fortíssimas, em franca oposição à solidez e à concretude

do mito grego. Atenas é, hoje, como qualquer outra grande capital da América Latina,

pastiche do ideário que a sustenta. Cabem, nesta conta (nuançada, inexata), a

desigualdade social alargada. As moedas tinindo em caixotes de papelão. Os indiferentes.

Os vaticinados. Os tristes. Pelas ruas, arrasta-se o terceiro milênio, com seus falsos

brilhantes. As promessas capitalistas de vidro. Com a diferença de que, para os europeus,

é inédito (ou quase) que milhões vivam assim - cuidemos de arrepiar os cabelos,

leitor, pois que as vivências à européia pouco ensinaram aos civilizados a encarar

a batalha suada com a qual o brasileiro sempre ganhou a injusta medalha no pódio.

A Europa tem pouco traquejo para enfrentar a selva de pedra que lhe vem sendo

apresentada ao vivo e a cores, longe dos noticiários sobre o Terceiro Mundo.

               

             No dueto que dançam a Atenas das capas de revista turísticas e a Atenas das

praças e das ruas ocupadas pela polícia, ouve-se um idioma sonoramente reconhecido,

pois que o espanto, é, também nos infortúnios dos lugares, belo. O idioma grego,

quando ouvido, é, como bem observou o Felipe, uma espécie de espanhol falado

rápido. Curiosa e intrigante é, também, a sinergia algo à espanhola, na cidade. É

como se Madri fosse ali, em diversos pontos da cidade. Ainda se vai processando

o perfumoso cheiro da espanha em terras gregas quando um universo algo turco,

algo árabe, invade os olhos: os souvenirs à grega são forjados em estamparias, tecidos

e identidade não-local. O pezinho grego tem dedos à oriental.

                   

          Corta para as ruas. Ali, o Mediterrâneo à italiana exibe-se aos jeitos dos azeites

de oliva, das perfumosas bergamotas nos pés, dos meneios sanguíneos das altas vozes

a dizer, falar, invocar. O grego fala e gesticula sem jejum de se fazer notar.

             

             Não sei de que modo o inconsciente cuida de jogar luzes na consciência,

mas ele se vai fazendo sentir, em Atenas, como se a cidade fosse um

grande ser vivo a esbravejar o resgate de sua identidade, de seu passado, de sua

base fundadora. De repente o lusco-fusco de estrangeirismos e afinados olhos

deslumbrados diante da Acrópole; de repente, a pobreza, silenciosa. De repente,

então, o choque de encarar as cariátides (vizinhas ao Partenon) cercada de ruínas,

pois que ao redor do sítio arqueológico, está o infortúnio das pessoas - o tão

gasto e espizinhado vocábulo "povo".

                    

            Não sei, tampouco, se o impacto daquele grito da sociedade grega atual se fez sentir com

tal ferocidade, na minha vida de dentro, porque eu a olhei nos olhos em tempos

vizinhos aos de Istambul, dona de cores e alegrias à flor da pele, mas o fato é que me fez o

talho na alma. Istambul, explosão de gentes, de desigualdades, de paradoxos, vibra

em alaúde de outra envergadura. Ali, a alma ainda está a lustrar os dentes para a

festa da vida. Em Atenas, o luto anuncia vésperas. 

               Atenas arde numa pira européia simbólica, mas há uma tão grande beleza

no sofrimento digno de sua alma, com o passado a fincar-lhe fitas no coração da

civilização ocidental, que me faz pensar nos lugares imagéticos da vitória e da

derrota. Na geografia das histórias dos países, poderia haver um capítulo sobre a

psique da topografia, sobre o inconsciente coletivo das cores em períodos de vitória

e derrota. Haveria de ser um ensaio sobre os devaneios da dor, da perda e da desigualdade,

aos jeitos fenomenológicos dos belos livros de Gaston Bachelard.

                        

             Em Atenas, voltar ao passado que nos bordou civilizadamente à ocidental

implica olhar para o presente das sociedades contemporâneas e perguntar, aos

modos de Dostoiévski, mais de cem anos atrás: "para onde vai o século?!'. O

anacronismo é muitíssimo contemporâneo, ao fim e ao cabo.

           Verso a Grécia de hoje com o selo em tons pegados aos da esperança, com o

 título de Faulkner: "Luz em Agosto" - ou, "Luz para Agosto", na Grécia.

                       Lívia

I-s-t-a-m-b-u-l.

16 de maio de 2012 6

Não fossem os carros, os ônibus, as pessoas ao celular e os apetrechos à moderna, estaria no caleidoscópico túnel do tempo, na enfeitiçada caverna-do-ali-babá. Atapetado o chão em fios de algodão coloridos, cuidemos de tomar o chá (normal-tea-or-apple-tea?, pergunta o sério senhor à nossa frente), cruzar às pernas à turca e contemplar Bizâncio, que, hoje, cuida de se chamar, tão sonora quanto quente, I-s-t-a-m-b-ul. A antiga capital do Império Otomano é a única cidade do mundo a contemplar o Oriente e o Ocidente simultaneamente, cada qual margeado pelo Estreito de Bósforo, união dos Mares Negro e Mediterrâneo. Muito antes das lendas aladinescas, Istambul chamou-se Bizâncio, sob a égide dos gregos. Foi, depois, tomada pelos romanos, que a batizaram, em razão do Imperador Constantino, de Constantinopla (Nova Roma, conforme queriam, não soou tão magicada). Em 1919, a Turquia declarou sua independência, e, em 2012, são 12 milhões de pessoas morando debaixo do céu de Istambul. Mais de 90% dos turcos vivem no lado asiático, mas Istambul carrega o peso (simbólico) de ser a mais européia das cidades da Turquia. A população é majoritariamente islâmica, contudo, no caldeirão de perfumes e especiarias, também as religiões convivem bastante bem: em Istambul está a sede da Igreja Ortodoxa Grega, e não são poucos os laicos, os judeus e os cristãos. Os véus passeiam na paisagem, cobrindo os cabelos de senhoras, e, vez em quando, das jovens moças ocidentalizadas nos jeitos e meneios. A cidade é muito mais secular do que se imagina.

Apresentado o intróito, vou pedir licença para abrir pupilas e coração, sem fazer jejum de impressões: não se pode ver Istambul nos olhos e não colocar o fôlego em um intensivo centro de recuperação. Istambul impressiona com superlativos.  É anacronicamente moderna: das especiarias em pós coloridos, chás a granel e perfumes feitos artesanalmente, no "Bazar das Especiarias", vai-se para as ruas apinhadas de gente, com o ônus e o bônus das sociedades contemporâneas, e outra vez para os copinhos turcos com chás "normais" (preto) ou de maçã, que passeiam em bandejinhas no meio dos quiosques, misturados às cerâmicas "Iznik" (azulejarias pintadas à mão, típicas da Arte islâmica, que fizeram a fama da pequenina cidade de Iznik, não muito distante de Istambul). A combinação das cores e padronagens destas cerâmicas está entre as coisas mais delicadas e belas que já vi. Os turcos entendem tudo sobre sensorialidade. As famosas pashminas são definidas pelo toque. O toque narra a história da tessitura: conta se a trama dos fios é algodoada, adamascada, de seda, e qual a pureza do tecido. As padronagens remetem a simbologias escondidas, pois que determinado conjunto de tupilas pode narrar a marca de um Sultão de luas idas, como também uma batalha remota. Tudo é sensorial, mas num percurso intimista, em que é preciso observar, observar e observar, pois que sendo Istambul um mosaico de cores e cenas, voltar os olhos para o micro é aprender a dinâmica da sutileza. O único defeito a lamentar é este: os livros são muito caros na cidade mágica! Um paradoxo nada desprezível.

