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Carta ao Bird Clemente

23 de outubro de 2014 Comentários desativados

BIRD

Caro Bird,

mais uma vez obrigado. Chegaram as revistas extras, e estou começando a pagar as promessas. Não vou dizer que tenha fila mas quase dois meses depois da publicação ainda recebo alguns telefonemas cobrando a promessa, (é que raramente vemos a “motor rancing” no RS, uma pena).

O que me deixou surpreso é ser lembrado por performances de quase 50 anos atrás; é a glória. Provavelmente devido a credibilidade de quem assinou a matéria, um ídolo perene de todos os fãs de automobilismo e de todos os que acompanharam a implantação da indústria automobilística que hoje faz três milhões de automóveis por ano.

Lembrar das provas iniciais, em que ousávamos desafiar os gigantes ainda me arrepia. Nas largadas parecíamos pigmeus do lado das gigantes carreteiras que tinham motores de cinco à seis vezes o volume cúbico dos nossos DKW’s.

Além disto, tínhamos até o descrédito do público acostumado ao ronco dos oito cilindros. Quando se soube que estávamos inscritos, fomos chamados de arrogantes (o que é que queríamos ali?), até que nas primeiras mil milhas que as fábricas participaram, lembras do que dizia o mais velho dos Fittipaldi, o organizador da prova: a responsabilidade de vocês é enorme. Cabe a vocês provarem que podemos fazer carros que aguentam 1.600km. Era verdade, e nós jovens, muito jovens, já íamos botando a faca nos dentes.

Na largada à meia noite, só havia luz em frente ao box, e baixada a bandeira com a fumaça e poeira não se via mais nada no escuro, só se viam as luzes na reta oposta, mas ninguém sabia de quem eram. A expectativa durou 4 minutos e uns poucos segundos quando surge um dos brancos e com o número 10 do Bird na frente. Deve ter sido espetacular. Mas eu sou um dos que não vi, pois quem está na pista não vê nada.

Lá de dentro não se tem ideia do que está acontecendo, só o que se vê é um para-lama de um lado e uma porta com um número do outro, faróis fortes atrás, lâmpadas vermelhas na frente e todos lutando por um lugar: o seu. Roncos e barulhos de todos os tipos e a adrenalina a mil.

Além disto, mesmo que no meio da confusão, tem-se que conferir o contagiro, o velocímetro, a pressão da bomba e a temperatura, e olhar nas placas dos 200m, 100m, 50m e do P.q.p já lá dentro da curva e ainda engatar a terceira, às vezes a segunda, a terceira e a quarta e já começar a frear outra vez… umas vinte, trinta trocas de marcha a cada volta. Bem, isto com bom tempo. Mas há também provas com tudo isto mais chuva e neblina (durante 1600km).

Mas vamos parar por aí. A ideia não é querer virar heróis tardios, ou afastar as pessoas que começam no esporte.

Tua página, Bird, me fez muito bem. Obrigado, estou surpreso. Custa acreditar que alguém lembre de algo tanto tempo depois. E claro, a surpresa, com tanta gente boa! Ser escolhido por ti que assinou a matéria, foi um belo presente, muito obrigado. Todos os que acompanharam a chegada e a evolução das equipes de fábrica no Brasil te conhecem e sabem que falo a verdade. Não só por ter o nome de pássaro (ao qual nós acrescentávamos “voador”) Flyng Bird. Mas ele não está sozinho na família e tem um irmão que não se chama pássaro, mas também é muito rápido. Com ele e o gaúcho Clóvis Morais ganharam as 25 horas de Interlagos, quem sabe você pense que ele seja um predestinado, até pode ser.

Mas o nome Bird não veio exatamente de pássaro, mas do Almirante Bird de quem o “seu” Clemente era fã pelos seus feitos nas águas geladas do mundo.

Como falei, ter uma página com uma assinatura como a tua está sendo glorioso, mas os jovens que veem a foto no topo da página não vão crer que aquele carequinha de óculos pudesse ser tão veloz e que em um dos cursos de pilotagem contestou o próprio Piero Taruffi, italiano da gema, sobre como ser mais veloz numa determinada curva. Criou-se ali uma discussão no box antigo, e desceram todos para a curva do S. O Bird pegou um carro, deu três voltas provando que era possível. Foi aplaudido por todos, inclusive pelo charmoso Taruffi, que com seus mais de 60 anos, sua cabeleira branca e várias vitórias nas “Mille Milhe’’ tinha o apelido de “la volpe d’Argento” (a raposa de prata).

Bem meu caro Bird, tento terminar aqui, mas tens um histórico que não me permite parar, e nós temos tantos anos de convivência que é certo que esqueci alguma coisa que deveria ter sido incluído.

Abraços, Flávio.

 

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