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Posts na categoria "toscana"

Civita di Bagnoregio – uma cidadela flutuante

17 de março de 2013 6

Por Luciano Leonetti Terra

A primeira imagem foi de longe, do outro lado do abismo. O coração tentando acompanhar o que os olhos sentiam com tamanha visão. Boca seca como o solo arenoso e erosivo daquele vale.  Durante a descida, rumo ao caminho sobre o ar que levava até a cidade flutuante, os batimentos se aceleraram um pouco mais. Pelo esforço físico e pela ansiedade de cruzar aquela ponte estreita rumo à visão que ainda parecia irreal. Necessidade de pisar aquele solo para acreditar não ser apenas uma miragem desértica qualquer. Apesar de que a imaginação não seria tão criativa para vislumbrar aquele lugar.

A longa ponte estreita em seu começo era plana, mas nos últimos metros iniciava uma subida. Era o fim do restante de fôlego e ar nos pulmões. Como se a finalidade fosse arrebatar o visitante totalmente. O portal de entrada era grandioso. Ao cruzá-lo temia ter ido para outra dimensão rumo ao passado. Ruelas desertas, casas fechadas por fortes fechaduras e cadeados de metal. O som do silêncio era quase ensurdecedor e só foi interrompido pelo miado de um dos tantos gatos que, logo descobri, habitavam aquele lugar. Aos poucos a pequena cidadela foi se descortinando. A cada esquina vias sem saída davam para o amplo vale. A mais de uma centena de metros acima do fundo do abismo tinha-se a impressão de quase cair no penhasco. Casas, milagrosamente grudadas ao solo, quase pendiam. Destino de muitas outras que ali existiam e que já tinham sido engolidas pelo vazio. Futuro daquelas que ainda resistiam. Morte certa e anunciada.

A vida ali descansou. A monotonia rompida apenas por poucos viajantes que descobrem seu caminho. Menos de meia dúzia de lojinhas e restaurantes quase vazios. Para surpresa uma cozinha familiar ao lado de um pátio pitoresco serviu uma deliciosa massa. Serviço impecável e um calor humano para compensar a falta de pessoas pelas ruas. Quanto tempo suportaria morar isolado, enclausurado nas nuvens? A solidão proporcional ao espaço vazio.

No final da visita, ao cruzar o portal de saída, a visão do alto em direção à ponte que ligava aquela ilha ao continente, novamente capturou o meu fôlego e só consegui sobreviver porque ninguém morre de encantamento. Um oceano de ar e areia separava aquela dimensão do restante dos mortais.

Segundo informações não oficiais, lá moram apenas quatro pessoas, e para minha surpresa conheci uma delas. Por coincidência cruzei com ela na entrada e na saída da cidadela. Uma sincronia de ir e vir interessante. Uma mulher instigante, com ar de mistério. Seria uma deusa ou uma louca? Chapéu de aba larga, echarpe de peles, sobretudo longo e cabelos loiros esvoaçantes. Olhos azuis profundos se confundiam com o céu ensolarado. Caminhava lentamente e a passos suaves, como se levitasse sobre as nuvens do vale. Quando ia embora, ao cruzar com ela pela segunda vez, ouviu minha conversa e perguntou que língua era aquela. Disse-lhe que era português e aproveitei a deixa para perguntar de onde ela era. Sua figura inspirava toda a curiosidade que um ser humano pode ter.  Ela me disse que no momento ela era dali, mas que sua língua era a Polonesa e que também falava inglês e Francês. Contou-me que a solidão para ela não era problema, ao contrário de alguns turistas mais barulhentos. O grande problema segundo ela era ter que cruzar aquela ponte sempre que precisava comprar alguma coisa. Na cidadela não havia mercados, padaria e nem farmácia.

            O que leva alguém a morar ali? Gostaria muito de saber e ouvir toda a sua história. Fuga, busca pelo autoconhecimento, por uma voz interior? Loucura ou total lucidez? Adoraria ter ouvido os seus motivos. Entretanto, como toda viagem a outra dimensão, o tempo era curto e os mistérios muitos. Quem sabe da próxima vez que o portal se abrir eu consiga descobrir um pouco mais de suas verdades. Isto se a cidadela ainda permanecer levitando em seu solo sagrado.

