Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

AS CHAMAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS

30 de outubro de 2017 0

 

A cada noite no noticiário o incêndio da chapada diamantina comove a população. Araras mostradas com suas asas chamuscadas tentando proteger os ninhos e voando perigosamente nos comovem. Filmadas de perto, tem-se a impressão de sentir até um cheio de mato queimado, que se espalha pelas ruas da pequena Vila de São Jorge, a porta de entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
À noite, os moradores da cidade têm espalhado toalhas molhadas pela casa para aliviar a situação, que começou há uma semana, quando um dos principais patrimônios do Cerrado passou a ser destruído pelo fogo, no pior incêndio que se tem notícia. 30% do parque já foi consumido, ou seja, 60.000 mil hectares. Não consigo imaginar o que seja isto, mas é o que atraia 65 mil pessoas por ano.
Na região, diz André Borges, enviado pelo Estadão, por onde se anda se vê nuvens de fumaça. O pequeno aeroporto de Alto Paraíso, município conhecido por sua preferencia para supostos pousos de óvnis, foi transformado em centro de gerenciamento. Um sobe e desce de aviões e helicópteros desloca água, moradores, parafernálias contra incêndio.
O alvo das operações tem sido as regiões onde há moradores por perto. Nas contas dos agentes, cerca de 80% da área original do parque, aquela que ele tinha até junho, antes da ampliação, foi dragada pelo fogo. O local está fechado, sem data para reabrir.
“Para nós, isso é uma tragédia não só ambiental, mas também do nosso meio de vida. O turismo já fugiu daqui. As pessoas cancelaram as reservas”, diz o gerente de uma pousada no local. “Se Deus quiser, a chuva virá e vai amenizar esse drama”.
Apesar da gravidade da situação, eles apostam numa recuperação do setor a partir da crença de que a maior parte das atrações turísticas está fora do perímetro do parque. “As pessoas estão com medo de vir, mas só o parque nacional está fechado”. Atrações como o Cânion Raizama e a Morada do Sol, situadas em propriedades particulares, não foram.
Na região, os incêndios são comuns e a vegetação do cerrado tem a capacidade de se regenerar rapidamente. Há uns dois anos, a Chapada Diamantina passou por algo parecido. O cerrado tem o fogo no seu ciclo. Na Diamantina, depois do incêndio, surgiram muitas flores. A gente andava e estava tudo florido.

A imagem pode conter: céu, nuvem, noite, árvore, atividades ao ar livre e natureza
A imagem pode conter: pássaro
Bookmark and Share

ESPANHA

29 de outubro de 2017 0

 

Estive na costa Basca várias vezes, especialmente na década de 70, tanto na francesa como na espanhola. Eu estava baseado em Londres, quando tínhamos weekends mais longos íamos em direção a Espanha, até com certa frequência. Inicialmente de trem, dormíamos no ferry, na travessia de canal e descíamos em Biarritz. Mas os preços franceses antes da comunidade europeia existir não eram favoráveis aos nossos bolsos. Ao passo que na vizinha Espanha, que ainda não havia adentrado o mercado, as nossas libras nos permitiam as libações que pretendíamos.
Além de tudo estávamos no País Basco, que era um símbolo de resistência da época. Ali continuam as boas lembranças e a gentileza dos locais e a supresa que tinha em receber alguém que falava espanhol, ou melhor, o castelhano (de Castilha), não o idioma da Espanha nem o da Euskadi (Pátria Basca).
Da época sobraram boas lembranças, boas histórias, bons momentos e uma gaveta com cartões não enviados, guardanapos nem sempre legíveis e recortes de jornais e revistas. Alguns envelopes apareceram com a já muito comentada invasão dos cupins que revolucionaram o escritório. O problema foi resolvido, pelo menos parece.
Mas agora surge outro problema que preocupa a todos mas só alguns tem envolvimento que permite resolve-lo: a separação dos catalões. Fico pensando, e se a moda pega? Voltarão as pretensões da região basca? E na Bélgica? Flamencos e valões tentarão seguir o mesmo caminho? E a Liga Lombarda? Continuará sua campanha para a divisão da Itália? Só nos cabe esperar!

A imagem pode conter: 2 pessoas, multidão, chapéu e atividades ao ar livre
Bookmark and Share

LAGOA DOS PEIXES OU DOS PÁSSAROS?

