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Viva o Rio!

27 de fevereiro de 2012 0

De um tempo para cá, venho me esforçando para saber o que um estrangeiro pensa da nossa deliciosa confusão. Não do que eles dizem, pois são educados, mas o que vai pela sua cabeça vendo e ouvindo a nossa deliciosa confusão.

O barco ficaria três noites no Rio e nós fomos recebê-los – nada de extraordinário; nos tratam tão bem no seu país que é o mínimo que podíamos fazer, pois são incansáveis quando estamos lá para cima, e, no ano passado, saíram de Oslo para passar um long weekend conosco em Paris.

Foi ótimo o reencontro, e, sem dúvida, os tranquilizou. Imagine-se descendo num píer ao lado da Praça Mauá sem entender português. O desembarque iniciou lá pelas 7h da manhã e nós ali. Amigo é para essas coisas. Mas, além dos dois amigos e outros 2.498 turistas, lá havia um batalhão de vendedores, falsos guias turísticos, prostitutas (nada contra a classe) ainda com a maquiagem de ontem, que as deixava out of place, ambulantes, taxistas, mendigos, oportunistas e alguns “veadinhos” saltitantes. Uma leve brisa amenizava o calor, mas fazia revoar os papéis, folhas secas e copos plásticos.

Imagino o que sente um estrangeiro que começa a sua aventura carioca nesse misto de cidade desejada e confusão saindo do ar-condicionado para o calor tropical e ouvindo sons que não entendem, e todos oferecendo alguma coisa – de picolés a “rapidinhas”.

Claro que nos viram de longe – duas pessoas abanando bandeiras da Noruega em pleno Rio não é exatamente uma coisa difícil de visualizar, mas disseram que, até ver as bandeiras, estavam entre o desalento e o desamparo. Com os abraços carinhosos que receberam, tudo mudou.

Diga-se de passagem, não havia violência, só zoeira, barulho, e, no empurra-empurra, dois louríssimos não conseguiam caminhar.

São viajantes experientes e sabem encarar situações incômodas, mas a combinação de Rio de Janeiro/Praça Mauá e fim da madrugada (todos acordam cedo para ver a entrada na Baía de Guanabara, que é espetacular) é meio complicada.

“Ver vocês ao longe foi como nascer de novo”. Não sei bem o que isso quer dizer em norueguês, mas os imaginei como dois vickings chegando nos trópicos e cercados de tupiniquins ensolarados. Queiramos ou não, viajar é assim, e essas situações aumentam o nosso prazer, é o inusitado, o novo. Quando os levamos a uma feijoada na casa de amigos, o Kai olhou atento e perguntou: “É parte de uma cerimônia vodu? Ou black magic?” (Mas adoraram. Imaginem depois de uma semana com comida de bordo correta, um prato preto com paio, lingüiça, orelha de porco, carne seca e costelinhas.)

Por isso, não adianta saltar etapas. E até por isso, resolveram ficar conosco no hotel até a saída do barco. Para conhecer um lugar, é preciso gastar a sola, é preciso ter tempo e aceitar o que vem pela frente – seja uma bela mulata, alguns flanelinhas ou bueiros que podem explodir (mas isso eu não contei; se contasse, passaria por mentiroso, até porque o Kai – o marido – é engenheiro e nunca acreditaria).

Bem, adoraram o Rio! E estávamos numa mesa de rua a uns 100 m da Praça Nossa Senhora da Paz quando consegui traduzir com algum sucesso a plaquinha que estava presa a um chapéu de sambista na mão do pandeirista: “Se você não der, nóis toca”.

O Rio é isso. Viva o Rio!

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