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O espelho imagético de Zagreb.

16 de abril de 2012 8

         Zagreb é uma capital pequena, destas que enchem as fotografias com recortes de cúpulas e fachadas barrocas, com seus cidadãos pacatos a sorver a vida no parque. Esboça, é verdade, um viés de beleza centro-européia muito típico, como também faz artesanias eslavas à perfeição, mas há qualquer coisa de favas-contadas, alguma coisa que nos olha diretamente no rosto sem se pronunciar às claras.

                          

         Creio mais judicioso dizer: Zagreb convoca paisagens tradicionais, mas sem idiossincrasias próprias. O exercício de polir a gema está comprometido de maneira sutil, apesar da beleza altiva do centro antigo, das ruelas, da conformação arquitetônica citadina. Na parecença com cidades outras é que reside este it cuja ausência se faz sentir. Aos jeitos de um excerto do escritor argentino Julio Cortazar, que nomina os cheiros que um lugar lhe evoca, Zagreb atuou, mais do que como uma cidade a ter explorado o núcleo macio e sanguíneo do seu coração, do que como um imperativo da memória: nas ruelas medievalescas, Talin e Vilnius me eram invocadas; na ampla praça cercada de construções altivas por todos os lados, as cidades do interior da República Tcheca se diziam; na avenida principal,  o centro de São Petesburgo surgia, enfileirado em lojas comerciais de fachadas assemelhadas. A beleza de Zagreb passou a categorizar uma visão crítica que aproxima o padrão estético das cidades européias, e, por extensão, o modo como o percebemos.

                                                         

             Felipe e eu isolamos, por algum tempo, palafréns-e-corcéis, e nos pusemos a minhocar o cerne do belo, no que tange às cidades européias. Categorizamos, assim, de solapa, as cidades cuja beleza possuem sua viga mestra na genuinidade (como as das terras italianas) ; aquelas que delineiam-se a partir das águas (como Estocolmo); as que fazem do rio seu adereço de maior envergadura (como Praga); as de construções altaneiras e imponentes (aos jeitos de Viena); as de personalidade incontestável (Paris). Temo corromper com as palavras uma explicação algo sutil, que pertence menos à definição do que ao campo visual de uma cidade, mas o direi do modo mais simples: toda e qualquer cidade é única em sua marca-a-ferro, sua insígnia própria, mas há, em paralelismo, cidades que, além de serem elas mesmas, são espelhos reminiscentes de outras.

                                    

             Assim, talvez, Zagreb. Que fique claro que, aqui, não me refiro à História de um povo, à claudicante e imperiosa marcha de um passado que é o temperamento de uma cidade tornado visível. Me refiro, antes, à apreensão da psique de uma cidade à primeira vista, narrada pelas suas construções, cores, disposições, praças e parques. A Europa comparte um código de beleza que, olhada com extrema delicadeza, nos desvãos menos esperados, embaça o olhar no longo prazo. Em verdade, a correção precisa ser tão honesta quanto a percepção (com o perdão absoluto da rima pobre, leitor): quanto mais se corre mundo, mais se reveem os lugares amados nos lugares recém-descobertos. Aí estando a comunhão que casa intensamente a beleza do Velho Mundo com os olhos que o apreciam.

             Assim como o filtro mágico de Tristão (o da Isolda, na Literatura) simbolizou, sempre, o amor em sua feição psicológica mais direta, também a beleza das cidades européias passam a atuar como filtro para as novas cidades do continente que vão sendo descobertas. É curiosa a relação de oposições entre uma cidade opressora, como Moscou, e uma cidade de beleza quase perfumada, como Zagreb, mas mais ainda a de similitude entre Zagreb e as capitais dos países bálticos, ou mesmo entre Zagreb e as cidades do interior da República Tcheca, pois que a chave da abóbada de Zagreb, nestas duas últimas comparações, é um pouco a de reforçar a beleza já vista, já apreendida, e, de certo modo, assimilada.

               A beleza de Praga pressupõe o véu sensual que a encobre, daí ser sempre multifacetada, embora, para ser verdadeiramente Praga, seja necessária a existência das torres, recortadas por entre o rio Vltava. Para mim, a beleza sempre deve pressupor alguma falha, daí por que são os caminhos sidéreos, quase sempre tortuosos, de ruelinhas de cascalho com ladeiras e portinholas pequeninas, que me espantam, repentinamente, num quadro de beleza extasiante. Eles como que desoprimem as paisagens de sustentarem uma Arquitetura que dispensa comentários elogiosos, como é a desta anacrônica Europa, permitindo que caiam ao chão, vez ou outra, cansadas da bandeja com a Renascença, o Barroco, o Gótico, o Neoclássico.

            Zagreb foi uma terça parte da maravilha de nele estar, pois que se decompôs em muitas outras cidades amadas e admiradas, que cuidei de registrar nas cambalhotas da retina. E, como bem observou o Felipe, os caminhos da Croácia para a Eslovênia estão entre os mais lindos que já vimos, através das janelas dos trens. Por certo iremos rever estes mesmos caminhos (ladeados de árvores folhadas,  já muito verdes, e pássaros adejando ao redor de alguns ninhos silenciosos) em espelhos imagéticos de outras janelas de trens, revestido da poderosa luz do céu croata - ou, ao menos, é este o desejo volitivo das paisagens que amamos.

