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Posts na categoria "Arte"

Lixo para uns, relíquias para outros- IV

22 de julho de 2015 0

22-07-15 móveids reciclados

 

Leio que uma autora da tese de doutorado “Criatividade e resíduos resultantes da atividade humana”, a doutora Marta Velloso sustenta que o lixo é visto de uma outra forma quando reaproveitado nas artes.

- A gente no Brasil ainda vê o lixo como um produto com a validade vencida. Mas pode existir beleza por trás. O artista plástico que transforma o descarte em arte, como é o caso de Vik Muniz, que tem o seu trabalho respeitado. O mesmo não acontece com o catador, que é visto como mendigo. Ambos sobrevivem dos restos descartados, só que têm tratamentos diferentes. Se você diz que a peça era da vovó, acham bonita, cuidada e elogiam o bom gosto de tê-la incorporado ao patrimônio. Se você diz a verdade, ouve “credo, você não tem vergonha de recolher este lixo imundo?”

Os três meses que ficou em Nova York, serviram de inspiração para a designer Camila Campos, ao lado de Bel Lobo, reparou no lixo com outros olhos.

- Morei num bairro em que as pessoas tinham uma condição financeira boa, o Upper West Side. O lixo era super organizado, os vizinhos deixavam sofá, armário, fogão, todos novos, nas calçadas. Como fiquei numa casa que não era minha, não podia levar nada. Então, quando cheguei ao Rio, passei a prestar atenção – diz Camila Campos.

Hoje, no mesmo móvel, estão ainda uma caixinha de metal, e uma ampulheta achadas dentro de uma caçamba.

A peça está sobre uma mesa de rodinhas faturada no lixo perto de sua casa. A designer forrou com papel contact e recheou o vaso com margaridas. Um espelho com moldura de madeira fez com que ela entrasse dentro do contêiner para resgatá-lo, mas valeu a pena.

Moradora do Rio há oito anos, a mineira Isadora ganhou uma bolsa integral para estudar na UniverCidade, onde aperfeiçoou os dotes em “marcenaria”.

- Noventa por cento dos meus projetos foram feitos com material achado no lixo.

A fissura por caçambas contaminou até os amigos, que telefonam para comentar sobre algum móvel que viram pelas esquinas.

- Sou o homem do lixo, e tenho os meus olheiros – brinca Adi, dono da Casa Beludi (hospedaria no estilo “cama e café”), no Cosme Velho. – Até minha faxineira me liga para contar que viu um sofá ou um abajur não sei onde.

Dia desses, Adi foi premiado com uma ‘’cadeira pavão’’ de palha dando sopa na vizinhança.

- Não acreditei, achei que alguém fosse voltar para busca-la. Mas percebi que estava com uma etiqueta escrito “lixo” – orgulha-se Adi, que não reformou a peça, pois a onda é manter o aspecto original.

- O meu carro está sempre cheio de coisas. É questão de hábito e, para mim, já virou vício. Se você passar e olhar com carinho, não conseguirá mais parar.

 

22-07-15 moveis-reciclados

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Lixo para uns, relíquias para outros – III

21 de julho de 2015 0

Quadros-feito-com-janela

 

* O estilista Thomas Azulay, de 28, é novato no “bloco dos garis”. Este ano, encontrou a primeira peça que foi parar no acervo do seu escritório: um baú preto, descartado na rua por algum vizinho.

- Na dúvida, perguntei ao porteiro, que confirmou que era lixo. Voltei para casa carregado. – Lembra Thomas, que também tem suas queixas com relação à pequena quantidade de lixeiras no bairro e que acaba provocando o acúmulo de lixo na rua ou a quebra das peças que não cabem nos pequenos recipientes.

Foi até a Comlurb, e ficou sabendo que a coleta de “bens inservíveis” é feita pela própria Comlurb. Um adendo: as remoções são feitas por etapas pois, a companhia não dá conta de carregar toda a mobília de um apartamento de uma vez só. Então, pedem para que a cada dez dias se possível, ir descartando peça por peça. Se juntar as artimanhas de todos os caçadores de relíquias, daria para lançar um manual.

Nem todos os achados de Lilli brotaram diretamente de caçambas. Ela confessa que já seguiu “burrinhos de carga”, como carinhosamente chama os burros sem rabo do passado que empilham cacarecos em carrinhos de duas rodas (que chegam a quatro metros de comprimento) pelas ruas do Rio e transportam mudanças inteiras (é um caso a parte, dá gosto velos equilibrando cargas enormes e a si próprios entre uma passada e outra).

