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Paris... E para não dizer que não falei de flores

Paris tem de tudo. E repito caminhadas sobre a Cidade Luz porque gosto dela e por justiça, pois tem recebido, entre 65 e 70 milhões de visitantes/ano. Se não gostar dos lugares sobre os quais tenho escrito (duvido), você terá outros mil que valem a pena visitar.

Por exemplo, se você gosta de incursões mais distantes, pode ir até o bairro chinês – que não é chinês, é vietnamita, mas tudo bem; para nós, se tiver olhos puxados, é chinês. Aproveite que faz frio e prove a sopa de tangerina (claro que esse não é o nome, mas assim eles entendem). Vale a pena, é única.

Se quer emoções mais fortes, pode ir ao Bairro do Oriente Médio, onde, numa semana de protestos, incendiaram mais de 500 automóveis.

Os bairros de origem afro são vários para você escolher, e assim por diante.

Outra visita que posso recomendar – essa mais energizante – é ir ao mercado das pulgas (Porte de Clignancourt – sábado ou domingo é melhor). É a última estação de um metrô (que não lembro a cor), mas todos sabem, e o Semanário de Paris de A a Z está em todas as bancas por 5 Reais; é ótimo, falando até em programas udigrudi, como daquele trompetista solitário que está se apresentando em um minúsculo teatro distante e conta, antes do show, a sua história, que, quando saíram de Cuba, formavam um sexteto, os Cuban Golden Boys. No México, com a primeira deserção, tornaram-se um quinteto; no Canadá do Pacífico, Vancouver, virou um quarteto e, ainda no Canadá, quando chegaram a Quebec, já eram um trio. De lá para a França foi um pulo, mas já chegaram como um dueto, e, em Paris, onde ele resolveu ficar, virou um solista.

Mas não espere encontrar no mercado a confusão do passado. Entre o metrô e a entrada, tem de tudo – até armários, tapetes do Oriente médio e esculturas africanas. Lá dentro, você vai se encantar com tudo que você quiser e para qualquer bolso. Preços? Não sei, mas, como em toda feira, vá à luta, discuta e barganhe. Faz parte do negócio. É assim mesmo. Faca nos dentes e boa sorte, mas não exagere, é só uma expressão.

Se quiser almoçar, jantar ou, simplesmente, beber alguma coisa, tem – bem no centro do marché, há um bar restaurante com comida de panela e uma pequena orquestra com músicos não muito jovens tocando músicas de Charles Trenet, Edith Piaf, e seu ex-namorado, Yves Montand, que, no seu início, cantava Country imitando cowboy com chapéu, botas, cinto e camisa xadrez. A orquestra, como disse, é pequena e o instrumento principal, obviamente, é o acordeon.

Foto: Laerte Martins / arquivo pessoal

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Dakar

Caro João Felipe:

Acho que você leu as postagens sobre o Dakar com muita ansiedade – pudera, a prova é fascinante para quem é do ramo. Não fui este ano. Gostaria de ter ido, mas, quando vi o trajeto linear,  percebi que nós – curiosos ou aficcionados – teríamos que, por outras estradas, claro, fazer quase a mesma distância, uma correria que tiraria a graça da viagem. Nos outros anos, existiam as cidades-chave, próximo das quais tudo acontecia. Também me surpreendeu a vitória dos minis.

Em relação ao modelo de rua, o MINI Dakar tem de mini só o nome. Assim como os outros tradicionais vencedores dos anos anteriores. O MINI deve ter tido uma preparação ainda maior para enfrentar a competição, transformando-o quase em um protótipo fora de série.

E seu domínio foi claro: os cinco carros chegaram – e entre os dez melhores da categoria. Assim como os IVECO, três entre os seis primeiros. E, não por coincidência, duas equipes alemãs.

Gostaria de poder responder às perguntas, mas não fui este ano. Além disso, não sei de alguém que, fora da equipe, possa saber. Sorry, fiquei surpreso, mas deixo bem claro: gosto dos Mini. Seu período de maior sucesso foi quando eu estava na Swinging London. Assim, vi o humorista Mr. Bean guiando Mini (na TV, claro) e vi fotos dos Beatles tentando caber num Mini.

Como falei, gosto, mas achar que um Mini pode ganhar alguma coisa como o Paris-Dakar é uma gozação. Seu projetista, o grego Isnigomis (acho que se escreve assim) deve estar na sua cottage às gargalhadas, ou se revirando no túmulo. Não sei.