             Sinto o perfume da terra molhada. É a chuva. Cai como se fossem retalhos de tecido adamascado, muito macia e  fina. Abro o estojo de caligrafia em laca vermelha, para guardar o pincel com o qual assino esta missiva - borro, sem intenção, o cantinho do papel, o que não compromete a beleza da tinta. Selada em Praga: "O que mais invejo são as pessoas naturais com sua própria carcaça" (Adélia Prado).

                                    Lívia           

Malta, o sonho.

26 de março de 2012 11

         (em tempo: sugiro "Carta ao Tom" para se ouvir Malta. em podendo, coloque o disco na vitrola, leitor!)

        Existe, na República de Malta, uma vocação para a harmonia, entre a vida e a natureza, que, conforme observou o o Felipe, sempre julgamos típica da Toscana, na Itália. Na maioria dos casos, contudo, os países europeus, inclusos os pequeníssimos, são muito mais afeitos ao amor pelos apetrechos solares do que se costuma crer. Malta é um arquipélago encravado no Mar Mediterrâneo, o menor dos países-membros da União Européia, com duas línguas oficiais (o inglês e o maltês), uma janela multiétnica e multicultural, com flores amarelas por todos os rendigotes das calçadas.  Há heranças culturais italianas, tunisianas, um pezinho de Gibraltar, um toquinho de Alexandria, em perfeita consonância. Malta foi, talvez, o lugar mais espetacultar em que já estive, no que tange ao estilo de vida junto à natureza. Eu trocaria dois dos vocábulos da máxima judaica - A alma humana é o castiçal de Deus - para contar Malta: A natureza é o castiçal de Deus.

                             

        Malta está entre a Itália e a África, e se amo tanto a Itália e nela tudo se me revela genuíno, igualmente amo a natureza selvagem, sem brechas, do continente africano. Em comum com os vizinhos, os malteses têm a mesma aversão por tudo o que há em nós, os modernos, de fatalmente típico. São 3, as maiores ilhas do país: Malta, Gozo e Comino. Em Valeta, a capital de Malta, situa-se o centro financeiro, mas  não há pirotecnias arquitetônicas a comprovar o poderio financeiro. Há, leitor, o cheiro do Oriente, com ares bizantinos sutis misturados às portas coloridas dos prédios à antiga. De Sliema, pequenina cidade onde nos refugiamos, pode-se ver Valeta, que, a cinco minutos de barco (os ônibus públicos das águas), atapeta os olhos com 4 ou 5 dos 320 monumentos históricos que abriga, o que faz de um espaço de 55 hectares um dos locais com densidade histórica mais importantes do mundo.

                       

                Sliema foi uma pequena vila de pescadores, em luas idas, e carrega, etimologicamente, o significado de "paz". É, em verdade, uma praia, com ares de balneário. Simpática, é verdade, mas, ora-com-a-breca!, é em Valeta que pretejam as cerejas, voam os pássaros, desnudam-se os restilhos luminosos do sol. Neste cortinado de grinaldas, Felipe e eu entramos num livro. De repente, estávamos num ônibus caindo-aos-pedaços,  sacolejando pela ilha de Gozo, perto da de Malta. Começo dizendo que, para chegar até Gozo, toma-se um ferry. O ferry este é um espetáculo digno daquele que vimos em São Petesburgo em direção à Tálin: um quase navio-do-Roberto-Carlos. Deslizamos pelas águas do Mediterrâneo coisa de 20 minutos, ao custo de 4-euros-e-bolinha por pessoa, e ei-la: a ilha de Gozo, cuja capital, Vitória, é repleta de casas à antiga, com aquela cor terracota das construções italianas, portinholas verdes e azuis, e plaquetas de cerâmica coloridas a adornar os números dos prédios. Há uma forte vocação à toscana em Malta.

                                                                     

             Foi ali, leitor, que tomamos o ônibus que caía aos pedaços, a que faço menção acima. O mais fantástico ônibus turisteiro no qual já embarquei, pois que nos levou aos prados de verdes, às ruelinhas salpicadas das flores amarelas que abundam em Malta, ao motorista de um carro manobrando com a ajuda do seu fiel cachorro a guiá-lo no banco do motorista com os olhos, às garrafas de azeite de oliva puro debaixo do sol pungente. E foi lá que, de repente, fomos engolidos por um livro de histórias! O causo foi, leitor, que passamos pela Gruta de Calipso. E que Gruta é essa, pergunta o leitor aos seus caracóis! A gruta em que Calipso manteve preso Ulisses durante 7 longos anos, em troca da promessa de imortalidade, narrada por Homero, na Odisséia. Estávamos ali!!!! Ai de nós, ai de nós! É o empíreo fazendo magias, leitor!

