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Posts na categoria "Arte"

Florença e Seus Tesouros (parte II)

23 de maio de 2013 0

Como falei esses dias, tive a sorte de ficar três meses em Florença, e ficaria outros três. Noventa dias são pouco para conhecê-la e ainda tem as cidades próximas.

Carro? Absolutamente desnecessário, aliás, só incomoda. O centro histórico é reservado a pedestres e ainda somos obrigados a desviar dos desenhistas de giz, que realizam suas obras de arte no chão. Na Piazza della Signoria, recomendo pausa para um chocolate quente no tradicional Café Rivoire e, sentado ao ar livre, admirar o coração de Florença antiga. Aqui ficava a sede do governo, e também aqui a plebe se reunia para festejar e protestar. Foi neste lugar, em 1478, o nobre Francesco de Pazzi foi atirado do Palazzo Vecchio, nu, pendurado pelo pescoço, por planejar um atentado contra a vida de Lorenzo de Médici, Il Magnífico. Vinte anos mais tarde, o fanático monge Savonarola, que pregava a moralização dos costumes, atirava livros e telas no que chamou “fogueira das vaidades”. Acabou queimado na mesma fogueira por heresia. Em frente ao palácio, o Delhi Aufieri Davi faz pose para as câmeras dos turistas. É uma réplica, instalada em 1873 no lugar onde o original sofreu com sol, chuva e as inundações do rio por 369 anos. O autêntico, esculpido por Michelangelo está na Galeria da Academia, aguardando a sua visita... Se você concordar em ficar horas na fila.

Nas ruas há africanos aos montes, a maioria em situação irregular. Comercializam bugigangas, artigos de couro e pôsteres de cantores. Expõem reproduções de pinturas famosas no chão do vão livre da Galeria Uffizi. Formam um conjunto que contrasta com a imponência da galeria. Enquanto se espera na fila interminável a distração é barganhar com eles. A Ufizzi tem a maior coleção do planeta de arte renascentista. São mais de 100 mil obras. Foi construída em 1560. O prédio fica pertinho do mítico Ponte Vecchio, sozinho já é um espetáculo. E caixas de som foram embutidas nas paredes, tocam música clássica dia e noite.

Deus está nos detalhes florentinos como a farmácia de Santa Maria Novella, uma perfumaria surgida em 1540 que não precisa de endereço: você a encontra pelo perfume. Juro. É a preferida do doutor Hannibal Lecter, o canibal elitista vivido no cinema por Anthony Hopkins. No filme como no romance Hanníbal, o personagem comprava ali o Sapone di Mandole, uma receita exclusiva.

É preciso tempo para descobrir os segredos de Florença. Como eu falei, 90 dias foram pouco. Se você não tiver tempo, veja só o David e caminhe nas viagens posteriores. Eu ainda não havia visto o David na Galeria da Academia. Possivelmente nenhuma obra é mais emblemática. Davi tem 5 metros de altura, olhar alerta, mãos e pés desproporcionais em relação ao resto do corpo. Seus cabelos são encaracolados com duas costeletas tipo Elvis Presley. Concentrado, segurando a funda, ele aguarda o combate com o gigante Golias – ou já o teria batido? Não se sabe, parece entediado. Parece que a qualquer momento, descerá de seu pedestal e pisará em um ou dois japoneses que insistem em dar flashadas. David é um pop star, coberto de pó e restaurado, iluminado pela claraboia da galeria.

Uma multidão o cerca, duas moças trocam comentários, apontam e riem baixinho, provavelmente, analisando as ridículas proporções do pelado David.

Simplesmente Millôr

06 de abril de 2013 0

Vendo o Breno Serafini no caderno de cultura, é que me dei conta que estamos há um ano sem Millôr. Segundo ele próprio, “um escritor que nunca foi um intelectual”. Ou seja, caustico como sempre e, principalmente, de si próprio.

