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O Corredor Vasariano

24 de maio de 2013 0

Continuamos em Florença. Imagine-se caminhando até chegarmos na Galeria dei Uffizi em frente a uma grande porta de madeira. Ao nosso lado um grupo de mais ou menos 30 pessoas. Do lado direito da porta, um mármore de Mercúrio. Do lado esquerdo um busto de Esculápio. O passeio foi marcado para as três horas da tarde. A funcionária que guarda a chave ainda não chegou. Às 03h10 ela aparece, faz uma chamada formal e abre o ferrolho. E finalmente, entramos no corredor.

É uma passagem suspensa, de cerca de 800 metros, que liga Uffizi, onde ficava a parte administrativa da cidade, ao palácio Pitti, onde moravam os Médici. Foi inaugurado em 1565. Uma encomenda de Cosimo 1º a Giorgio Vasari, que completou o serviço em cinco meses, a tempo de estar tudo pronto para as comemorações do casamento do filho (a história não fala, mas certamente foi uma obra estatal).

Após um período de restauração, o corredor foi reaberto. Faz uns 4 ou 5 anos. Além de uma vista espetacular da cidade, notadamente do mítico Ponte Vecchio, há uma pinacoteca que tem uma preciosa coleção de auto-retratos. Mas a atmosfera é maior do que isso. O que estamos corredor é o retrato do medo que um déspota tinha de se misturar à plebe. O corredor passa por uma igreja, onde uma tribuna exclusiva permitia que a família assistisse à missa sem ser incomodada. Das janelas, viam o povaréu fazendo barulho lá embaixo. Nós vemos o mesmo: centenas de turistas, metade japoneses. Ouvimos os cliques de suas máquinas fotográficas e também os alto-falantes das guias. As visitas são guiadas e precisam ser agendadas.

Ao fim você pensa: “daqui a pouco nós todos estaremos nas e nos certificaremos que ela já não será para nós a mesma. Florença, grande, esplêndida, maior que a vida, será também a cidade que derrotou um inimigo mais poderoso – o tempo”.

Quem quer salsicha?

23 de maio de 2013 0

Não falo por influência de minha passagem pela Alemanha e seu ótimos Frankfurter. Falo em salsicha cachorro. Aqueles simpáticos, marronzinhos, que não têm cheiro, não soltam pelos e são muito inteligentes.

Até li, uma vez, que você nunca terá problemas com eles. Um salsicha educa o dono em duas semanas. O salsicha que ofereço aos Blogueiros, Faceiros e leitores do Puxadinho só ficou aqui por tanto tempo, 5 meses, porque ia para a serra. Neste meio tempo, eu viajei, fiquei fora mais do que esperava, mas como de hábito, até o último Euro. O casal se separou e ela disse que viria buscar o cachorro assim mesmo e que o cachorro do seu ex-marido não tem mais nada com isso, etc., etc., etc. mas meu amigo era ele, que não atende o celular. Portanto, aqui está o rejeitado. Rejeitado não, pois está com seus pais e avós. Vacinado, gordinho e feliz. Mas oito é demais!

Contatos? Por aqui mesmo...

Florença e Seus Tesouros (parte II)

23 de maio de 2013 0

Como falei esses dias, tive a sorte de ficar três meses em Florença, e ficaria outros três. Noventa dias são pouco para conhecê-la e ainda tem as cidades próximas.

Carro? Absolutamente desnecessário, aliás, só incomoda. O centro histórico é reservado a pedestres e ainda somos obrigados a desviar dos desenhistas de giz, que realizam suas obras de arte no chão. Na Piazza della Signoria, recomendo pausa para um chocolate quente no tradicional Café Rivoire e, sentado ao ar livre, admirar o coração de Florença antiga. Aqui ficava a sede do governo, e também aqui a plebe se reunia para festejar e protestar. Foi neste lugar, em 1478, o nobre Francesco de Pazzi foi atirado do Palazzo Vecchio, nu, pendurado pelo pescoço, por planejar um atentado contra a vida de Lorenzo de Médici, Il Magnífico. Vinte anos mais tarde, o fanático monge Savonarola, que pregava a moralização dos costumes, atirava livros e telas no que chamou “fogueira das vaidades”. Acabou queimado na mesma fogueira por heresia. Em frente ao palácio, o Delhi Aufieri Davi faz pose para as câmeras dos turistas. É uma réplica, instalada em 1873 no lugar onde o original sofreu com sol, chuva e as inundações do rio por 369 anos. O autêntico, esculpido por Michelangelo está na Galeria da Academia, aguardando a sua visita... Se você concordar em ficar horas na fila.

