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O retorno do Atacama

16 de janeiro de 2012 0

Voltando… não ao rali, mas da viagem, devo dizer que, independentemente do ruído dos motores, do ambiente de oficina a céu aberto, e da fina areia constantemente trazida pelo vento, o passeio foi extraordinário. Já estive várias vezes no norte argentino, e cada vez que vou gosto mais. As estradas são boas, o combustível é melhor que o nosso e os preços são muito, muito bons. Claro que, estando de motorhome , as coisas são simplificadas – você não carrega malas, dorme na sua cama, faz o seu café da manhã e o toma ainda de pijama. Os motorhomes médios têm mais uma vantagem: estacionam quase como um automóvel, ou seja, em qualquer vaga. As empanadas nortenhas são provavelmente as melhores e quanto aos vinhos saltenhos nem se fala – é raro vê-los por aqui, mas são os mais exportados do país – e os pequenos mercados encantam.  Aliás, são sempre uma atração importante, e, em Salta, a apenas cinco minutos a pé desde o centro da cidade, encontra-se um deles, surpreendentemente organizado, estabelecido entre uma linha de plátanos e as fachadas de arenito dos prédios históricos. E você ficará ouvindo bons músicos na rua enquanto olha as tendas de artesanato e artes locais. Nos trajetos, quase sempre de volta das estradinhas raliseiras , observávamos que nem o breu da noite escondia a beleza do céu – pelo contrário, sem nuvens e chaminés de indústrias, era cada vez mais bonito. O deserto, apesar de árido e monocromático, tem uma beleza peculiar. Tons de marrom contrastam com um céu sempre azul, e as escarpas formam sombras que acentuam o relevo. Mas claro que, entre esses momentos mágicos, ficaram também as lembranças das moscas na tampa dos açucareiros, das cadeirinhas de madeira, das mesas com pés cromados e tampos imitando mármore, dos chopes não muito gelados, dos sanduíches de pernil, dos ovos cozidos – já esverdeados, mas em vidros com tampa –, da linguiça frita, do cafezinho em pé, frio e ruim. E, no meio dos botecos, objetos familiares como fotos da difunta Correa , etc. Mesmo assim, muito melhores os botecos que as terríveis e modernas lanchonetes acrílicas. Dificuldades? Algumas, mas uma vida é para ser vivida em todas as suas etapas, boas e ruins, enquanto ainda estivermos por aqui. É preciso lembrar de tudo mais vezes. Muitas vezes . A nossa condição de viajantes passageiros não deve ofuscar o prazer de ver a passagem das estações. Cada folha que nasceu secou e caiu deixa a sua marca, por mais insignificante que seja – assim como os bons e maus momentos: logo irão ficando no nosso acervo de emoções, desaparecem às vezes, mas, quando menos se espera, estão novamente à flor da nossa pele. São passagens que afetam o nosso passado e o nosso presente, a nossa existência, e servem, também, para nos orientar no futuro. Um dia, li de um escritor talentoso uma definição muito simples: “ Nadie me quita lo vivido ”. Portanto, sigamos em frente. O Atacama continua lá, à nossa espera, e, no ano que vem, volta o circo com seus carros e pilotos maravilhosos. Aos bons companheiros Diana e Pippi, digo obrigado e até a próxima.

Leia o post original no blog Viajando por Viajar:
O retorno do Atacama

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