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Posts de setembro 2011

Um iceberg no seu whisky?

30 de setembro de 2011 0


Parece que vivemos uma época de sonhos possíveis. Isto até já acontecia há muito tempo. No fundo, era a busca do conforto; em breve, quem sabe, uma necessidade. Por exemplo, os romanos tinham seus fornecedores de gelo – certamente, os imperadores (deles, é claro, não estou falando no Sarney e família), e, como se sabe, os escravos que iam buscá-lo nas montanhas.

A costa norte da Califórnia também já foi abastecida por barcos que vinham do norte trazendo gelo para que o whisky on the rocks ficasse exatamente como queriam.

E até no quente sul da Índia havia esta mordomia: vi a “Casa de Gelo”, como é chamada uma construção de pedra numa ilha bem em frente à cidade de Madras, em pleno Golfo de Bengala. Claro que o abastecimento vinha do Sul – não sei de onde, mas, certamente, do sul.

Nesses casos que relato, o gelo vinha cortado em cubos e armazenado em porões de navios. Agora, com o aquecimento global, a questão começa a ser repensada, só que, em vez de armazenado nos porões, rebocado – mais ou menos como você pode ver na foto que reproduzi da Revista Time.

Segundo eles, o gelo é potável e transportável. Ou seja, os enormes icebergs seriam rebocados até estes lugares de crônica falta d’água. De acordo com os especialistas, não há grandes dificuldades. O iceberg é como um reservatório flutuante. Só na região da Groenlândia, com o aquecimento atual, se desprendem uns 15.000 por ano. Portanto, em vez de deixá-los dissolverem-se lentamente à espera de algum Titanic para afundar, rebocá-los até onde se quer – o sedento sul da Europa, por exemplo.

A primeira tentativa foi em 1950. a idéia agora é fazer uma espécie de proteção isolante, uma espécie de saia, para desacelerar o degelo e ir aproveitando as correntes marítimas. Quanto maior o iceberg, menor a perda, dizem os técnicos, calculada em até 38% em 120 dias de reboque.

Tecnicamente, tudo parece resolvido. A próxima etapa será conseguir entre 3 e 4 milhões de dólares. Se o susto não congelar os investidores, teremos uma interessante experiência pela frente e, quem sabe, novos empregos para os aspones cujo partido não emplacou: enxugadores de gelo.

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O espetáculo das gigantes está começando.

29 de setembro de 2011 0

Não há muito mais a escrever sobre estas simpáticas viajantes. Todo ano, acho que repito as mesmas coisas. Sorry, mas a verdade é que elas nos fascinam.

Quem as vê de perto pela primeira vez sente uma mistura de sensações, que variam do êxtase à surpresa de estar a poucos metros de uma criatura enorme e dócil.  É que, no momento, estamos no início da temporada para observação de baleias do Sul. Elas estão viajando; algumas, mais apressadinhas, até já chegaram. Justamente ontem, dia 28 de setembro, quando escritores e alguns leitores se reuniram em Londres para os 120 anos da morte de Herman Melville, que escreveu o clássico sobre a baleia Moby Dick. Bem, na realidade, era uma orca (não sei se as orcas são da família das baleias; clique no Google para ter certeza).

É provável, também, que o livro do Melville tenha sido o responsável pelo apelido de “assassinas” para as orcas todas, mas, na verdade, não se sabe de um caso, um só, em que uma orca tenha atacado uma pessoa (com exceção da treinadora do Disney World, mas aí não é na natureza e, ao meu ver, um animal estressado, bem tratado, mas vivendo em um tanque, e não naquele marzão, que é o seu habitat). Que são carnívoras? É claro que são, e, como carnívoras grandes, atacam presas grandes, confirmando a sua fama.

Mas, vamos adiante. As nossas costas têm os pontos mais privilegiados para a atividade.