* Adi Junior sugere outro ponto. Na verdade é quase um pedido:

- As próprias pessoas que descartam poderiam ter mais cuidado em preservar a peça. Se eles não querem, pode ser que alguém queira.

Um passatempo divertido dessa galera é contar histórias dos seus achados. Um selo meio descascado com a palavra “Washington” colado no baú de Thomas o fez acreditar que a mala já tenha viajado de navio para os Estados Unidos.

Já Poli não entendeu nada quando encontrou uma prancha de surfe inteirinha na esquina de sua casa, na Lapa.

- Passei horas pensando no que faria um surfista descartar sua prancha. Visualizei uma briga de casal, em que a mulher botou o homem para fora de casa e jogou sobre ele todas as coisas. A prancha, inclusive – viaja a designer.

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Lixo para uns, relíquias para outros II

17 de julho de 2015 0

17-07-15

 

Leio no “O Globo” a publicitária Lilli Kessler, ela perdeu a conta de quantos objetos vasculhou e recolheu nas caçambas da rua em que mora, em Ipanema, ou nas calçadas do Sul Fluminense, onde sua família tem casa.

- Cidade do interior é uma maravilha, as casas são grandes e antigas, têm muitas peças raras- analisa Lilli. E sempre cabe mais uma – diz ela.

Dona do ateliê Le Modiste (que repagina móveis e desenha estampas) ela é adepta do faça você mesmo. E não se inibe em dizer que conta com a ajuda de um “tiozinho” para consertar as peças de vez em quando. Entre seus feitos, uma enceradeira dos anos 50 foi transformada em luminária e um tambor de máquina de lavar roupa aproveitado como base para uma mesinha de centro. Três pés de madeira foram improvisados para dar charme. E dão.

- É que as pessoas precisam parar e pensar, nem tudo é lixo. Temos que aprender a reciclar e a pensar no planeta de forma total.

*A arquiteta Branca Bronstein, de 29, integrante de um programa do canal GNT, também tem seu “personal-faz-tudo”. Da janela de uma casa em Santa Tereza, avistou uma cadeira Bertoia “de ferro, quadriculada” e esperou um pouquinho para ver se o dono aparecia. Resultado? Levou a peça embora para a própria casa, na Gávea.

- Pesquisei tudo sobre o design da peça para explicar ao restaurador – conta Branca, que morou em Londres e trouxe a mania – lá as pessoas colocam os moveis na calçada para quem quiser pegar. E tem gente que nos dias de chuva os protegem para que não se deteriorem.

 

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Lixo para uns, relíquias para outros

14 de julho de 2015 0

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Alguns dias atrás, publicamos um texto sobre móveis abandonados e pretendia continuar. Gosto do assunto que é muito comum em países ricos. Nos Estados Unidos “o paraíso do consumo” especialmente.  No Japão, não só existe o hábito como tem até quem cubra com plástico o que colocam na calçada (1 dia) por mês. Em algumas regiões da bela Itália dizem que traz sorte se você jogar pela janela na noite de 31 de dezembro o que não quer mais. É claro que não dará sorte a quem estiver circulando lá embaixo.

No Brasil, ligar o pisca, encostar em uma calçada e pegar um móvel abandonado, nem pensar. Pois bem, eu já recolhi “poltronas esquecidas”, portas e janelas, várias placas, cadeiras e mesinhas – não tudo de uma vez, diz o articulista de o Globo que fez minha memória efervescer. A operação não leva mais que um minuto, e só se deve ter certeza que o pisca esteja funcionando. Nunca tive objeções ou admoestações. Pelo contrário, desconhecidos até me ajudaram.

Mas há exceções, veja esta parte de uma longa mensagem que recebi.

No início minha mulher reclamava, hoje ela colabora. E assim conseguimos economizar e fugir da mesmice da Protásio Alves. Nosso apartamento tem áurea própria e ainda tenho algumas coisas na garagem esperando a sua vez de serem entronizadas no terceiro andar.

‘’Obrigada e parabéns Flávio, estás ajudando as pessoas a reciclar, economizar…e a proteger o planeta.’’

