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Mães Sem Nome (parte II)

13 de março de 2013 1

Continuação da entrevista de Márcia Noleto a Mauro Ventura de “O Globo”.

REVISTA O GLOBO: Há algo em comum entre a tragédia de Santa Maria e a que vitimou sua filha na queda do helicóptero em Trancoso?

MÁRCIA NOLETO: As duas comprovam que a maioria dos lutos, no Brasil, envolve negligência e impunidade. No meu caso, o piloto, que morreu no acidente, estava com a carteira vencida havia sete anos. Aterrissando e decolando de aeroportos internacionais sem nenhuma fiscalização. Lutei muito, junto com todos os parentes envolvidos, para que pudéssemos ao menos suspender a carteira dos dois pilotos que trouxeram irregularmente o helicóptero de Jacarepaguá até a Lagoa. Mas até hoje ninguém foi sequer suspenso. Não queremos prejudicar ninguém, queremos apenas uma punição que sirva de exemplo para que outros casos não aconteçam.

Qual o principal objetivo da página ‘Mães SemNome’?

Compartilhar a dor. A qualquer hora do dia e da noite, discutir o luto em suas diversas fases e dimensões. Temos um lado prático também: trocamos informações sobre fé, indicamos livros, falamos de remédios, estimulamos a atividade física, contamos nossas histórias, escrevemos palavras de encorajamento às mães que perderam seus filhos mais recentemente e, principalmente, falamos de superação. Não sou a única a sofrer. Somos um enorme universo em um mundo cada vez mais violento e cruel. As tragédias chegam a muitos lares. Apenas uma rara minoria passa por esta vida imune.

Como tem sido o resultado?

Imediato. Quando as mães entram na página, estão pedindo socorro. Quase todas perderam a vontade de viver. Quando dizemos umas às outras que sentimos saudades de nossos filhos e abrimos nossos corações, passamos a ser parceiras da dor e da esperança. É uma espécie de terapia em um país onde nem todos têm acesso a um tratamento psiquiátrico ou terapêutico. Qualquer pessoa, dedicando meia hora de seu dia, pode ajudar muitas outras.

Como é o livro ‘Mães sem nome’?

A princípio, incluiria dez entrevistas, mas vamos acrescentar a tragédia de Santa Maria. O mais difícil para mim é que revivo meu luto cada vez que escuto uma mãe falar. A ideia é lançar junto com a visita do papa, em julho. Gostaria que ele desse uma benção a um grupo simbólico de mães brasileiras que perderam filhos, principalmente as mais pobres e humildes. Quando vi fotos de mães de Santa Maria beijando caixões, me vi nelas. Vi a dor de minha família. Lembrei de um passado que não voltará mais. A ideia do livro é mostrar que é possível sobreviver e superar a dor mais terrível, da perda de um filho. Choro diariamente, mas sei que tenho que continuar vivendo com dignidade até meu último dia. Tenho que cuidar do meu filho, João Pedro, e do meu marido, Hélio. O nome ‘Mães sem nome’ é porque, ao perder um pai ou uma mãe, ficamos órfãs; ao perder um marido, ficamos viúvas, mas ao perdermos nossos filhos não há um nome para qualificar a nova situação.

Como você está hoje?

Desejo a todas as mães de Santa Maria muita paz. Sei que vão sofrer muito. Estamos marcadas para a vida toda. Passei por várias fases. Hoje vivo no limbo, faço as coisas no automático. É um lugar onde não se tem muito prazer, a não ser ficar com meu filho e meu marido. Tento acreditar que a vida tem que ser vivida com dignidade e que a alegria vai voltar. Tento também usar a disciplina a meu favor. A ferida ficará sempre aberta, mas me obrigo a ir ao trabalho, a fazer exercícios físicos, a ter planos, a retirar os medicamentos aos poucos e a acreditar que um dia vou rever minha moreninha e vou abraçá-la longamente. Um abraço de amor que vai apagar todas as minhas dores.”

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Comentários (1)

  • Dione diz: 21 de março de 2013

    Eu vivo esses sentimentos todos, às vezes, tenho a nítida sensação de que não suportarei por mais tempo. Tenho um filho de 25 anos, João Victor. Pedro Henrique morreu em 12/01/2012, aos 26 anos, em um acidente de carro na BR 101, quando vinha, a serviço, de Campos. Ele era o motorista. Morreu na hora. Não procurei saber como tudo ocorreu, fiquei com o que me foi relatado no boletim de ocorrência. Não me sinto forte o suficiente para tanto… reservo minhas forças para caminhar com meu filho João Victor e tentar me manter em pé. O translado do corpo demorou… quando fui ver meu filho, já não era mais o mesmo…meu filho era muiiito bonito, desde bebe, foi extremamente difícil pra mim. É muito difícil ver uma mãe abraçada ao caixão de seu filho… lembro sempre de mim… foi o que me restou no dia… não pude beijar meu filho…olhar pra ele pela última vez… Estou viva… É muiiiita dor, muiiiito sofrimento… o que me sustenta é a minha fé inabalável em Deus…Ele está no controle de minha vida, não sei explicar quase nada, mas tenha a convicção da FÉ, mesmo nos meus momentos de maior fraqueza. O pai deles morreu em 12/03/2006, aos 49 anos, de tumor no cérebro.
    Faço psicoterapia e tenho acompanhamento de um médico homeopata unicista desde a primeira semana. Por enquanto é somente isto. Muito obrigada pela oportunidade.

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