Por Luciano Leonetti Terra
A primeira imagem foi de longe, do outro lado do abismo. O coração tentando acompanhar o que os olhos sentiam com tamanha visão. Boca seca como o solo arenoso e erosivo daquele vale. Durante a descida, rumo ao caminho sobre o ar que levava até a cidade flutuante, os batimentos se aceleraram um pouco mais. Pelo esforço físico e pela ansiedade de cruzar aquela ponte estreita rumo à visão que ainda parecia irreal. Necessidade de pisar aquele solo para acreditar não ser apenas uma miragem desértica qualquer. Apesar de que a imaginação não seria tão criativa para vislumbrar aquele lugar.
A longa ponte estreita em seu começo era plana, mas nos últimos metros iniciava uma subida. Era o fim do restante de fôlego e ar nos pulmões. Como se a finalidade fosse arrebatar o visitante totalmente. O portal de entrada era grandioso. Ao cruzá-lo temia ter ido para outra dimensão rumo ao passado. Ruelas desertas, casas fechadas por fortes fechaduras e cadeados de metal. O som do silêncio era quase ensurdecedor e só foi interrompido pelo miado de um dos tantos gatos que, logo descobri, habitavam aquele lugar. Aos poucos a pequena cidadela foi se descortinando. A cada esquina vias sem saída davam para o amplo vale. A mais de uma centena de metros acima do fundo do abismo tinha-se a impressão de quase cair no penhasco. Casas, milagrosamente grudadas ao solo, quase pendiam. Destino de muitas outras que ali existiam e que já tinham sido engolidas pelo vazio. Futuro daquelas que ainda resistiam. Morte certa e anunciada.
A vida ali descansou. A monotonia rompida apenas por poucos viajantes que descobrem seu caminho. Menos de meia dúzia de lojinhas e restaurantes quase vazios. Para surpresa uma cozinha familiar ao lado de um pátio pitoresco serviu uma deliciosa massa. Serviço impecável e um calor humano para compensar a falta de pessoas pelas ruas. Quanto tempo suportaria morar isolado, enclausurado nas nuvens? A solidão proporcional ao espaço vazio.
No final da visita, ao cruzar o portal de saída, a visão do alto em direção à ponte que ligava aquela ilha ao continente, novamente capturou o meu fôlego e só consegui sobreviver porque ninguém morre de encantamento. Um oceano de ar e areia separava aquela dimensão do restante dos mortais.

Segundo informações não oficiais, lá moram apenas quatro pessoas, e para minha surpresa conheci uma delas. Por coincidência cruzei com ela na entrada e na saída da cidadela. Uma sincronia de ir e vir interessante. Uma mulher instigante, com ar de mistério. Seria uma deusa ou uma louca? Chapéu de aba larga, echarpe de peles, sobretudo longo e cabelos loiros esvoaçantes. Olhos azuis profundos se confundiam com o céu ensolarado. Caminhava lentamente e a passos suaves, como se levitasse sobre as nuvens do vale. Quando ia embora, ao cruzar com ela pela segunda vez, ouviu minha conversa e perguntou que língua era aquela. Disse-lhe que era português e aproveitei a deixa para perguntar de onde ela era. Sua figura inspirava toda a curiosidade que um ser humano pode ter. Ela me disse que no momento ela era dali, mas que sua língua era a Polonesa e que também falava inglês e Francês. Contou-me que a solidão para ela não era problema, ao contrário de alguns turistas mais barulhentos. O grande problema segundo ela era ter que cruzar aquela ponte sempre que precisava comprar alguma coisa. Na cidadela não havia mercados, padaria e nem farmácia.
O que leva alguém a morar ali? Gostaria muito de saber e ouvir toda a sua história. Fuga, busca pelo autoconhecimento, por uma voz interior? Loucura ou total lucidez? Adoraria ter ouvido os seus motivos. Entretanto, como toda viagem a outra dimensão, o tempo era curto e os mistérios muitos. Quem sabe da próxima vez que o portal se abrir eu consiga descobrir um pouco mais de suas verdades. Isto se a cidadela ainda permanecer levitando em seu solo sagrado.






























