Só falei com ele uma vez na vida. Foi à tardinha, na casa do Xico Stockinger. Vários falavam ao mesmo tempo. O Xico querendo entendê-lo, eu também. Os assuntos de alternavam com muita rapidez. O Xico olhava para mim, quando eu iniciava a “traduzir”, já tinham mudado tudo e eu me sentia um boneco de ventríloquo com um mentor gago. Depois de alguns tragos, todos se entendiam e o Xico não mais precisou de “intérprete”. É o que o Millôr discreto e educado falava com poucos movimentos labiais, um drama para o Xico. Nunca mais o vi. Aliás, vi uma vez mais, no posto 5 com amigo meu, Albino Brentar, mas é claro que não fui falar com eles. Agora, leio do Bruno Serafini que estamos há um ano sem seus pensamentos.

Passado um ano da perda do multiartista Millôr Fernandes, morto em março de 2012, que é possível dizer? Um vago sentimento de orfandade misturado à certeza de que, pelo menos, sua obra persistirá. E na sua obra, construída com uma irreverência ipanêmica, desdobra-se, mais que um estado de espírito, uma refinada linguagem (e ilustração) como forma de decifrar, julgar, corromper (no bom sentido) e dessacralizar qualquer tipo de dominação.

Ideologicamente, então, a anarquia milloriana não perdoa: em tempos de cachoeiras e mensalões, sempre se faz atual a palindrômica “a mala nada na lama”, ou então, o retrato de nossos dias: “Perdeu-se uma ética a caminho de uma democracia”. Isso, por si só, já bastaria.

Talvez nem todos concordem, mas Millôr, definitivamente, é um dos maiores pensadores brasileiros, não apenas da atualidade. Sua obra continuará necessária, pois o homem, de qualquer tempo, sempre será falho, frágil, e, na busca de uma saída heroica, repetidas vezes escorregará na tragédia. Millôr escolheu a arma da ironia para retratar a sua (nossa) aldeia, sempre questionador, muito sério. Nesse sentido, ficam ainda, como um recado, ecoando suas palavras: “E se a vida for do outro lado?”.

No caso de Millôr, palavra e imagem se fundem, constituindo um amálgama difícil de ser separado, suscitando o debate sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. A gênese, sob esse aspecto, não importa, mas é necessário dizer que a palavra vem em primeiro lugar. Em primeiro, porque é com ela que construímos os nossos pensamentos; em segundo lugar, porque, mesmo Millôr, que opera com as duas linguagens, afirma: “Os chineses têm uma frase que se repete aí cansativamente: ‘Uma imagem vale mil palavras’. E eu sempre digo: ‘Diz isso sem palavras!’”.

Bem, se você leu até aqui, vai concordar comigo: era quase impossível “traduzir” isto para um surdo. Desculpe, Xico; obrigado, Serafini.

11 de março de 2013 0

Querida Maria Tomaselli,

Depois de ver a tua exposição, na Bolsa de Arte, chego à conclusão que valeu a pena esperar (To para os mais íntimos) 1095 dias. Acho que o teu atual 19º andar abriu ainda mais o teu horizonte. Eu, teu fã assumido, sou suspeito em falar, mas todos que estavam ali adoraram a exposição.

Abraço. Já esperamos a próxima, contando os dias.

Maria Tomaselli está de volta.

07 de março de 2013 0

Inaugura, hoje, quinta-feira, uma exposição individual na Bolsa de Arte.

Li no jornal que morando no 19º andar de um prédio no bairro Menino Deus, Maria Tomaselli brinca que se considera culpada por colaborar com a urbanização desenfreada do bairro e, por extensão, da cidade.

Até acho que tem alguma razão. Sua visão do que estão se tornando as nossas cidades é clara. Embora, como artista, dela esperamos que crie fantasias, belas fantasias. A mente da "To" é clara, lógica e bem pensante.

Nós, seu fãs, só lhe atribuímos uma culpa: ficar tanto tempo sem uma exposição individual. Três anos, Maria, é muito!

Por favor, pense um pouco menos na tua bela Innsbruck (Áustria) e um pouco mais em nós, no teu fã clube que, do meio da rua, olha para cima. Já estamos esperando a próxima.