28 de outubro de 2017 0

Na minha cabeça a estrada que vai até lá ainda é “a do inferno”. Quando o Engenheiro Paulo Azevedo nos convidou para ir até a Lagoa do Peixe já imaginei uma expedição de jeeps como as que vejo por aí ou como na equipe Vemag fizemos: de idas e voltas na Belém/Brasília, uma estrada que nem existia como estrada e a cidade como capital.

Nada disto falou ele que nasceu lá, e tinha toda a razão. A estrada além de plana não tem um só buraco, com exceção de um trecho de 15kms, ainda não refeito mas perfeitamente transitável. Tão boa está a estrada que na próxima ida para o fim do Brasil irei por lá.
Outra surpresa: a estrada tem lixeiras e os moradores até colocam o lixo na lixeira. Quando não cabe mais sacos são colocados ao lado, devidamente fechados. Sei que você leitor não deve estar acreditando. Me cobre na volta.
Agora, lendo o artigo da Bruna Porciúncula e voltando da Europa, a minha memória parece que teve um impulso, e rememoro a nossa ida. Um pouco antes de Viamão dobramos a direita, e em 2h e meia estávamos em Tavares onde está acontecendo o Festival das Aves Migratórias, em sua 13ª edição. Como nos 12 anos anteriores, o proposito é chamar a atenção para os 34 mil hectares e a importância de preserva-los.
Não sou exatamente um bird-watcher, mas admiro os que são.Sempre que preciso de informações as peço na rede e sempre obtenho gentis e oportunas soluções. Pra que? Bem, é que há muitos anos procuro alimentar os pássaros da minha floresta privada que, diga-se de passagem, eu plantei quando vim morar onde moro. O terreno era mais careca que eu, hoje é uma pequena Amazônia, dizem os meus amigos. Os mais fiéis frequentadores são os beija-flores, as corruíras e as cambacicas.
Como moro no mesmo lugar há mais de 50 anos tenho gerações e gerações em torno das minhas garrafinhas, tanto que os meus invejosos amigos dizem que os meus beija-flores deviam ter outro nome, beija-garrafas. Quem sabe, mas gosto deles assim mesmo, e aprendi que nem sempre os pássaros daqui tem os mesmos gostos que seus primos europeus.
Recentemente andávamos em Hamburgo, sobre a qual eu só sabia que era o maior porto da Alemanha e quem além disso tinha uma alegre zona chamada Saint Pauli. É verdade, só que na Alemanha na zona além do obvio tem supermercados, escolas, igrejas e lojas que vendem de tudo, e para todos os bolsos, além dos óbvios brinquedinhos de sex shops.
Mas voltamos aos pássaros. Num dos restaurantes que frequentávamos tinha uma pérgola aberta com pássaros como os nossos, iguaizinhos as corruíras, e o que as atraia? Garrafas de coca-cola pet com duas colheres de madeira cruzadas que serviam de poleiro e as colheres recebiam as sementinhas que eram tiradas pelos pássaros.
Fácil de copiar, bonito e fácil de fazer. Mesmo assim fiz algumas fotos. No retorno a Lomba do Asseio, repeti o projeto e comprei alpiste, etc, fiquei esperando os clientes. Bem, foi um fracasso. Voltei à lojinha perto de casa, mudei a marca e comprei um pacote de sementes mistas. Pendurei bem perto de um janelão e os observava de perto. Estava ao lado dos bebedouros sempre lotados, mas o restô: vazio. Fiz todas as tentativas e me convenci que faço bem molho para massas, lasanhas e até galetos de forno nos domingos, mas comida para alados é outra coisa. Cheguei até a pensar que eles lembravam de nós na Serra se deliciando com seus parentes. Desolado, escrevi no Face: socorro! Help! Help! May day, may day! Aiuto, aiuto! Na manhã seguinte, lá estava uma mensagem de alguns dos bird-watchers. Não adianta, Flávio, os europeus comem grãos, os primos sul-americanos só insetos.

A imagem pode conter: atividades ao ar livre, natureza e água
Bookmark and Share

LAGOA DO PEIXE OU LAGOA DAS AVES?