Nas ruas há africanos aos montes, a maioria em situação irregular. Comercializam bugigangas, artigos de couro e pôsteres de cantores. Expõem reproduções de pinturas famosas no chão do vão livre da Galeria Uffizi. Formam um conjunto que contrasta com a imponência da galeria. Enquanto se espera na fila interminável a distração é barganhar com eles. A Ufizzi tem a maior coleção do planeta de arte renascentista. São mais de 100 mil obras. Foi construída em 1560. O prédio fica pertinho do mítico Ponte Vecchio, sozinho já é um espetáculo. E caixas de som foram embutidas nas paredes, tocam música clássica dia e noite.

Deus está nos detalhes florentinos como a farmácia de Santa Maria Novella, uma perfumaria surgida em 1540 que não precisa de endereço: você a encontra pelo perfume. Juro. É a preferida do doutor Hannibal Lecter, o canibal elitista vivido no cinema por Anthony Hopkins. No filme como no romance Hanníbal, o personagem comprava ali o Sapone di Mandole, uma receita exclusiva.

É preciso tempo para descobrir os segredos de Florença. Como eu falei, 90 dias foram pouco. Se você não tiver tempo, veja só o David e caminhe nas viagens posteriores. Eu ainda não havia visto o David na Galeria da Academia. Possivelmente nenhuma obra é mais emblemática. Davi tem 5 metros de altura, olhar alerta, mãos e pés desproporcionais em relação ao resto do corpo. Seus cabelos são encaracolados com duas costeletas tipo Elvis Presley. Concentrado, segurando a funda, ele aguarda o combate com o gigante Golias – ou já o teria batido? Não se sabe, parece entediado. Parece que a qualquer momento, descerá de seu pedestal e pisará em um ou dois japoneses que insistem em dar flashadas. David é um pop star, coberto de pó e restaurado, iluminado pela claraboia da galeria.

Uma multidão o cerca, duas moças trocam comentários, apontam e riem baixinho, provavelmente, analisando as ridículas proporções do pelado David.

Um Pouco da Cultura da África do Sul

22 de maio de 2013 0

A Cidade do Cabo, com sua Table Montain, nos faz pensar no Rio de Janeiro. Só que, com menos tiroteios. Tem vales férteis, parreirais cuidados, hotéis cheios de charme e vinhos da melhor qualidade. Tudo isso faz parte de um roteiro de vinhos e charme. Tem os “Bantustans”, também não devem ser melhores que os nossos cortiços, mas não são vistos das cidades. Hipocrisia? Coincidência? Não sei. Depois de tomar o primeiro gole de vinho por lá, você vai ver que não há nenhum exagero da minha parte. Você verá que a natureza resolveu ser especialmente generosa com eles.

A região vinícola fica a menos de 40 minutos do centro. Se você decidir hospedar-se no centro da cidade, o ideal será alugar um carro e partir logo de manhãzinha para aproveitar o dia. Todas as vinícolas abrem a partir das 9h e fecham às 16h30. Por conta da mão inglesa, uma boa ideia é contratar alguém que dirija. Fazendo isso, você não vai precisar esquentar a cabeça e se privar de cabernets e merlots. Seja qual for a direção escolhida, você vai se deparar com vales férteis, alta gastronomia. Não se assuste com os nomes complicados das principais vinícolas - Groot Constantia, Stellenbosch e Franschhoek -, emprestados do idioma holandês, povo que fundou a Cidade do Cabo em 1652.