O que comer na Itália? Dicas de gastronomia por região

05 de outubro de 2012 1

A Itália é uma festa para o paladar. Para um italiano , falar sobre um destino de viagem começa sempre com a pergunta básica:  come-se bem por lá? Não é por nada que a Inglaterra seja um roteiro maldito no país.

O ritual da mesa tem uma aura mística , nenhum encontro social que se preze acontece sem um bom vinho e muitos pratos e o célebre movimento slow food, que estimula a valorização das tradições culinária regionais, surgiu na Itália em 1989.

Meu objetivo hoje é dar algumas dicas do caminho das "massas, tomates , queijos e vinhos " para quem vai para Itália e não quer perder as delícias de cada região. As diferenças são muitas, e cada um se orgulha de seus produtos. Além disto não adianta você chegar na Toscana e querer comer um canolli siciliano que vai levar um desaforo de alguma mamma, tem que aprender a saborear também na época certa. Respeito pela tradição faz parte fundamental da cultura italiana. Mas vamos ao que interessa!

 

Piemonte : Queijo castelmagno, robiola e taleggio. Vinhos Barbera e Barolo e Barbaresco. Vinho doce de Asti. Trufas brancas e  negras de Alba. Panacota , doce de nata cozida com calda. Panetone Milanese.

Panacota Piemontesa

Ligúria: Pesto de Gênova, Vinho Valpolcevera.

Lombardia : Queijo gorgonzola e belpaese. Salames. Torrone de Cremona

Trentino Alto Adige : Vinho Santo e biscoito de amêndoas cantuccini.

Friulli- Venezia Giulia : Queijo montasio. Grappa. Presunto San Daniele. Vinho Pinot e Tocai.

Vêneto : Vinhos Valpolicella, Bardolino e Soave, que não é doce e nem suave.

Emília Romana : Vinagre Balsâmico de Módena. Mortadela de Bologna. Queijo Parmigiano Reggiano Grana        Padano de Parma e o frisante vinho Lambrusco.

Toscana : Vinhos Sassicaia , Tignanello e o Brunello de Montalcino. Queijo pecorino. Panforte di Siena, um doce de frutas secas.

Úmbria: Trufa negra de Norcia. Porchetta.

Lácio : Queijo pecorino romano. Spaghetti alla matriciana e carbonara e o leve vinho Frascati.

Sicília : Mini Tomates, pistache ,amêndoas e limão siciliano. Spaghetti alle vongole. Canollo, doce de ricota . Granita e Gelato em Notto. Caponata siciliana.

Granita , uma raspadinha com sabor de amêndoa e morangos

Sardenha : Queijo sardo. Vinho Cannonau e Carignano.

Mesa típica italiana

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Um verão na Toscana: Bagni San Filippo

18 de agosto de 2012 4

Fazia quarenta graus à sombra em Florença. Sabe quando a gente começa a ter a visão duplicada pela bruma que sobe e a cidade medieval arde em chamas amareladas! Assim estávamos , e depois de fazer a visita à Galleria Uffizi , perto da hora do almoço, andar na rua tornou-se um martírio.

Quando ouvimos no rádio que o dia seguinte seria pior a decisão foi tomada, vamos escapar deste caldeirão em busca de um lugar mais fresco e de preferência com alguma possibilidade de encontrar água, poderia ser mar , rio ou mesmo uma poça d´água. O Arno não servia porque infelizmente é muito poluído.

Como Florença é bem compacta , os aluguéis de carro são próximos do centro foi  assim que pegamos um Smart na manhã seguinte, bem poucos passos do hotel e saímos "abanando as tranças " pelas estradinhas do Chianti. Segundo informações locais a Toscana não é muito bem servida de rios e lagos , a sugestão foi seguir até Viareggio na beira do mar. Achei que não seria bem nosso foco , praia cheia  e trânsito ... Preferi algo mais bucólico , apresentar a verdadeira paisagem de ciprestes e girassóis para minha filha , debutante na região.

