Como falei esses dias, tive a sorte de ficar três meses em Florença, e ficaria outros três. Noventa dias são pouco para conhecê-la e ainda tem as cidades próximas.
Carro? Absolutamente desnecessário, aliás, só incomoda. O centro histórico é reservado a pedestres e ainda somos obrigados a desviar dos desenhistas de giz, que realizam suas obras de arte no chão. Na Piazza della Signoria, recomendo pausa para um chocolate quente no tradicional Café Rivoire e, sentado ao ar livre, admirar o coração de Florença antiga. Aqui ficava a sede do governo, e também aqui a plebe se reunia para festejar e protestar. Foi neste lugar, em 1478, o nobre Francesco de Pazzi foi atirado do Palazzo Vecchio, nu, pendurado pelo pescoço, por planejar um atentado contra a vida de Lorenzo de Médici, Il Magnífico. Vinte anos mais tarde, o fanático monge Savonarola, que pregava a moralização dos costumes, atirava livros e telas no que chamou “fogueira das vaidades”. Acabou queimado na mesma fogueira por heresia. Em frente ao palácio, o Delhi Aufieri Davi faz pose para as câmeras dos turistas. É uma réplica, instalada em 1873 no lugar onde o original sofreu com sol, chuva e as inundações do rio por 369 anos. O autêntico, esculpido por Michelangelo está na Galeria da Academia, aguardando a sua visita... Se você concordar em ficar horas na fila.
Nas ruas há africanos aos montes, a maioria em situação irregular. Comercializam bugigangas, artigos de couro e pôsteres de cantores. Expõem reproduções de pinturas famosas no chão do vão livre da Galeria Uffizi. Formam um conjunto que contrasta com a imponência da galeria. Enquanto se espera na fila interminável a distração é barganhar com eles. A Ufizzi tem a maior coleção do planeta de arte renascentista. São mais de 100 mil obras. Foi construída em 1560. O prédio fica pertinho do mítico Ponte Vecchio, sozinho já é um espetáculo. E caixas de som foram embutidas nas paredes, tocam música clássica dia e noite.
Deus está nos detalhes florentinos como a farmácia de Santa Maria Novella, uma perfumaria surgida em 1540 que não precisa de endereço: você a encontra pelo perfume. Juro. É a preferida do doutor Hannibal Lecter, o canibal elitista vivido no cinema por Anthony Hopkins. No filme como no romance Hanníbal, o personagem comprava ali o Sapone di Mandole, uma receita exclusiva.
É preciso tempo para descobrir os segredos de Florença. Como eu falei, 90 dias foram pouco. Se você não tiver tempo, veja só o David e caminhe nas viagens posteriores. Eu ainda não havia visto o David na Galeria da Academia. Possivelmente nenhuma obra é mais emblemática. Davi tem 5 metros de altura, olhar alerta, mãos e pés desproporcionais em relação ao resto do corpo. Seus cabelos são encaracolados com duas costeletas tipo Elvis Presley. Concentrado, segurando a funda, ele aguarda o combate com o gigante Golias – ou já o teria batido? Não se sabe, parece entediado. Parece que a qualquer momento, descerá de seu pedestal e pisará em um ou dois japoneses que insistem em dar flashadas. David é um pop star, coberto de pó e restaurado, iluminado pela claraboia da galeria.
Uma multidão o cerca, duas moças trocam comentários, apontam e riem baixinho, provavelmente, analisando as ridículas proporções do pelado David.