Não é necessário agendar nada, são profissionais e estarão ali para recebê-los nos horários convencionais. Você não vai se arrepender. No mesmo segmento da viagem, fomos para uma pequena vila e, quando perguntamos para a hoteleira, onde jantar, a senhora falou: “Na outra esquina tem um restaurante, mas... só serve avestruz. Avestruz? Sim, tudo de avestruz. Preço único”. É assim desde o omelete até a sobremesa. Só avestruz. Sim, foi ótimo.

Florença e Seus Tesouros

21 de maio de 2013 0

Oito milhões de turistas por ano não podem estar errados. Florença, a capital do Renascimento é uma das maiores atrações da Terra. Tem ruas estreitas, calçadas de pedra, velhas como seus palácios cor de ocre.

Apaixonar-se por ela é inevitável – e pode fazer mal à saúde. Diz-se que dois séculos atrás, o escritor francês Stendhal sofreu um surto durante sua visita. O incidente deu nome a uma doença psicossomática, a “Síndrome de Stendhal”. É uma reação ao excesso de beleza. Os sintomas são taquicardia, vertigem e eventualmente alucinações.

Disse ele: “Eu cheguei ao ponto da emoção em que se encontram as sensações celestes, conferidas pelas belas artes e pelos sentimentos apaixonados”. Escreveu ele também: “Tive a impressão que a vida tinha-se esgotado em mim, eu caminhava com temor de cair”. Tudo bem, ele era francês e não estava acostumado, como nós brasileiros, a correr o tempo todo, dos impostos, dos assaltantes, dos flanelinhas e na academia por prazer... mas, é bom tomar cuidado. Florença carrega o peso de ter um tesouro em cada esquina. Tive a sorte de lá ficar 3 meses, enquanto minha mulher preparava o mestrado.

De acordo com a Unesco, a Itália concentra 60% do patrimônio artístico do planeta e Florença teria, sozinha, metade dessa porção. Nos séculos 15 e 16, os renascentistas partiram desta cidade para tirar a Europa das trevas, com o patrocínio da Família Médici, banqueiros e comerciantes que comandaram, enriqueceram e embelezaram a cidade. Certamente jamais houve tamanha concentração de gênios como ali: Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Rafael, Fra Angélico, Galileu Galilei, Botticelli, Maquiavel, Ticiano, Brunelleschi. Só para citar alguns.

Antes deles, preparando o terreno, estiveram: Giotto, Dante Aliguieri, Petrarca, Bocaccio. No ano passado, 8 milhões de pessoas estiveram lá (o Brasil, ao todo, recebeu 4,5 milhões). No ano passado, a revista americana Travel realizou uma pesquisa entre seus leitores - foi publicada na edição de agosto - que dá Florença como a melhor cidade turística do mundo, à frente de Roma, Paris e Nova Iorque e da Lomba do Asseio.

Mais Algumas Histórias de Viagens

20 de maio de 2013 0

Acabo de chegar de alma lavada (e com mais prestações a pagar). Comecei a abrir a correspondência e, do Rio de Janeiro, do meu amigo Scali, um livro. Achei que era de automobilismo ou sobre automóveis, ele é jornalista do ramo, e bom, com vários livro publicados. Não, não era. É sobre 1000 lugares para conhecer antes que o mundo acabe, como acreditaram alguns, em dezembro passado. Ora! Assim não vai dar. Você volta de lugares especiais, onde nunca havia ido (falha minha) e aí você vê que ainda faltam uns 500. Todos novos. Novos não, mas com nomes substituídos, e que a gente nem sabe bem onde são. Um exemplo? Ora! Só na África, após a Segunda Guerra, surgiram 53 novos. Bem, além disso, você sabe que viajar no Continente Africano pode fazer mal à saúde. A não ser que você vá de Aerolula e tenha como aeromoça alguém chamada de Rosemary. O índice de HIV é inacreditável e mais ou menos 50% dos acidentes de aviação mundial são por ali, embora transporte apenas 5% dos passageiros. Ou seja, é preocupante.

Voltando. Você visita três países como as Repúblicas Bálticas (o que fiz agora) e, ao chegar, se certifica que deixou para trás 997 outros. Pô Scali! Muito obrigado, mas não precisava fazer isso comigo. Afinal, somos amigos há tanto tempo.