Xico Stockinger em Todas as Suas Facetas

03 de dezembro de 2012 0

É bem provável que você não identifique o autor desta mancha. Não é uma obra. Ele chamava de “Borão”. Era uma brincadeira com e cera quente que sobrava no cadinho quando ele fazia guerreiros e touros.

Eu ia lá com frequência, com muita frequência. Era meu amigo e vizinho. Às vezes para jogar Snooker, às vezes, para levar um vinho. Foi minha e do Miltom Mattos a passagem tomador de cerveja para tomador de vinho.

Quanto ao Snooker, Xico orgulhava-se de fazê-lo bem. E o fazia, mas sem a pretensão de ser um Sérgio Faraco. O Sérgio é um iluminado, padrão Rui Chapéu. O Xico, um bom jogador.

Pois bem, hoje, terça-feira, dia 4, haverá uma homenagem ao Xico, e o mostra de corpo inteiro e não só sua arte, pois é um documentário que abrange várias partes de sua trajetória.

É no Teatro São Pedro, bem como ele merece. E tenho certeza que, depois da homenagem, se pudesse, iria com os amigos de sempre para um boteco. No passado, os conheciam todos. Aliás, é certo que numa homenagem mais íntima os amigos, hoje bem vestidos, o farão. E no bar que formos e na mesa que estivermos, pediremos mais um copo e uma certeza que o copo irá esvaziando, afinal, espíritos também bebem.

Britto Velho Desenhos

03 de dezembro de 2012 0

A exposição é amanhã, dia 4, terça-feira, lá pelas 19 horas. Digo isso porque é uma exposição incomum e o papo deve se estender até o restaurante Flashi que, como o Britto, também é ótimo.

O convite é de bom gosto. O Britto Velho sentado num trono, que também é um cavalete ficou ótimo. Só faltou a Zuneide, sua musa inspiradora ao lado, abanando.

O convite diz muita coisa sobre o artista. Coisas que nem os seus amigos sabiam. Que ele gosta de filmes do John Wayne tudo bem, mas que lutou karatê, etc. Bem leia você mesmo e encante-se com o lado desconhecido do Britto Velho.

Contêineres Coloridos

21 de setembro de 2012 Comentários desativados

Gostei da ideia. Acho que despertaram um pouco a nossa admiração pelo Belo (nem sempre), mas sempre colorido e alegre.

Os contêineres são ótimos, já testados e aprovados pelo mundo afora, mas são volumes amorfos. Acho que a boa ideia, surgida em Santa Maria nos ajudará a gostar e zelar por eles.

Ainda não fui atendido, mas bem que eu gostaria de um na minha rua.

Não culpo o prefeito. Pelo contrário, os contêineres são parte de um sistema integrado de limpeza que, aos poucos, vamos assimilando.

Caxias, por exemplo, já tem os verdes e os amarelos. Nós, da capital, ainda chegaremos lá. E quando vierem, vou tentar que o “meu”, seja pintado pela Tomaselli ou pelo Britto Velho. Como as ótimas vaquinhas da Mu-mu, um dia poderemos até fazer um rodeio de contêineres como foi feito com as mimosas.

Klimt e seus 150 anos de vanguarda

20 de junho de 2012 0

Já na chegada, no aeroporto de Viena vi um grande número de posters do Klimt, pintor que sempre gostei, possivelmente influenciado pelo Xico Stockinger que o adorava. Era tanta propaganda que cheguei a pensar  que o pintor tivesse nascido na Austria; não, não foi. Era  só reconhecimento pela sua arte. No aeroporto, alguns cartazes bilíngues diziam que a exposição alardeada era pelos 150 anos de um grande pintor  e só.

O Beijo que ilustra os cartazes da exposição foi pintado por ele em 1908. O difícil de acreditar é que alguém tivesse esta estética a 104 anos atrás!!! Soube ali também que no século 21 a obra mais escolhida para simbolizar o amor é justamente o Beijo.

