Gosto do David Coimbra.
Bem, vamos deixar mais claro. Gosto de como escreve o David e gosto dos seus assuntos freqüentes: mulheres, viagens e peladas. Tem coisa melhor?
Mas agora, leio um texto dele sobre camelos. Camelos?
Sempre achei que camelos fosse assunto para o Pedro Simon e seus votos de pobreza, ou até para o Laerte Kafruni Martins, voltando de uma de suas incursões pelo Oriente Médio.
Mas não, o autor é o David mesmo que se fizesse jus ao sobrenome Coimbra seria advogado e nunca teria visto um camelo a não ser no cinema.
Diz ele:
Para os árabes, o que valia era o camelo... a vida nômade de beduínos os leva a serpentear pelo deserto, estacionando à noite no frescor dos oásis, quando há Oasis ou a luz das fogueiras, dormindo em barracas a céu aberto.
As caravanas deslocam-se no ritmo ondulante do deserto, pois com um camelo se alcança um máximo 7 ou 8 km por hora e a autonomia não é sempre a mesma.
No verão um camelo caminha 5 dias sem beber água. No inverno suporta impávido quase 1 mês sem reabastecimento.
A utilidade do camelo vai além. Os beduínos bebem o leite e em último caso sua urina.
Os camelos são bem aproveitados até depois de mortos. Sua carne é assada ou refogada em cozidos. E de seu couro os árabes confeccionam as sandálias para protegerem os pés do calor da areia, as túnicas que os protegeriam do sol e do frio deserto, mais cantis, alforjes muito úteis nas noites estreladas da Arábias.
Como homens de existência tão rústica conseguiram dominar uma boa parte do mundo? Pelo que diz o David, o agente dessa transformação foi Maomé, o Profeta, embora dele também não se pudesse dizer que fosse um homem de origem sofisticada. Ao morrer seu pai havia lhe deixado, apenas 5 camelos, algumas cabras, uma casa e uma escrava.
Maomé era um homem de prazeres simples. Casou-se com uma mulher 15 anos mais velha e que se saiba enquanto ela viveu foi- lhe fiel. Uma monogamia de 26 anos em uma cultura em que a poligamia é aceita surpreende.
Finalmente municiado com o dom da palavra, Maomé dirigiu-se ao seu povo, mobilizou-o e o levou a conquistar um naco do mundo, mas nada em seu benefício. Manteve-se só como profeta. Grande é Alá. E de novo vem à questão: como ele conseguiu tal façanha? Por ter dado aos árabes uma razão para lutar. É o que move os homens.
Um beduíno que vaga pelo deserto sem fé nem ideal apenas sobrevive a cada dia.
Não tem nada, não vê a sua volta nada que possa cobiçar. Logo, não tem motivação pelo que lutar, mas um beduíno que só possui seu camelo pode ser mobilizado pela fé.
Pode dominar o mundo, se achar que esta é a vontade de Alá.