As mesquitas abundam, é verdade, mas o interior de cada uma vive da singularidade. O acabamento, os detalhes, o senso estético refinado assombram não propriamente pela beleza indiscutível, mas pela capacidade sem precedentes de combinar o elogio às sombras, de que, aliás, tanto gostam os japoneses e que é título de um magnífico ensaio de Junichiro Tanizaki, com a transparência desconcertante dos italianos. A sensação (não consigo fugir da palavra sensorialidade, como vê, leitor, ao contar Istambul) é a de que a vida está em hiato, compassada por outras noções de olhar. A vida, como é vivida pelos turcos, assombra, também, pela capacidade derradeira de não contemplar o vazio. Todos os espaços urbanos são preenchidos, todas as lojas são ladeadas (e até verticalizadas) por outras lojas, uma rua sempre termina em outra rua. O "Grande Bazar" é um labirinto infinito, em que mais de 4 mil lojas, contabilizadas pelos turcos, sucedem-se por debaixo do que parece ser uma grande tenda, na qual circulam cores, véus, tecidos, chás, especiarias, cerâmicas, doces. Numa palavra: Ali Babá existe e seus negócios são prósperos e imagéticos. O mais curioso é que não oprime. É uma destas capitais gigantescas, mas com um senso de personalidade sem precedentes. É deliquescente. Vibra.

No caldeirão maravilhoso que é Istambul, chama a atenção a onipresença dos gatos, que pulam das estantes das livrarias como se saltassem de páginas de livros: m-á-g-i-c-o-s! Orhan Pamuk já escreveu sobre os gatos e sobre os cães de Istambul, que são cuidados, adotados e amparados pelos locais, mas há uma forte predileção à turca pelos gatos. Daí, talvez, a sensorialidade cavilosa, implícita, que tece o encantamento alibabesco da cidade. E, ai!, como arde Istambul! É viva, solar, imagética, fabulesca! O idioma turco a estampar os letreiros; as cafeteiras manuais que lembram cestinhas pequenas de metal, na qual o café é feito sem a borra; os perfumes oleosos de rosas; doces em formato de ninhos, confeitados com pistache fresco; lenços coloridos, belíssimos, alternam-se com os jogos de chá de cerâmica colorida; castanhas cozidas nas banquinhas de rua; e o que dizer dos milhos?! O queimado é mais caro do que o cozido à normalidade, amarelinho feito gema! Ai, leitor, e os senhores que engraxam sapatos, que enchem as ruas com suas caixas douradas de pedras coloridas, como se abrissem uma caixa cheia de objetos mágicos, prontos a envernizar os sapatos dos passantes?! O Palácio Topkapi, onde residiram, durante séculos, os sultões, é dividido em alas, e embora guarde o segundo maior diamante do mundo, além de esmeraldas, pedras preciosas e talecoisa, me fez giros no coração por conta de uma porta. Ao abri-la, o espaço destinado à leitura é um cenário de livro, com azulejarias coloridas, madeira incrustrada com madrepérola delicada, e luz natural aos cachos. A biblioteca dos sultões, hoje, não guarda livros, mas o espaço está lá, intacto, fabuloso. Pode-se viver ali dentro uma vida todinha, havendo, ao lado, chá e histórias escrevinhadas aos jeitos das "Mil e Uma Noites", o clássico ficcional árabe. As tulipas, que hoje são patrimônio do mundo, mostram-se altas, grandes, suntuosas, pelos jardins de Istambul, e a predileção pelas vermelhas e roxas, coalhadas de floress brancas ao redor, é nítida.

Istambul exige olhos gulosos. É cenário de séculos, dos sultões aos viventes mortais comuns, como nós, daí o pêndulo à antiga que fascina, mitifica e até hipnotiza. Saí de Istambul como se feitiço houvesse tomado. Em que outro lugar os estojos são caixinhas alibabescas, pintadas em cores e arabescos à turca, feito caixilha para jóia, me perguntava eu! Se os lápis e canetas em cores não fossem tidos como jóias, por que haveriam de criar estojos de livro?! Eu gostei do jeito turco de se haver com as preciosidades! Sabem eles que diamantes não colorem vidas, não estampam cerâmicas, não perfumam o chá. E como não há modos de eu afastar a sensorialidade para descrever Istambul, vou provar a raiz magicada de seu povo até para a sonoridade. No tempo da chegada, perguntei como dizer "obrigada" aos jeitos locais. O senhor turco que me haveria de responder, me ensinou de um modo que eu mesma não haverei jamais de esquecer. Recomendou que eu juntasse, de uma só vez, as palavras (repare no refinamento imagético contido em cada um destes vocábulos, leitor), em inglês, "chá", "açúcar" e "sonho", cuidando de acrescentar o conectivo de adição "e", entre "açúcar" e "sonho", que, na prática, fica assim: tea-sugar-a-dream (chá-açúcar-e-sonho). Repita, em voz alta, por gentileza, leitor: tea-sugar-a-dream, tea-sugar-a-dream, tea-sugar-a-dream, tea-sugar-a-dream. Eis aí um falante de turco, vejam só, senhoras e senhores! A conexão onírica destes vocábulos quer dizer "obrigada (o)", em turco. Em outras palavras: chá, açúcar e sonho, que valem para a beleza da vida, também o valem para uma das palavras mais belas de qualquer idioma: obrigada (o). Por certo, soa um tanto quanto mim-tarzan, aos ouvidos sensíveis dos locais, mas fiz amplo uso desta palavra mágica, cheia de vocábulos visuais, e todos compreenderam à perfeição o meu "obrigada".

Cuido de dar asas aos sonhos, imaginando a vida cotidiana em Istambul, por entre ruelinhas e bazares de especiarias, tomando normal-tea-or-apple-tea, na anacrônica Istambul. Que se cocem os pragmáticos, cuidem de se haver com as urtigas os céticos, mas as mágicas existem, e eu creio nelas. Aliás, não sou a única. Por falar naqueles que creem em magias, deixo minha tristeza pela perda irreparável do escritor mexicano Carlos Fuentes. Também ele iniciou a mim e a tantos outros leitores no mágico mundo das histórias. Para selar Istambul, o desenho é da cerâmica Iznik, em cores de verde, vermelho e azul: "Sobre essa vida desabrocha o odor rançoso, amanteigado, apimentado, perfumado de incenso, de madeira aromática, esse odor magnífico, inesquecível do Oriente" (Paul Nizan).


Liubliana e as miudezas.

27 de abril de 2012 6

          Gizes coloridos possuem um senso de presença e importância que o papel artesanal compreende à perfeição – outros papéis também o fazem, mas com algum ceticismo jocoso, que infantiliza a cor ou a relega à pressão invisível do papel previamente decorado. Mimetizar a experiência da cor, quando vinculada às ranhuras de um papel artesanal em branco, me remete ao vocábulo que tão bonitamente usou Octavio Paz para descrever a experiência de se observar o sagrado em nível de inteireza completo, sem brechas, sem véus: teofania.

             Evoco a memória imagética do vocábulo “teofania” porque acesso Liubliana, a capital eslovena, no filtro da retina. Estou, ao fazê-lo, em um nível da consciência que anula a viagem em termos de concretudo, no sentido de se conhecer uma cidade de modo turístico, o que me permite narrá-la em nível de fábula. No plano terreno, Liubliana situa-se entre os Bálcãs e a Europa Central, mas é certo que, no plano dos gizes coloridos, é aquele tipo de cidade que, por meio da arquitetura, desloca sua concretude para um nível de etereidade muito particular, existente, também, em Praga, em São Petesburgo e Budapeste. Liubliana é muito imagética em sua topografia – economizo na descrição desta topografia para não dizimá-la com descuido adulto, diminuindo seu onirismo. São verdes e azuis seus gizes de base, com nuances mínimas de cores vibrantes, o que reforça a genuinidade dos vermelhos e amarelos da paisagem, sem comprometer o domínio evidente dos tons de base.            

