Continuamos em Florença. Imagine-se caminhando até chegarmos na Galeria dei Uffizi em frente a uma grande porta de madeira. Ao nosso lado um grupo de mais ou menos 30 pessoas. Do lado direito da porta, um mármore de Mercúrio. Do lado esquerdo um busto de Esculápio. O passeio foi marcado para as três horas da tarde. A funcionária que guarda a chave ainda não chegou. Às 03h10 ela aparece, faz uma chamada formal e abre o ferrolho. E finalmente, entramos no corredor.
É uma passagem suspensa, de cerca de 800 metros, que liga Uffizi, onde ficava a parte administrativa da cidade, ao palácio Pitti, onde moravam os Médici. Foi inaugurado em 1565. Uma encomenda de Cosimo 1º a Giorgio Vasari, que completou o serviço em cinco meses, a tempo de estar tudo pronto para as comemorações do casamento do filho (a história não fala, mas certamente foi uma obra estatal).
Após um período de restauração, o corredor foi reaberto. Faz uns 4 ou 5 anos. Além de uma vista espetacular da cidade, notadamente do mítico Ponte Vecchio, há uma pinacoteca que tem uma preciosa coleção de auto-retratos. Mas a atmosfera é maior do que isso. O que estamos corredor é o retrato do medo que um déspota tinha de se misturar à plebe. O corredor passa por uma igreja, onde uma tribuna exclusiva permitia que a família assistisse à missa sem ser incomodada. Das janelas, viam o povaréu fazendo barulho lá embaixo. Nós vemos o mesmo: centenas de turistas, metade japoneses. Ouvimos os cliques de suas máquinas fotográficas e também os alto-falantes das guias. As visitas são guiadas e precisam ser agendadas.
Ao fim você pensa: “daqui a pouco nós todos estaremos nas e nos certificaremos que ela já não será para nós a mesma. Florença, grande, esplêndida, maior que a vida, será também a cidade que derrotou um inimigo mais poderoso – o tempo”.