Mudei a direção e seguimos para o sul , Vale d´Orchia . Nosso destino inicial seria Bagno Vignone que eu já conhecia e sabia ser uma região de termas , água haveríamos de encontrar! Chegamos lá e para nosso desespero a piscina central da cidade é fechada para banho ,a particular entra em manutenção toda a quinta-feira, e adivinhem ....era o fatídico dia!

Bagno Vignone

O gerente do local , vendo nosso desapontamento nos indicou outra terma perto, Bagni San Filippo ao pé do Monte Amiata e foram mais 16km em busca do ouro transparente. Não posso negar que o visual compensou os quilômetros rodados, reclamar seria quase um sacrilégio.

Bagni San Filippo

Chegamos num clube público , numa cidade minúscula! Parecia algo como Gravatal , pessoas mais velhas , silenciosas tomando sol ou de "molho " na água. Novamente 40 graus e o sol do meio dia ardendo,  nossa hesitação foi-se por água abaixo, tudo que queríamos era nos jogar naquela piscina , ou seria melhor dizer banheira. Quando entrei, chegava a queimar , pense numa água quente, pois ali passava de 36.

Mas a surpresa veio quando olhamos atrás do clube , onde passa o rio de água sulfurosa e formando o Fosso Bianco, piscinas naturais onde a pedra foi coberta por sedimentos e ficou com aspecto de glacê! Um visual incrível que lembrava Pamukkale na Turquia , só que em tamanho menor e com infinitamente menos turistas.

O banho mudou de rumo rapidamente e seguimos a corrente , onde a água sulfurosa se misturava a outra fresca e límpida , num ambiente natural e ainda quase intocado!

Nosso dia foi completo com o sol se pondo nas curvas dos vinhedos do Chianti, e o Smart venceu com glórias o desafio!

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Nos caminhos de Passione: Montalcino e Sant´Antimo (parte 2)

06 de dezembro de 2010 1

Seguindo nossa saga pelo interior da Toscana , o dia foi de muitas descobertas e surpresas.

Montalcino é uma gracinha em todos os sentidos. A cidade tem ruelas medievais, fica na ponta de uma elevação com uma bela vista dos Vale de Asso , Ombrone e Arbia, estava toda decorada com bandeiras coloridas e ainda é a terra natal do Brunello e do Rosso di Montalcino.

No período medieval a cidade era conhecida pelos curtumes que produziam um couro desejado por toda a Itália. Fazia parte da importante via de ligação entre Canterbury, na Inglaterra e Roma , a Via Francigena, que marcou como polo comercial toda a região.  Além disto a cidade estava sempre envolvida nas brigas internas entre Siena e Florença. Quando Siena foi conquistada por Florença,  em 1555, Montalcino ainda resistiu por 4 anos mas acabou sendo incorporada também pela Família Medici, .

No século XX a cidade começou seu crescimento como polo turístico e foi o vinho o grande incentivador deste renascimento. O Brunello feito da uva sangiovese, tinha  11 produtores em 1960 e hoje são mais de 200. Este foi um dos primeiros vinhos a receber a DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) ,Brunello tem que envelhecer por pelo menos 5 anos para começar a ser comercializado, o Rosso, feito da mesma uva sangiovese , precisa de um envelhecimento menor , 1 ano.

Assim como Siena , Montalcino é dividida em bairro chamado de contrade.

Almoçamos muito bem numa Enoteca -Osteria bem tradicional com uma bela vista do vale, oferecia como diferencial enviar vinhos para o mundo todo. Na Osticcio comemos um pão com azeite virgem digno dos deuses de entrada , variações de pasta como prato acompanhados , é claro , de um delicioso Brunello, o almoço custou EU$ 30,00 por pessoa.

Depois de termos nossos apetites terrenos saciados partimos para o alimento do espírito. Sant´Antimo é uma abadia Beneditina cuja lenda conta teria sido fundada pelo Imperador Carlos Magno. Nada comprova este romance , mas sua história remonta ao século XII e a arquitetura atual tem típica influência francesa.