               As ruas e paisagens da capital eslovena são cenários fabulescos, quase no sentido de cenário naturalista mesmo. E não o são a despeito da vocação centro-européia (altiva, barroca e onírica) ou como sintoma de um desejo oculto de fazerem de Liubliana uma capital impressionável: são fabulescas frontalmente, aos jeitos dos objetos (ou recortes, ou cenas, ou telas) cheios de significados mágicos, soltos em um palco de teatro. O acesso à magia de cada objeto requer interação simbólica direta entre o olhar do espectador e os sentidos ocultos dos objetos. De longe, sem absorção real do objeto, os olhos não o tocam. Como na mímese ao contrário – só é real o que não se pretende cópia.

                   Liubliana não é citadina. A batida urbana corre à revelia. Não é campestre, se espera o leitor a oposição simplista dos contrários. Não parece estar decidida a ser uma capital que não quer ser esquecida a nenhum custo, como Paris, nem tampouco a viver altivamente como se todos houvessem esquecido de um seu eventual passado faustoso. Ela coloca-se. É como, leitor, se juntássemos cidades de imponência inquestionável, neste continente europeu, como as capitais da Itália, da França, do Reino Unido, da Alemanha ou da Espanha: neste nível de categorização das cidades, eu pensaria “discurso”, ao passo que Liubliana me remeteria à “monólogo”. Neste nível, ela é a cidade que recupera, sem precisar pedir licença, a voz. E leva-se a termo. Uma sucessão de paisagens naturais mistura-se a um bazar de cenas construídas ao acaso, por meio do encontro de uma ruela com pares de tênis coloridos pendurados em um cordão; os pássaros volteiam pizzarias blasé, ladeadas por pontezinhas; os turistas existem e demandam as mesmas lembrancinhas escalonadas aos pacotes, mas até mesmo estes turistas parecem apresentar componentes etéreos mais elevados do que a média. Fazem mais caso dos dons da paisagem que coloca o projeto urbanístico a serviço da não-domesticação dos pássaros e das árvores (que abundam) do que dos dons pirotécnicos da Arquitetura individualizada. Dizendo de um modo anacrônico, do-tempo-das-profundas (como escrevinhou Jorge Amado): Liubliana é cheia de ligações magicadas não atravessadas por uma decisão prévia de que assim o seja.

                                                               

                  Investiga pequenas sabedorias: por que os pardaizinhos pousam a centímetros da mesa e comem pizza? Por que as cestas de palha esticam as cores? E por que são caras? Chove de repente em Liubliana, mas para onde vão os passarinhos se a cidade inteira é casa deles? As florezinhas do centro antigo são rododendros ou pétalas coloridas de giz? Pegar-na-veia-do-coração. Foi assim com a simplicidade de Liubliana. Me pegou na carne macia do coração, leitor.

                                                   

            Porque Liubliana não fala uma linguagem decomposta em castelos, torres, museus, monumentos e arcos, é preciso penetrar-lhe os arcanos e ler suas árvores, seus passarinhos, suas ruas em cascalho. Achei, assim, uma destas cidades inventadas, como açúcares cremosos, coisa lá de se desenhar com gizes de cor. Mas o causo é que existe. Eu estive nela. E com Felipe, pois que, sem ele, seria gris, branco-no-pretopreto, vermelho-sem-bolinhas-brancas.

                                    

            Como faz, hoje, um esplêndido dia de sol, volto a viver as cores. Reduzo o nível da linguagem e controlo a sobriedade do discurso para prosear imagens, daí por que me desculpo por colocar as palavras para jogar amarelinha, fazer bolhas de sabão, soprar cataventos. Os verdadeiros lugares, eu os guardo na minha caixinha de cidades-jóia, que vou redecorando e ampliando aos jeitos de ser ela já quase um baú – mas não um baú qualquer, destes, assim, marrom-castor-com-arranhões-na-madeira-à-antiga! Não! É um baú com libélulas entalhadas, de asas prateadas. Nele, estão Felipe, eu, e nossas miudezas (o chá, os passarinhos e histórias danadas demuitas). Quando eu o abro, como agora, em que puxei o pedacinho esloveno, todos os enigmas do mundo ficam pequenininhos, pois que, comparados às conchinhas-e-gizes-de-cor-e-selos-de-terras-estranhas-e-exóticas, reduzem-se a zangarias e enfadonhices.                                   

               Selo rouxinando as árvores, pois que, hoje, estou com vontade de dançar ciranda com as letras, mas, ai de mim!, seria vaidade barata colar o selo da missiva sem a marca d’água da magia. Eis, aqui, o selo imagético que vai com jeitos de poetizar os Correios e Telégrafos eslavos até o longínquo e querido Brasil: “Eu queria crescer pra passarinho” (Manoel de Barros).

               De Praga (quase 30 graus, mesmo à sombra), 

                             Lívia

O espelho imagético de Zagreb.

16 de abril de 2012 8

         Zagreb é uma capital pequena, destas que enchem as fotografias com recortes de cúpulas e fachadas barrocas, com seus cidadãos pacatos a sorver a vida no parque. Esboça, é verdade, um viés de beleza centro-européia muito típico, como também faz artesanias eslavas à perfeição, mas há qualquer coisa de favas-contadas, alguma coisa que nos olha diretamente no rosto sem se pronunciar às claras.

                          

         Creio mais judicioso dizer: Zagreb convoca paisagens tradicionais, mas sem idiossincrasias próprias. O exercício de polir a gema está comprometido de maneira sutil, apesar da beleza altiva do centro antigo, das ruelas, da conformação arquitetônica citadina. Na parecença com cidades outras é que reside este it cuja ausência se faz sentir. Aos jeitos de um excerto do escritor argentino Julio Cortazar, que nomina os cheiros que um lugar lhe evoca, Zagreb atuou, mais do que como uma cidade a ter explorado o núcleo macio e sanguíneo do seu coração, do que como um imperativo da memória: nas ruelas medievalescas, Talin e Vilnius me eram invocadas; na ampla praça cercada de construções altivas por todos os lados, as cidades do interior da República Tcheca se diziam; na avenida principal,  o centro de São Petesburgo surgia, enfileirado em lojas comerciais de fachadas assemelhadas. A beleza de Zagreb passou a categorizar uma visão crítica que aproxima o padrão estético das cidades européias, e, por extensão, o modo como o percebemos.

                                                         

             Felipe e eu isolamos, por algum tempo, palafréns-e-corcéis, e nos pusemos a minhocar o cerne do belo, no que tange às cidades européias. Categorizamos, assim, de solapa, as cidades cuja beleza possuem sua viga mestra na genuinidade (como as das terras italianas) ; aquelas que delineiam-se a partir das águas (como Estocolmo); as que fazem do rio seu adereço de maior envergadura (como Praga); as de construções altaneiras e imponentes (aos jeitos de Viena); as de personalidade incontestável (Paris). Temo corromper com as palavras uma explicação algo sutil, que pertence menos à definição do que ao campo visual de uma cidade, mas o direi do modo mais simples: toda e qualquer cidade é única em sua marca-a-ferro, sua insígnia própria, mas há, em paralelismo, cidades que, além de serem elas mesmas, são espelhos reminiscentes de outras.