Da minha parte, vou deixar claro: não sou um colecionador de países. Aliás, nem poderia ser, pois não sei viajar rápido. Faço uma grande diferença em ter estado ou conhecer o lugar. Outra constatação que o livro me apresenta, é que com a explosão da União Soviética, surgiram umas 20 novas/ velhas Repúblicas, na maioria islâmicas e sem boas estradas. Ou seja, o livro que o Paulo Scali me mandou só vai fazer que eu me endivide ainda mais com as companhias de aviação. Por exemplo, ele fala da Crimeia, quem lembra onde é? Só o que sabemos é que a nomenclatura soviética passava lá as suas férias. Aliás, tem uma passagem que acho ótima. Retribuindo a um fim-de-semana em Camp Davis o ex-presidente Brejnev leva o presidente Reagan para sua “datcha” justamente na Crimeia, que deve ser maravilhosa, pois a nomenclatura em qualquer lugar se trata bem. Conta o livro que, após uma refeição, o anfitrião sai mostrando a propriedade (a Crimeia é ali no Mar Negro, acima da Grécia e Turquia).

Tem praias de areias negras, grandes pedras e casas antigas de madeira, é tudo muito bonito. Pelo menos, o lado turco e grego que conheço. Na volta, após a caminhada, entram pelo andar térreo e ao se abrirem as portas. O presidente Brejnev, de surpresa, mostra sua coleção de automóveis em que entre antigos e novos eram uns 50 com preferência para Limosines americanas, Jaguar e Bentleys ingleses. Uns perfeitamente recuperados e outros quase novos. Todos impecáveis. A visita durou mais ou menos uma hora. E quando já estavam subindo para a parte residencial, o sorridente Brejnev pergunta: “Então, o que é que achou?”. “Meus parabéns, ótima coleção”, diz o presidente Reagan. “Não sabia que gostavas de automóveis. Só quero saber o que você vai fazer com ela quando chegar a revolução”.

Volta de Viagem

18 de maio de 2013 0

Ultimamente, em viagens, sinto saudades. Não do ato de escrever, mas do convívio com vocês. Aliás, nunca fui de escrever muito, mas quando o Marcos Abreu me informa o número de visitas me surpreende, sinto até um certo remorso, mas como manter um Blog de viagens... sem viajar! Sei que há gente que faz, mas, para mim, seria impossível: gosto do que faço. Aliás, o Viajando por Viajar não só fala de viagens, mas só fala de viagens feitas por nós, vividas por nós. Eu nunca cheguei a comentar que ia viajar.

Não que eu fizesse segredo, mas é que nos damos conta em cima do laço que as milhas iam vencer e quase as perdemos. Além disso, a relação valor/ distância mudou. Claro que mudou a favor das companhias.

E mudou justamente quando veio cá, um amigo americano que, numa conversa, me disse: aproveitei e pedi milhas em Advance e, assim, vieram também minha mulher e minhas filhas. E aí perguntei: Como é mesmo? Pediste milhas não voadas? Sim, disse ele, isso mesmo. Ou seja, lá fora, você pode sacar as milhas que vai voar no futuro, conforme a sua fidelidade companhia. Ou seja, lá, vale a pena ser fiel.

Mas, voltando às postagens, como dizia antes, me tornei dependente do contato com vocês. Abro o Lepi de manhã, curioso para ver o resultado do que escrevi ontem. Agora, volto contando da minha passagem pelo Golfo da Finlândia e pelas Repúblicas Bálticas (sob nova direção e muito melhor, apesar de ter um leão de Chacara em cada porta de loja). Até prometi ao Diego Casagrande uma foto do encoraçado Aurora, meio enferrujado, é claro. Estava lá na minha primeira viagem, ainda quando a linda cidade, criada por Pedro, o grande, se chamava Leningrad. O barco ainda está no porto. Foi dele o disparo que anunciou aos Revolucionários de 1917 que a revolução havia começado. Claro que, naquele momento, ninguém imaginava que seria a desilusão que foi, nos milhões de mortos, do fracasso dos planos quinquenais, dos Gulags na Sibéria, etc. Estava bastante próximo do hoje Museu do Hermitage (ainda está).