Vindas da Antártida em busca de águas quentes para se reproduzir e dar à luz seus filhotes, ficam por aqui até que seus nenês tenham metros e toneladas e se sintam fortes para a viagem – que, para eles, será a primeira, pois nascem aqui, em águas mais quentinhas. As mães podem chegar a 16 metros e mais de 40 toneladas, sendo facilmente avistadas.

Ao contrário de certas atividades turísticas, as baleias são fontes de renda e criam empregos. Um estudo mostrou que o negócio é mesmo rentável. Segundo o levantamento, 13 milhões de turistas praticaram observação de baleias no ano passado, o que movimentou US$ 2,5 bilhões em 119 países (para mim, esta é que foi a novidade: nunca pensei que 119 países fossem visitados por elas – mais que a metade dos países existentes).

Em barcos ou a pé (sim, é possível ver baleias apenas caminhando à beira-mar) dois estados brasileiros oferecem essa opção: Bahia e Santa Catarina.

O “verão” delas dura até novembro, e, além das francas, acontece o espetáculo das jubartes, conhecidas pelo temperamento dócil e por um desenvolvido sistema de vocalização (não à toa, são chamadas de baleias cantoras).

Em Caravelas (a quatro horas de Porto Seguro), há passeios de barco que duram de um a dois dias. É uma espécie de safári no mar. O turista, enquanto navega, não sabe se as vai encontrar. Mas, enquanto ele está ali, encantado com a natureza e esperando pelas acrobacias, os especialistas trazem à tona toda a causa da preservação marinha – não só das baleias. Mas só até elas serem localizadas, pois, quando elas surgem, ninguém mais ouve nada, é só emoção.

Nas praias da costa baiana, os encontros com os mamíferos estão garantidos até outubro. Mas, antes de se programar, lembre-se: com vento, elas vão para o fundo – e devem ficar tricotando pulôveres para suas crias nadarem protegidas para os gelos da Antártida.


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Aos fiéis do Aiatolá Cafruni.

28 de setembro de 2011 0

Ontem só três estavam presentes – o Leon, eu e o próprio Aiatolá (o nosso, claro) – e tivemos duas grandes decepções. A primeira porque, em vez de 12 (como os apóstolos), éramos só três.

Nunca antes na história deste grupo, vimos uma deserção tão grande. Nunca a falta de quorum foi tão gritante. Como isto aconteceu?

Na saída, ficamos os três confabulando. A desolação do Aiatolá era visível. Afinal, é ele quem escolhe o que as nossas papilas vão saborear.  Ao nos despedirmos, e olhando para o Viejo Pancho, que fica ali pela Protásio, perto do Colégio Israelita, ficamos pensando… Terá sido coincidência ou os ausentes sabiam que aquela é uma das piores opções da cidade? Chamá-la de parrilla é uma ofensa a todos os hermanos (até aos vegetarianos). Há muito tempo, um expert hermano me havia alertado: “Flavio! Hay asadores y quemadores de carne”. Pois bem, o que estava ali era da segunda qualificação.

Ao próprio, eu perdôo; não tem talento e, como todos, precisa mandar os filhos ao colégio. Tenho dúvidas é quanto aos “fiéis” ausentes. Só serão perdoados os que nos disserem que nunca foram lá, como o Lúcio, por exemplo.

Nós três estamos convencidos de que vocês sabiam que a carne naquele lugar vira um lixo torrado, e, por isto, não foram. Neste caso, será imperdoável. Não sei o que diz o Corão por pecados semelhantes, como a ocultação da verdade, mas o nosso Aiatolá vai consultá-lo. E, com certeza, os ausentes ficarão excluídos daquela lista que promete 70 moçoilas para quem morre pela fé.

