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OS CADEADOS DO AMOR

02 de abril de 2018 0

 

Um dia, indo para Paris, preparei uma surpresa, tendo a conivência de um bom amigo francês, Claude Bonjean, que me hospeda desde que trabalhamos juntos na Indochina, ou seja, há 45 anos. Descemos por uma paralela do Boule Miche e ao chegar na ponte famosa pelas toneladas de cadeados tirei da sacola de equipamento um cadeado dos grandes e de metal no qual o pintor Britto Velho havia pintado algo alusivo ao momento. A minha eleita quando se deu conta do que era começou a chorar. Nos abraçamos, colocamos o cadeado na tela, com dificuldade, e a quatro mãos jogamos a chave no Sena, para se juntar aos milhares de outras. O Claude, discretamente, havia levado numa sacola um champanhe nacional e algumas taças. O Claude abriu a champanhe, que como vinha sacudindo fez um barulho maior que o habitual e respingou em muitos que estavam ali e que nos cercaram e aplaudiram, metade da garrafa havia vazado e tínhamos só 4 taças, éramos só 4 pessoas. Foi uma pena.
Não me passou pela cabeça levar mais taças, de plástico mesmo, ou até copinhos de café e coletivizar a festa. Mas valeu, e seguimos caminhando a pé para o Marais, exatamente para a Rue de Rosier, onde existem umas 7/8 bancas que vendem falafel, que pode ser tanto árabe quanto judeu e que todos concordam: são os melhores do mundo. Foi um almoço de pé, lambuzado, mas memorável. O tempo foi passando, as vezes lembrávamos da história e riamos felizes e nos damos conta de que não fotografamos… nunca a frase “casa de ferreiro espeto de pau” foi mais verdadeira.
Um belo dia lemos que a prefeitura de Paris, com medo de que a balaustrada não aguentasse o peso e despencasse teria que tomar providencias… conhecendo as prefeituras, não acreditamos. Passaram-se uns dois, quem sabe três anos, até que uma parte realmente caísse. A passarela, e não ponte, foi interditada. O peso dos cadeados era assustador – mais de 40 toneladas foram retiradas de várias pontes, com balaustrada e tudo e, como disseram os jornais franceses, enviados para as fundições.
Por um tempo pensamos, qual teria sido o lado que caiu Sena adentro, o lado do boulevard ou o que dá para a Notre Dame? E qual foi o que foi fundido? Ou o que ali ficará para sempre? Se foi o lado fundido quem sabe um dia ressurja em forma de placa com os mesmos dizeres de outros famosos, dizendo “Dans cet endroit habite le peintre brésilien Brittô Velhô”.
Nota: falando nisto, se você ainda não viu a sua exposição, lembre que ela encerra no dia 10, e é lá na Galeria Mascate.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre
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