Voltando a Porto Alegre e a nossos presídios, por que não copiamos os exemplos que dão certo? O que não se deve é continuar com 4 ou 5 mil pessoas desocupadas e sem nada a fazer, a não ser dando e recebendo “tecnologia” do mundo do crime. Aos que conhecem o assunto as minhas desculpas, não sou eu quem pode e deve dar palpites. Só duas vezes estive em cadeias... Calma! Eu explico: uma vez visitando um jornalista que ficou lá por dois anos. Era uma cela nova, limpa com livros, rádio e tv, de lá transmitia um programa. Bem diferente das fotos que tenho visto nos jornais. Outra vez há muitos anos quando demoliram o “ cadeião “ que existia ao lado da usina do Gasômetro. Na época eu trabalhava na indústria de automóveis em São Paulo. Vim a Porto Alegre e fui entrevistado pelo Ivan Castro num programa ao meio-dia; eu acabara de ganhar a 5ª corrida de 12 horas consecutiva , na época a prova clássica da indústria nacional. Só carros feitos aqui competiam. Durante a entrevista, lamentei que estivessem demolindo o cadeião. E a explicação das autoridades era a mais ingênua, tipo: tínhamos que “ tirar aquela mancha do passado. Ali se cometeram muitos crimes” ou seja, pela mesma lógica se demoliria uma boa parte dos castelos europeus. Bem, o programa “pegou fogo”: todas as opiniões eram contra a minha. Saio de lá P. da vida e vou almoçar no Treviso. Para minha surpresa todos os que tinham visto o programa achavam que tinha que demolir, opinião contrária a minha. Lá pelas 16.30/17 horas levo até lá para conferir a barbaridade a Tereza Rachel, atriz até hoje, que estava em Porto Alegre com a peça Liberdade Liberdade. Até que enfim alguém com a mesma opinião que eu. O prédio era muito bonito, parecia um mosteiro português, se quiserem europeu, mas já era tarde....mesmo que os que autorizaram a demolição voltassem atrás, o telhado já tinha sido retirado, janelas, portas, paredes internas e pisos, nada mais existia; era só o arcabouço externo. Entramos direto, o vigia não perguntou nada, os operários já haviam saído, era só a poeira denunciada pelos últimos raios de sol. Não havia nem barulho de tráfego; aliás, ali quase não havia tráfego, era uma ponta isolada e só.
A Tereza, visivelmente comovida com tudo, a estória que eu contara, o por do sol cujas últimas luzes entravam pelos vãos das janelas , subiu num monte de entulho e com seu vozeirão extraordinário começou a declamar trechos da peça Liberdade Liberdade, escravidão do passado, poetas nordestinos, etc, etc. até que o sol se pôs...
Saímos já no escuro, agradecemos ao vigia e naquela noite após ao show no teatro da OSPA, voltamos ao Treviso e o assunto era o cadeião sendo destruído e os poemas da Tereza Rachel. Voltamos no dia seguinte com o Jairo Arco e Flecha , Luiza Maranhão, também atores e mais o Paulo Autran. Não tinha sol, uma leve garoa arrefeceu até a nossa revolta com a destruição do prédio. Foi quando o mesmo vigia, a quem no dia anterior eu havia perguntado sobre objetos, a porta da masmorra, das solitárias etc. respondeu a pergunta do dia anterior, disse: sobraram uns suportes de lanternas . Comprei na mesma hora, afinal bons artesãos também vão pra cadeia. As tenho até hoje.



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