O Bruno, atleta em concentração, e o Mendes, concluindo o próximo livro, estão isentos de culpa (mesmo assim, vão ficar só com 35 das 70). A jovem que nos atendeu também fez o possível para amenizar a nossa desolação, mas não conseguiu. Portanto, fiéis do Aiatolá Cafruni e gente que gosta de jantar fora em geral, FACEiros, blogueiros e twiteiros que já comeram naquele lugar onde queimam carnes, dêem sua opinião. A sharia, obviamente, só se aplicará aos devotos.

As opiniões de vocês, inclusive do Pancho proprietário, serão levadas em consideração e publicadas com todas as letras.

Alá é grande e Laerte o seu profeta.

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"Montevideo es la Buenos Aires que perdimos sin darnos cuenta.", J. L. Borges

28 de setembro de 2011 0

Foram só quatro dias. Não fui longe, mas fui a duas cidades que gosto muito: Montevidéu e Maldonado. Só me arrependi de ter ido de automóvel (sempre a minha primeira opção; com isto, esquecemos dos ônibus). É que fomos encontrar amigos que ficariam 36 horas no Uruguai, depois seguiriam para Buenos Aires, etc., etc.

Decidimos na última hora. Os horários dos vôos não nos serviam. E o preço também não (preço de balcão é um assalto). Na ida, teríamos que ir a Buenos Aires pegar o barco, etc. Além do prazer, era uma retribuição. No ano passado, eles saíram de Oslo para ficar conosco um fim de semana longo em Paris.

Por que tanta pressa? Porque minha mulher tem um escritório de advocacia, e, como vocês sabem, pelo menos alguém da família tem que trabalhar…

Não nos lembramos dos ônibus, que são ótimos. Pensamos logo no automóvel e… na nossa adega, que o frio inverno deste ano ajudou a esvaziar. Além de queijos, fiambres, atum, azeite e dulce de leche, pode-se trazer 16 garrafas por pessoa. Não é muito, mas 32 garrafas de bom vinho a preço que se pode pagar revigoram qualquer adega.

A inspeção foi rigorosa sim e, felizmente, também do exército. Por duas vezes, checaram os nossos bagulhos; todos jovens e educadamente – espero que continuem.

Almoçamos no Mercado del Puerto, o antigo mercado transformado em pólo de restaurantes e lojinhas. O local sempre confirma a justa reputação de ter uma das melhores carnes da cidade.

Além disso, percorremos lojas e shoppings, vimos – ou melhor, mostramos – duas esculturas que gosto muito: La Carreta, ali ao lado do Cassino, e La Diligencia, também uma carroça com cavalos passando um córrego (tive que pedir a um táxi que fosse na frente; sempre me perco quando vou até lá). Fomos aos antiquários da Tristan Narvaja e, acima de tudo, confraternizamos.

É ótimo ter amigos queridos. Nos conhecemos na Mongólia e, juntos, já fomos à Islândia e fizemos a Rota 66. E, graças à perseverança deles (dela, principalmente), fomos a todos os pontos históricos marcantes – portanto, valeu a viagem. A recomendo.

Voltando ao vizinho Uruguai, ficaram encantados, não só com a carne, mas com o Mercado del Puerto todo e com tudo o que tem como “exótico” para eles (chinchulines, tripa gorda, morcija salada, morcija dulce con cáscara de naranja, pamplona de hígado e isla flotante). Devem ter pensado ser parte de algum sacrifício, oferenda, vudu, mas não chiaram (na Mongólia, havíamos passado três semanas comendo só carne: de ovelha, cabritas, gado, camelo, renas, cavalos e viscacha; mas só carne, e, em vez de mandioca para espargir, farinha de trigo). E, como todos, no dia seguinte se encantaram com os sanduíches (de miga) do Roldós, que são maravilhosos e encantam os clientes há 109 anos.

Para terminar, fomos ao Fun Fun, pitoresco bar desde 1895, reduto de seriedade entre os afeitos ao tango. Tomamos vinhos diferentes, mas de uma mesma uva: Tanat, que os uruguaios estão elaborando cada vez melhor. A comida não é aconselhada, mas já sabíamos e não comemos (bingo!). Assistir ao show com bandoneóns e dançarinos que rodopiam no palquinho é ver a essência da boemia uruguaia e um prazer.