27 de outubro de 2017 0

Em Tavares, abriu ontem a 13ª edição do Festival de Aves Migratórias. Como em outros anos, o propósito do evento é apresentar as belezas do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, área de 34,4 mil hectares, e chamar a atenção da população para a sua importância.

Essa região de restingas, banhados e dunas à beira-mar é o ponto onde, anualmente, aves do Hemisfério Norte e Sul chegam para se alimentar e seguir viagem. Já foram registradas mais de 280 espécies, entre migratórias, que chegam em busca de alimento, e residentes, que vivem no local, além de anfíbios, mamíferos e outros animais da fauna.
É uma região de forrageira, uma parada para as aves conseguirem energia para continuar até a Patagônia. Algumas espécies param por poucas horas, outras ficam por meses, explica o biólogo Kennedy Borges. A escala das aves no Estado é a chance de visualizar de perto animais como os flamingos, boa parte vinda do Chile, e o maçarico-do-peito-vermelho, originário do Canadá e ameaçado de extinção.
É também uma chance de aprender algo, já que o festival, além de palestras voltadas a todas as idades, oferece passeios pelo parque e ensina a treinar o olhar para enxergar as aves na imensidão da planície. O foco é, principalmente, o público iniciante, para que se possa divulgar a unidade de conservação e mostrar a importância que ela tem para sociedade.
O festival ocorre desde o ano 2000. As edições são intercaladas entre Mostardas e Tavares. Os participantes misturam-se a biólogos, ornitólogos e observadores do mundo inteiro, e a maioria da programação, como os passeios, é gratuita.
No local, não há infraestrutura voltada ao turismo. Para os próximos anos, pretende-se instalar um camping, mas em caráter experimental e considerando as regras da unidade de conservação, além de demarcar áreas para surfe e banho. O primeiro passo será restringir o transito de veículos na faixa de areia, o que deverá ocorrer em meados de 2018. Bem, neste ano não deu, mas no próximo lá estaremos.

(segue)

A imagem pode conter: céu, árvore, pássaro, atividades ao ar livre e natureza
Bookmark and Share

26 de outubro de 2017 0

CHICAGO – A PIZZA TÍPICA

chicago-pizza

A pizza, grande sucesso em ambos os lados do equador (e em Brasília, como ontem), é um prato que não se sabe bem onde começou. Há quem afirme que no Egito. Na época seria um bolachão tostado onde se agregava alguns condimentos. Pelo menos é o que dizem. Mas vá você acreditar em arqueólogos! Quer uma prova? Se depois, espero que bem depois do conflito entre Trump e o Gordinho Sinistro, os arqueólogos encontrarem uma bicicleta ergométrica, aquela que você pedala e não sai do lugar, como a definirão? Qual seria sua utilidade?

Sem dúvida a pizza sofreu uma grande melhora com a descoberta da América, da região do México, mais propriamente, pois a partir daí o tomate passou a fazer parte. Se você se chamar Fritz ou Frantz não vai sentir muita falta, mas se no seu nome constar um Lupo Trimalcione, como é que fica?

Mas daí até glória incontestável, ela fez uma escala memorável em Nápoles, onde um pizzaiolo sabendo que a rainha viria se esmerou e criou a pizza Marguerita, a favorita em qualquer pizzaria. Mas aí um detalhe que o tempo (ou a inveja) estão apagando, ele teria também sido o primeiro a colocar no forno o disco de massa, e os componentes do sabor, crus, para cozinha-los, e com mais este toque se espalhou pelo mundo.

Há pouco tempo e justamente na Chicago, onde andamos no ano passado, surgiu uma nova mudança na fórmula bem sucedida. A massa fina continua, mas a borda bem mais alta, a olho uns 2 ou 3 centímetros, possibilitando assim mais “recheio” ou uma colocação de componentes mais espessa, muito mais espessa. Se vai emplacar? Não sei, mas um de seus segredos: o preço, também terá que mudar. Um detalhe a mais – continuará pizza ou passará a ser torta? Quiche quem sabe? Só o tempo dirá.