                          

             Creem os historiadores que naquele pedacinho da Ilha de Gozo estaria a (fictícia?) ilha de Ogigia, local em que Homero situa a caverna de Calipso, em sua obra literária. Zeus liberta Ulisses, que foge, enfim, em direção a sua leal Penélope. O pai de Penélope insistia para que a filha se casasse novamente, pois que Ulisses, desde a partida para a Guerra de Tróia, ficou desaparecido por longos anos, sem que se soubesse se estaria vivo ou morto. Penélope recusou-se peremptoriamente e aguardou o retorno de Ulisses, pois que a entrançadura do amor e da entrega entre eles a apoiava no essencial: na força da vida.

                       

               E se mais feitiços houvesse em livros outros, mais eu acreditaria tê-los vivido dentro das letrinhas, na Ilha de Gozo: existe lá a Janela Azul, uma falha geológica que faz as vezes de uma espécie de túnel por sobre o Mediterrâneo, na junção entre dois penhascos. É uma cena distante a léguas do falso sublime, como se as rochas, inanimadas, convocassem as águas a espalhar o perfume da maresia, num cenário do qual não se pode sair sem se pensar no sacrilégio que são nossos problemetas humanos. Diante da força acachapante da natureza que tudo harmoniza e sussura, é preciso um muro no qual se apoiar, pois que é nele que nos encostamos quando nos sentimos tão fortemente atingidos pelo que é inteiro, sem brechas.

                       

                 A Ilha de Gozo foi muralhada pelos romanos, ainda há um sítio histórico preservado, e, como em Malta, abundam as Igrejas. Sobre um país católico com uma herança árabe tão forte, em cujas terras a luz é coada por toda e qualquer janela, escrevo em bom-português, sem-patranhas-nem-parlapatices, com o maior topete: Manuel Bandeira que me desculpe, mas, quando eu crescer, vou-me embora para Malta, pois que lá os clarões são cerúleos, o pão é de frumento bem quente e o verde cúprico afofa melhor os ninhos por entre as árvores. Mas se são isso bagatelas para o mundo lá fora, voltemos à vaca fria. Felipe e eu saímos de dentro do livro tal como entramos: deslizamos de volta pelas águas até Malta, macios como sobre manteiga, e, de lá, arrepiamos-caminho até a bonita Praga.

                                                 

              Eu sei, eu sei, eu sei: já o leitor começa a dar piparotes com a imaginação, sonhando Malta. Sonhe, e sonhe até lhe cansar a veneta, leitor, porque para se salvar sonhos e palavras simples, basta o cajado simples: a vontade de torná-los reais. Neste momento, vigio, com o canto do olho, uma pomba por debaixo do sol, separada de mim pelo vidro da janela. Não esfolarei a cena com letrinhas. Sonhe o leitor com os olhos de açúcar da pomba, suas penas multiacizentadas, seu diapasão primaveril. Entamos, cá nestes plagos, no horário de verão. Enfim, o adágio que se eleva num crescendo poderoso: o sol! O frio ainda tentou fincar pé dias atrás, mas à sorrelfa, na surdina, pois que as folhas, sob a terra nua, agora são verdes, e não mais ocres.

                 O chá, agora, espalha suas verbena-mentas pela casa. O tom rosado da caneca que perfuma tem a função de realçar as nuances verdes das folhas da menta - às vezes, penso que poder se ver as cores é um luxo tão específico como o de se ouvir a música. São duas coisas que não se apaziguam com nenhum luxo caro que os tente comprar a crédito. Daí por que me recolho, pois que, lá fora, os passarinhos trinam como se cultivassem a consciência das flores, coloridas em suas golas acetinadas, presas às corolas, para dourarem os rostinhos ao sol. 

              Selo com o sonhático Pitágoras, para edulcorar os sonhos de todos nós, leitor, que são a vida, um tipo de hebetude do mundo de dentro, talvez análogo ao que busca o passarinho que agora trina lá fora: um abandono profundo, inteiro, aberto, à consciência de se estar vivo e de se poder estender a mão a todos os outros seres, que vivem e regoziam-se como nós, os  humanos. Eis o selo, pois: " Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma".

                       Primavera em Praga,

                                            Lívia

*Londres? Uma Viena, por gentileza!

17 de novembro de 2010 3

      (*parafraseando título de artigo publicado em revista checa, sobre Viena. No original: "Uma

Viena, por favor!")

      Londres é uma cidade cosmopolita, como se sabe desde sempre, mas peço licença,

leitor, para hesitar diante dela. Colocar-se em questão de amores com uma cidade é coisa tão pessoal que

creio ser importante aclarar: eis aí meu gosto pessoal se fazendo, que cada cidade tem

seu objeto próprio de amor. Pois Londres me faz sentir oprimida. Nela mora a marca

peculiar do excesso. Não me tome por generalista, que há maravilhas condensadas em

qualquer lugar em que se vá neste mundo (especialmente nos menos roubados pela

civilização ordeira que somos nós, os visitantes muitos), contudo, eis que Londres não

polvilha meus sentidos como o fazem, por exemplo, Viena e Copenhagen (articulando

a intuição, arrisco escrevinhar que Amsterdam também deve ser enfeitiçada por demais).