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Four, five, six.

27 de setembro de 2011 0

Senhor Licurgo, obrigado por nos acompanhar e escrever. Sinto desaponta-lo, mas aprender em um ou dois idiomas não confunde os pequenininhos.

A idéia de que alguém se “atrapalhe” com mais de um idioma me causou risos, e é a prova de que quem escreveu não é versado em idiomas.  É comum pessoas jovens – ou não – servirem de intérpretes em 4/5 idiomas ao mesmo tempo. Nosso cérebro é bem mais ágil do que imaginamos.

No fim de semana, encontrei o Cláudio Gerhardt no Brique da Redenção, e ele, leitor do Viajando por Viajar, me lembrou um exemplo que ele conhece melhor que ninguém, pois casou com uma das filhas do casal Bulgarini Delci.

Pai italiano nato e mãe filha de alemães, amigos meus desde sempre. Ele, ex-comissário, veio a Porto Alegre como gerente da Alitália. Se aquerenciou e ficou. Com cinco filhos: nas refeições falavam, ao mesmo tempo, 4 ou 5 idiomas propositadamente. Quase sempre a palavra mais curta em cada idioma, que automaticamente vem, automaticamente. Claro que pai e mãe poliglotas não é exatamente uma coisa comum, mas digo isto como testemunha de que as crianças nunca tiveram problemas com essa prática. Pelo contrário, só facilidades. E não são dos que entram no avião bilíngües e se tornam monoglotas ao sair, pois português lá fora só em alguma exceção.

É bom lembrar que belgas e holandeses aprendem quatro idiomas na escola, mais os seus dialetos (como o valão e o flamengo, etc.). Além disso, os jovens procuram, nas férias, trabalhar na Itália ou na Espanha para aprender mais dois idiomas que não são ensinados na escola. Segundo eles, com alguma dedicação e duas férias no país, tornam-se razoavelmente fluentes. Chega a ser humilhante, você pede uma informação na rua e o indivíduo responde no idioma que você pediu, ou saca no sotaque a sua origem e segue no seu idioma.

Pense um pouco (não dói nada): não será melhor aprender espanhol ou inglês quando jovem, ou, até, criança (para não ter que fazer como uma pessoa que conhecemos e é conhecida de muitos, em Porto Alegre, mas que tinha um inglês sofrível, e, na primeira vez que foi para a Europa, na hora de levar alguém pra cama, saía-se com: “Me Tarzan you Jane, ok?”)?

É claro que esta é uma opinião pessoal e aprendida fora da escola, portanto você não tem obrigação de segui-la – nem eu pretendo mudar o seu pensamento. Você pode ir aprimorando o seu português e se entender muito bem com gente de Timor Leste, Açores, Ilha do Sal, Guiné Bissau, Angola, Moçambique, além da Santa Terrinha.

E termino com uma pergunta ao nobre deputado autor do projeto: por que proteger o português? Vamos ficar como a propaganda do Banrisul: é melhor porque é nosso, só porque é nosso?

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Save the date - 4 de outubro

27 de setembro de 2011 0

Quatro de outubro, terça-feira, para mim é muito importante. Toda volta ao Studio é muito importante. Ali passei seis meses por ano durante duas décadas. Aliás, um pouco mais. Quando eu quis comemorar os 20 anos, minha assistente, que estava tabulando a série de projeções, foi cruel e disse: “O Flavio? Vinte não, dá mais; já passaram 21…”.

O que sabemos é que foram ali 540 fins de semana entre quatro paredes negras, mas rodeados de viajantes alegres, dispostos e pagantes; quer mais?