*Lilian, eu é que agradeço, e ainda acrescento: concordo contigo, o hábito de catar móveis e objetos por aqui não é muito comum, mas pelo retorno que tenho tido, acho que está se disseminando. Em geral, o catador está montando o primeiro apartamento. Janelas viram quadros, portas viram biombos, só depende da sua imaginação.

Segue ela:

Também tem graça preservar a história da peça. Seu acervo pode ir além; plaquinhas que dizem ‘’cuidado, devagar’’ e ‘’incêndio’’, ou ‘’cuidado com o cachorro’’ são engraçadas e servem para suporte de algo que você goste, seja a foto do seu cachorro ou lembranças daquele primeiro acampamento em Garopaba. Podem estampar a parede do seu quarto, ou sobre a maleta de couro marrom, ‘’resgatada’’ na rua encharcada da chuva. Um ‘’criado mudo’’ Belle Époque serve de depósito também para uma lembrança: na portinha de baixo, o par de botas inglesas comprado na feira de antiguidades da ‘’Tristan Narvaja’’, naquele inverno que você estava com os pés congelados, e que voltam brilhando aos seus pés nos primeiros dias de frio.

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Paris é uma festa

21 de outubro de 2014 Comentários desativados

Ernest Hemingway

Na abertura de “Paris é uma Festa”, último livro escrito por Ernest Hemingway e somente publicado depois de sua morte, o escritor americano afirma: “se você, quando jovem, teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante. ”

Poucos tiveram a sorte de viver em outras cidades, quando jovens ou não, mas todos, onde quer que estejamos, carregamos estas cidades dentro de nós.

Ao final de Paris é um Festa, Hemingway nos elucida: “Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. ”

Cidades não têm fim. E convém lembrar que Paris é Paris e que Hemingway tinha convite para todas as festas, quando nós mortais só sabíamos que elas existiam e víamos suas luzes, e ouvíamos suas músicas bem ao longe ou num pequeno acordeom num bar próximo. Mesmo assim, todos nós nos divertíamos e todos temos saudades…

Entre os autores chamados do “século americano”, Ernest Hemingway ainda é um dos mais populares. O relançamento de sua obra pela Bertrand Brasil, com o novo projeto gráfico, é uma ótima oportunidade para revisitá-lo ou, se for o caso, conhecer o “homem das corridas de touro e dos safáris”.

Agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1954, Hemingway acabaria se matando com um tiro de espingarda no verão de 1961, em sua casa na cidadezinha de Ketchunn, em Idaho. Estava a poucas semanas de completar 62 anos. A popularidade de Hemingway não se deve apenas ao fim trágico ou à aura de machão em safaris associada aos seus gostos pelos tragos e por belas mulheres. Uma característica crucial de seu estilo.

A São Paulo que aparece em vários dos meus textos, bem como Buenos Aires e Londres são – como a Paris de Hemingway – cidades que carrego comigo. Cidades reais são sempre imaginárias nas obras de ficção, assim como cidades inventadas guardam grandes semelhanças com cidades

verdadeiras. A Macondo, de García Márquez, assim como a Gotham City do Batman, são tão reais ou irreais quanto o Rio de Machado de Assis.

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Nico, desculpe não ter voltado!

10 de fevereiro de 2014 Comentários desativados

Nico pronto

 

Assisti o Tangos e Tragédias há muito tempo, mas já no São Pedro. Gostei como todos, se não fosse assim não teria ficado em cartaz no nosso melhor teatro e na pior época em termos de público. Sempre falávamos em voltar a vê-lo, afinal era novo todos os anos, mas não havia pressa pois até o fim do verão tínhamos tempo e no próximo, eles estavam lá. Os assisti também em eventos de empresas. Sempre bons, mas não como no São Pedro. Aquela era a sua casa, aquele é o seu público. Hoje de luto nos juntamos, como uma extensão da sua família. Sbórnia, que é uma ilha que se move, mas não sei de onde veio a palavra. Só sei que em Caxias na minha adolescência era uma palavra comum.

Como nômade assumido e com um xodó por ilhas lamento nunca tê-la encontrado, chego a pensar que ela só existe no mapa do teatro São Pedro, só a dona Eva a localiza. Mas já estou com saudade dela. Em Caxias queria dizer porre. Porre dos grandes, daqueles que só quem tomou vinho Trentino de Tampinha e sobreviveu, pode opinar.  O início da saudade começou há duas semanas num programa do Jô Soares, aonde o grande Jô deixou clara sua admiração pelo maestro Pletskaya, bem maior que os normais elogios e mensuras que ele diz aos entrevistados.

