Por Cláudia Silveira:
Oi, quiridu, qués sabê do que trata esse livrinho, nego? Se qués, qués, se não qués diz, ô istepô! Mesmo assim eu vô ti contá. A historinha é bem quirida, sabes como é, né? Romantismo, aguinha com açúcar, mocinho, mocinha... É, nego, diz o narrador, que um dia, um colonizador português, de nome Martim, um moço muito quiridu e lindo (de zóio azul) conhece uma índia muito linda, a Iracema, numa terra mais linda ainda (espia, espia, no romantismo tudo é lindo, tudo é quiridu: a mulher, a pátria, o índio... – falando nisso, nego, isso aqui é um exagero dos infernos; a Iracema é vista como linda, esbelta, meiga, tudo em cima... meu Deeeux! Tu já visse índia assim, quiridu? Só nos romances do Alencar, mesmo, porque as índias que a gente vê ali no calçadão do Centro de Folópis, são bem diferentes. De “tudo em cima” eu não vejo nada, nego, tu vês? Pois, então, pois então, tás tolo, Alencar, tás? Tás é maluco! Mas tudo bem...). Daí, quiridu, os dois se apaixonam. Mas dêxa eu contá pra ti que Iracema era filha de Araquém, o pajé bam bam bam da tribo tabajara (é, a mesma do Casseta e Planeta!) e ela não podia casar porque guardava “o segredo da jurema”. Sabes o que quer dizer isso, nego? Isso quer dizer que ela tinha que se manter virgem... Tadinha! Pobre rapariga! Coitada da Iracema, nego! (quer dizer, “coitada”, não, porque pra nós, manés, coitada quer dizer quem recebeu o coito... e ela não podia receber, tadinha). Tadinha, mesmo, da Iracema... Mas, sabes como é, né? Todo mundo ali, nuzinho em pêlo, a Iracema linda, o Martim lindo, a terra linda, tudo muito lindo, não deu outra: quer dizer, deu sim. É, nego, a Iracema deu! Fazer o quê, né? E o pior, não usou a camisinha, a istepôra (deve ser porque na época eles não tinham carteira de dinheiro, daí ela não tinha onde guardar e não levou o preservativo. Só pode! Porque perfeita do jeito que ela era, ela não ia se esquecer desse simples detalhe, né?). Daí, sabes o que acontece quando tu transas sem camisinha, né, o istepô? A guria ficou grávida, claro! Olha eu não sou fofoqueira, mas é uma pouca vergonha esse livro, não achas? Isso é um mau exemplo pros vestibulandos. Essas gurias que dão antes do casamento são umas semvergonha. Ainda bem que aqui em Folópis não existe isso, todas as raparigas daqui casam virgem...
Mas, como eu ia te falando, a safadinha da Iracema deu. Deu e engravidou. Daí eles fugiram e foram morar perto da aldeia dos inimigos dos tabajaras, os pitiguaras. Credo, que desgosto pra um pai, né, nego? A filha dá antes do casamento, foge para perto do inimigo e, ainda, é considerada a heroína da história! O pai dela não se conformava, tadinho, vivia fumando o “cachimbo da paz” para se esquecer daquilo. Enquanto isso, Iracema vivia muito feliz, até que um dia, como sempre acontece, o casamento se desgastou. Martim enjoou da cara da Iracema, e nem quis discutir a relação. Ficou todo amuado, cara franzida, queria voltar pra Portugal; Iracema logo pensou: “Ele deve de tá pensando naquela galinha da noiva dele. Vagabundo! Os homens não prestam! Enquanto ele não comeu a minha maçã, ele não descansou, e agora não me quer mais. Vive inventando desculpas e sai sempre para as matas, para lutar.” Não, quiridu, Martim não ia para o bar beber com os amigos, mas em compensação, ele tinha um amigo, o Poti, que estava sempre com ele (os homens sempre tem um amigo de farra, incrível! Até nessa época!). Um dia, quando Martim voltou da mata, encontrou Iracema à beira da morte. Tadinha! Tava quase morta mesmo. Se fosse hoje eu até dava uma benzidinha nela, porque eu acho, na verdade, que ela tava embruxada. É, nego, nada me tira da cabeça que a Iracema morreu embruxada. Martim ficou todo triste, fez aquele drama todo (engraçado, né, quiridu, ele abandona a mulher grávida, sai para o mato com o amigo, fica um tempão longe fazendo não sei o quê nas moitas e, ainda, é chamado de herói... Credo! Um herói desse eu não quero pra mim, não. Tu qués, quirida? Deus me livre!).
Depois disso, Iracema é enterrada, e Martim deixa o Brasil levando o filho deles, Moacir, para Portugal. Muito tempo depois ele volta e fica morando no Ceará. Quer dizer, o cara aprontou, engravidou a guria, enjoou dela, só queria ir para o mato com o amiguinho, voltou para Portugal (certamente para ver a outra, a noiva) e ainda é considerado o mocinho da história. Pode? Isso é o Romantismo, meu quiridu, tudo é feito (e escondido) como se fosse a coisa mais linda do mundo.