E agora, no dia 4 de outubro, temos o lançamento de um livro. Mas aí já é com o Studio Clio e sob nova direção (by Marshall Brothers) muito mais dinâmica. Todas as semanas, tem várias atrações, e ótimas. Tem que ver é se são do seu interesse. Mas a qualidade é sempre de primeiríssima.

Voltando ao livro, são os encontros com o professor, mas impressos e editados, pois todos foram gravados. Não sei o horário, mas os jornais certamente vão publicar. O que sei é que estou muito feliz em ser um deles.

Minha única queixa é que o Studio Clio, seguindo a linha que vejo nas redes sociais, não deveria publicar uma foto minha de hoje, mas de quando eu tinha 20 anos, como fazem os sites de relacionamento.

Eu era jovem e bonitinho, como todo jovem, não este jurássico que você está vendo. Nunca ganhei o concurso de robustez infantil da Nestlé, mas também não precisavam exagerar com a foto que está aí – quem sabe uma foto lá pelos 40/45 e eu não iria reclamar.

Fora isso, obrigado ao Prof. Ostermann, aos Marshall Brothers, a toda a equipe do Studio Clio e, em especial, a você que, se puder, dará um pulo até lá só para dizer que a foto é boa, que não pareço um jurássico e que todos nós somos alegres e inteligentes.

Antes que você pergunte, devo dizer que não sei quem são os outros, mas vou perguntar e publicar.

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Daniel Defoë ou Alenxander Selkirk?

26 de setembro de 2011 0

Plínio: muito obrigado pelos elogios e referências. Sim, sou o mesmo que vias passar competindo na Vila Nova e Cavalhada. Até hoje lembro com saudade.

Dizes também: “em que pese detonares com um dos meus heróis juvenis, gostei de ler o que escreveste – embora o gatilho do teu relato tenha sido um triste acidente”.

Qual é mesmo a verdadeira história?

Para o início da história, é só regredir algumas postagens e vais encontrar. O fim da história é mais fácil ainda. É só continuar lendo.

Façanhas estreladas por personagens reais são sempre um terreno pantanoso para quem relata ou escreve. Há sempre o perigo de versões fantasiosas ou estereotipadas. No caso desta, eu estive na gruta, vi e fotografei as duas placas de bronze colocadas pela marinha britânica: uma com o nome dos oficiais que o deixaram e outra com o nome dos oficiais que o recolheram. E uma outra coisa interessante: lá, placas de bronze permanecem nos lugares onde são colocadas, não evaporam. Não sei o que há com o nosso bronze?

Neste caso, as datas e a sua solidão são comprovadas. O verdadeiro herói da história tem um desentendimento com o capitão e, na discussão, praguejou contra o barco, a viagem, etc., e disse que desceria na primeira ilha que aparecesse… que não queria mais, etc. Dois ou três dias depois, surge a primeira das três ilhas, e o capitão, no briefing matinal, diz: Mr. Selkirk, aí está a sua ilha.

Segundo o diário de bordo do comandante, ele estava ironizando a arenga, mas, para surpresa de todos, o cabeçudo escocês, fazendo jus à sua origem, diz: “Sim, senhor, vou buscar as minhas coisas”.  Ante o espanto geral, volta em dez minutos, com um saco, dos usados pelos marinheiros de então, e um escaler o deixa na ilha.

Quatro anos e quatro dias depois, passa um outro barco, também da marinha inglesa, e observa a fumaça de uma fogueira (que Selkirk deixava sempre de prontidão). O barco para e descem alguns homens, que o encontram já meio desmemoriado e o recolhem, crendo ser ele um náufrago. Só acreditam na sua história quando, já na Grã-Bretanha, consultam os livros.

Alexander Selkirk vai a julgamento, é condenado, mas o seu feito é reconhecido. Obtém o perdão já na própria sentença, mas permanece em vigor a última frase: não mais poderá subir em nenhum barco da armada britânica.

Marinheiro desempregado, e já meio lelé, ele ganhava a vida contando sua história nos bares do porto e graças à benevolência dos colegas.

