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Posts de fevereiro 2015

Campofora em Ausentes, uma cavalgada no céu

23 de fevereiro de 2015 0

Desde sempre adoro passear pelo Aparados da Serra na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. É um lugar que me transmite uma paz e uma conexão com a natureza meio transcendental. Este ano mesmo estive em Cambará e nos Parques dos Canions do Itaimbezinho e Fortaleza. Mas fazia mais de dez anos que não me aventurava mais profundamente e atrelar uma visita a São José dos Ausentes com uma cavalgada soou como música ao meus ouvidos.

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Ver uma foto do Campofora no facebook foi como um imã para minha imaginação. Cavalgar durante dois dias na beira do canion Montenegro , o monte mais alto do RS, foi quase mais que um chamado , mas um comando.

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Partimos de Porto Alegre via Rota do Sol em direção a Bom Jesus, hoje a estrada é asfaltada até Sâo José dos Ausentes seguindo esta rota. De lá são mais 40km em estrada de chão até a Fazenda Montenegro. É longe de Porto Alegre , sim,  são perto de cinco horas de viagem por estradas lindas vazias e bem sinalizadas , mas não precisa pegar avião e é quase uma obrigação para um gaúcho conhecer a região. Então , vambora realizar porque a vida é longa mas não é infinita. E , de mais a mais , a gente às vezes vai bem mais longe para visitar “atrações” muito menos interessantes.

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Vista de nosso quarto na Pousada Montenegro

Ausentes é como o nome diz, vazia linda e preservada. O turismo é ínfimo e por isto foi uma surpresa encontrar a Pousada Montenegro tão bem estruturada e cuidadosa. Por ali o pessoal tem infinito orgulho das tradições, estão pilchados desde a alma e não “fantasiados de gaúcho” para inglês ver.

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Na casa principal quatro quartos com aquecimento ,(pegamos oito graus à noite em novembro) tem os nomes dos visitantes ilustres que passaram por ali, inclusive a repórter Glória Maria que foi a nossa anfitriã. Mais três casas com dois ou quatro quartos e um bolicho campeiro completam a pousada que tem um atendimento acolhedor e familiar e comida muito apetitosa.

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Mas é com o Paulo e a Angela Hafner que a mágica se completa , os dois moradores de São Francisco de Paula comandam com total exclusividade o Campofora , um serviço único de cavalgadas com um plantel maravilhoso de cavalos crioulos onde cada dia se faz um percurso por fazendas, cachoeiras e canions da região.

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Quem esta em busca de paz, um lugar intocado e sem nenhuma poluição visual achou o paraíso. Tudo muito cuidadoso , respeitando os limites do pessoal mais urbano e dando todo o acolhimento que o campo oferece. Éramos cinco , eu e meu marido de Porto Alegre, a Liége de Cruz Alta e seu namorado Alex de Paris e a inspiradíssima amazona Renata de Brasilia.

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Vou parar por aqui , pois o texto que a Renata Varella nos brindou diz o que eu não teria palavras para descrever, gastem dois minutinho e leiam , prometo lágrimas de profundo e sincero reconhecimento!

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MEU BRASIL BRASILEIRO por Renata Varella

“Estive recentemente na Serra Gaúcha para 4 dias de cavalgada por aquela bela paisagem. Aprendi várias coisas.

Ouvi e vi curicacas pica-paus do campo, gralhas azuis, noivinhas do rabo preto, carcarás, gaviões chimango, saracuras, sabiás do campo, pica-paus verde rajado, siriemas, graxains do mato, jacus, veados do campo. Vi a majestosa araucária.

Aprendi que nosso idioma é tão rico, que precisei de tradução para enterder as músicas. Versos como “onde se embala minha alma de campeiro, atraído pelos luzeiros das miradas querendonas”,” me enfrasco e canto um tango pras gurias, que sou filho de uma tia da empregada do gardel”, “me lendo a mão uma cigana disse tudo, ou capam esse cuiudo ou emprenho toda a nação”.

