O novo ataque a um surfista chamou a atenção para um velho problema. Nem tão velho, pois começou em 1992.
Os tubarões são vítimas transformados em vilões. Seu habitat foi drasticamente modificado. Sem ter o que comer, mordem seres humanos. Por engano, dizem os especialistas, pois eles dilaceram, mas não comem. O que poderia reduzir os ataques de tubarões nas praias do Recife? A própria revista Época fez um bom estudo há alguns meses. O cinegrafista Lawrence Wahba levou mergulhadores para o fundo do mar no Caribe, onde tem tubarões iguais aos da costa pernambucana.
Os pesquisadores chegaram à conclusão de que o grande responsável pelos ataques foi o Porto de Suape, construído a 40 quilômetros do Recife. De 1947 a 1992, a região só teve um ataque. De 1992 até hoje, já foram mais de 50. O que aconteceu em 1992? O porto começou a operar comercialmente.
Grandes áreas de manguezais foram destruídas para a construção do porto, e os rios Ipojuca e Merepe foram desviados. A área costumava ser frequentada por fêmeas de tubarão em reprodução. É provável que estas fêmeas tenham passado a procurar o estuário mais próximo, no caso, o Rio Jaboatão, localizado ao norte e que desemboca nas praias da região metropolitana do Recife.
Agora que o estrago está feito, remediar é difícil. O trabalho de prevenção realizado é o mais completo do mundo. Há cinco vezes mais placas de sinalização que em qualquer outro lugar do planeta.
Tentaram-se todas as fórmulas para solucionar o problema, mas nenhuma delas mostrou a sua eficiência e todas podem ser burladas. Pessoalmente, acho que a única é a liberdade geral e ampla de informação, que é o que fazem nos parques do extremo norte do Alasca, Canadá e Estados Unidos.
Têm-se as informações e até auxilio para acampar, fazer trekking e o que se quiser, por mais ursos que existam. Vi isto no Denali Park, onde está o Monte Mackinley, o mais alto da América do Norte. E, posteriormente, na ilha de Kot(d)iack, onde tem um urso a cada 3 km2 – a maior concentração que se conhece. Inclusive o Grizzly, aquele grande marrom que, de pé, atinge 3 metros de altura, e o preto, menor, mas furioso. Tem os cartazes, os rangers dão as informações e até emprestam recipientes onde colocar a comida sem que o cheiro exale. Recebe-se uma lista de como se comportar no caso de um encontro indesejado, e até um sininho para pendurar na mochila e alertar o urso, evitando que ele ataque por ser surpreendido. Recebe-se tudo o que se quiser, menos sugestões para não fazer – sabem que são inúteis. Cada um banca a sua vontade ou irresponsabilidade.
Tenho a impressão que é o que deveria ser feito no Recife. Pena que alguns percam a vida ou tenham seus membros dilacerados, mas, contra a vontade, a irresponsabilidade, não há o que se possa fazer.