            Para Londres, tanto se lhe dá se faz-se o dia ou

se já há muito a noite acontece: o ritmo é o mesmo. Em Londres, cabem tantas coisas

e pessoas, que o indistinto das delicadezas, dos pequenos milagres, passa escorregado pelo

trivial. Na Londres contemporânea, bebe-se o chá sem que muito se dê por ele (faz mais

brilho bebê-lo com a naturalidade esquecida do que com a atenção de dois ou três minutinhos.

Importante diferenciar porque esquecer-se de algo para incorporá-lo ao cotidiano implica

ignorá-lo enquanto objeto visto e acarinhado pelos sentidos; atentar com naturalidade,

sendo já o hábito incorporado, é coisa diversa, que implica olhar e perceber, reconhecer,

dar-se por feliz em viver o pequeno milagrezinho do rito), como se o cheiro de poejo e

matricária esmagados não exalasse lá alguma mágica, energizando olfato e o paladar.


                  

              Não coloco os pés na paisagem metafórica do futuro, que ainda muito quero ter com

Londres - sabê-la mais humana e menos automática, talvez. Aqueles outdoors anunciando

produtos demais, aquelas gentes fumando e caminhando rápido demais, o gênio inglês

já gris quase que por hábito do que por distinção e personalidade, a roda-viva da qual

se corre atrás. Podemos, no entanto, dizer nós que as capitais do mundo também não carregam

esta opacidade opressora? Mas, ai, leitor, não estamos a misturar tamarindo com cinábrio!

O que se quer é amar as cidades em suas delicadezas e mistérios, em sua capacidade de nos

colocar em xeque a vida e as culturas, e, de certo modo, as cidades nos ensinam também

a nos voltar para dentro da casa da alma, que os lugares de fora são as projeções dos

lugares de dentro. E Londres é notívaga, fumante, bebe às favas, congrega os cheiros

de fumaça, é-tanta-coisa-que-tudo-é-nada-e-nada-é-tudo. Às cambulhadas", como diria o Machado.

Eu, cá, sou diurna, gosto de ver os bichos acordando e dormindo segundo as regras da natuerza,

saúdo o céu azul do mesmo modo que me guardo quando ele se recolhe, cinzelado, e me

 desespero com barulhos e luzes e gentes e estímulos assim, reunidos a um só tempo. Ai,

se a gente não corre pra dentro de si, como nos gastam os estímulos excessivos de lugares assim!

Stendhal escreveu que, quase sempre, um homem ama, na mulher eleita, o que

ama na vida (valendo a mesma regra para nós, mulheres, em relação aos homens), e eis

aí, creio, o evidente paralelo com os lugares. Minha vida de dentro dá para o

recolhimento, talvez daí a impossibilidade de viver

no ritmo de lugares onde impera algum excesso (os piores são os envernizados, que

se creem modernos antes mesmo de o serem), mas Londres tem suas graças, que

a mágica não é exclusividade dos escandinavos, oras! E um dos truques é 221B Baker street,

residência de Sherlock Holmes, esta personagem fantástica que adoro desde pequena.

           Elementar, meu caro Watson, a casa é uma criação fictícia, daí por que perfeita,

um portal valioso para a imaginação. As escadas rangem, ao modo das residências inglesas

antigas; há lareira; todos os objetos (a lupa, o casaco, o violino, os livros - muitos - ,

os mapas, os tubos de ensaio, a marca do refinamento em objetos de prata enegrecidos

pelo tempo, as correspondências) lá estão, para deleite de nós, os leitores.  Príncipe Charles mandou carta ao detetive,

tendo sua Secretária Real assinado de punho próprio, com timbre monárquico, o texto.

Há o quarto de Holmes, há o quarto de Watson, há a sala principal, o hall, o toalete.

E, eis que de súbito, dou com Watson, quando desço as escadas estreitas da residência.

Quando me descobre brasileira, fala comigo em português-tinindo-de-castiço. Ahá! Truque básico: aprendem

4 ou 5 palavrinhas dos idiomas dos turistas e aplicam-nas para impressioná-los. Eu, me

dando ares superiores, confirmo a regra íntima: não se deixe contaminar pelo cinismo

do mundo tão rapidamente. E funciona! Eis que Watson conhece a Geografia brasileira, tendo

é claro, o cuidado de sempre entrelaçar as frases com a personagem, que me lembra,

polidamente, que sempre gostou de Geografia. Conversamos sobre as eleições presidenciais,

que ainda estavam por acontecer, e até arrisquei um outro tema da trivialidade, para

testar-lhe o português (o ego tentando ensombrecer a magia). É tudo verdade: Watson

estava lá e Holmes poderia chegar a qualquer momento. Estive em casa do detetive e trouxe

comigo o cartão de visitas, que não-troco-nem-por-todos-os-chás-da-China.