Mas tenhamos paciência, da bolacha do Egito até o tomate do México se passaram no mínimo uns 1500 anos, que foi quando Cortez levou o vermelho componente para a Europa (ou já teria sido o Colombo?). Sinceramente, não sei. Mas um mistério ainda maior circula pela minha massa cinzenta e eu o estendo a vocês. De onde vem tanta mussarela de búfala? Só em SP, li no Estadão, seriam 5000 as pizzarias. Todas obviamente vendem mussarela de búfala legítima, como manda o figurino. E aí, eu pergunto, alguém já viu uma búfula no RS? Ou no Brasil? Na ida para a praia o Justo Werlang tinha algumas. Vi muitas na ilha de Marajó, onde são usadas como meio de transporte, montadas como cavalos até pelos policiais. Mas quando perguntei pelo leite o que ouvi é que produzem muito, muito pouco, portanto o mistério vai continuar. E nós do RS temos toda a confiança na nossa indústria de laticínios, eu pelo menos nunca ouvi falar em leite compensado.

Bookmark and Share

CARTA AO BIRD CLEMENTE

24 de outubro de 2017 0

O Facebook frequentemente me alegra republicando textos meus. É que eu que não sou dos mais organizados não os tenho e como não entendo de eletrônicos jamais conseguiria acha-los. Este, segundo eles, foi postado há 3 anos.

Carta ao Bird Clemente
Caro Bird,

Mais uma vez obrigado. Chegaram as revistas extras, e estou começando a pagar as promessas. Não vou dizer que tenha fila mas quase dois meses depois da publicação ainda recebo alguns telefonemas cobrando a promessa, (é que raramente vemos a “motor racing” no RS, uma pena).
O que me deixou surpreso é ser lembrado por performances de quase 50 anos atrás; é a glória. Provavelmente devido a credibilidade de quem assinou a matéria, um ídolo perene de todos os fãs de automobilismo e de todos os que acompanharam a implantação da indústria automobilística que hoje faz três milhões de automóveis por ano.
Lembrar das provas iniciais, em que ousávamos desafiar os gigantes ainda me arrepia. Nas largadas parecíamos pigmeus do lado das gigantes carreteiras que tinham motores de cinco à seis vezes o volume cúbico dos nossos DKW’s.
Além disto, tínhamos até o descrédito do público acostumado ao ronco dos oito cilindros. Quando se soube que estávamos inscritos, fomos chamados de arrogantes (o que é que queríamos ali?), até que nas primeiras mil milhas que as fábricas participaram, lembras do que dizia o mais velho dos Fittipaldi, o organizador da prova: a responsabilidade de vocês é enorme. Cabe a vocês provarem que podemos fazer carros que aguentam 1.600km. Era verdade, e nós jovens, muito jovens, já íamos botando a faca nos dentes.
Na largada à meia noite, só havia luz em frente ao box, e baixada a bandeira com a fumaça e poeira não se via mais nada no escuro, só se viam as luzes na reta oposta, mas ninguém sabia de quem eram. A expectativa durou 4 minutos e uns poucos segundos quando surge um dos brancos e com o número 10 do Bird na frente. Deve ter sido espetacular. Mas eu sou um dos que não vi, pois quem está na pista não vê nada.
Lá de dentro não se tem ideia do que está acontecendo, só o que se vê é um para-lama de um lado e uma porta com um número do outro, faróis fortes atrás, lâmpadas vermelhas na frente e todos lutando por um lugar: o seu. Roncos e barulhos de todos os tipos e a adrenalina a mil.
Além disto, mesmo que no meio da confusão, tem-se que conferir o contagiro, o velocímetro, a pressão da bomba e a temperatura, e olhar nas placas dos 200m, 100m, 50m e do P.q.p já lá dentro da curva e ainda engatar a terceira, às vezes a segunda, a terceira e a quarta e já começar a frear outra vez… umas vinte, trinta trocas de marcha a cada volta. Bem, isto com bom tempo. Mas havia também provas com tudo isto mais chuva e neblina (durante 1600km).
Mas vamos parar por aí. A ideia não é querer virar heróis tardios, ou afastar as pessoas que começam no esporte.
Tua página, Bird, me fez muito bem. Obrigado, estou surpreso. Custa acreditar que alguém lembre de algo tanto tempo depois. E claro, a surpresa, com tanta gente boa! Ser escolhido por ti que assinou a matéria, foi um belo presente, muito obrigado. Todos os que acompanharam a chegada e a evolução das equipes de fábrica no Brasil te conhecem e sabem que falo a verdade. Não só por ter o nome de pássaro (ao qual nós acrescentávamos “voador”) Flyng Bird. Mas ele não está sozinho na família e tem um irmão que não se chama pássaro, mas também é muito rápido. Com ele e o gaúcho Clóvis Morais ganharam as 25 horas de Interlagos, quem sabe você pense que ele seja um predestinado, até pode ser.
Mas o nome Bird não veio exatamente de pássaro, mas do Almirante Bird de quem o “seu” Clemente era fã pelos seus feitos nas águas geladas do mundo.
Como falei, ter uma página com uma assinatura como a tua está sendo glorioso, mas os jovens que veem a foto no topo da página não vão crer que aquele carequinha de óculos pudesse ser tão veloz e que em um dos cursos de pilotagem contestou o próprio Piero Taruffi, italiano da gema, sobre como ser mais veloz numa determinada curva. Criou-se ali uma discussão no box antigo, e desceram todos para a curva do S. O Bird pegou um carro, deu três voltas provando que era possível. Foi aplaudido por todos, inclusive pelo charmoso Taruffi, que com seus mais de 60 anos, sua cabeleira branca e várias vitórias nas “Mille Milhe’’ tinha o apelido de “la volpe d’Argento” (a raposa de prata).Bem meu caro Bird, tento terminar aqui, mas tens um histórico que não me permite parar, e nós temos tantos anos de convivência que é certo que esqueci alguma coisa que deveria ter sido incluído.
Abraços, e mais uma vez obrigado.