Músicas tristes, engraçadas, alegres, de todos os tipos, mas todas elas mostram o amor pelo campo, a identidade gauchesca, a influência dessa nossa América tão latina. Aprendi que o aperto de mão de um campeiro é forte, sincero, e que realmente sela uma amizade.

Ouvi termos como “Quero comer um vazio” (comer fraldinha),
Gaudério, (gaúcho sem eira nem beira que vive solto), 
Pingo- (cavalo bom)
Tapado de nojo ( a forma mais definitiva de detestar algo), “Me cairam os butias do bolso” (fiquei impressionado), “Avio” (isqueiro),
“Demorou um eito” (demorou muito)
“Munaia” (baita, muito)..
“Pilchado” (vestido com a vestimenta completa do Gaúcho)
Aprendi que cavalos usam arreio, basto, serigote, casquinho . Aprendi que suas pelagens são diferentes das que conheço: gateado rosilho ruivo, baio ruano, palomino, picaço, zaino…
Aprendi que o cavalo crioulo é talvez uma das melhores raças que já vi: fortes, destemidos, rápidos e muito, muito meigos, além de extremamente resistentes. Aprendi tanto. Mas aprendi sobretudo que meu país vale a pena, que minha ascendência tem valor, que meu continente é rico em sons, nuances, fauna e flora. Que cada cantinho tem um valor inestimável e que nosso povo tem que ser cultuado. Ir a Paris deve ser maravilhoso, sem dúvida. Mas ir ao BRASIL é mais maravilhoso ainda. Obrigada Paulo Hafner e Angela Hafner por me mostrarem isso. Que a Campofora continue abrindo o coração das pessoas. Com certeza hoje, sou uma pessoa melhor.”

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Rio Secreto , uma viagem ao inframundo na Riviera Maia

12 de fevereiro de 2015 3

Por Luciano Terra

Um dia desses desci ao inframundo e voltei a nascer para este mundo. Pelo menos na concepção maia.

Em viagem a Riviera Maia descobri um rio secreto (não tão secreto assim nos dias de hoje, porém é assim que o chamam por lá). Este rio secreto possui alguns quilômetros de extensão, entretanto menos de 01 quilômetro está aberto à visitação. Esses menos de 1000 metros já são suficientes para tirar o fôlego.

Após a benção de um sacerdote Maia desci as poucas escadas que ligam a superfície da terra a esse rio encravado nas entranhas do solo mexicano. A partir desse local, poucas alterações foram feitas pelo homem e, após poucos metros, entra-se na escuridão da caverna onde o rio flui como uma artéria que transporta sangue e oxigênio para todo o corpo da terra. Apenas iluminado com a luz de um capacete de mineiro, e pela lanterna da guia, mergulhei no inframundo maia. Segundo eles o mundo sagrado dos mortos, onde entra-se com respeito e lugar de conexão com as outras dimensões paralelas àquela que conhecemos na superfície.

E então, o espetáculo começa a se descortinar a sua volta: uma água totalmente transparente e levemente fria, galerias repletas de estalagmites e estalactites e apenas com a escuridão e o silêncio como testemunhas.

A caminhada de pouco mais de 700 metros intercala momentos por dentro do rio (as vezes raso, outras necessitando nadar) e pela margem deste. Galerias com muitos metros de altura e outros locais onde você tem que se abaixar para conseguir passar e seguir adiante.

O momento mágico ocorre quase no final do trajeto, onde todos são convidados a desligar as luzes e ficar por alguns momentos ouvindo somente o som da natureza. A escuridão é total, e pode até parecer assustadora, porém não é essa a sensação que se tem. Os seus sentidos estão tão conectados com a natureza que apenas consegue-se ficar ouvindo as gotas de água que caem do teto lentamente e sua alma se enche de energia. Uma sensação maravilhosa de pertencimento, de conexão com o todo e, se possível, com outra dimensão.

