Zagreb é uma capital pequena, destas que enchem as fotografias com recortes de cúpulas e fachadas barrocas, com seus cidadãos pacatos a sorver a vida no parque. Esboça, é verdade, um viés de beleza centro-européia muito típico, como também faz artesanias eslavas à perfeição, mas há qualquer coisa de favas-contadas, alguma coisa que nos olha diretamente no rosto sem se pronunciar às claras.
Creio mais judicioso dizer: Zagreb convoca paisagens tradicionais, mas sem idiossincrasias próprias. O exercício de polir a gema está comprometido de maneira sutil, apesar da beleza altiva do centro antigo, das ruelas, da conformação arquitetônica citadina. Na parecença com cidades outras é que reside este it cuja ausência se faz sentir. Aos jeitos de um excerto do escritor argentino Julio Cortazar, que nomina os cheiros que um lugar lhe evoca, Zagreb atuou, mais do que como uma cidade a ter explorado o núcleo macio e sanguíneo do seu coração, do que como um imperativo da memória: nas ruelas medievalescas, Talin e Vilnius me eram invocadas; na ampla praça cercada de construções altivas por todos os lados, as cidades do interior da República Tcheca se diziam; na avenida principal, o centro de São Petesburgo surgia, enfileirado em lojas comerciais de fachadas assemelhadas. A beleza de Zagreb passou a categorizar uma visão crítica que aproxima o padrão estético das cidades européias, e, por extensão, o modo como o percebemos.
Felipe e eu isolamos, por algum tempo, palafréns-e-corcéis, e nos pusemos a minhocar o cerne do belo, no que tange às cidades européias. Categorizamos, assim, de solapa, as cidades cuja beleza possuem sua viga mestra na genuinidade (como as das terras italianas) ; aquelas que delineiam-se a partir das águas (como Estocolmo); as que fazem do rio seu adereço de maior envergadura (como Praga); as de construções altaneiras e imponentes (aos jeitos de Viena); as de personalidade incontestável (Paris). Temo corromper com as palavras uma explicação algo sutil, que pertence menos à definição do que ao campo visual de uma cidade, mas o direi do modo mais simples: toda e qualquer cidade é única em sua marca-a-ferro, sua insígnia própria, mas há, em paralelismo, cidades que, além de serem elas mesmas, são espelhos reminiscentes de outras.
Assim, talvez, Zagreb. Que fique claro que, aqui, não me refiro à História de um povo, à claudicante e imperiosa marcha de um passado que é o temperamento de uma cidade tornado visível. Me refiro, antes, à apreensão da psique de uma cidade à primeira vista, narrada pelas suas construções, cores, disposições, praças e parques. A Europa comparte um código de beleza que, olhada com extrema delicadeza, nos desvãos menos esperados, embaça o olhar no longo prazo. Em verdade, a correção precisa ser tão honesta quanto a percepção (com o perdão absoluto da rima pobre, leitor): quanto mais se corre mundo, mais se reveem os lugares amados nos lugares recém-descobertos. Aí estando a comunhão que casa intensamente a beleza do Velho Mundo com os olhos que o apreciam.
Assim como o filtro mágico de Tristão (o da Isolda, na Literatura) simbolizou, sempre, o amor em sua feição psicológica mais direta, também a beleza das cidades européias passam a atuar como filtro para as novas cidades do continente que vão sendo descobertas. É curiosa a relação de oposições entre uma cidade opressora, como Moscou, e uma cidade de beleza quase perfumada, como Zagreb, mas mais ainda a de similitude entre Zagreb e as capitais dos países bálticos, ou mesmo entre Zagreb e as cidades do interior da República Tcheca, pois que a chave da abóbada de Zagreb, nestas duas últimas comparações, é um pouco a de reforçar a beleza já vista, já apreendida, e, de certo modo, assimilada.
A beleza de Praga pressupõe o véu sensual que a encobre, daí ser sempre multifacetada, embora, para ser verdadeiramente Praga, seja necessária a existência das torres, recortadas por entre o rio Vltava. Para mim, a beleza sempre deve pressupor alguma falha, daí por que são os caminhos sidéreos, quase sempre tortuosos, de ruelinhas de cascalho com ladeiras e portinholas pequeninas, que me espantam, repentinamente, num quadro de beleza extasiante. Eles como que desoprimem as paisagens de sustentarem uma Arquitetura que dispensa comentários elogiosos, como é a desta anacrônica Europa, permitindo que caiam ao chão, vez ou outra, cansadas da bandeja com a Renascença, o Barroco, o Gótico, o Neoclássico.
Zagreb foi uma terça parte da maravilha de nele estar, pois que se decompôs em muitas outras cidades amadas e admiradas, que cuidei de registrar nas cambalhotas da retina. E, como bem observou o Felipe, os caminhos da Croácia para a Eslovênia estão entre os mais lindos que já vimos, através das janelas dos trens. Por certo iremos rever estes mesmos caminhos (ladeados de árvores folhadas, já muito verdes, e pássaros adejando ao redor de alguns ninhos silenciosos) em espelhos imagéticos de outras janelas de trens, revestido da poderosa luz do céu croata - ou, ao menos, é este o desejo volitivo das paisagens que amamos.
Sinto o perfume da terra molhada. É a chuva. Cai como se fossem retalhos de tecido adamascado, muito macia e fina. Abro o estojo de caligrafia em laca vermelha, para guardar o pincel com o qual assino esta missiva - borro, sem intenção, o cantinho do papel, o que não compromete a beleza da tinta. Selada em Praga: "O que mais invejo são as pessoas naturais com sua própria carcaça" (Adélia Prado).
Lívia




