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Os ingleses no mapa do Papa.

01 de outubro de 2010 5

      Em 1982, Karol Woitila, o Papa João Paulo II, desembarcou no Reino Unido para uma visita de caráter pastoral. No dia 16 de setembro passado, Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, realizou um feito inédito, do ponto de vista político: concretizou a primeira visita em missão oficial de um Pontífice ao país, que é maciçamente anglicano, em 500 anos. Tamanho feito impressionou a Coroa, que encarregou o Duque de Edimburgo, marido da Rainha Elizabeth II, de recebê-lo no Aeroporo de Edimburgo. A Soberana, também Chefe da Igreja Anglicana, recebeu o Pontifíce no Holyrood Palace, sua residência oficial em Edimburgo, logo depois.

                                  

     Foram 4 dias de visita ao Reino Unido, com o objetivo de reconciliar as Igrejas Católica e Anglicana, divorciadas desde o século XVI. Estima-se que sejam 6 milhões o número de católicos britânicos. Matéria publicada pelo The Times divulgou que apenas 14% da população foram a favor da visita. Doeu no bolso do contribuinte, leitor. Sendo a visita de caráter oficial, mais da metade dela foi paga pelos cofres britânicos. A conta? Quase R$55 milhões. Contudo, ao contrário do que apregoaram os meios de comunicação mundiais, as ameças mais ruidosas de protesto contra o Papa - em sua maioria por conta da passividade papal em relação aos crimes de pedofilia na Igreja -  não se concretizaram na Escócia, a não ser por umas poucas camisetas de veto explícito à visita. A Polícia local calculou que 100 mil pessoas estiveram presentes à passagem do Pontífice, na Princess Street, principal avenida da cidade, e os aplausos foram intensos. Apesar dos festejos populares, muitos intelectuais proeminentes do país foram contrários à missão em caráter oficial. Em documento coletivo, afirmaram que "não aceitam a máscara da Santa Sé como Estado", em alusão às omissões da Igreja nos casos de pedofilia.

          O Papa encontrou-se com o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron (do Partido Conservador - "tory" ), e também esteve com a líder interina da oposição, Harriet Harman (do Partido Trabalhista). Tony Blair, convertido ao catolicismo, participou da Missa rezada pelo Papa na Catedral de Westminster, em Londres. Com a expansão da União Européia (UE), sobretudo a partir de 2004, os católicos encontraram espaço na cena política inglesa. Bento XVI afirmou que a Religião desempenha um papel fundamental na Política, no que tange à aplicação da Razão. O Direito inglês baliza muitos sistemas legais no resto do mundo, e, segundo ele, está em harmonia com a Doutrina Social da Igreja. " Fé não desvaloriza a Ciência", apregoou.

          Os britânicos veem com cautela a aproximação da Santa Sé junto à União Européia, de um modo geral, e ao Reino Unido, em particular. Como se sabe, os ingleses são fortes defensores de sua autonomia, e não por acaso resistiram em ingressar na UE, muito antes de De Gaulle vetá-los por tantos anos. Contudo, o Papa tem em comum com a Grã-Bretanha a defesa do ingresso da Turquia no Bloco europeu. A Santa Sé não tem poder político para influenciar ativamente o debate europeu sobre o tema, ainda que, ideologicamente, suscite a questão.

           Molhos simbólicos à parte, leitor, deixo o selo: "Os pais sensíveis dão aos seus filhos raizes e asas. E também um mapa". Provérbio Chinês.

                      Lívia