                                    

             Assim, talvez, Zagreb. Que fique claro que, aqui, não me refiro à História de um povo, à claudicante e imperiosa marcha de um passado que é o temperamento de uma cidade tornado visível. Me refiro, antes, à apreensão da psique de uma cidade à primeira vista, narrada pelas suas construções, cores, disposições, praças e parques. A Europa comparte um código de beleza que, olhada com extrema delicadeza, nos desvãos menos esperados, embaça o olhar no longo prazo. Em verdade, a correção precisa ser tão honesta quanto a percepção (com o perdão absoluto da rima pobre, leitor): quanto mais se corre mundo, mais se reveem os lugares amados nos lugares recém-descobertos. Aí estando a comunhão que casa intensamente a beleza do Velho Mundo com os olhos que o apreciam.

             Assim como o filtro mágico de Tristão (o da Isolda, na Literatura) simbolizou, sempre, o amor em sua feição psicológica mais direta, também a beleza das cidades européias passam a atuar como filtro para as novas cidades do continente que vão sendo descobertas. É curiosa a relação de oposições entre uma cidade opressora, como Moscou, e uma cidade de beleza quase perfumada, como Zagreb, mas mais ainda a de similitude entre Zagreb e as capitais dos países bálticos, ou mesmo entre Zagreb e as cidades do interior da República Tcheca, pois que a chave da abóbada de Zagreb, nestas duas últimas comparações, é um pouco a de reforçar a beleza já vista, já apreendida, e, de certo modo, assimilada.

               A beleza de Praga pressupõe o véu sensual que a encobre, daí ser sempre multifacetada, embora, para ser verdadeiramente Praga, seja necessária a existência das torres, recortadas por entre o rio Vltava. Para mim, a beleza sempre deve pressupor alguma falha, daí por que são os caminhos sidéreos, quase sempre tortuosos, de ruelinhas de cascalho com ladeiras e portinholas pequeninas, que me espantam, repentinamente, num quadro de beleza extasiante. Eles como que desoprimem as paisagens de sustentarem uma Arquitetura que dispensa comentários elogiosos, como é a desta anacrônica Europa, permitindo que caiam ao chão, vez ou outra, cansadas da bandeja com a Renascença, o Barroco, o Gótico, o Neoclássico.

            Zagreb foi uma terça parte da maravilha de nele estar, pois que se decompôs em muitas outras cidades amadas e admiradas, que cuidei de registrar nas cambalhotas da retina. E, como bem observou o Felipe, os caminhos da Croácia para a Eslovênia estão entre os mais lindos que já vimos, através das janelas dos trens. Por certo iremos rever estes mesmos caminhos (ladeados de árvores folhadas,  já muito verdes, e pássaros adejando ao redor de alguns ninhos silenciosos) em espelhos imagéticos de outras janelas de trens, revestido da poderosa luz do céu croata - ou, ao menos, é este o desejo volitivo das paisagens que amamos.

             Sinto o perfume da terra molhada. É a chuva. Cai como se fossem retalhos de tecido adamascado, muito macia e  fina. Abro o estojo de caligrafia em laca vermelha, para guardar o pincel com o qual assino esta missiva - borro, sem intenção, o cantinho do papel, o que não compromete a beleza da tinta. Selada em Praga: "O que mais invejo são as pessoas naturais com sua própria carcaça" (Adélia Prado).

                                    Lívia           

Bilhetim esloveno-croata.

09 de abril de 2012 0

Observo, encantada, que a Páscoa, nesta Europa do Leste, é a celebração da vida pós-inverno. Nas ruas, nas praças, nas vitrines, nos restaurantes: ovinhos coloridos (as pessankas) abundam, com ninhos e passarinhos estampados a granel. Não há, aqui, o hábito de se presentear as pessoas queridas com ovos de chocolate. O sentido da Páscoa é duplo: o renascimento de Cristo e de todos os seres, com a chegada da primavera.

Nunca, jamais, vi tantos ninhos, ouvi tantos passarinhos e observei tantas homenagens a eles. No bonito Brasil, o sol abunda, as estações alternam-se às nuances, de modo que é sempre tempo de se estar ao redor das aves, de amá-las. Aqui, nesta época, depois de meses de silêncio, os pássaros trinam maravilhosamente, há ninhos por todas as árvores, ovinhos em todos os lugares, pois que, no inverno, toda natureza se guarda, nos vãos molhados da terra. Ver os pássaros, vivíssimos, felizes, a gorjear e a fazer ninhos é, na simplicidade clara de uma vela, a-coisa-mais-linda-do-mundo.

Felipe e eu tomamos os rumos da Croácia nesta Páscoa, onde ovos imensos, do tamanho das pessoas, pintados à mão, artesanalmente, confeitam jardins, nos mercados ao ar livre. As árvores, no ensolarado Zagreb, já estão todas folhadas, vestidas para os verdes bailes do verão, que a natureza anuncia. Tulipas coloridas pelas ruas, misturadas a toda sorte de flores heliotrópicas, que viram-se em busca do sol. De Zagreb, arrepiamos-caminho para Liubliana, na Eslovênia. A cidade, cujo nome contém a palavra "amor", é uma jóia. A começar pela paisagem que se avista desde o trem, de Zagreb até aqui.

Mas, ai!, meus caracóis já cuidam de querer contar as andanças por terras croatas e eslovenas, e o causo é que, hoje, vim ao jardim desta casa cibernética, para desejar uma Páscoa encharcada de vida, união e alegria, pois que é no renascimento da natureza, destas coloridas aves que ora cuidam de entrançar seus ninhos e acarinhar seus ovinhos, que está o sentido do amor.

Voltarei com os dedos de prosa, aos jeitos das andanças por estes belos plago e escrevinho o desejo de uma Páscoa ornada em doçura - a da vida, não apenas a do chocolate. Que seja alegre. E leve.

Lá fora, o céu varre as estrelas, com chuva. Selo com a insígnia que leva, ao leitor, o que vejo em Liubliana, a cidade do amor: "É a hora muito profunda em que os insetos do jardim estão completamente extasiados, ao perfume da gardênia e à brancura da lua". Cecília Meireles.

Dos jardins de Liubliana,

Lívia

Malta, o sonho.

26 de março de 2012 11

         (em tempo: sugiro "Carta ao Tom" para se ouvir Malta. em podendo, coloque o disco na vitrola, leitor!)

        Existe, na República de Malta, uma vocação para a harmonia, entre a vida e a natureza, que, conforme observou o o Felipe, sempre julgamos típica da Toscana, na Itália. Na maioria dos casos, contudo, os países europeus, inclusos os pequeníssimos, são muito mais afeitos ao amor pelos apetrechos solares do que se costuma crer. Malta é um arquipélago encravado no Mar Mediterrâneo, o menor dos países-membros da União Européia, com duas línguas oficiais (o inglês e o maltês), uma janela multiétnica e multicultural, com flores amarelas por todos os rendigotes das calçadas.  Há heranças culturais italianas, tunisianas, um pezinho de Gibraltar, um toquinho de Alexandria, em perfeita consonância. Malta foi, talvez, o lugar mais espetacultar em que já estive, no que tange ao estilo de vida junto à natureza. Eu trocaria dois dos vocábulos da máxima judaica - A alma humana é o castiçal de Deus - para contar Malta: A natureza é o castiçal de Deus.

                             

        Malta está entre a Itália e a África, e se amo tanto a Itália e nela tudo se me revela genuíno, igualmente amo a natureza selvagem, sem brechas, do continente africano. Em comum com os vizinhos, os malteses têm a mesma aversão por tudo o que há em nós, os modernos, de fatalmente típico. São 3, as maiores ilhas do país: Malta, Gozo e Comino. Em Valeta, a capital de Malta, situa-se o centro financeiro, mas  não há pirotecnias arquitetônicas a comprovar o poderio financeiro. Há, leitor, o cheiro do Oriente, com ares bizantinos sutis misturados às portas coloridas dos prédios à antiga. De Sliema, pequenina cidade onde nos refugiamos, pode-se ver Valeta, que, a cinco minutos de barco (os ônibus públicos das águas), atapeta os olhos com 4 ou 5 dos 320 monumentos históricos que abriga, o que faz de um espaço de 55 hectares um dos locais com densidade histórica mais importantes do mundo.