Depois de um dia meio cinzento meio chuvoso , chegamos a Abadia quando o sol brilhava nas videiras alaranjadas iluminando a paisagem como se fosse abençoada pelo espírito santo. Tudo conspirou a favor, a caminhada pela estrada vazia, o ambiente límpido pela atmosfera outonal e principalmente a paz que emana de suas paredes centenárias.

Atualmente um grupo pequeno de monges , na verdade oito, vive no local , e sua principal atividade, além da liturgia e contemplação, é o desenvolvimento de coro de cantos gregorianos , que infelizmente não estava em funcionamento neste dia. A Abadia oferece alguns cursos de canto e também programas como o  " Canta e Caminha"  para exercitar o corpo e a alma. http://www.antimo.it/

Pelos caminhos de Passione: Vale d'Orchia (parte 1)

05 de dezembro de 2010 2

Hoje nosso roteiro desvenda uma Toscana um pouco menos conhecida mas cujas paisagens povoam nosso imaginário , principalmente agora em plena apresentação de mais uma novela global ambientada na região, Passione. As paisagens também foram muito bem exploradas em filmes como Beleza Roubada, Irmão Sol, Irmã Lua , Sob o Sol da Toscana e no mais recente , Cartas para Julieta.

 

São colinas ondulantes, matizadas por tons outonais que encantam em cada curva. Claro que muitas vezes a chuva atrapalha um pouco o visual , mas não costuma ser constante e é totalmente recompensada pelo fato de nos deixar com uma Toscana quase particular , sem muitos turistas e nem dificuldades de acesso aos pontos mais concorridos.

Foi numa destas curvas que nos deparamos com a igrejinha que já foi cenário de vários casamentos cinematográficos e também novelescos , como o de Clara e Totó na novela Passione.

Várias cidadezinhas pontuam o caminho, desta vez passeamos por Montalcino, Bagno Vignone, San Quirico , Pienza e finalizamos na Abadia de Sant'Antimo.

Nenhuma  destas pequenas cidade tem uma história muito variada, tirando o fato de serem partidárias de guelfos ou guibelinos ou serem a favor de Siena ou Florença , nas disputas territoriais da Itália Medieval. Mas todas possuem centros medievais preservados e paisagens criadas pelo homem dignas de cartões postais. Nossa primeira parada foi Bagno Vignone, uma antiga estação de águas termais romana e que tem entre seus famosos frequentadores Lourenço , o Magnífico, o mais conhecido mecenas da família Medici que vinha aqui tratar de sua  saúde, era acometido pela doença de reis: a gota.

O pequeno borgo não é mais que um minúsculo centro onde o principal núcleo aglutinador é uma grande piscina de águas termais, bastante quente e convidativa num dia frio e chuvoso. Os banhos são oferecidos num ambiente coberto que fecha justamente às quintas-feiras , o dia que estávamos por lá. Mas a visita foi plenamente recompensada pelo ambiente bucólico e quase solitário.

 

Almoçamos muito bem no restaurante Il Pozzo, numa cidade murada que parece saída das histórias da Távola Redonda, Monteriggioni. O borgo conta com uma muralha de 570 metros de circunferência e 14 torres, sendo totalmente cercada por vinhedos e colinas. No interior das muralhas uma vida melancólica nos faz viajar no tempo.

 

 

Em dois pontos distintos pode-se subir na muralha para observar a paisagem e imaginar como os defensores se prepararvam para um possível ataque. Vale a pena dar uma caminhada , é bem curta pois não se consegue dar a volta inteira , só estavam cobrando a subida na entrada principal , a outra estava liberada. 

 Nosso próximo destino foi Pienza, cidade projetada no Renascimento pelo Papa Pio II (daí seu nome).  Lá fizemos deliciosas compras para um pic-nic organizado em nosso hotel na mesma noite. O queijo pecorino é uma especialidade feita de leite de ovelha , pecora em italiano, grissini, tomates adocicados e para completar um vinho de Montalcino,  a festa foi irreparável! Amanhã conto mais um capítulo.