                  

                      Não estou a fantasticar tangerinices: no quarto de Holmes,

abri os armários e procurei, no livro em repouso na mesa de cabeceira, algum sublinhado

específico, tendo, também, observado as partituras muito gastas (o que nos faz supor que

foram sempre muito usadas) ao lado do violino. O cheiro de tabaco bem lembrava aquele

perfume pouco marcado do jasmim à noite, quando o vento dissipa as notas da flor, com

suavidade. Não ouvi as rodas do cabriolé, sugerindo a chegada do dono da casa, mas

fucei atá não mais poder, leitor. A menininha que eu fui é que narra isso tudo, tendo

arregalado os olhos em bolas.

                   

                 O dia, hoje, foi-se às 16h12, mais cedo do que o habitual, frio de enregelar

abelhas,  que as vejo aqui e ali, beijando as flores para abastecer o colmeal. Vou-me para

a casa de dentro, que algum chá perfumado farei logo mais. Eis o selo: "Toda crise

da sociedade é, definitivamente, uma crise da imaginação". Alberto Manguel.

                        Lívia




Escrevinhando Berlim.

26 de outubro de 2010 4

     Era domingo e chovia. Berlim, toda ela protegida atrás dos vidros,

em arranha-céus que competem com os de Nova York,travou

uma luta arraigada com meu íntimo. De um lado, o símbolo magnânimo

da Prússia, da República de Weimar, da ex-Alemanha Oriental,

da ex-Alemanha Ocidental. Do Muro. De outro, o cinza, o concreto,

os canteiros de obras, os vazios urbanos, a arquitetura excessivamente

contemporânea, os amplos panos de vidro. Berlim não me

seduziu. Estou, agora, generalizando precocemente, que a

alma da cidade é toda ela muito sentida e de não pouca personalidade,

mas não a coloco nos termos urbanos de Paris, Roma, Londres,

Praga e mesmo Copenhague. E se não o faço, e se assim ela

não se mostra, é porque Berlim carrega, em suas costas surradas,

um lombo calejado, com a História a lhe atravessar as vísceras,

nem sempre com trégua. Berlim, esta altiva senhora, merece e invoca,

com naturalidade, respeito. Que sua história é das mais doídas.  A capital alemã não toma para si

a alcunha da vitimização, o que não quer dizer que isso lhe torne

o caminho mais suave. Forte desde o princípio, ainda hoje

apresenta-se inteira em sua vocação mais rapidamente

sentida: a de sucessivos reerguimentos depois de muitas quedas.

           Berlim está dividida, literalmente, em mitte (meio),

o centro. À época da Guerra Fria, era o ponto exato

da divisão entre o Leste e o Oeste da cidade. Hoje, abriga o

Parlamento, a Chancelaria Federal e escritórios a granel.

É curioso observar como o nacionalismo alemão, tão presente

na retórica, vai de encontro aos fatos: o principal Banco

da Alemanha não pertence aos alemães. É de propriedade majoritária

de investidores estrangeiros. Não se pode desconsiderar a

importância da manutenção da identidade, este algo tão valioso,

sobretudo neste mundo controverso, e o importante é que

o poder da marca de um Banco nacional supera a percepcao

de quem o maneja. Assim também acontece com detalhes

pequeníssimos, como o sorvete. O coração branco no fundo

vermelho, logomarca da nossa Kibon, é, leitor, o símbolo

mais poderoso do capitalismo mundial nos países da Europa!

Explico. A cada país europeu, assume um novo codinome:

Langnese (Alemanha), Algida (Itália), Frisko (Dinamarca),

Miko (França), Walls (Reino Unido). Neste mosaico de

ressignificados locais, ouso inserir Berlim. A harmonia do

conjunto é híbrida, da Arquitetura aos ícones de referência.

Tenhamos em mente, contudo, o senso histórico: dividida em duas,

Berlim, ainda hoje, tem uma paisagem fragmentada.

                 

              A famosa Alexanderplatz, praça central da antiga Berlim

Oriental, apresenta vácuos e espaços vazios, que raramente

parecem lembrar o conceito de praça. A popular antena-de-Berlim,

Berliner Fernsehturm, polui o visual do centro, sobretudo à

noite, com suas cores fluorescentes a dançar pelo mastro.

Os prédios comerciais, altíssimos, são inteiramente feito

de vidro e aço, assim como a maioria dos shoppings, galerias

e estações de trens. Muitos centros comerciais apresentam-se

ao estilo Bauhaus, mas em uma leitura inautêntica, que

remete ao concreto, ao cinza e às logomarcas das lojas.

            Invoco, contudo, a atenção para o fato de que são

estas impressões atravessadas pelo gosto pessoal. Não se

deixe enlevar pelo que escrevo gratuitamente, sem aguçar

o senso crítico. Isto posto, vamos do cinza para as cores.