                       

                Sliema foi uma pequena vila de pescadores, em luas idas, e carrega, etimologicamente, o significado de "paz". É, em verdade, uma praia, com ares de balneário. Simpática, é verdade, mas, ora-com-a-breca!, é em Valeta que pretejam as cerejas, voam os pássaros, desnudam-se os restilhos luminosos do sol. Neste cortinado de grinaldas, Felipe e eu entramos num livro. De repente, estávamos num ônibus caindo-aos-pedaços,  sacolejando pela ilha de Gozo, perto da de Malta. Começo dizendo que, para chegar até Gozo, toma-se um ferry. O ferry este é um espetáculo digno daquele que vimos em São Petesburgo em direção à Tálin: um quase navio-do-Roberto-Carlos. Deslizamos pelas águas do Mediterrâneo coisa de 20 minutos, ao custo de 4-euros-e-bolinha por pessoa, e ei-la: a ilha de Gozo, cuja capital, Vitória, é repleta de casas à antiga, com aquela cor terracota das construções italianas, portinholas verdes e azuis, e plaquetas de cerâmica coloridas a adornar os números dos prédios. Há uma forte vocação à toscana em Malta.

                                                                     

             Foi ali, leitor, que tomamos o ônibus que caía aos pedaços, a que faço menção acima. O mais fantástico ônibus turisteiro no qual já embarquei, pois que nos levou aos prados de verdes, às ruelinhas salpicadas das flores amarelas que abundam em Malta, ao motorista de um carro manobrando com a ajuda do seu fiel cachorro a guiá-lo no banco do motorista com os olhos, às garrafas de azeite de oliva puro debaixo do sol pungente. E foi lá que, de repente, fomos engolidos por um livro de histórias! O causo foi, leitor, que passamos pela Gruta de Calipso. E que Gruta é essa, pergunta o leitor aos seus caracóis! A gruta em que Calipso manteve preso Ulisses durante 7 longos anos, em troca da promessa de imortalidade, narrada por Homero, na Odisséia. Estávamos ali!!!! Ai de nós, ai de nós! É o empíreo fazendo magias, leitor!

                          

             Creem os historiadores que naquele pedacinho da Ilha de Gozo estaria a (fictícia?) ilha de Ogigia, local em que Homero situa a caverna de Calipso, em sua obra literária. Zeus liberta Ulisses, que foge, enfim, em direção a sua leal Penélope. O pai de Penélope insistia para que a filha se casasse novamente, pois que Ulisses, desde a partida para a Guerra de Tróia, ficou desaparecido por longos anos, sem que se soubesse se estaria vivo ou morto. Penélope recusou-se peremptoriamente e aguardou o retorno de Ulisses, pois que a entrançadura do amor e da entrega entre eles a apoiava no essencial: na força da vida.

                       

               E se mais feitiços houvesse em livros outros, mais eu acreditaria tê-los vivido dentro das letrinhas, na Ilha de Gozo: existe lá a Janela Azul, uma falha geológica que faz as vezes de uma espécie de túnel por sobre o Mediterrâneo, na junção entre dois penhascos. É uma cena distante a léguas do falso sublime, como se as rochas, inanimadas, convocassem as águas a espalhar o perfume da maresia, num cenário do qual não se pode sair sem se pensar no sacrilégio que são nossos problemetas humanos. Diante da força acachapante da natureza que tudo harmoniza e sussura, é preciso um muro no qual se apoiar, pois que é nele que nos encostamos quando nos sentimos tão fortemente atingidos pelo que é inteiro, sem brechas.

                       

                 A Ilha de Gozo foi muralhada pelos romanos, ainda há um sítio histórico preservado, e, como em Malta, abundam as Igrejas. Sobre um país católico com uma herança árabe tão forte, em cujas terras a luz é coada por toda e qualquer janela, escrevo em bom-português, sem-patranhas-nem-parlapatices, com o maior topete: Manuel Bandeira que me desculpe, mas, quando eu crescer, vou-me embora para Malta, pois que lá os clarões são cerúleos, o pão é de frumento bem quente e o verde cúprico afofa melhor os ninhos por entre as árvores. Mas se são isso bagatelas para o mundo lá fora, voltemos à vaca fria. Felipe e eu saímos de dentro do livro tal como entramos: deslizamos de volta pelas águas até Malta, macios como sobre manteiga, e, de lá, arrepiamos-caminho até a bonita Praga.

                                                 

              Eu sei, eu sei, eu sei: já o leitor começa a dar piparotes com a imaginação, sonhando Malta. Sonhe, e sonhe até lhe cansar a veneta, leitor, porque para se salvar sonhos e palavras simples, basta o cajado simples: a vontade de torná-los reais. Neste momento, vigio, com o canto do olho, uma pomba por debaixo do sol, separada de mim pelo vidro da janela. Não esfolarei a cena com letrinhas. Sonhe o leitor com os olhos de açúcar da pomba, suas penas multiacizentadas, seu diapasão primaveril. Entamos, cá nestes plagos, no horário de verão. Enfim, o adágio que se eleva num crescendo poderoso: o sol! O frio ainda tentou fincar pé dias atrás, mas à sorrelfa, na surdina, pois que as folhas, sob a terra nua, agora são verdes, e não mais ocres.

                 O chá, agora, espalha suas verbena-mentas pela casa. O tom rosado da caneca que perfuma tem a função de realçar as nuances verdes das folhas da menta - às vezes, penso que poder se ver as cores é um luxo tão específico como o de se ouvir a música. São duas coisas que não se apaziguam com nenhum luxo caro que os tente comprar a crédito. Daí por que me recolho, pois que, lá fora, os passarinhos trinam como se cultivassem a consciência das flores, coloridas em suas golas acetinadas, presas às corolas, para dourarem os rostinhos ao sol. 

              Selo com o sonhático Pitágoras, para edulcorar os sonhos de todos nós, leitor, que são a vida, um tipo de hebetude do mundo de dentro, talvez análogo ao que busca o passarinho que agora trina lá fora: um abandono profundo, inteiro, aberto, à consciência de se estar vivo e de se poder estender a mão a todos os outros seres, que vivem e regoziam-se como nós, os  humanos. Eis o selo, pois: " Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma".

                       Primavera em Praga,

                                            Lívia

Barcelona. E o ninho.

13 de março de 2012 9

             O pequenino milagre assemelha-se aos desenhos que vão narrados em laca japonesa, mas, ao invés de um fundo negro, comum à laca, há o céu, hesitante entre o gris invernoso de há pouco e os tons de labareda da primavera, que se faz anunciar: Felipe e eu acompanhamos, diariamente, a rotina de um casal de passarinhos, em magníficos tons de preto, azul e verde, que, no Brasil, transmutam-se na espécie conhecida como "pega-rabuda". Adejando no topo de uma árvore, o casal construiu um ninho belíssimo, em formato de cone, entrançado em tons de castor e marrom-glacê, sem um só galho utilizado em nuance distinta. Eu até arriscaria dizer que o casal possui um refinado senso estético, pois que a casinha tem os jeitos das cabanas de chá nipônicas, que prezam a beleza dos materiais rústicos e evitam a decoração artificial. Pela manhã, até há poucos dias, ocupavam-se ardentemente da arquitetura prodigiosa da casa; ausentavam-se à tarde e voltavam à noite, vestidos em damascos verde-azulados.