Como nunca pensamos em sua ausência, também não sabíamos o encanto que tínhamos por ele e a falta que ele nos faria, como disse a Elisa Ferraretto: os nossos verões nunca mais serão os mesmos.

Boa viagem, Nico.

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O Imbróglio da Luciana!

01 de outubro de 2013 Comentários desativados

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Seguidamente falamos e ouvimos que o Brasil e os brasileiros não tem memória. Hoje me permito discordar. Discutimos o mensalão, que começou 8 anos atrás. Sabemos quem foi a Luciana de Abreu, que viveu há muito tempo, cujo imbróglio dura uns 10. E ainda se diz que não temos memória… E como Cais da Mauá, nos enrolam há uns 40 anos. É claro que não sei como vão resolver. Uma piscada, voluntária ou não, e as casas da Luciana ficaram de fora… Mas isto ainda é do tempo do Isaac Ainhorn… e ele até já se foi.

Nunca morei no bairro, bem que eu gostaria, mas sempre soube que na rua e no bairro morava o “creme de la creme”, para usar a expressão da época. Ou seja: não era para um gringuinho da “Sera” recém chegado. Estou escrevendo e lembrando os sobrenomes. Mas não é uma queixa, Porto Alegre me acolheu de braços abertos e até hoje me embala com carinho. Uma prova? Tive o Studio, que hoje é Clio, 147 lugares, durante 20 anos com 5 sessões por semana. E só tive uma poltrona vandalizada e da memorabilia que trazia e expunha, só foi levada uma bota do par que eu havia trazido do Tibet. Precisa dizer mais? Torço despudoradamente pelas casas, pela Luciana, pelo bairro e pela “minha” cidade. A piscada é gritante demais para ter sido “um lapso”. Ao meu ver, não importa nem se são bons exemplos de arquitetura. Quem as fez, são o espelho da nossa cidade, uma fotografia quem sabe. No futuro, quem vier, as procurará. Certamente não virá para ver os novos edifícios.

Assim como, na primeira viagem à Europa. Todos vão à Paris (eu também), e pergunto aos que foram muitas vezes: Quem já foi até ao La Defense? Que é o futuro, o bairro novo, tudo limpo, cuidado, como bons projetos, jardins, escritórios sofisticados, etc. Tem até um metrô especial sem paradas, direto. Mas quem já usou? Quem já foi até lá? Mas com certeza todos foram ao Marais, uma bairro onde, no passado, iam morar os emigrantes e os expatriados, judeus, quase sempre.  O nome Marais diz tudo. Pântano, charco com pulgas, baratas e mosquitos em quantidade. Mas foi preservado, não por sua beleza mas por sua história. Aquilo era Paris, aquilo é Paris e eu sempre que vou até lá, tomo um metrô e vou até a rua Des Rosier’s para comer um falafel e tem que ser lá. Tem aqui na Felipe Camarão, meus amigos judeus já me disseram, mas nunca provei. Já em Paris, só o metrô custa mais que o falafel. Já ao “La Defense” fui uma só vez quando fiz um documentário sobre a cidade luz.

Quem, por exemplo, vai para Los Angeles? Só os executivos e pessoas turisticamente desinformadas. Mas todos vão para San Francisco, Carmel e Monte Rei. Aqui em casa já virou dilema: ir ou não ir aos Emirados Árabes? Sei muito pouco sobre eles, me parece uma Disneylandia árabe. Comprei um livro e não mudou muito. Isto que meu amigo Sergio Aldabe, comandante da Etihad, me ofereceu a casa. Ele está sempre voando, eu posso ficar até com o carro, mas não priorizo ir. Dubai não tem alma, que é o que eu mais gosto das cidades que visito. E no imbróglio da Luciana não querem só derrubar as casas, querem tirar a alma. A alma do bairro. Os portugueses que aqui chegaram não tinham ideia do tamanho do Brasil, fizeram casinhas de porta e janela, comuns na Cidade Baixa. Os alemães, que foram os próximos a chegar, foram para a Independência, para o Moinhos de Vento. Não importa se as casas são ou não expoentes em arquitetura ou quem as fez, ela são Porto Alegre. A nossa Porto Alegre. E ao meu ver, devem ficar.