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Hipocrisia da ONU

Li nas letrinhas pequenas. Saiu na Coluna do Leitor, sob o título Hipocrisia da ONU. Pretendia comentá-lo na semana passada, mas acabou perdido no meu escritório. Acho que já escrevi aqui: definitivamente, não sou um bom burocrata. Mesmo assim, o texto é atual e nos ajuda a compreender e duvidar da forma como o mundo é conduzido.

Diz o Sr. Mauro Horowitz, médico de Porto Alegre:

“Convém lembrar que a agora execrada Líbia de Kadafi foi membro do Conselho de Diretos Humanos da ONU no ano passado, do Conselho de Segurança em 2008-2009, e ocupou a presidência da Assembleia Geral em 2009. Além disso, a ONU escolheu o regime de Kadafi para dirigir o planejamento de sua conferência mundial contra o racismo, e a filha do ditador, Ayesha, ‘Embaixadora da Boa Vontade’. E mais: em 1989, o Conselho de Direitos Humanos criou o Prêmio Muamar Kadafi de Direitos Humanos.”

Obrigado por lembrar-nos, Dr. Mauro.

Será que a ONU havia esquecido do acidente de Lockerbie, na Escócia? Mais de 250 mortos, sendo que o Kadafi reconheceu que pagou indenização às famílias? E a farsa da doença e consequente libertação de quem colocou a bomba no avião?

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Mercosul: vai ou não vai?

Nossa indústria, há muito ameaçada, encontra-se em queda de produção, onerada por pesadas taxas, câmbio irreal e importações baratas. A FIESP, que, há muito tempo, deveria liderar sérios protestos, perde-se em jantares, discursos utópicos “nunca antes ouvidos neste país” e campanhas eleitoreiras – curiosamente de brimos, Haddad, Maluf, Kassab, Skaf, Temer.

Ao mesmo tempo que nossos vizinhos e sócios do Mercosul importam e acobertam a entrada de produtos chineses, que passam como fabricados no Uruguai, Paraguai e Argentina. O certificado de origem é falsificado pelos próprios chineses. Assim, burlam as taxas impostas pelo governo brasileiro aos produtos made in China.

Mas parece que sempre, ou quase sempre, foi assim. O Uruguai, há muito tempo, importava leite em pó da Nova Zelândia e vendia para nós. Era sabido por todos, porque nem que as vacas vizinhas fossem supervacas e produzissem o triplo o país não poderia produzir tanto leite em pó – e produzia.

Mas não somos só os sul-americanos a agir assim. Lembro, também, das laranjas jaffa que Israel, com aquele tamainho, vendia para toda a Europa como suas – na realidade, eram produzidas na África do Sul. Caiu o Aparthaid? Acabaram as laranjas baratas na Europa.

Mas nós, brazucas, também não somos confiáveis. Quando a África do Sul estava sob embargo comercial, nossos produtos petroquímicos iam direto para lá – só a papelada é que fazia uma triangulação na Holanda.

Escrevi tudo isso só para você pensar um pouco: será que alguma sociedade pode funcionar quando os sócios trapaceiam uns aos outros? Não precisa responder...

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Buenos Aires está na moda

Volta e meia alguém me telefona pedindo para recomendar algum restaurante na capital argentina.

Fico até constrangido, mas sou obrigado a dizer que não sei. Conheço a cidade bastante bem (para um estrangeiro), mas a verdade é que, lá, sempre prefiro asados.

Não sou exatamente um carnívoro convicto. Gosto de peixes, massas, empanadas y tortas pascualinas, etc., mas, no Uruguai e na Argentina, só vou a lugares que não tenham parrilla contrariado.

Com razão. Sua fama é justa. Têm o melhor sabor. Já comi o Scottish beef e até o Kobe beef, mas, a meu ver, nada supera a carne dos pampas. Já ouvi explicações das mais diversas: que, na Patagônia, em alguns lugares, tem até 16 m de húmus, que o vento traz para os campos resíduos de sal do Atlântico, etc. Acho tudo chute, pois, no norte argentino, não tem nada disso e as carnes – todas – são ótimas. Também, como vou às parrillas pelo sabor e não à procura de conhecimentos agropecuários, ouço e não reclamo. Se fosse como dizem, um país alto e magro como o Chile, constantemente bafejado pelos ventos marítimos, também deveria ter carne boa. Não tem.

Portanto, aí estão minhas razões para comer a carne criolla sempre que é possível. O cardápio, com frequência, indica também o peso da pedida. Um bife de chorizo no país dos vizinhos pode atingir 600 gramas, o que, na Europa, seria a carne para uma família poderosa consumir durante toda a semana.