                                        

           Há coisa de 3 dias, a rotina intercambiou-se: dona-Pipsi, agora, só raramente ausenta-se do ninho, e com frequência Pipo pousa com delicadeza em uma das tranças amadeiradas da casa, lançando, para dentro dela, um olhar languidamente inclinado, todo ele encharcado de atenção e cuidados. Hoje cedo, uma pomba tirante ao cinza claro acomodou-se em galho avizinhado ao da casa passarinheira, a contemplar o horizonte com vagar. Dali a pouco, Pipo, voando-as-cores-das-penas, aterrissou no galho e piou-lhe um puxão de orelha: a pomba partiu de pronto, aos sacolejos, e com todo zelo Pipo subiu dois galhos acima, para o ninho. Ao curvar as duas íris reluzentes de azeviche para a família, pareceu acalmar-se . Ao que parece, Pipsi estava tranquilamente aninhada por entre os ovinhos, pois que logo Pipo se lançou novamente aos ares, altivo e seguro como um pé de jasmim-do-imperador.

                          Inda-agorinha pendurei-me no vão de melhor ângulo da janela e os jardins da casinha dos nossos vizinhos estão tranquilos - provavelmente, Pipsi está recolhida no recinto, pois que o vento colocou-se em franco movimento! Na soberba dança da natureza, ouvimos, agora, logo cedo, o burburinhar dos passarinhos; em homenagem a eles, colorimos o parapeito da janela da cozinha com amores-perfeitos em tintas naturais, compostas de fúcsia, branco, amarelo-adouradado e azul-noite, com debruns coloridos nos miolos desenhados, e um verde-alface proeminente a emoldurá-los. As "meninas" moram, agora, em frente ao ninho do Pipo e da Pipsi, que, embora muitos metros ao longe e acima, no topo de uma árvore despenteada, dançam pelos ares, enchendo de cores as pétalas das nossas flores queridas.

                                                                                          

             A arquitetura enigmática dos nossos vizinhos de asas, conicamente primitiva, com formas à moderna, me remete à genialidade do arquiteto Antoni Gaudí, que fez de Barcelona uma maquete a céu aberto. A lúdica cidade da Catalunha tem uma esplêndida vocação solar, às costas do Mediterrâneo, com alcunha cosmopolita, mas raízes tremendamente locais. Ali, cores, vitrilhos e árvores em abundância esparramam-se pelas ruas. E, se Barcelona respira design, cores e formas, Gaudí é parte indissociável do fato.

                                    

              Suas criações são notadamente funcionais, com qualquer coisa de sugestão minimalista nos recintos, que contrasta vivamente com a abundância de ondulações, assimetrias, formas geométricas e pitadas magníficas de Art Nouveau e tons pastel, em fachadas fabulescas, típicas de livros de contos de fadas. A Casa Batlló, com esquadrias ousadas a emoldurar as janelas, mescla lilases, verde-água e azul-bebê: uma paleta inspirada em nenúfares e lagos, que Gaston Bachelard haveria, hoje, de transportar para o seu belo livro "A Água e os Sonhos". Rejeitada pelos espanhóis, há mais de cem anos, a fachada da Casa Batlló ocupa, neste século, um absoluto enunciado vanguardista. O teto, ziguezagueante, lembra escamas, e a ausência de ângulos retos contribui para a atmosfera onírica da construção.

                                

              Assim também a Casa Milà, rejeitada pelos contemporâneos de Gaudí, que, embora não ostente os ares mágicos da Batlló, é toda ela ondulante. O edifício dialoga com a sinuosidade típica do Movimento Art Nouveau, em clara alusão ao arquétipo feminino. E, ai!, quanta luz deve atravessar os janelões do prédio, pois que a posição ondulante das vidraças favorece a incidência luminosa em diversos ângulos.

                                          

              Nada, contudo, prepara o espectador para a experiência da Igreja  Sagrada Família. Elevadíssima, em quase voo e ascensão ao céu, a obra é uma alquimia neogótica e modernista, uma hipérbole de sentidos. Custei a crer que um projeto tão absolutamente inacreditável, que quase coloca em dúvida a possibilidade da execução, tamanha a sofisticação das formas, exista. A genialidade de Gaudí é não apenas criativamente espantosa, como chocante. Como foi que ele conseguiu transmitir aos executores tamanha angulosidade de formas? Como é que se pode tornar real algo que é da ordem da imaginação sonhática? As fachadas, soberbas, completamente distintas entre si, com adornos de frutas e leguminosas em tempo católico, e animais (caracóis, salamandras, pombas,...) personificam a celebração apoteótica, quase pagã, da natureza. Passando pela ode à água, que tanto se faz presente nas ondulações dos projetos de Gaudí, penso na invocação árabe: "Deveríamos ter confiado que o milagre não estava acontecendo em vão".

                                              

             Em frente à Sagrada Família, o enclave de um pequeno parque abriga banquinhos comuns às praças. Dali, pode-se observar a construção verticalizada, inacabada, no centro flamejante de um centro urbano. A genialidade de Gaudí, como artista, atravessou a dogmática barreira do Vaticano, e, em 2010, o Papa Bento XVI consagrou a obra como Basílica, com o cuidado de não deixar de lado o essencial - a liberdade do artista. Gigantesca, a construção narra a história do nascimento de Cristo; suas Paixão e Morte; e, finalmente, a Glória. As torres superam os 100 metros, rendilhadas em ornamentações detalhadas à tessitura da minúcia.

                                           

                 Gaudí, durante anos, dividiu-se entre vários projetos, e na década final de sua vida dedicou-se exclusivamente à Sagrada Família, tendo feito, de parte do recinto, sua residência permanente. Na tentativa de concluí-la, desenhou a costura das torres ao céu, imagem que, emprestada da memória, acrescento ao fundo do ninho dos passarinhos tchecos, na mais delicada laca japonesa.

                   Na esteira do gênio humano, invoco a reverberação de uma visita igualmente mágica, catalã por excelência: estivemos em território de Miró, na divinal Fundação Joan Miró (http://www.fundaciomiro-bcn.org/). Miró, o pintor (pois que Miró é, também, o doce e caramelado cachorro de minha vida, gaudério de nascimento), foi surrealista, expressionista e fovista. Numa palavra: cor, teu nome é Miró. Engajado politicamente, Miró usou as cores para expressar revolta, mas também a delicadeza poética de histórias oníricas, que parecem narrar contos infantis, em jorros e jorros de verde, laranja, vermelho, azul e amarelo. 

                           

              As flores da maravilha e as folhas da begônia, ladeando as cores das fachadas, os edifícios de Gaudí, as bergamotas perfumosas do Mediterrâneo (que aparecem aqui e acolá, pelos parques e jardins da cidade espanhola), são os amberinos olhos de Barcelona, que é quase heliotrópica, tamanha sua vocação em ao sol.

            Um minuto, por gentileza, leitor! Escuto dona Pipsi a cantarolar - corro para espiar e, ora vejam!, Pipo inclina o rostinho para dentro do ninho, a beijar mamãe e filhotes aos biquinhos! Neste céu em cor de labareda futura, em rondilhantes saias primaveris, selo a missiva com dez palavras que apontam o dedo para nós, humanos, vis, cobertos de lama espiritual: "Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma" (Pitágoras).

                     De Praga, a-vizinha-do-Pipo-e-da-Pipsi,

                                    Lívia

Andorra, a Mágica.

28 de fevereiro de 2012 5

         Com seus aproximados 460 Km2, o Principado de Andorra é o maior dos pequenos países da Europa, localizado na fronteira franco-espanhola, um enclave deslumbrante dos Pireneus, com sua natureza rochosa em estado bruto, polvilhada de neve, brocados verdes e Igrejas românicas. Cuidemos, pois, de narrar a capital, Andorra-a-Velha, encostando-nos cá nestas almofadas da Antióquia, perfumadas pelas pétalas do hibisco, de que é feito o karkadi, refresco árabe, que aromatizará o relato. Com o rouquejo do relógio, batem as horas da tarde; ouço a chuvinha fina a dançar na janela, ladeando pombinhas sonolentas: é a chuva da primavera banhando as flores que começam a nascer em Praga.