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O Corredor Vasariano

24 de maio de 2013 0

Continuamos em Florença. Imagine-se caminhando até chegarmos na Galeria dei Uffizi em frente a uma grande porta de madeira. Ao nosso lado um grupo de mais ou menos 30 pessoas. Do lado direito da porta, um mármore de Mercúrio. Do lado esquerdo um busto de Esculápio. O passeio foi marcado para as três horas da tarde. A funcionária que guarda a chave ainda não chegou. Às 03h10 ela aparece, faz uma chamada formal e abre o ferrolho. E finalmente, entramos no corredor.

É uma passagem suspensa, de cerca de 800 metros, que liga Uffizi, onde ficava a parte administrativa da cidade, ao palácio Pitti, onde moravam os Médici. Foi inaugurado em 1565. Uma encomenda de Cosimo 1º a Giorgio Vasari, que completou o serviço em cinco meses, a tempo de estar tudo pronto para as comemorações do casamento do filho (a história não fala, mas certamente foi uma obra estatal).

Após um período de restauração, o corredor foi reaberto. Faz uns 4 ou 5 anos. Além de uma vista espetacular da cidade, notadamente do mítico Ponte Vecchio, há uma pinacoteca que tem uma preciosa coleção de auto-retratos. Mas a atmosfera é maior do que isso. O que estamos corredor é o retrato do medo que um déspota tinha de se misturar à plebe. O corredor passa por uma igreja, onde uma tribuna exclusiva permitia que a família assistisse à missa sem ser incomodada. Das janelas, viam o povaréu fazendo barulho lá embaixo. Nós vemos o mesmo: centenas de turistas, metade japoneses. Ouvimos os cliques de suas máquinas fotográficas e também os alto-falantes das guias. As visitas são guiadas e precisam ser agendadas.

Ao fim você pensa: “daqui a pouco nós todos estaremos nas e nos certificaremos que ela já não será para nós a mesma. Florença, grande, esplêndida, maior que a vida, será também a cidade que derrotou um inimigo mais poderoso – o tempo”.

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Florença e Seus Tesouros (parte II)

23 de maio de 2013 0

Como falei esses dias, tive a sorte de ficar três meses em Florença, e ficaria outros três. Noventa dias são pouco para conhecê-la e ainda tem as cidades próximas.

Carro? Absolutamente desnecessário, aliás, só incomoda. O centro histórico é reservado a pedestres e ainda somos obrigados a desviar dos desenhistas de giz, que realizam suas obras de arte no chão. Na Piazza della Signoria, recomendo pausa para um chocolate quente no tradicional Café Rivoire e, sentado ao ar livre, admirar o coração de Florença antiga. Aqui ficava a sede do governo, e também aqui a plebe se reunia para festejar e protestar. Foi neste lugar, em 1478, o nobre Francesco de Pazzi foi atirado do Palazzo Vecchio, nu, pendurado pelo pescoço, por planejar um atentado contra a vida de Lorenzo de Médici, Il Magnífico. Vinte anos mais tarde, o fanático monge Savonarola, que pregava a moralização dos costumes, atirava livros e telas no que chamou “fogueira das vaidades”. Acabou queimado na mesma fogueira por heresia. Em frente ao palácio, o Delhi Aufieri Davi faz pose para as câmeras dos turistas. É uma réplica, instalada em 1873 no lugar onde o original sofreu com sol, chuva e as inundações do rio por 369 anos. O autêntico, esculpido por Michelangelo está na Galeria da Academia, aguardando a sua visita… Se você concordar em ficar horas na fila.

Nas ruas há africanos aos montes, a maioria em situação irregular. Comercializam bugigangas, artigos de couro e pôsteres de cantores. Expõem reproduções de pinturas famosas no chão do vão livre da Galeria Uffizi. Formam um conjunto que contrasta com a imponência da galeria. Enquanto se espera na fila interminável a distração é barganhar com eles. A Ufizzi tem a maior coleção do planeta de arte renascentista. São mais de 100 mil obras. Foi construída em 1560. O prédio fica pertinho do mítico Ponte Vecchio, sozinho já é um espetáculo. E caixas de som foram embutidas nas paredes, tocam música clássica dia e noite.