Bookmark and Share

REVIAJAR É SEMPRE PRECISO

23 de outubro de 2017 0

Essa situação é mais frequente do que parece. Viajantes retornam a destinos em que estiveram muitos anos antes e se espantam. Muda tudo, do aroma à gastronomia, do clima à arquitetura. Eis porque sempre digo que jamais é possível conhecer – nem sequer ligeiramente – uma cidade ou país, ainda que você visite-o com frequência.

Eu, que já estive em muitos países, estou seguro de que em raras viagens encontrarei as mesmas sensações que tive outrora. Exceto, claro, pela lembrança de grandes paixões ou surpresas.
E há outra coisa: além dos lugares, nós mesmos mudamos o tempo todo. O que não nos agradava antes passa, às vezes, a ser inspirador. A passagem dos anos muda o que sentimos, pensamos e vemos. Nesse caso não há solução.
Muros, templos e cidade ancestrais podem ter permanecido parecidos com o que você viu há quase 50 anos. Mesmo os lugares cujas referências permanecem as mesmas, sempre parecerão diferentes – e a boa notícia é que será um prazer redescobri-los.
Nossa existência é curta, mas o tempo aprendeu a ser mais rápido do que ela. Lugares, ideias e crenças mudam em menos tempo do que uma vida. O Irã laico do ditador Reza Pahlevi deu lugar ao Irã xiita dos atuais. A União Soviética deu lugar à Rússia e outros países tão desiguais hoje como antes. A rica Venezuela hoje exporta habitantes. A vizinha Colômbia se prepara para criar campos de refugiados e o Brasil não sabe mais o que fazer com os quem cruzam a fronteira. As tecnologias nos ajudaram em alguns casos e atropelaram-nos em outros. Muitas vezes ficamos à deriva.
Não me lembro se já lhes contei, mas a história vale – ainda que repetida. Há alguns anos, encontrei uma cidadã norte-americana na Piazza San Marco, em Veneza. Numa rápida conversa, ela me contou que havia estado no mesmo lugar quinze anos antes. E arrematou: “Mas mudou tanto! Estou encantada!”.
Oh, My god, Veneza, não! Se o mundo muda e nós mudamos, a cidade dos doges só proibiu os grandes barcos de cruzarem o canal.

Bookmark and Share

ROTA 66 - FINAL

22 de outubro de 2017 0

Ao entrar pelo vale de San Bernardino, o viajante que destemidamente percorreu toda a Rota 66 já se sentirá como tendo cumprido o desafio. Afinal, a praia de Santa Mônica estará bem ali, banhada pelo intenso Oceano Pacífico. Mas o vale é bem mais do que uma reta final ladeada pelas montanhas e pelas inevitáveis freeways de Los Angeles. Há tanto para ver que essa será a coroação de toda a diversão encontrada ao longo da rota.

