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Istambul : Meio Europa, Meio Ásia - Por Martha Medeiros

05 de setembro de 2011 2


A Martha é nossa amiga e quando eu fui a Turquia pela primeira vez, ela me passou este texto sobre Istambul que ela havia publicado na revista Viagem em 2001.

O texto é ótimo (como sempre) leve, com muitas dicas e informações intemporais desta cidade mágica, que arrebatou os nossos corações.

As fotos são minhas e deixo vocês com a Martha.

Clarisse Linhares.



Não foi através das aulas de história que Istambul entrou pela primeira vez no meu imaginário, e sim quando assisti ao filme Expresso da Meia-Noite, uns 20 anos atrás. Fiquei com a idéia de que era uma cidade que cheirava a encrenca. Ao conhecê-la, no início de junho, descobri que na verdade ela cheira a pistache, amêndoa e café. Encrenca só vi no trânsito. Mistério vi em toda parte.

 

Ainda que a capital da Turquia seja Ankara, é de Istambul que todos falam e para onde todos querem ir, atraídos pela sua singularidade: uma metrópole cortada pelo canal de Bósforo, ficando uma metade na Ásia e outra na Europa. As duas metades, no entanto, se confundem. Nas ruas, mulheres de vestidos decotados caminham ao lado de mulheres enfurnadas em burkas, mesmo com uma temperatura de 37 graus. O verão é muito quente e úmido, e neva no inverno. O clima é apenas um de seus extremos.

 

A suntuosidade dos palácios, mesquitas e basílicas contrasta com a sujeira das ruas e a humildade do povo: não se vê sultões andando de BMW pelas avenidas. Depois de ter sido a cidade mais rica do mundo cristão, quando ainda se chamava Constantinopla, hoje o luxo de Istambul está confinado no Topkapi, antiga residência imperial formada por diversos pavilhões e pátios internos. Lá estão, abertos à visitação, os tesouros do império otomano (jarros incrustados com pedras preciosas, adagas de ouro e esmeraldas que humilhariam os anéis de Elizabeth Taylor) e o harém onde o sultão guardava outras jóias: suas roliças e fogosas concubinas. Grande parte do Topkapi é  hoje um parque público, com jardins bem cuidados, situado no bairro mais atrativo para os turistas: Sultanahmet.


Interior do Harem, no Palácio Topkapi

 


 

Entrada do Topkapi

De frente uma para a outra, a Mesquita Azul e a Basílica de Santa Sofia competem em majestade. A primeira, com seus seis minaretes apontados para o céu, é internamente recoberta de azulejos e de silêncio: entra-se sem os sapatos, mas não sem respeito. De maio a setembro, assim que começa a escurecer, nativos e turistas se unem na praça em frente para assistir ao espetáculo de som e luzes projetadas sobre a mesquita. Enquanto uma voz narra, através dos alto-falantes instalados nos minaretes, a história da sua construção (cada noite em um idioma diferente), música e canhões de luz tentam preencher os olhos atentos da platéia. Tentam. Não estou segura da satisfação da clientela: as gaivotas que sobrevoam a mesquita me pareceram mais atraentes do que os tímidos efeitos luminosos.

 

A Basílica de Santa Sofia, por sua vez, também impressiona por fora, com seus tons de terracota, mas principalmente por dentro. Ao entrar em sua nave principal, o fôlego desaparece, a cabeça se ergue e a gente não cai de joelhos por detalhe. É vertiginoso. Tudo é mega: a altura da cúpula, os mosaicos, as colunas, os balcões e os estupendos  medalhões caligráficos pendurados nas paredes.


Basílica de Santa Sofia


 

Mesquita Azul



 

Ainda em Sultanahmet, na esquina da Santa Sofia, uma bilheteria acanhada vende ingressos para uma aventura subterrânea: a visita à Cisterna da Basílica. Desce-se por uma escadinha e de repente estamos embaixo da terra, em quase absoluta escuridão, entre colunas de mais de 8 metros de altura e com pingos caindo lenta e educadamente sobre nossas cabeças. Trata-se do antigo reservatório de água da cidade. Passarelas molhadas nos conduzem entre as 336 colunas bizantinas, ao som de música new age. O cenário é de um filme de Indiana Jones. Mais uma extravagância da cidade.