Lembro uma em San Telmo: La Gran Parrilla Del Plata, bem na calçada da Feira. Certamente, você a verá se passar um fim de semana em Buenos Aires. É bem perto da Praça do Rego. Foi um açougue e ao lado ainda estão os ganchos para carne, os azulejos que facilitavam a limpeza e uma imensa serra – que hoje colabora na decoração, mas, no passado, deve ter desmembrado boiadas inteiras.

Se você estiver no Centro, há centenas. Há outra que gosto muito, pelo preço e pelo ambiente. Chama-se Pipo. Funciona 24 horas por dia. É um daqueles lugares onde se cruzam a “realeza” e o lumpesinato. Taxistas e gente de smoking sentam em mesas próximas, ou até na mesma mesa. Tudo depende do horário, e, num almoço de domingo, até joguinhos para crianças eles têm.

Onde é? Sei ir, mas não sei a rua. Mas não se preocupe. Todo taxista sabe – mesmo que não o leve pelo caminho mais curto. Mas você vai chegar. É um dos lugares que eles frequentam. É como um antigo Treviso.

Vou parar porque já estou começando a entregar a idade.

Buen provecho!

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Eurico

O Eurico Salis viajou. Acho que foi porque ia faltar Eurico para tantos abraços. O calendário é ótimo. Já está na minha parede. Os amigos foram todos – fotógrafos ou não fotógrafos.

Além disso, a causa é nobre: o Instituto do Câncer Infantil. Com tantos amigos e um lugar tão agradável, o papo correu solto e continuou na Pizzaria Bella Morano até a 1h da manhã. Não bebi nada por causa das blitz (era o turno da Eliana) e fui até em casa sem blitz nenhuma – e eu já tinha até preparado uma desculpa igual à do deputado: eu não sabia...

Voltando à fotografia, quem é que não fotografa com essas geniais maquininhas? Quer uma prova? Quem mais fotografa hoje são os garçons de restaurante.

Claro que falamos do nosso luto com a concordata da Kodak – justo eles que tanto fizeram pela fotografia, seja de aniversários, seja de medicina, espacial, molecular, etc. Uma pena e uma aposta errada, pois foram eles que iniciaram com a eletrônica na fotografia. Ou seja, construíram também o seu patíbulo.

Seja como for, da minha parte, obrigado, Kodak, obrigado pelo Kodachrome e por tudo mais. Obrigado, também, por ter empregado o Raul Daudt, que tanto aprendeu, se tornou professor e tanto transferiu para nós.

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Bicicletas

Minha bicicleta continua na garagem, como muitas outras, coberta de poeira, os pneus ressecando e uma grande vontade de sentir outra vez o vento no rosto – coisa que só motociclistas e cachorros entendem (ou você já viu algum cão que, embarcado, não queira botar a cara na janela?).

Bem, como disse, a minha continua pendurada. Por quê? Por falta de coragem para enfrentar nossas ruas! Covardia, quem sabe? Não é bem o meu caso. Não vou entrar em detalhes, mas, recentemente, na França, aluguei uma Velolib (acho que é isso) e andei pelo Quartier Latin sem capacete e sem medo. O tráfego é mais lento, mais respeitoso, e tem menos chapas brancas. Sim, são elas que tiram mais “finos” da gente – não me pergunte porquê; suba numa magrela aqui e você se certificará.

Prefiro dizer que isso acontece porque nossos ex-prefeitos foram omissos e mentirosos.

Por que mentirosos? Porque prometeram, repetidamente, quilômetros de ciclovias e nunca cumpriram. E quem diz que a “ciclovia” da Diário de Notícias é uma ciclovia é porque nunca usou nenhuma. Aliás, você pode constatar: os ciclistas preferem a pista de rolamento à ciclovia.

Devo absolver, por enquanto, o Fortunati e o Sr. Capellari porque estão há pouco tempo no comando e já planejam o início de uma para dentro de 90 dias. Desta vez, move-se o Grupo Zaffari, em quem levo a maior fé por terem melhorado – e muito – o padrão dos supermercados em Porto Alegre e onde têm lojas (espero que os executores não venham com o papo de Copa do Mundo; aliás, o que tem a ver ciclovias com a Copa do Mundo?).

A futura ciclovia será agregada ao tráfego de veículos e apresentará piso na cor vermelha, sinalização horizontal e vertical e semáforos específicos.

Ótimo! Ótimo! Agora, Vamos cair na real. Ainda não fizeram nem um metro e já falam de um potencial de 495 quilômetros (dados do Jornal da Comunidade). “Menas, menas...”

Os loirinhos do Vale do Sapateiro não falaram nada a ninguém, muito menos de Copa do Mundo e fizeram as suas. Bogotá – a confusa Bogotá de outra época – com as FARC, explosões e sequestros e um vizinho como o Chavez, já está com 360 quilômetros prontos.