Quando falo em algum assunto que envolve ideologia (como este), posso afirmar que é coincidência. Nunca li um livro do gênero. Ideologia nunca foi o meu forte, nunca fui a reuniões de centros estudantis em qualquer nível; sempre achei um saco discussões políticas, acho o assunto chato. Até em botecos. As minhas opções, e é claro que as tenho, são por ter visitado os países e não por ter lido sobre ideias revolucionárias ou reuniões de partido, que devem ser ainda mais chatas. E olhe que, em Caxias, fui colega de colégio do “Turco Simão”. Ele, bem mais velho, sempre foi bom orador. Às vezes, vinha ele, voltava a Caxias, ia ao colégio (como ex-aluno). Os Maristas, vendo que ele teria futuro na política, lhe emprestavam o auditório. E lá vinha o blá, blá, blá, sempre o mesmo e repetitivo. Quem sabe viajante precoce e desde aquela época fui me acostumando a ver os resultados visitando lugares... e não a sua ideologia, pois o que vale é o resultado final. E os resultado do comunismo todo mundo sabe, menos a Manuela.

A Era do Concreto e das Alturas (parte 2)

17 de maio de 2013 0

Saltemos, agora, para o limiar do século XX. Com o desenvolvimento tecnológico das estruturas de aço e do elevador, a capacidade de empilhar pavimentos foi a alturas inconcebíveis.

Pela primeira vez, os edifícios mais altos das cidades não eram mais igrejas. Os arranha-céus que subiam em Chicago e Nova Iorque eram “catedrais do comércio”, repletos de escritórios e funcionários que ultrapassaram a altura da catedral de Saint Patrick. Para os mais religiosos, uma agressão, um sacrilégio!

O Empire State foi construído no ritmo alucinante de 410 dias (não foi obra pública e muito menos da Delta). Quando foi inaugurado em 1931, ele era um casamento sensacional e sem precedente de aço e cimento. Seu cerca de 1 milhão de metros quadrados de espaço de escritórios ainda hoje acomoda 21 mil empregados de mil companhias.

E quanto à maravilha construída recentemente no Oriente Médio?

É notável o fato de o edifício mais alto do mundo ser dedicado inteiramente a residências e algumas funções de apoio como de varejo, entretenimento e comércio. O Burj Khalifa é uma cidade vertical. Como ele chegou no momento em que a economia global está ardendo mais lentamente, há a tentação de vê-lo como produto de uma cultura em extinção.

Mas o Empire também foi construído durante a Grande Depressão. E as grandes inovações de hoje em materiais e estrutura têm o poder de durar, a despeito das circunstâncias em que nasceram. Se uma sociedade adorava Deus em pedra, esta outra venera a empresa em aço.

Texto básico: New York Times

A Era do Concreto e das Alturas (parte 1)

16 de maio de 2013 0

Os primeiros inquilinos já estão morando. Apesar dos contratempos normais, desde a sua inauguração, o prédio comandou uma exuberante proliferação de recordes. O prédio eleva-se a mais de 800 metros, o dobro do Empire State. Já pensou subir com a mobília? E se você toca piano? E quem leva o Totó para passear? Ou o clássico... meu bem, esqueci as chaves no carro.

Bem, isso veremos no futuro...

Toda a badalação omite duas outras marcas simbólicas que devem enriquecer os livros de história: O Burj Khalifa é, principalmente, residencial e sua armação estrutural é de concreto.

Por que esses dois fatos são importantes?

A busca da altitude máxima é um grande feito para a vaidade tecnológica da nossa época. Uma construção dessas requer um investimento técnico extraordinário e conduz inovações em materiais. Quando avaliamos edifícios, vemos que estruturas altas oferecem dividendos notáveis às sociedades que as criaram.