Cisterna

 


 

Hotel/café Kibele, um lugar cheio de charme quase ao lado da Cisterna


A prova de que tudo é grande em Istambul está na moeda: a entrada para o Topkapi custa 15 milhões de liras turcas; a entrada para a Cisterna, oito milhões, e para a Santa Sofia, seis. É um susto, mas a quantidade de zeros não reflete seu valor: 15 milhões é mais ou menos 10 dólares. Com um milhão de liras você não compra mais do que duas garrafinhas de água mineral.

 

Deixando um pouco de lado as obras monumentais, há vida prosaica em Istambul. No bairro de Beyoglu está a Torre de Gálata (é recomendável uma subida para ver a vista de 360 graus da cidade) e a larga avenida Istiklal Caddesi, um calçadão onde você descobre que nem só de tapete vive o comércio do país. Aqui estão diversas lojas de instrumentos musicais, butiques de grife, uma livraria encantadora chamada Robinson Crusoe, uma filial da rede de sorvetes Mado (considerado o melhor do país) e o interessante Çiçek Pasaji, que nada mais é do que uma alameda fechada até o teto onde estão diversos restaurantes e cafés típicos. No final da avenida chega-se à praça de Taskim, que é a região cosmopolita de Istambul, mais comum a nós, 100% ocidentais, se é que se pode chamar de comum qualquer lugar onde as palavras começam com cedilha.


Vista da Torre Gálata


 

Ainda falando da Istiklal Caddesi, é em uma de suas travessas que está o lendário hotel Pera Palas ( 1)*, que hospedava os passageiros mais ilustres do trem Expresso do Oriente, mas que ficou conhecido mesmo por ser uma espécie de segundo lar da escritora Agatha Christie. Seu bar ainda cultiva um certo charme, mas o hotel está decadente. Desconfio que a criadora do detetive Hércule Poirot hoje optaria por um Crowne Plaza.


Istiklal Caddesi

 


 

Vista do 360 um dos bares/restaurantes descolados com vista para o Bósforo que fica em Istiklal Caddesi.


Aliás, há muitos hotéis de rede em Istambul, mas nada como se hospedar numa antiga mansão otomana restaurada, para não fugir do espírito da cidade. Na pequena e tranqüila rua de pedra Sogukçesme Sokagi, espetacularmente bem localizada em Sultanahmet, há uma série destas casas que viraram pensões e hotéis, sendo o mais charmoso deles o Konuk Evi. Não se aflija: eu me hospedei lá e em nenhum momento precisei dizer em voz alta o nome da rua, que é realmente impronunciável.


Casas Otomanas antigas em Sultanahmet

 

Cheguei e parti de Istambul sem saber dizer obrigado em turco. Tentei decorar, treinei em casa, mas na hora não saiu: é tesekkür ederim (com cedilha no s!!) Mas sabendo dizer obrigado em inglês, ninguém se aperta. A maioria das pessoas com quem o turista se relaciona fala um inglês básico. Principalmente os comerciantes. Estes, se preciso for, falam até português, desde que você compre deles um legítimo kilim.


 

Tapetes no meio da rua

A cidade é toda atapetada. Tem tapetes nas calçadas, nos bares, em cima de mesas e cadeiras, saindo pelas janelas, é tapete pra tudo quanto é lado e o efeito visual é bonito à beça. Impossível sair da cidade sem levar ao menos um. Em Sultanahmet, o melhor lugar para adquirí-los é no Arasta Bazar, uma rua ao lado da Mesquita Azul. O assédio dos vendedores não é a melhor recordação que você vai levar da cidade, mas faz parte da cultura local. Se você é loiro, e/ou tem olhos claros, e/ou está levando uma mochila nas costas,

 

revelará sua condição de turista e receberá um assédio de proporções quase indecentes. Eu, mesmo tendo o aspecto de uma muçulmana, não consegui evitar. Levava uma mochila nas costas.