Assim que passar de San Bernardino, começa a graça. Se essa área da Califórnia ficou famosa pelos parques temáticos, o primeiro deles a surgir no roteiro deve ser o Raging Waters de San Dimas. Quem preferir se manter seco pode se divertir em outros parques, como a própria Disney (a original, criada por Walt Disney em 1955), o Six Flags Magic Mountain ou o Universal Studios, que tem a cara da região.
Por sinal, o Universal é a atração que mais recebe turistas na grande Los Angeles: cerca de cinco milhões de pessoas por ano. Localizado no vale de San Fernando, o parque agrada crianças e adultos com sua “pegada” de cinema, suas salas de show e seus espetáculos ao ar livre. Sem contar com as visitas guiadas aos estúdios e o Universal City Walk – rua repleta de restaurantes e vida noturna.
Já que você está aqui, aproveite para uma visitinha ao centro de Los Angeles, às ruas de Hollywood, seu famoso Teatro Chinês, a calçada da fama… Pode ser clichê, mas não ir até lá seria como estar em Roma e não ver o Papa.
Saindo do centro, a direção certa para cumprir o epílogo da Rota 66 é só uma: Santa Mônica. As demais praias são interessantes, mas só Santa Mônica tem vocação para contentar a todos. Ali estão os melhores hotéis, restaurantes, boates, lojas de renome. E bem no centro, marcado por um longo píer com mais de 100 anos, está o Pacific Park. Cenário de incontáveis filmes, o parque de diversões à moda antiga simboliza o prazer e a alegria de concluir a aventura pelos 3755 quilômetros da Rota 66. Um final que reúne todas as emoções da rodovia – história, agito, fast-food, visual inesquecível e uma gostosa nostalgia. Uma síntese do American Way of Life.

A imagem pode conter: atividades ao ar livre
Bookmark and Share

ROTA 66 (10 de 11)

21 de outubro de 2017 0

Ao entrar no estado da Califórnia, a Rota 66 se torna mais contida. Antes de chegar propriamente ao mundo mágico do cinema e das praias na área de Los Angeles, você encontra a região de Barstow, com apenas 20 mil habitantes e muitos fantasmas. Sim, fantasmas.

Barstow, hoje, é apenas um ponto de passagem entre o meio-oeste e a costa, mas antigamente ela teve mais agito. Há cerca de 120 anos, a região era cheia de vilas de mineiros que se dedicavam a explorar o solo e o leito dos riachos em busca de metais preciosos. A descoberta da prata, por volta de 1860, levou à construção de estradas e de toda uma infraestrutura ferroviária. Os metais rarearam, mas o sistema de transporte continuou mantendo Barstow no mapa. Já as demais vilas, abandonadas, entraram para a história como cidades-fantasma.
Visitá-las é um passeio interessantíssimo. A cidade-fantasma de Calico, por exemplo, é mantida como museu a céu aberto. Perdida no deserto de Mojave, ela chegou a ter 1200 moradores e 500 minas de prata. Completamente vazia desde 1907, hoje é uma espécie de parque temático. Os donos organizam visitas guiadas às minas, shows com atores representando o antigo cotidiano e mantêm lojas e restaurantes para entreter os turistas.
A região também serve como partida para visitar três reservas naturais das mais famosas nos EUA. A primeira é a de Mojave, que resguarda incríveis formações rochosas vulcânicas e onde a temperatura bate facilmente nos 40°C. Além dela, há o parque nacional Joshua Tree, onde se preserva a árvore do mesmo nome, símbolo do clima árido local. E, finalmente, o “Vale da Morte”, lugar inóspito e selvagem, que faz refletir sobre a rudeza e a coragem dos antigos mineradores.
Curiosamente, Barstow e seu enterno são o oposto do que se vai encontrar ao fim da Rota 66 – as belas praias californianas. Por isso mesmo é tão interessante. Os que sonham com Hollywood, aliás, podem esbarrar no caminho com um cenário de cinema – literalmente falando. Em Newberry Springs, os olhos devem ficar atentos ao Bagdad Café, lugar que inspirou e foi locação do sucesso de mesmo nome, filmado em 1897. A casinha à beira da estrada ainda serve os hambúrgueres que ficaram famosos na história.