Nós não temos um quilômetro, mas já aventamos com a possibilidade de 495 (que corresponde a uma distância maior do que Porto Alegre-Florianópolis).

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Naufrágio II

Não imagino o que possa ser um passeio em que você entre num edifício de muitos andares, quase 300 metros de comprimento,  moderníssimo,é saudado pelos alto-falantes com um “sinta-se em casa!” e, três horas depois, você está no escuro, numa gritaria enorme, sirenes tocando, o “edifício” adernando, a água chegando, a família dispersa e, num lapso de tempo que lhe sobra, ainda pensa: “eu vim de tão longe para isto?”

Aí você se dá conta, também, que a frase “mulheres e crianças primeiro” – é uma vaga lembrança de um naufrágio ocorrido em 1898, e que foi relembrada exaustivamente no filme Titanic – não está sendo respeitada justamente na Itália, um país de alguns milhares de anos. E, como o socorro não vem, quem sabe você lembre da frase do Benito Mussolini, dizendo: “governare gli italiani non è impossibile, ma è inutile”.

É sabido, nos meios náuticos, que gregos e russos são useiros e vezeiros em abandonarem os passageiros e pegarem o primeiro escaler.

Numa ocasião, eu estava em Brindisi esperando o ferry para ir para a Grécia quando do hotel ouvimos barulho, gritaria, ambulância, bombeiros, etc., e ficamos sabendo exatamente o que escrevi acima: o navio pegara fogo e os primeiros escaleres a chegar na costa estavam repletos de marinheiros gregos.

Tal foi a revolta dos cidadãos que a solução da polícia local foi colocá-los na cadeia e proteger a delegacia.

Em outra ocasião, estávamos no sul da Nova Zelândia quando mais ou menos o mesmo aconteceu. Só soubemos pelo jornal, uma página inteira. Durante o dia, todos falavam do assunto. Na manhã seguinte, nada no jornal. Surpresos, ficamos sabendo que a então União Soviética, que comprava 90% da produção neo-zelandesa de carneiros, entrara no sistema.

O que tem isso a ver com etnia não sei. Acho que não sabemos. E eu, com nome e sobrenome italianos, deveria ser o último a falar sobre isso, mas, se, na Zero Hora, temos todos os dias uma tira escrita pelo meu amigo Iotti esculhambando os italianos e nunca ninguém reclamou, não será comigo que os patrícios vão se aborrecer.

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Um naufrágio na Toscana

Ficamos todos pasmados, mas acho que encontrei uma razão para o comandante justificar sua apressada saída do Costa Concórdia.

Na realidade, não descobri, fui testemunha. Assisti há algum tempo na Austrália o que vou contar. Estávamos em Cairns, uma praia discreta, com pântanos cheios de crocodilos, bem sinalizada, mas nenhum cartaz proibindo a entrada na água. Daí para cima, começa o Kakadu Park, famoso por eles e por suas coloridas araras.

Com uma greve da aviação doméstica e não querendo desperdiçar a oportunidade, fomos de trem até Brisbane, achando que tudo se resolveria. Não foi o caso e, ali, na ponta sul da barreira de corais, alugamos um automóvel e, depois de uns dias, a greve continuava e nos mandamos para o norte. É uma viagem segura, boas estradas, alguns faróis e algumas fazendas com nomes curiosos. Mas muito chata: cana-de-açúcar à esquerda e abacaxis à direita. Distância? Uns 2500 km – e a estrada não é próxima ao mar. Bem, não precisa dizer mais nada.

A cidadezinha de Cairns é pequena, agradável, não tem sabugos de milho, nem cascas de melancia pelas ruas.

Fizemos alguns passeios, inclusive pela selva, numa antiga ferrovia, locomotiva a carvão – ótimo. Passamos algum tempo flutuando num hotel sobre a barreira de corais... mas sempre pensando... nos 2500 km de volta, e que, na volta, só o que mudaria é que a cana-de-açúcar iria para a direita e os abacaxis ficariam à esquerda.

Já em terra firme, passávamos pelo cais e olhávamos as ofertas de hotéis, pareciam escritas em lençóis e penduradas nas janelas – preços que deviam ser 20% dos convencionais (“só para não desmobilizar a equipe”, diziam).