Comecemos pelas tonalidades vertiginosas de amarelo e vermelho que pintam

as árvores neste outono gelado. São exageradamente lindas,

as árvores em suas cores combinadas, num dégradé quase

mágico. É fato: também as árvores conversam e cuidam

de apurar, juntas, o senso estético da natureza. Berliner

Don, a Catedral de Berlim, bombardeada durante a

Segunda Guerra Mundial,  foi reinaugurada em 1993 (depois de 4

décadas sob restauro), e deslumbra. Embora não seja, de fato,

uma Catedral, dadas suas raízes evangélicas, é um tesouro

neoclássico. A vista, das escadarias do edifício central,

abriga o complexo de Museus. Tudo está localizado na

Unter den Linden, avenida que reúne edifícios barrocos

e neoclássicos da era imperial.

           

             Caminha-se belamente pela charmosa avenida quando,

ao final dela, avista-se o ícone alemão de grande

envergadura histórica: o Portão de Brandemburgo, com

suas seis colunas dóricas a elevar, no alto, uma quadriga.

Quadriga esta que morou bons anos na França: Napoleão

cuidou de levá-la para seus plagos, como símbolo da vitória,

depois de invadir a cidade por meio do Portão. De volta

para casa, em 1814, a quadriga não de todo fixou-se em paz,

no alto do monumento. Tendo estado voltada para o Oeste,

desagradou Stalin, que mandou que invertessem sua posição.

Para Leste, com os olhos voltados para Berlim Oriental.

Por ora, nada-de-novo-no-front: está posicionada como na

origem. E em casa.

           Caminha-se, caminha-se, caminha-se, e, onde,

raios, estão os restaurantes?! Em pleno centro, ponto de

interesse de turistas (na Alemanha,

delicados, sem a invasiva máquina a

ler a matriz de real em substituição aos sentidos),

nada de restaurantes. Cafés aos montes - o que, aliás,

é outro elogio à cidade. Muitos Cafés charmosos e um chá

de sabor suave e predominantemente verde. Chama-se

MeBmer, a marca dos que provei. A mistura de chá branco

com chá verde é particularmente especial. Sabor quase

macio. É facilmente encontrado em supermercados e

delicatessens, Cafés e restaurantes. A caixinha custa algo

em torno de 2 euros e as misturas de sabores são muito

harmoniosas - eu, que não gosto de mel, adorei o de menta

com o composto das abelhas. Se for à Alemanha e gostar

de chá,  experimente (os alemães, aliás, foram

os primeiros grandes bebedores de chá desta Europa,

ao contrário do que se pensa, creditando o hábito aos ingleses

desde sempre). Mas voltemos aos restaurantes:

a sorte  sorri quando se encontra um italiano. Em

Berlim, o cardápio das trattorias mantêm um

padrão: há quase sempre, no menu, a opção "tripasta", invariavelmente

uma mistura fixa de nhoque ao molho de tomate, spaghetti

ao molho pesto e penne à bolonhesa. Benissimo!

          

           Diz-se que a vida noturna, na cidade, é majestosa,

para os notívagos de plantão. Sinto, leitor, em não poder

lhe informar a respeito, que nenhuma intimidade mantenho

com o tema. Chama a atenção, pelas ruas, contudo,

a menor incidência de cigarros, se comparada àquelas

do Reino Unido e da Itália. O tabaco (assim como a bebida)

é assunto de saúde pública para

os ingleses, em razão de os jovens fumarem e beberem

muito. É comum encontrar colegiais aparentando pouco

menos que o dobro da própria idade, em decorrência da

pele embaçada e das olheiras ainda discretas. Na Alemanha,

contudo, há menos fumaça.

           Berlim apresenta um custo de vida razoável, e,

no que tange à sensorialidade dos sabores, uma gama infindável

de chocolates, incluindo sabores de violeta e o clássico

marzipan, a pasta suave de amêndoas doces. Há excelentes

livrarias, com títulos e autores dos melhores,  e mesmo seções para

bibliófilos, com capas coloridas e papéis especiais. Estou

às voltas com Herta Müller, que lerei pela primeira vez

(em inglês). E por falar em dedo de prosa, recomendo, com

singeleza, Seda, do italiano Alessandro Baricco.

Em terras alemãs, voltei com a versão do belo romance

no idioma original, para azeitar  a intimidade bonita

com a língua, que estudo com amor. O livro, em português,

tem uma bonita capa à oriental, pela Cia das Letras, e

é sensorial na medida do que se pretende um sonho. A leitura

tem ares de fábula, o enredo é econômico, as palavras são escolhidas

a dedo, sem desperdício de sentidos. Havendo possibilidade

de recolhimento para estar em companhia literária, orne-se

 a alma com a leitura do Baricco. É, no mínimo, sensorial.

           Valei-me! Já é muito noite, leitor. Vou-me-embora

para-Pasárgada. O selo, hoje, será ibérico, em contraste

com o centro-norte europeu. Ei-lo:

     "Uma mentira são duas degradações; deixamos de nos respeitar porque afirmamos

o falso e deixamos de respeitar o outro porque o lançamos

em erro". Eça de Queiroz.

                       Lívia

Carta para Felipe - selo romano.