              

          Andorra-a-velha, de vocação catalã, apenas por acaso não se chama Andorra-a-mágica: no inverno, os montes dos Pirineus vestem-se de branco, e, de dentro da cidade, pequenina feito uma noz, a sensação é a de se estar no interior de um círculo, ladeado por abetos e pinheiros flocados, que muralham a paisagem em elevações e declínios topográficos. Costumeiramente, vai-se para Andorra para a prática do esqui ou para a maratona das compras, mas, ora bolas!, há, também, aqueles que, como Felipe e eu, lançam-se ao núcleo de uma cidade para aprender a amá-la, a contemplá-la e a perscrutá-la. "Perderam a tramontana!", poderá argumentar o leitor, ao que respondo, com os olhos molhados, lavados em cores: eu gosto das cornucópias mágicas, dos milagres pequeninos e das cidades dentro das cidades (o núcleo macio que tem toda cidade, e que só se revela em camadas simples e invisíveis, que são a vida local).

                                                  

            Andorra-a-mágica tem um patrimônio de Igrejas românicas que justificam uma trilha. São quase sempre sóbrias, em estilo lombardo, com pedras rústicas, marca inconfundível do período medieval. Ninguém ao redor por quadras inteiras, a neve a cobrir as ladeiras, e, de repente, no topo, uma capelinha rústica, simples como a fórmula da rosa, surge, altiva e isolada, na paisagem, e, logo ali, à esquerda, dois passarinhos claudicam as perninhas finas por entre os galhos nevados de uma árvore despenteada. Nem a mais grosseira camada de sujeira espiritual que envolve a nós, os mortais comuns, escapa ilesa da sensorialidade singela, silenciosa e perfeita de uma paisagem assim.

            Em poucas horas, cruza-se a cidade toda, de ponta a ponta, a pé. Estes lugares magicados pelo inverno são comumente intitulados de países-do-ouro-branco, ganham certa reputação de "requinte", vivem de propagandear os chocolates quentes, e é pela peculiaridade de não ser assim que Andorra-a-mágica tem, por assim dizer, aquele-sangue-que-se-faz-sentir. É simples, rústica, de arquitetura mediana, com montanhas irregulares, jeito plebeu, urbanismo imperfeito. Há qualquer coisa de urbanização dominada pela natureza, na contramão da civilidade à moderna. Estava frio, é verdade, mas nunca antes caminhamos por tantas horas debaixo da neve, sem guarda-chuva, e, sendo a neve tão pouco invasiva em comparação com a chuva, estávamos secos. Só muito raramente pisei em neve tão macia (assim como Dostoiévski distingue uma cidade por ser ou não meditativa, também a neve tem ou não o calibre genuíno da maciez), pouco acidentada pela aridez do cascalho, de jeito que até as pegadas nevadas têm certa peculiaridade em terras andorrenhas. Também foi lá que, caminhando, nos deparamos com a pequeníssima paróquia citadina de Engordany, onde, logo ali, na calçada, um respeitável boneco de neve ia se deixando viver por entre as mãos das crianças, supervisionadas pelo pai, que fazia as vezes de engenheiro-responsável-pelo-projeto. Num tom de baixo como o de um arquidiácono, segredo a você, leitor: está vendo aquelas crianças moldando o boneco de neve? É a vida verdadeira acontecendo.

              À parte as muitas lojas estilizadas em free-shops urbanos, em função dos muito baixos impostos cobrados sobre as mercadorias, e das escolas de esqui, e das Igrejas românicas, e das ruelinhas e ladeiras vazias e nevadas, Andorra-a-mágica é silêncio, contemplação e montanhas, entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França, com uma vocação clara para o Norte, na direção do deus da felicidade. A inteireza sem brechas sempre se comunica com uma genuinidade indisfarçável. Há coisas tão fundamentais sobre o núcleo imagético de uma cidade que centros como Londres e Berlim não compreendem, e assuntos tão sérios, do ponto de vista da vida de dentro de um lugar, pelos quais não se interessam, e que Andorra-a-mágica compreende sem a necessidade do dizer. É uma exceção virtuosa para uma regra comum. Como os jardins japoneses, não seria também abstrata a cadeia de montanhas de Andorra-a-mágica?

                                             

             Vejo o chuvinha fina desaparecer por entre a brisa e as pombinhas sonolentas abrindo os olhos de açúcar. Com a consciência instintiva de estarem vivas, acabam de levantar voo, em dobraduras perfeitas de cinzas. Selo, pois, com um fundo acizentado, decorado com bambus, típicos da estética japonesa: "Uma flor com as pétalas pintadas se abrira antes do tempo. O mestre parou para contemplá-la". (Yasunari Kawabata).

                          Lívia




La Torre di Pisa.

14 de fevereiro de 2012 7

        Com as neves tardias, o branco deixou a linda Praga com jeitos de pintura patinada, salpicada de verdezinhos aqui e pontinhos negros ali, pois que as plantas e as pombas ornam, magicamente, a paisagem invernal. Hoje, no entanto,  as cores são novas! Um infindável amarelo solar invade as casas, através das janelas, e o céu cintila o rastro de gelo por entre os telhados, com as pombas a dançarem, muito alegres, a intuitiva chegada da primavera, que logo há de polvilhar de cores e algodões as cidades européias!

                  

            Vou agora dispersar, como-amendoim-no-prato, esta frente fria (da Sibéria), que trouxe neve a granel no restilho do inverno, pois que o frio nada pode contra o extremo da magia que é subir a Torre de Pisa. Adentramos a Praça dos Milagres, na pequenina cidade da Toscana, vindos da estradinha cheia de ciprestes mediterrâneos. Na Praça, está o maravilhoso complexo religioso de Pisa: o Batistério, o Campanário e a Catedral (maravilhosamente cruciforme, em mármore branco e ranhuras em tons pastel). O complexo espalha uma destas belezas impossíveis de serem desassociadas do conjunto, e a Torre é ainda mais extasiante na moldura da Praça dos Milagres, feliz expressão cunhada pelo poeta italiano Gabriel D"Annunzio, que apreendia a verdadeira noção das imagens oníricas.

                                                                   

              A Torre, leitor, é um fenômeno inigualável para os olhos, pois que a inclinação é tão acentuada quanto as imagens fazem crer, e não apenas: com uma força delicada, emprestada da arquitetura majestosa que a sustenta. A inclinação aconteceu de modo gradativo, em consequência da instabilidade do terreno, com baixíssimo nível de compactação. Em 1174, quem poderia saber que a oscilação provocada pelo som dos 7 sinos da Torre chegaria ao ponto de quase levar ao chão a estrutura inteira, dada a instabilidade do solo? Quase-quase que o edifício inteiro desmoronou, na década de 1990, de modo que mal pudemos crer quando soubemos que, sim, poderíamos subir ao topo.

                                          

             Era uma manhã de domingo, e, por ser muito cedo, as hordas de turistas ainda não abundavam. Felipe e eu éramos dois pontinhos em meio a um grupo agigantado de japoneses. Demos voltas e passadas ao redor da Torre e olhamos e rimos e celebramos e inquirimos e rimos de novo e íamos neste grau da alegria maravilhosa de uma descoberta mágica quando descobrimos, por completo acaso, que não apenas existia possibilidade de se subir ao topo da Torre (que ficou fechada por 11 anos e reabriu em 2001), como havia dois exatos lugares vagos para a aventura nos próximos 15 minutos! E há quem duvide dos milagres cotidianos, Deus-meu! Japoneses por todos os lados, nós e um italiano-de-novela, que insistia em querer colocar ordem nos felizes nipônicos que guardavam, agitados, seus pertences, para a aventura: Aluccinante, bradava o italiano-de-novela, em franca referência à alegria nipônica que ele julgava desorganizada (na Itália!). Mas quem se importa com ordem, em pleno minuto de sonho?! Ma va!