Um belo dia, seu interlocutor foi Daniel Defoë, o escritor, que o ouve com atenção e, impressionado, pergunta: “você quer me vender a sua história?”. Negócio fechado. Com 50%, tomou mais algumas e saldou a sua conta com o dono do bar. Com o restante, adiantou uma importância a um comandante de barco privado para que este, em sua próxima viagem, o deixasse naquela ilha – a sua ilha – que fica na altura de Santiago do Chile, caminho natural para os barcos que iam para a Austrália antes da abertura do Canal de Suez. Passados 45 dias, o comandante bate na sua porta e lhe comunica a data e horário da saída.

Na data marcada, ali estava Selkirk, com um saco de viagem igual ao primeiro.

Depois de quase três meses de viagem, quando estavam a dois dias da ilha, uma forte tempestade fez sua caravela naufragar. Alguns dos tripulantes foram recolhidos pelos outros dois barcos da flotilha, mas o verdadeiro herói jamais pôde voltar à ilha que hoje tem o seu nome.

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Voltando à ilha do Robinson

23 de setembro de 2011 0

Em tempos digitais, voltar a uma estória de 1715, com naufrágios, piratas, tesouros, parece coisa de filme infantil ou o dito popular “tem louco pra tudo”.

Pois bem, pense como quiser. Fui até lá há alguns anos, pois, além da curiosidade nata, pretendia fazer um documentário sobre ilhas no mundo – ilhas com história, mas longínquas e desconhecidas – e  escrevi sobre esta há umas semanas. Se você der marcha ré nas postagens, verá; foi quando ali caiu um avião com 24 passageiros.

A estória-título não precisa ser reescrita, nós todos a lemos na infância. Aliás, é o único livro – que eu saiba – de Daniel Defoë, enquanto nossos outros autores juvenis escreveram dezenas. Jack London, por exemplo. Outro? Karl May, que escreveu sobre tudo… sem ter saído da Alemanha.

Quando vou aos lugares, estimulado pela leitura do passado, encontro tudo como Karl May relatou, com uma precisão surpreendente – e se passaram mais de 100 anos (ainda vou a uma sessão espírita para que algum médium me explique como isto pode ocorrer).

Mas, voltando ao Robinson Crusoé, nem este era o seu nome. O autor comprou a história num bar do porto, de um marinheiro escocês chamado Alexander Selkirk, que realmente havia passado 4 anos e 4 dias sozinho naquela ilha.

É que, mesmo reconhecendo o feito da sua sobrevivência, a marinha britânica o condenou por ser “amotinado”. Mas, ao mesmo tempo, comutou a pena (ele já estava meio lelé), porém com uma condição: ele jamais poderia subir em qualquer navio da marinha.

Selkirk, que já andava bebendo muito, usou 50% da quantia que recebeu pela história para pagar sua dívida no pub. Com os outros 50%, adiantou ao comandante de um barco privado o valor da passagem para voltar à “sua” ilha. Dizia que não conseguia mais viver entre os civilizados – e ele falava de Glasgow em 1715.

O autor volta para casa e escreve o livro, procurando ser o mais realista possível. Bem, os possíveis editores odiaram o original, acharam o nome pouco sonoro, a história muito triste: um homem solitário numa ilha “no way”. Devem ter achado que Bergman ou Fassbinder poderiam escrever este drama de solidão 250 anos depois. Mas eles estavam em tempo real e queriam vender.

Volta ele para o escritório e escreve um segundo roteiro com algumas mudanças sugeridas, etc. Mas não emplacou também.

Na terceira tentativa, Defoë criou um naufrágio, o resgate da mobília, um combate, o Sexta-feira, os índios que iam sacrificá-lo e, quem sabe… se auto-entitulou de Buana, etc. – coisas que nunca existiram no feito original de Alexander Selkirk –, ou seja, a história que todos conhecemos.