Ao voltar à superfície, e “renascer, traz-se consigo a força do local e seu corpo volta cheio de energia, realmente como um neném que acaba de vir ao mundo.

Uma experiência que pode não mudar a sua vida, mas que, no mínimo, o faz parar para pensar na força da natureza, do universo e na nossa insignificância perante tudo isso. Somente em sintonia com a nossa natureza poderemos viver em harmonia interior e com os demais ao nosso redor.

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Taquile: no meio do Titicaca, uma ilha cheia de pedras, cores e deuses

03 de fevereiro de 2015 1

Por Felipe Sant’Ana Pereira

Janeiro de 2015

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Tenho o costume de me benzer com as águas novas que encontro. Fiz isso na primeira vez em que molhei os pés no Pacífico, no Índico, no Mediterrâneo e no Adriático. Chegando ao lago Titicaca (que, pelo tamanho, até podia ser mar), sucumbi ao mesmo impulso.

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Crianças se protegem do sol debaixo das dezenas de pórticos ao redor da ilha

 

Tido como sagrado pelos quéchuas (ou Incas, como os espanhóis preferiram chamar), o lago é o berço mitológico do povo que ocupou Cusco e depois unificou todo um império no altiplano sulamericano. Talvez pela conotação histórica, emane da superfície d’água uma energia difícil de enjaular em palavras. Sendo um dos lagos mais altos do mundo, o Titicaca se agiganta em direção ao horizonte num azul cobalto encrespado pelos ventos constantes, e que rivaliza com o céu numa batalha pelo olhar reverenciado dos que o encaram: a cabeça se move para cima, e para baixo, contente com a própria indecisão.

Foi a inércia desse movimento (olhar pra cima, olhar pra baixo…) que respondeu ao primeiro contato que tive com um nativo de Taquile, uma das maiores ilhas do lado peruano do lago (mais ou menos 60% dele ficam no Peru, e 40%, na Bolívia). Inês, uma agricultora, ofereceu-se para me hospedar caso eu quisesse passar lá mais do que o tempo estipulado entre a chegada e a partida do barco operado por uma agência de Puno, cidade a alguns quilômetros dali. Desembarquei em Taquile para ficar por duas horas, e acabei ficando por dois dias.

Aos azuis onipresentes, somavam-se as cores das roupas tradicionais. Os habitantes da ilha reivindicam ser donos das tecelagens mais finas de todo o Peru, e muitos dos tons que tingem as calças, cintos, coletes e capuzes tem um propósito mais do que estético. Chulia é o termo quéchua para a touca que encima os cabelos de todos os homens locais. As vermelhas simbolizam que aquele que a veste é casado; as brancas são usadas por solteiros; e as coloridas, em teoria, adornam somente cabeças que já foram ou são autoridades políticas na região.

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 Um líder local ajeita sua chulia, orgulhoso

 

- E onde vocês compram elas? – eu perguntei a Inês, minha anfitriã, enquanto ela cozinhava uma sopa de quinua recém colhida e me apontava a coleção de chulias do marido, pendurada na parede.

- Comprar? – ela enrugou a testa e parou até de girar a colher de pau dentro da panela, para prestar atenção no canto religioso que vinha do seu radinho de pilhas. Em seguida, prosseguiu. – Nós nunca compramos roupas, Felipe, tirando um par de tênis para as crianças, vez ou outra. Cada um costura aquilo de que precisa.

A resposta dela foi adquirindo sentido com o passar da tarde, enquanto eu me dirigia ao monte mais alto de Taquile: pelos caminhos de pedra (não há ruas, carros, bicicletas e nem mulas de carga na ilha), topei com dezenas de senhores e senhoras, sentados em muretas, com os queixos fincados no peito, e as agulhas, em emaranhados de lã.