Pensem na Idade Média. As altíssimas catedrais foram assombrosos marcos. As igrejas aproveitam ao máximo a capacidade estrutural dos materiais disponíveis. Imagine o impacto dos peregrinos ao chegar a essas construções. Ficavam extasiados com o aparente desafio à gravidade e sentiam-se envolvidos pelo poder espiritual transmitido pelos interiores das igrejas, ainda mais quando atravessadas pelas luzes coloridas dos vitrais. Quase um milagre, quem sabe até divulgado como se fosse...

A Igreja de Notre Dame, em Paris ou a de Chartres tinham altura que tem hoje, mas em uma época em que 90% das edificações tinham um só andar, pouquíssimas tinham dois. Imagine o que isso representava?

Como descrer de um Deus que permitia que elas se mantivessem de pé?

A Lincoln Cathedral, na Inglaterra foi considerada o primeiro edifício a excedera altura da Grande Pirâmide, um marco a ser considerado. As abóbodas elevam-se como delicadas folhas entrelaçadas numa altura estonteante. Foi a construção mais alta do mundo por dois séculos e meio, até seu pináculo central desabar em 1549.

Vivendo nas alturas

15 de maio de 2013 0

Há alguns anos em um safari, literalmente no meio do mato em tendas, confortáveis, mas tendas.

Um dos companheiros tinha um livreto com um nome curioso Arquitetura sem Arquitetos. Folhei o livro e o dono, viajante também e provavelmente arquiteto o comprara em um sebo.

Nunca esqueci o livro. Eram construções simples e óbvias, mas de bom gosto, feitas em tribos usando pedras, barro e madeira, os únicos materiais que dispunham. O livro tinha mais desenhos que fotografias. Outro dia enquanto tomava um café no “Personalite” vi algumas fotos e lembrei daquele acampamento. Teria a moda migrado da África para a Europa e para a América? Não falava nisto, mas um publicitário francês Adair Laurens decidiu criar uma empresa para construir casas a 10m de altura do chão. Em princípio, maluquice completa, mas destas que dão certo.

Gostei da história e a associei a uma aqui de Belém Novo: construtor e proprietário o Gustavo Nakle, um libanês que decidiu trocar a tradição de lojinha (a sua chamava-se Ao Braço Fixo. Aquela clássica. Braço estendido do qual pendiam gravatas, suspensórios e lenços, pendurados onde? No próprio braço, claro). Com a separação, fez uma casa de Tarzan no maior eucalipto e no ponto mais alto de Belém Novo. Nós, os seus amigos, temíamos por ele e pelo filho que o acompanhou no exílio matrimonial . Nas noites de temporal, aquele eucalipto era tudo que um raio podia desejar. Agora, antes de levar a revista para ele, resolvi dividi-la com os Blogueiros e Faceiros. Portanto, se você sempre quis dar uma de Trazan e a sua Jane concordar, lembre-se que há outras.

A empresa construtora vai bem. A maioria das encomendas vem da Itália e da Provence. Entre os que encomendaram casa a La Cabane Perché, estão o Chateau Valmer que tem duas árvores e, portanto, duas suítes uma para casal e outra para famílias.

Em 12 anos a empresa fabricou 350 casas. Assim que o cliente demonstra interesse em ter uma cabana, a equipe de Laurens analisa a árvore em que será colocada: altura, circunferência, idade. As espécies mais apropriadas são carvalhos e pinheiros. E quanto mais antigas, melhor. O ideal é que a casa fique a uma altura entre 8 e 14 metros do solo. A madeira ideal para eles é o cedro vermelho importado do Canadá. Sólido, leve e não apodrece. Uma casa pode ser feita em três semanas e algumas, mais sofisticadas, levam até dois meses e meio. Nenhum prego se quer é colocado no tronco ou galhos. O sistema faz com que a cabana se encaixe nos troncos e galhos, com uma cinta colocada em volta do tronco que pode ser ajustada. As árvores continuam crescendo de forma natural. “Construímos os sonhos dos clientes, mas focamos em qualidade e na natureza”.

Aí está, portanto, uma nova forma de viver e em caso de dúvida, se morar no sul. Dê uma olhada na do Gustavo Nakle é um professor, além de muito bom escultor.