Deus está nos detalhes florentinos como a farmácia de Santa Maria Novella, uma perfumaria surgida em 1540 que não precisa de endereço: você a encontra pelo perfume. Juro. É a preferida do doutor Hannibal Lecter, o canibal elitista vivido no cinema por Anthony Hopkins. No filme como no romance Hanníbal, o personagem comprava ali o Sapone di Mandole, uma receita exclusiva.

É preciso tempo para descobrir os segredos de Florença. Como eu falei, 90 dias foram pouco. Se você não tiver tempo, veja só o David e caminhe nas viagens posteriores. Eu ainda não havia visto o David na Galeria da Academia. Possivelmente nenhuma obra é mais emblemática. Davi tem 5 metros de altura, olhar alerta, mãos e pés desproporcionais em relação ao resto do corpo. Seus cabelos são encaracolados com duas costeletas tipo Elvis Presley. Concentrado, segurando a funda, ele aguarda o combate com o gigante Golias – ou já o teria batido? Não se sabe, parece entediado. Parece que a qualquer momento, descerá de seu pedestal e pisará em um ou dois japoneses que insistem em dar flashadas. David é um pop star, coberto de pó e restaurado, iluminado pela claraboia da galeria.

Uma multidão o cerca, duas moças trocam comentários, apontam e riem baixinho, provavelmente, analisando as ridículas proporções do pelado David.

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Simplesmente Millôr

06 de abril de 2013 0

Vendo o Breno Serafini no caderno de cultura, é que me dei conta que estamos há um ano sem Millôr. Segundo ele próprio, “um escritor que nunca foi um intelectual”. Ou seja, caustico como sempre e, principalmente, de si próprio.

Só falei com ele uma vez na vida. Foi à tardinha, na casa do Xico Stockinger. Vários falavam ao mesmo tempo. O Xico querendo entendê-lo, eu também. Os assuntos de alternavam com muita rapidez. O Xico olhava para mim, quando eu iniciava a “traduzir”, já tinham mudado tudo e eu me sentia um boneco de ventríloquo com um mentor gago. Depois de alguns tragos, todos se entendiam e o Xico não mais precisou de “intérprete”. É o que o Millôr discreto e educado falava com poucos movimentos labiais, um drama para o Xico. Nunca mais o vi. Aliás, vi uma vez mais, no posto 5 com amigo meu, Albino Brentar, mas é claro que não fui falar com eles. Agora, leio do Bruno Serafini que estamos há um ano sem seus pensamentos.

Passado um ano da perda do multiartista Millôr Fernandes, morto em março de 2012, que é possível dizer? Um vago sentimento de orfandade misturado à certeza de que, pelo menos, sua obra persistirá. E na sua obra, construída com uma irreverência ipanêmica, desdobra-se, mais que um estado de espírito, uma refinada linguagem (e ilustração) como forma de decifrar, julgar, corromper (no bom sentido) e dessacralizar qualquer tipo de dominação.

Ideologicamente, então, a anarquia milloriana não perdoa: em tempos de cachoeiras e mensalões, sempre se faz atual a palindrômica “a mala nada na lama”, ou então, o retrato de nossos dias: “Perdeu-se uma ética a caminho de uma democracia”. Isso, por si só, já bastaria.

Talvez nem todos concordem, mas Millôr, definitivamente, é um dos maiores pensadores brasileiros, não apenas da atualidade. Sua obra continuará necessária, pois o homem, de qualquer tempo, sempre será falho, frágil, e, na busca de uma saída heroica, repetidas vezes escorregará na tragédia. Millôr escolheu a arma da ironia para retratar a sua (nossa) aldeia, sempre questionador, muito sério. Nesse sentido, ficam ainda, como um recado, ecoando suas palavras: “E se a vida for do outro lado?”.

No caso de Millôr, palavra e imagem se fundem, constituindo um amálgama difícil de ser separado, suscitando o debate sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. A gênese, sob esse aspecto, não importa, mas é necessário dizer que a palavra vem em primeiro lugar. Em primeiro, porque é com ela que construímos os nossos pensamentos; em segundo lugar, porque, mesmo Millôr, que opera com as duas linguagens, afirma: “Os chineses têm uma frase que se repete aí cansativamente: ‘Uma imagem vale mil palavras’. E eu sempre digo: ‘Diz isso sem palavras!’”.

Bem, se você leu até aqui, vai concordar comigo: era quase impossível “traduzir” isto para um surdo. Desculpe, Xico; obrigado, Serafini.

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