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Uma senhora desvia a atenção da manta que costura para posar para a foto – o olhar continua pendendo para baixo

 

No cume do monte, ruínas circulares protegem uma cruz de madeira, que reina solitária. No pórtico que dá acesso ao altar sob ela, uma inscrição raspada na pedra passa quase despercebida: no entrar. Sem saber se a ordem era de cunho espiritual ou meramente vandalístico, achei melhor não arriscar. Ajoelhei-me, toquei algumas pedras, fechei os olhos e, distante da água, deixei que o vento me abençoasse dessa vez.

 

Durante a janta, servida logo depois do pôr do sol, Inês disse ter sido sensata a minha relutância. O cume do monte é sagrado para os taquileños: é lá que, somente uma vez por ano, realiza-se a cerimônia de oferenda a Pachamama.

Uma das duas filhas de Inês, que jantavam ao meu lado, anteviu a pergunta engasgada em minha garganta e se prontificou em responder:

- Pachamama: a Mãe Terra. Nós nunca fomos lá em cima, mas papai diz que é preciso respeitar a tradição. Todos os quéchuas fazem oferendas pra Ela, e, em troca, ela cuida das nossas plantações.

E com quanto carinho Pachamama vinha cuidando das terras daquela família! As batatas selvagens, o arroz branco, e o chá de muña que me eram servidos tinham um gosto marcante, com um quê de terroso, e um toque que só podia ser divino, mesmo.

Para as duas garotas, a janta não tinha todo esse ineditismo. A caçula acompanhava o radinho já rouco (a essa altura, as pilhas já precisavam ser trocadas), sabendo de cor todas as sílabas do canto adventista que não parava de ser entoado.

- Eu vou na igreja todos os dias de manhã. – ela contou orgulhosa, quando percebeu ter minha atenção, entre uma garfada de batata e um gole de chá. – Minha irmã vai quase sempre. E mamãe vai uma vez por semana. Parece pouco, mas pra quem era católica, já está mais do que bom… – ela piscou para mim como se o gesto pingasse um pouco de zombaria no que recém dissera.

Inês veio da cozinha com mais um bule de água quente, e explicou a brincadeira da filha: a igreja católica, erguida na praça central, e outrora sempre cheia, vinha perdendo popularidade. Parte da população migrara para uma das três igrejas adventistas, construídas nas últimas décadas, e que vinham conquistando a simpatia de nativos através de suas cerimônias, mais entusiasmadas que as católicas, e mais frequentes que as relacionadas a Pachamama e companhia.

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Taquile não tem ruas, carros, bicicletas ou mulas: tudo e todos transitam por caminhos como esse

 

Findo o papo e a comida, espiei o céu, antes de dormir. O azul quase despido de nuvens, da tarde, deixara como legado uma noite pontilhada de brilho. Eram tantas – e tão luminosas! – as estrelas, que parecia que a própria Pachamama tinha espirrado glitter no espaço.

A manhã seguinte foi ocupada com um passeio rumo ao lado sul da ilha. Mais esparsamente populado, abriga uma praia deserta que, nas palavras de Inês, “deve ser tão linda quanto as do Brasil”. Ela não estava exagerando. Enfeitiçado de novo, pelo mesmo par de azuis, sentei em uma pedra e fiquei intercalando a leitura de um romance barato com a contemplação dos arredores durante horas. Só voltei a mim quando um barquinho adentrou a baía pela lateral, ancorou na praia e despejou meia dúzia de turistas na areia. O guia, que veio na frente, me acenou com a cabeça.

- Tá sozinho há muito tempo aqui, menino? – ele se aproximou estendeu a mão.

Aquiesci e o cumprimentei.

- O rei da praia. – ele sorriu, complacente, e arrumou a chulia que já pulava pra fora da cabeça. – Como um deus.

O grupo caminhou ilha adentro, não sem que antes todos se despedissem de mim. Achei graça do gesto, e do respeito que o envolveu. Qualquer que fosse a crença que o guia tinha em mente, eu era só um discípulo.

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Segundo Inês: “tão linda quanto as praias do Brasil”

 

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