 

Eles vão seguir você pela rua. Perguntar de onde você é. Mesmo que você responda que é de Liechtenstein, eles vão encontrar algum assunto relativo ao seu lugar de origem, vão ser simpáticos ao extremo e tentarão arrastá-lo até a loja deles.

 

Estando na loja, ou em frente a ela, ou a 10 metros dela, você estará irremediavelmente perdido. Porque vai se interessar por alguma coisa, vai perguntar o preço e, sem saber, terá dado o pontapé inicial para o hábito que mais dá prazer aos residentes do país: pechinchar. Estamos numa terra de mercadores, lembre-se.

 

Pechinchar pode ser divertido, pode ser lucrativo e pode ser estafante.  É divertido quando ambos os lados são espirituosos e conhecem as regras do jogo, que inclui o direito de desistir do negócio caso não haja acordo. É lucrativo quando você sabe que o vendedor está pedindo demais e ele sabe que você está oferecendo de menos, e conseguem (depois de 20 minutos de prosa e duas xícaras de chá) chegar num valor de bom tamanho para ambas as partes. E é estafante quando você está apenas dando uma olhadinha e o vendedor está desesperado para vender. Aí quase sai briga.


Grande Bazar




 

É assim no Arasta e é assim num dos mercados mais famosos do mundo, o Grande Bazar, que não é grande, é enorme. Os riscos de se perder lá dentro, no entanto, são mínimos. Basta você lembrar do nome do portão pelo qual entrou (há vários) e, quando quiser ir embora, seguir as indicações das placas internas. Portanto, perca-se, o lugar pede. E, ao bater em retirada carregando seus oito tapetes, suas cinco capas de almofadas, seus dois conjuntos de chá, seus sete castiçais e seus 11 pratinhos de porcelana, não esmoreça e dirija-se ao Bazar das Especiarias, que não fica longe. Aí sim, acrescida sua bagagem de vários chás e temperos, almoce no Pandeli, uma instituição turca que fica no segundo andar do prédio.

 

Eu poderia ficar até amanhã falando sobre Istambul, mas a vida  continua. Faltou dizer que se você quiser ver dança do ventre, há casas noturnas que apresentam o espetáculo, ainda que no quesito sensualidade as brasileiras sigam imbatíveis. Que é uma cidade que já vem com trilha sonora: há sempre um som saindo de algum lugar, seja dos minaretes, cujos alto-falantes convocam à população para as orações do dia, seja uma música de rua, há sempre o que ouvir. E que se você ficar apenas três ou quatro dias, vai ser pouco. Istambul é grande, como já foi dito. São dois continentes numa cidade só.

(1)* O Hotel Pera Palas, a que a Martha se refere no texto, hoje chama-se Pera Palace, foi todo reformado e reabriu no final de 2010, lindíssimo, um hotel histórico que preserva sua história, como o quarto 411 onde se hospedava Agatha Christie.

Comentários (2)

  • Euclides diz: 27 de janeiro de 2012

    Estive 8 dias em Istambul em maio de 2011, me senti no paraiso, a Turquia é simplesmente linda, povo gentil e educado, ainda vou voltar lá. A lira tuca, (moeda) se equivalia com o real (moeda brasileira), preços bem convidativos. Se voce conhece um pouco de história antiga, o proveito será ainda maior. Vale a pena!!!.

  • mylene_rizzo diz: 1 de fevereiro de 2012

    Acho a Turquia um dos melhores destinos para férias completas na atualidade.
    Une cidade cosmopolita como Istambul, cultura milenar e diversificada , exotismo, praias e ainda muitas coisas inexploradas.
    Imperdível e na hora certa.
    Abraços

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