             Nós (e os japoneses) atravessamos o pequenino pórtico que dá entrada ao interior da Torre e a sensação, leitor, é fantástica: dada a inclinação da construção, ora sente-se o corpo pender para a direita, ora para a esquerda; a força da gravidade quase que nos puxa em vários momentos; um encanto, como sempre diz a personagem Natacha, de Tolstoi! A escadaria, em caracol, tem pedacinhos dos idos de 1700, e era nisso que não conseguia parar de pensar conforme subíamos, escoltados pelos nossos colegas de aventura, os japoneses.

            Do topo, a cidade de Pisa faz gracejos em tons de terracota, contraste de cor com a arquitetura pisana da Praça dos Milagres, assim cunhada por conta do predomínio gótico com ares islâmicos, oriundos das relações comerciais com a Espanha e a África, no período medieval. A cada passada, sente-se a inconformidade do chão, no topo da Torre, e é genuína a sensação mágica de se estar voando num tapete mágico, cujas inconstâncias se devem às inclinações do voo, pelos ares. Contornamos o topo, fiz graça por debaixo de um imenso sino, testamos os declives debaixo dos nossos pés, e então sentamos para contemplar Pisa e o domo da Catedral, à altura dos nossos olhos enfeitiçados, que custavam a crer que, sim, estávamos numa construção iniciada nos anos de 1700, possivelmente inclinados se observados ao longe, sorvendo a beleza do céu, bem acima das nossas cabeças. O vento, lá no alto, serpenteava os fios dos cabelos, realçando a manhã-luminosa-num-domingo-no-topo-da-Torre-de-Pisa.

                                  

                     Impressiona, leitor, a monumental artesania dos andares. A Torre, cilíndrica, alcança os quase 56 metros de altura, distribuídos em 7 andares, e, do solo, a percepção ilusória é a de que o topo parece mais reto em relação à inclinação do corpo do edifício. No interior da Torre, contudo, é clara a percepção de que a inclinação é real da base ao topo. A verticalização, marca registrada do estilo gótico, acentua a simbologia de elevação terrena em direção ao céu.

              Quando atravessamos o pórtico de saída da Praça dos Milagres,  olhamos várias vezes para trás, beliscando os sentidos, e bem ali, às nossas costas, erguia-se, na amplidão, a Torre de Pisa, juncada pela brisa, pois que coube à Torre existir em uma paisagem de pintura à antiga, sem verniz à moderna. O dia já estava todo vestido de alegrias.

             No dia de São Valentim destes plagos, o selo tem fundo vermelho, debruado em salpiques de rosa, na viva tessitura do amor.  Para Felipe, conjugo o amor em letrinhas: "Vou a ti, seguindo a luz dos teus olhos, subindo por ela, caminhando pelo teu olhar, como por uma escadaria de astros" (Cecília Meireles).

                                             Lívia




Andiamo a Firenze!

02 de fevereiro de 2012 7

           Que ninguém o engazope, leitor: a Itália é a autêntica vocação solar da Geografia! Ora é o Berlusconi, ora é o Capitão Schettino; é o folhetim, depois os madona-mia gritados; o trânsito é caótico, falam-todos-ao-mesmo-tempo-agora, o próprio panem et circenses da Europa. È tutto, tutto vero, mas eu escrevo, em letras possantes: eu amo a Itália. Vá ser maravilhosa assim nos sonhos! Aquela cor variante entre o amarelo-ocre e o terracota que inunda as casas italianas, com o sol a bater em cheio nas lascas imperfeitas das paredes, toldoadas por verdes e caramanchões, é a compreensão viva da beleza. Anda-se um passo e tome um pedaço do Império Romano; dobra-se a esquina e lá está a Igreja na qual dormem, eternizados, Michelângelo, Dante Alighieri e Galileu; mira-se uma nuvem rosada contra o céu matinal e surge a torre de um Castelo de séculos-e-séculos-amém: ora, mas-assim-é-de-matar, como se diz por aí! Nem com mil prismas piramidades a atmosfera mágica da Itália poderia ser imaginada, se não existisse!

            

                  Lá fomos nós, Felipe e eu, olhar Florença nos olhos. No entretempo onírico, Florença tem qualquer coisa do DNA de Veneza, embora lhe falte o ar imagético e definitivamente sonhático desta última. É a Itália anacrônica, de outros tempos, com ruelas de pedra, Castelos à antiga, papelarias que nem o Ali Babá alcança na mais encantatória das Literaturas, e, mamma mia, Florença é a casa do "Davi" renascentista de Michelângelo. Estou por demais encharcada do feitiço italiano, nestas linhas, daí por que não cabe, neste momento, discorrer sobre o assombro, o epicentro emocional que a escultura causou ao meu mundo de dentro. Carta à parte, selada com a flor-de-lis, símbolo de Florença, escrevinharei sobre o "Davi". Voltemos à Florença. Vez em quando, eu olhava de través, por pirraça, para os lados, apenas para me certificar de que ali existia uma realidade, e a abundância de obras de Arte por centímetro quadrado me esmagava. É a própria trintena de centelha divina, genialidade humana e assombro terreno.

                       

              Em sua roupa monocromática, marrom-glacê, Florença é toda feita de pedras não polidas, cingidas por uma atmosfera passada bastante  forte. Aos pés do rio Arno, as famosíssimas Galerias Uffizi abrigam "O Nascimento da Vênus" e "Primavera", de Boticelli, e Michelângelo-e-da-Vinci-e-Giotto-e-Ticiano-e-Rubens-e-Rafael. Numa palavra: o maior acervo de Arte Renascentista do mundo, onde uma porta secreta (aberta ao público apenas mediante reserva) conduz ao"Corredor Vasariano", mais de um quilômetro de passagem, construído para Cosimo I, que iniciou a Dinastia Médici, poderio absoluto, em Florença, durante o período do Renascimento. Para não ser morto pelos inimigos, atravessava o corredor, fechado, para ir de casa ( Palácio Pitti) ao "escritório" (hoje, Galerias Uffizi).

                      

              Fomos visitar as tumbas de Dante, Michelângelo e Galileu, na bonita e rústica "Basílica de Santa Cruz". Raras vezes senti a força emanar a um ponto tão delicado, diante dos que já se foram. Subimos até a cúpula do Domo octogonal da Catedral de Florença, obra máxima de Filippo Brunelleschi, e toda a cidade descortinou-se ao longe, com a pátina terracota das construções italianas a embaciar a retina. Havia, ali, uma certeza definitiva e magnânima dos gênios renascentistas, ao apresentar a Arquitetura específica de uma época.

                 Debaixo da requintada simplicidade do sol, descobrimos a Gelateria "Perseu", que entrou no "top 3" da nossa caça à cremosidade e ao sabor dos sorvetes, cá por estas andanças européias. Cultivar uma sensibilidade sorveteira daquele nível é coisa dos juízos ainda operantes dos gênios florentinos! Anote aí, leitor: Piazza della Signoria 16, em frente ao divinal "Palácio Velho", dos anos de 1300 -  hoje, sede da Prefeitura. Vale mil derréis-de-mel-coado, como diz lá o João Ubaldo Ribeiro.

                        

            Selo desejando caminhos sidéreos, que levem para a maravilhosa Itália: "Via trita, via tuta" (Caminho trilhado, caminho seguro).

              Arrivederci a presto!

                          Lívia