Aí emplacou e deve vender até hoje.

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A foto é o título

22 de setembro de 2011 0

Preferi fotografar. Se eu escrevesse, ninguém acreditaria.

É que li na ZH, e acho que li na hora errada. Li após ter visto uma análise sobre o nosso atendimento hospitalar no Rio, São Paulo, etc., só grandes cidades. Falava e mostrava as pessoas que morrem esperando; atendimentos que não são feitos por falta de condições.

Realmente, o que mostraram não era possível. Aí, leio o que você já leu ali em cima: que o Brasil está financiando a ampliação do Porto de Mariel e já fez um aporte de 300 milhões – de dólares, claro.

O discurso deve ter sido o de sempre: a ampliação do Porto de Mariel será muito útil para a unificação dos povos oprimidos pelo capitalismo, etc.

Que se saiba, só o que foi exportado por esse porto (que fica a uns 60/70 km de Havana) foram os Marielitos – aqueles dissidentes que conseguiram vistos para outros países –, e os dois irmãos aproveitaram para limpar a sua ilha mandando também doentes, deficientes, marginais, presidiários, etc. Foram 126.000, o que prova que a ilha não era assim tão pura e ilibada. No mais, não sei o que vão exportar sem produção, e, em um porto em que só o primeiro aporte foi de mais ou menos 500 milhões de reais.

Importar, quem sabe, cereais e outros alimentos que, depois de 50 anos de revolução, não conseguem produzir. Aliás, acho que, até hoje, só exportaram ideologia… e mal-sucedida. Eu, pelo menos, não conheço nenhum país que tenha sido levado ao primeiro mundo com sua forma de pensar. E é só o que exportaram, sendo que os maiores importadores são as universidades brasileiras.

Bem disse a Margaret Thatcher: o socialismo acaba quando acaba o dinheiro… dos outros.

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Idioma II

21 de setembro de 2011 0

Vamos devagar. Não ofendi o idioma português, nem a ninguém. Só não entendi, Sr. Isidoro, por que devemos amá-lo? E até me atrevo a perguntar: que diferença faria para nós se falássemos javanês, como no conto?

Posso falar por mim mesmo. Fui educado (ou amestrado, se o senhor preferir) em português e italiano – língua que falavam meus pais – e espanhol, este aprendido só de ouvido. É que, na época, vivendo no interior e em lugar frio, o rádio era um grande companheiro (e só adultos saíam à noite). Mais ou menos como com a TV de hoje, eram todos em volta do rádio.

As rádios distantes eram captadas com mais clareza que as de Porto Alegre, a pouco mais de 100 km. Do Rio, tínhamos a Rádio Nacional e, das hispano hablantes, as rádios El Mundo, Carve e Belgrano, e só.

Como resultado, aprendi espanhol e gosto de tangos até hoje.

Voltando aos idiomas, lembro da minha primeira viagem à Argentina, sozinho, de trem, via Uruguaiana. E lembro, também, que o meu espanhol já era bem razoável (não me refiro ao portunhol), chegando a surpreender os atendentes do Hotel Internacional. Pois bem, contrariando o Seu Isidoro, nunca troquei idiomas, nunca me atrapalhei com eles – e, nos que aprendi adulto, nunca tive a mesma fluência que naqueles aprendidos na infância.

Agora vem um camaradsky sugerir que o nosso código secreto seja “protegido”. Só o que vão conseguir é impossibilitar que aqueles não frequentam (ou não podem frequentar) uma escola de idiomas retardem seus primeiros contatos com outros idiomas… ou entendam a internet, maciçamente em inglês – queiram ou não, e independentemente da crise americana (sonhada por eles), o do decantado naufrágio da economia anglo-saxã.

Com o português, saímos de casa bilíngues e, após entrar no avião, nos tornamos monoglotas.

Achar que a gente deva primeiro aprender o nosso idioma para depois aprender outros é meio esquisito, não?

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