Sem aviões, ninguém chega a Cairns (nota: a greve durou quase três meses; companhias fecharam, hotéis quebraram, restaurantes faliram, etc.; uma tragédia, mas o governo não interferiu – iniciativa privada é privada e age por sua conta e risco). No mesmo cais, vimos um belíssimo veleiro, de madeira, três mastros, com capacidade para 40 pessoas, cujo comandante, ante a inexistência de passageiros, fazia propostas e aceitava ofertas; tinha que voltar a Brisbane. O tour de dez dias seria reduzido a sete. Bem, nos inscrevemos na hora. Devolvemos o carro e, na manhã seguinte, embarcamos. Dezenove pessoas ao todo e, bem à australiana, todos colaborariam. Na saída, ainda a motor, entre os recifes, o comandante convocou para um briefing, onde falou sobre comportamento, comida, proteção solar e... segurança..

Durante uns 40 minutos, falou, mostrou e nos treinou em relação a tudo. Ao final, repetiu uma norma básica: “Lembrem-se, estamos em uma rota de corais, foi por eles que vocês vieram, , são milhões de km² de corais, etc., etc. As cartas não são tão precisas como gostaríamos. Em caso de acidente – nunca houve, mas lembrem-se –, em caso de naufrágio ... coletes, etc., etc. Mas, em caso de emergência e o comandante George der a ordem de abandonar o navio, lembrem-se, temos que honrar uma norma da navegação: primeiro saltarão mulheres e crianças... Pode ser que tenhamos tubarões em volta.

Quem sabe tenha sido essa a razão de o comandante italiano ter abandonado o navio bem antes dos passageiros.

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O retorno do Atacama

Voltando... não ao rali, mas da viagem, devo dizer que, independentemente do ruído dos motores, do ambiente de oficina a céu aberto, e da fina areia constantemente trazida pelo vento, o passeio foi extraordinário. Já estive várias vezes no norte argentino, e cada vez que vou gosto mais. As estradas são boas, o combustível é melhor que o nosso e os preços são muito, muito bons. Claro que, estando de motorhome, as coisas são simplificadas – você não carrega malas, dorme na sua cama, faz o seu café da manhã e o toma ainda de pijama. Os motorhomes médios têm mais uma vantagem: estacionam quase como um automóvel, ou seja, em qualquer vaga.

As empanadas nortenhas são provavelmente as melhores e quanto aos vinhos saltenhos nem se fala – é raro vê-los por aqui, mas são os mais exportados do país – e os pequenos mercados encantam.  Aliás, são sempre uma atração importante, e, em Salta, a apenas cinco minutos a pé desde o centro da cidade, encontra-se um deles, surpreendentemente organizado, estabelecido entre uma linha de plátanos e as fachadas de arenito dos prédios históricos. E você ficará ouvindo bons músicos na rua enquanto olha as tendas de artesanato e artes locais.

Nos trajetos, quase sempre de volta das estradinhas raliseiras, observávamos que nem o breu da noite escondia a beleza do céu – pelo contrário, sem nuvens e chaminés de indústrias, era cada vez mais bonito. O deserto, apesar de árido e monocromático, tem uma beleza peculiar. Tons de marrom contrastam com um céu sempre azul, e as escarpas formam sombras que acentuam o relevo.

Mas claro que, entre esses momentos mágicos, ficaram também as lembranças das moscas na tampa dos açucareiros, das cadeirinhas de madeira, das mesas com pés cromados e tampos imitando mármore, dos chopes não muito gelados, dos sanduíches de pernil, dos ovos cozidos – já esverdeados, mas em vidros com tampa –, da linguiça frita, do cafezinho em pé, frio e ruim. E, no meio dos botecos, objetos familiares como fotos da difunta Correa, etc. Mesmo assim, muito melhores os botecos que as terríveis e modernas lanchonetes acrílicas.

Dificuldades? Algumas, mas uma vida é para ser vivida em todas as suas etapas, boas e ruins, enquanto ainda estivermos por aqui. É preciso lembrar de tudo mais vezes. Muitas vezes.

A nossa condição de viajantes passageiros não deve ofuscar o prazer de ver a passagem das estações. Cada folha que nasceu secou e caiu deixa a sua marca, por mais insignificante que seja – assim como os bons e maus momentos: logo irão ficando no nosso acervo de emoções, desaparecem às vezes, mas, quando menos se espera, estão novamente à flor da nossa pele. São passagens que afetam o nosso passado e o nosso presente, a nossa existência, e servem, também, para nos orientar no futuro.

Um dia, li de um escritor talentoso uma definição muito simples: “Nadie me quita lo vivido”. Portanto, sigamos em frente. O Atacama continua lá, à nossa espera, e, no ano que vem, volta o circo com seus carros e pilotos maravilhosos.

Aos bons companheiros Diana e Pippi, digo obrigado e até a próxima.

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