06 de outubro de 2010 3

      (Atenção, leitor! Esta é uma carta sobre Roma da qual participará, implicitamente, Felipe. Impressões colhidas a 4 olhos e a 2 almas, pois.)

      cúmplicemeu,

     Sorvo água quente, com um Comptoir Richard. O chá de versão verde com jasmim. Perfumando a noite, que elabora, lá fora, um vento dos mais gelados. Que tal Praga, nesta quarta-feira exigente? E o azul licoroso dos seus olhos? Penso, aqui, na hora cheia do relógio astronômico, fazendo graça na Praça  (rima pobre para uma imagem nobre). Sexta está quase aí - levarei caixa nova de chás e também um artigo com os tchecos e os alemães, mas, agora, peço licença de nós, para falar aos leitores sobre Roma.

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       Direto ao linguine à bolonhesa, leitor. Eis por que Roma, para mim, é mais interessante do que Paris: vive-se, lá. As crianças vão à escola, o tiramisu é feito em casa, o motorista buzina para o carro da frente enquanto gesticula para o transeunte, os casais sentam-se nos banquinhos para viver-a-vida-verdadeira em meio à "turistada", anda-se de quadriciclo em parques históricos. Atenção, muita atenção: o Starbucks NÃO existe em solo italiano, leitor! Não ousa desafiar a tradição italiana dos cafés verdadeiros. Haja personalidade, romanos! Mas, ai, como fumam! Valei-me!

        Paris tem os melhores chás (os ingleses são quase sempre do tipo fermentado, black tea, sem o aroma suave e perfumado dos chás verdes e lavandados da França), as mais lindas sapatilhas, o charme das pequenas delicadezas, paisagens oníricas, uma língua très belle, Museus extensíssimos, uma atmofesra mágica. Mas, parafraseando o Felipe, Paris-parece-raptada-pelos-turistas. Onde, raios, estão os parisienses vivendo a vida, enquanto hordas consomem a paris-para-estrangeiros-ver? Ai, a inteireza sem brechas de Roma!

     Camadas-de-História.

      Não, leitor, não escrevinharei, mais abaixo, sobre as dicas-e-os-lugares-e-as-pizzas-e-os lattes-macchiatos-e-a-capela-sistina-que-é-algo-miraculoso-e-estonteante-mesmo-e-os-guardinhas-que-gritam-no-pictures-please-876-vezes-durante-um-só-dia-de-trabalho-e-tartufo-nero-e-as-2-linhas-de-metrô-e-o-Vaticano-e-a-cúpula-de-são-pedro-e-o-panteão-e-o-preço-da-garrafa-de-água-no-coliseu-originalmente-chamado-de-anfiteatro-flávio. Nananinanão. Farei jejum do guia para turistas (generalizando perigosamente, como notarão). Incensemos Roma, hoje, com um poucachinho só do Mercado de Trajano e do Fórum Romano. Abro parênteses para deixar registrado este roteiro clássico a mais: a Casa em que Lívia morou com o marido, Otávio Augusto - mais tarde, apenas "Augusto", primeiro Imperador de Roma, no ano 27 a.C.-, incrustrada no Monte do Palatino. As ruínas estão ladeadas pelo Coliseu e pelo Circo Máximo. Fecho parênteses.

        O Mercado de Trajano, localizado na Via Foro Imperial,  foi erguido a pedido do Imperador que dá nome à construção, em 107 d.C. Trajano foi o primeiro Imperador nascido fora de Roma (tem origem espanhola) e a ideia original era a de congregar lojas e escritórios em um único espaço. A História situa este Mercado como o precursor do conceito de shopping center. No andar superior, localizavam-se as atividades administrativas do comércio, e, no térreo, lojas que comerciavam gêneros alimentícios e mesmo artesanato. A planta é semicircular, construída em arcos, com tijolos. Pausa para o café 1. Os italianos tem dessas: muito próximo do Mercado, há uma enorme construção de metrô.

                              

                                                                                               Mercado de Trajano - Roma.

              O Fórum Romano fica do lado oposto do Mercado (são do mesmo período), e não por acaso. Tratava-se do centro político e econômico do Império, formando, com o Mercado, quase que um complexo único. O Fórum foi palco do assassinato do Imperador Júlio César, no Senado, por Bruto e Cássio, e abriga o Arco de Tito, todo ele em mármore, construído para celebrar uma derrota da Judéia (hoje, Palestina). Pausa para o café 2: nosso querido amigo Renato Domith Godinho, o pai do Martim, nos levou para conhecer, digamos, mais concretamente, o apaixonante caos romano.  Júlio César construiu um Teatro, o Marcelo, em homenagem ao primo, Marcus Claudius Marcellus. Lá estávamos, Felipe e eu, a contemplar a ruína quando, tchãnã: Renato nos explica que a luz acesa através da janela, no que seria a parte de trás do Teatro, é de uma residência. Leitor, uma espécie de "puxadinho" abriga, no topo do Teatro, alguma família romana. É curiosíssimo como a Roma atual se acomoda entre as ruínas imperiais, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.                             

              Correm horas. Encerro aqui, hoje, com verso encantatório: "Escrevo isto para dar testemunho do adverso milagre". Bioy Casares.