Na manhã seguinte após o café e uma caminhada, a  pé pelos parques de Viena, e Viena é repleta deles chegamos  ao museu. Ninguém combinou nada, ninguém falou nada: era o caminho natural depois de ver os cartazes. Todos queríamos ver ao vivo os quadros.

O museu é ótimo; a exposição não foi decepcionante, mas bem menor que eu esperava. Só depois o meu oráculo, o pintor Britto Velho me disse que todos os seus quadros eram sempre pequenos.

No salão que ele havia pintado o forro, o topo das colunas, que são de mármore  escuro, o museu fez uma passarela elevada de uns 4/5 metros de altura, toda em volta do salão para que visitantes vissem as pinturas ao nível de seus olhos e a um metro ou menos de distância. Não havia nada entre nós e as pinturas do Mestre. Ficamos por ali uns 60 minutos; crianças, jovens e adultos, turistas e  locais. Ninguém, absolutamente ninguém levantou uma mão para toca-las. Klimt era filho de uma família ligada às artes; estudou em Viena e em Paris e três dos filhos Klimt e dois irmãos, foram também pintores. Ouvi, não sei onde  que, enquanto seus colegas iam ao sul da França, Florença ou a Inglaterra, Klimt teria ido ao Egito, mas a busca que fiz nada indicou. Existem na sua pintura traços egípcios, mas numa época pós-napoleônica não seria necessário ir até lá.

Mas o tio Google não falava nada; fiquei indeciso. Voltei a ligar para o Britto Velho que além de pintor talentoso; é também professor de pintura. Ele estava lecionando  no seu studio e deixei recado para a sua musa inspiradora, a Zuneide. Encerrada a aula, durante o cafezinho final, ele telefonou e eu e seus alunos presentes  tivemos de improviso uma bela aula de quem foi Klimt e aonde ele andou, que não foi ao Egito, mas no Marrocos,  bem mais perto , pois ele estava na França e supõem-se  a luz tropical, as cores do deserto e  provavelmente os sucs e os camelos contribuíram para  suas mudanças de técnica e estilo.  Lamento não ter comprado o DVD, mas só tinha em alemão.

Obrigado pela aula, Britto

XICO

16 de maio de 2012 0

Eram tempos difíceis. O conceito de arte, obras de arte,  esculturas, principalmente , era mais um conceito de monumentos  em praças. Poucas pessoas tinham peças em casa e, quando tinham, eram reproduções clássicas, pequenos bronzes, cópias em mármore, porcelana. Coleções ? Eram coisas de museu. Galerias de arte não existiam ( a primeira foi a Esferas, na Florêncio Igartua),  e a primeira venda do Xico foi no aeroporto. Voltando de uma mal- sucedida exposição, encontra o industrial (depois ministro) Severo Gomes. Mal embaladas , viu que eram esculturas e pediu para ver. Olhou e comprou todas - muitas sem ver.

Como de hábito, Xico reuniu família e amigos e foram todos comemorar, desta vez na Churrascaria Santo Antônio, recém aberta.( segue)

Se você era cliente do Studio, com certeza vai gostar de lembrar destes painéis, assinados pelo incomparável : XICO

Meu Amigo Xico

11 de abril de 2012 0

Todo dia era dia de trabalho no atelier – naquela época, as esculturas eram bem menores do que as de 2,5 metros que ele faria depois, com a justificativa de que ele sempre gostou de grandes mulheres, o que é verdade: elas o acompanharam a vida toda nos jornais A Hora e O Correião, onde ele emprestava a sua arte, e na boemia (ou, pelo menos, nos bares da região) com o Fuhro, o Leo Dexheimer, o Danúbio, Mário Quintana e os eventuais artistas visitantes – alguns como o Volpi, bem mais velho, que condicionou: vou a Porto Alegre para a exposição, mas só se ficar na casa do Xico. Veio, é claro, mas já não era boêmio. Andava lá pelos 90. À noite, não jantava; só o que comia era uma sopa de alho, que impregnou a cozinha, cortinas, tapetes e a casa inteira por uma semana após a sua partida. (Segue.)