A imagem pode conter: céu, atividades ao ar livre e natureza
Bookmark and Share

PAIXÃO PELO ATUM

20 de outubro de 2017 0

Os primeiros a notar foram os fenícios, três mil anos atrás. Durante um certo período do ano, de abril a junho, cardumes de atum passam pelo Estreito de Gibraltar, cumprindo uma estratégica travessia do Oceano Atlântico para o Mar Mediterrâneo. Muitos estão gordinhos, gordinhos mesmo, depois de acumular gordura para encarar o inverno, e vão em busca de águas mais quentes dispostos a se reproduzir. Estamos falando do atún rojo (atum vermelho, bluefin tuna em inglês, da espécie Thunnus thynnus), que chega a pesar mais de 200 quilos. Eles não passam muito longe da costa, para evitar predadores como as orcas. E regressam para o Atlântico entre agosto e setembro, num ciclo migratório que evidencia o quanto esta turma é inteligente. Quer dizer… Tudo ia bem até que eles, os atuns, começaram a dar de cara com eles, os fenícios. Aí a história ganha outro rumo.

Numa técnica batizada de almadraba (termo em árabe para algo como luta ou golpe), os fenícios passaram a usar redes de pesca submersas, criando um obstáculo na rota dos atuns. O sistema, mais tarde aprimorado pelos árabes, é usado até hoje, e virou sinônimo de pesca sustentável e controlada do atum na Andaluzia, no Sul da Espanha.
Quatro cidades no Estreito de Gibraltar ainda montam suas almadrabas — Conil de la Frontera, Barbate, Zahara e Tarifa —, respeitando cotas e parâmetros estabelecidos pela Comissão Internacional de Conservação do Atum do Atlântico. Este ano, o limite a ser pescado não podia ultrapassar 1.097 toneladas. Quando ele é atingido, é hora de parar. Sem direito a mentira de pescador. E não é qualquer atum que pode ser fisgado, somente os que excedem os 80 quilos (mas a meta mesmo é pegar os que estão entre 180kg e 200kg).
Com estas dimensões, o bicho já teria atingido a maturidade e completado seu ciclo reprodutor pelo menos uma dezena de vezes, contribuindo assim para a manutenção da espécie. É um bom negócio. Quanto mais pesado o atum, maior o aproveitamento, e mais valioso é. Num leilão de Ano Novo em janeiro, um exemplar com 212 quilos foi arrematado por nada menos do que US$ 636 mil, batendo um recorde que era de 2013. Na prática, uma almadraba consiste num labirinto engenhoso de redes verticais, por onde o peixe tenta se desviar e acaba preso. Os gigantescos paredões de rede são montados entre fevereiro e abril, e envolvem a atuação de dezenas de pescadores e mergulhadores. É uma armação de teias tão interessante que tem restaurante que chega a reproduzir na parede o desenho de uma; num centro cultural, uma atração é justamente uma maquete. E em lojas e fábricas de atum, não raro há pôsteres à la aula de Biologia destrinchando a espécie, mostrando seus cortes e possíveis usos na gastronomia. Tudo é aproveitado, incluindo as carcaças e barbatanas, sendo que algumas partes, como a ventresca (barriga), são consideradas mais nobres do que outras.
Esqueça filetinhos de sashimi sem graça que já comeu por aí. O atum vermelho tem textura e sabor que se prestam às mais diversas combinações e invenções. Lembra aquela gordurinha que ele armazena para gastar no inverno? Entremeada à carne, é ela que faz a alegria de cozinheiros e glutões. O atún rojo pode ser degustado em seus mais variados cortes, em pratos dos mais diferentes. Curado, fresco, grelhado, marinado…
Em Conil de la Frontera, cidade na província de Cádiz com 22 mil habitantes mas que pode bater os 80 mil no verão europeu com a chegada dos turistas, foi criada a Rota Gastronômica do Atum, em que o desafio é criar tapas com o atún rojo (imagine a alegria de chegar a um lugar e encontrar um concurso desses…) E o atum dá um show como ingrediente-curinga. Os fenícios sabiam mesmo das coisas.

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Bookmark and Share