                                                                         Lívia

                                            

                                                                                                                     Fórum Romano - Roma.

 

 

 

Com James Joyce, em Zurique

29 de setembro de 2010 3

Eu perfumaria com chocolate esta missiva, havendo em Zurique as barrinhas "Lindt" - e não só elas: as lojas de chocolates são quase cenografia de filme, sendo a mais famosa a "Sprüngli", dos mesmos donos da "Lindt" -, mas o causo é que Zurique tem muito que ver com James Joyce, com quem estive para um convescote íntimo. Explico, leitor, mas, antes, um passeio por Zurique.

A cidade é gris. Ponto. As cores até arriscam fazer parte da arquitetura local, mas não se aprontam altivas, como em Praga. As pessoas caminham, mas não levam as almas para passear, apesar da distribuição perfeita de transeuntes pelas ruas. Não há hordas de turistas nem camelôs poluindo a vista, a cidade é limpíssima, o trânsito é dos melhores, a qualidade do ar impressiona. Contudo, as emoções são comprimidas; a alegria dá as caras como se fosse vestígio de alguma coisa, mas não a coisa em si. Não conheço Berna, daí por que não posso palpitar sobre o que dizia Clarice (a Lispector) acerca dos demônios que lá faltavam, mas, a César o que é de César: Zurique é habitada, sim. Ainda que a sensação seja a de que o dono da casa tenha acabado de sair para olhar o mundo, tendo deixado o restinho do café da manhã um pouco quente, numa cozinha bonita e aconchegante.

Zurique ostenta, na Igreja de Fraumünster ( construída nos séculos XIII e XIV), vitrais assinados por Marc Chagall e Alberto Giacometti. Chagall, então com 83 anos, criou três vitrais (azul, verde e amarelo, respectivamente), com 10 metros de altura cada um. Divinizá-los seria redundância. Giacometti assina, também, os vitrais da Igreja matriz da Reforma Suiça, a Grossmünster, edificada no século XII. O maior relógio da Europa, incrustado em uma torre, está na St. Peterskirche (Igreja de São Pedro).

Marc Chagall - Fraumünster

O Kunsthaus Zürich (www.kunsthaus.ch)  é um dos Museus de Arte Moderna de maior festejo na Europa, com obras dos séculos XIX e XX. Destaca-se, com frequência, o fato de abrigar a maior coleção de obras de Edvard Much fora da Escandinávia, e, neste 2010, completa cem anos, com uma Exibição especial: Pablo Picasso. O pintor expôs suas obras pela primeira vez no "Kunsthaus", em 1932, tendo sido ele próprio o curador, e, na comemoração do centenário do museu, 70 telas expostas em 32 serão novamente exibidas, de 15 de outubro próximo a 30 de janeiro de 2011.

Em Zurique está, também, a sede da Federação Internacional do Futebol (FIFA). Na esquina, há um campo de girassóis que está entre as coisas mais bonitas que já vi. Não por acaso, a alguns metros dali, estão Elias Cannetti e James Joyce, retirados da vida (em 1994 e 1941, respectivamente), no cemitério Fluntern. Pois lá estive, leitor. Para nada de solene, que gosto das coisas simples, desde que não de todo desprovidas de charme. Um diálogo íntimo com aquele que, tendo se refugiado em Zurique por conta da invasão alemã à França, durante a Segunda Guerra Mundial, muito tem a me contar sobre a vida, esta que nos acontece no século XXI. Joyce escolheu Copenhague como meu destino próximo (há um método particular de escolha das cidades a serem visitadas. não conto, não conto e não conto! só deixo registrado que é mágico) e, curioso, me mandou ter com Tolstoi, que está entre os escritores que mais me acompanham pela vida. Aconteceu que, tendo entrado no trem que nos levaria de volta à cidade, depois da visita particular, um cartaz discreto anunciava uma exposição sobre o russo, no Museu Strauhof (www.strauhof.ch). Num zás-trás, estávamos lá. Exatamente em frente ao Museu, está a Fundação James Joyce. Se você não acredita em bruxas, leitor, temo que estejam faltando feitiços (dos bons, belos e verdadeiros) em sua jornada por esta Terra.  Um casaco de Tolstoi, lá exposto, me lembrou Proust, que falava na imemorialidade do passado, alcançada por meio de objetos que para lá nos conduzem.

James Joyce - Fluntern

Zurique é absurdamente cara (vendem-se cosméticos Christian Dior em muitas farmácias), sobretudo, no que concerne à alimentação, mas o chocolate quente vale cada centavo, e, se for de "Lindt", chocolate ao leite ou recheado com creme brûlée. De resto, caminhadas, observações à volta e misturar-se com a paisagem local: eis o que entendo por sair de si e colocar-se no mundo.

Selo carmim: "Há sempre um copo de mar para um homem navehar". Jorge de Lima.

Lívia

Em tempo: àqueles que gostam da Arte Impressionista, que aparece no post  de segunda-feira, esqueci de sugerir o lindo e pequeno Musée de l'Orangerie, em Paris, que guarda a série Ninféias, de Claude Monet.