
Me perguntam como a Kaaba, a grande pedra central existente no pátio, se tornou o grande altar do Islã.
Bem, desculpem, mas não sei. O que escrevi ontem é justamente porque não nos deixam entrar lá – ao contrário do Vaticano, do Grande Templo Mormon de Utah e, até, de algumas mesquitas do conturbado Irã. O pouco que sei é que foi o próprio profeta Maomé que estabeleceu ali o centro da religião islâmica, onde todo muçulmano deve ir uma vez na vida (e também a Jerusalém e Medina) para se tornar um hajji – mas isso foi no ano de 632 D.C., e a peregrinação segue até hoje.
As grandes caminhadas pela fé, daquelas épocas, foram definhando, a dos romeiros que iam a Roma, os Palmeiros que iam a Jerusalém (e traziam palmas). Aos poucos, foram criando também o Caminho de Santiago, que fiz com o beato Sérgio Reis – beato, mas cuidado! Ele está no quinto casamento, feliz da vida com a adorável Vera Bahia, que, como o nome diz: baiana e chegada num tambor. Portanto, cuide-se com ele, pelo óbvio, e com ela, pois tem todos os santos da Bahia do seu lado. Não é por nada que a Bahia é a Bahia de Todos os Santos.
Voltando... No fervor das peregrinações, os caminhantes enfrentavam tempestades de areia, beduínos, bandidos, alguns morriam antes de tocar a pedra sagrada – o que era uma pena, já que estavam tão perto da salvação. Embora não se saiba quem está enterrado lá, sabe-se que foi há 900 anos.
Há muitos outros anônimos enterrados ali (não confundir com o nosso Anonymous, o Pinheiro Machado). Teve até um rei africano, Mansa Musa, que partiu de Timbuktu em 1324 e levou mais de 500 escravos. Imaginem o que deve ter sido umas 600 pessoas a pé, a cavalo e camelo, que praticamente atravessaram a região subsaariana da África – mais ou menos 3000 km (sem carro de auxílio, geladeira, chuveiro e desodorante).
Já o Laerte Cafruni Martins, que fez a viagem recentemente, para sorte sua, tem cara de beduíno, rico, mas beduíno – e fala um pouco de árabe –, não teve outra queixa a não ser a qualidade do vinho servido na classe executiva: primeiro, não era da Borgonha; e, segundo, um pouco mais ácido do que ele gosta. Mas tornou-se um hajji. Ou seja, poderá continuar pecando, como todos gostamos, e, mesmo assim, tem o reino dos céus à sua espera.
Foto: http://www.sxc.hu/browse.phtml?f=download&id=985250