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Posts na categoria "Ciências da Terra"

O Solitário de Galápagos

18 de outubro de 2012 0

Certamente não é só a beleza das ilhas ou das tartarugas que leva ao arquipélago 150 mil pessoas por ano. Até porque as ilhas não são excepcionalmente bonitas, e para achar uma tartaruga bonita só sendo tartaruga também. Pescoço longo, pele enrugada e seu andar desajeitado jamais fariam sucesso na “Calçada”, na Padre Chagas. Mas, nas 18 ilhas do arquipélago, é diferente. Um tartarugão chamado Jorge ou George (em inglês fica melhor) era considerado imponente e o representante de uma linhagem de milhões de anos. Sempre que o vi me transmitiu uma enorme tristeza, era impossível olhar para ele sem sentir muita pena dele.

O conjunto de ilhas pertence ao Equador e a estação experimental leva o nome de Charles Darwin, o homem que com a Teoria da Evolução das Espécies colocou as ilhas no mundo e no mapa. Ali vivia George “The Lonely”. Com sua morte, em final de junho, morreram os genes de uma linhagem que tinha milhões de anos, 10 milhões, dizem os cientistas.

A extinção de sua subespécie foi mais um resultado da presença de animais exóticos levados às ilha – cabras, ratos e outros predadores espalharam-se pelo Arquipélago comendo os ovos de tartaruga. Em 1972, George foi transferido ao Parque Nacional de Galápagos, onde os pesquisadores criam as tartarugas gigantes para repovoar as ilhas. Os cientistas esperavam que a convivência com exemplares das outras nove subespécies de tartarugas gigantes ajudasse George a desenvolver convívio. Não deu certo. Ele se mostrou reservado, antissocial. Não gostava da companhia dos colegas, machos ou fêmeas. Enquanto isso, cientistas tentavam fazer George acasalar com fêmeas de subespécies próximas. Duas foram colocadas em sua caminha, mas George fingiu que não era com ele. Com o tempo (15 anos depois) George pareceu ter entendido, mas só foi acasalar depois de 15 anos de convivência, o que, convenhamos, é muito até para bicho reconhecidamente lento. Os ovos foram levados a uma incubadora, mas não eclodiram.

George era uma celebridade. Sua imagem foi estampada em selos do Equador. Tornou-se astro do Parque Nacional, visitado por empresários e estrelas de Hollywood. “George Solitário era um símbolo de nossa luta para preservar a riqueza, a diversidade e a beleza do planeta”. As desventuras amorosas de George e a história dos Chelonoidis nigra abingdoni serão contadas num espaço no parque que receberá o nome do vagaroso solteirão. Na falta de herdeiros, que a ciência mantenha viva a memória de George Solitário.

Mais um pesadelo para a Europa?

05 de dezembro de 2011 0

Era só o que faltava para os europeus. A “crise” é clara e era previsível: o euro naufragando, os gregos querendo viver do passado e neca de trabalhar. E agora, com oito elefantes brancos construídos para as olimpíadas deteriorando e sem uso (fui vê-los pessoalmente). Mas deixa isso prá lá, é bom não tocar no assunto...

Ontem, no início do frio, já com nuvens pesadas e céu coberto, soou o alerta na Islândia: um novo vulcão, o Katla, que não é novo – não sei se é maior ou menor que o anterior, aquele de nome impronunciável, que paralisou uns 50% dos vôos (ou seja, milhares) –, mas qualquer vulcão lá em cima, grande ou pequeno, dependendo da direção dos ventos, é um temor de grandes proporções. Pode ter impacto global, causando até enchentes pelo derretimento do gelo no Atlântico Norte.

O Katla só entra em erupção a cada 40 ou 50 anos. A última foi em 1918, portanto a validade já venceu (93 anos). Os cientistas já estão mobilizados, mas o que podem fazer contra a ira de um vulcão? Falar, prever, avisar...

Mais de 500 tremores dentro e nas proximidades do Katla foram sentidos no último mês, sugerindo a movimentação de magma, o que poderia indicar uma possível erupção, conforme noticiou a BBC, ou seja, uma organização confiável. Tão confiável que, se o espírito que habita o vulcão ouvir a notícia, faz com que ele entre em erupção só para não prejudicar a imagem da emissora.

Não sei qual é o seu santo ou a sua religião, mas quem sabe juntos eles nos ouçam. Afinal, Alá e o seu profeta Maomé, mais o Messias, Buda, Olorum, e o simpático Ganesha, com sua cara de elefantinho, juntos devem ter forças para evitar que mais um mal aconteça aos europeus e nórdicos – e, em especial, aos islandeses, que, naquele clima, onde não há uma só árvore com mais de 1,80 m, importando tudo só pago com o resultado do peixe abundante, fizeram um país invejável em 50 anos. Começaram no pós-guerra (mais ou menos em 1945). Não eram pobres, eram muito pobres. Alugaram um pedaço da ilha para os americanos, que precisavam vigiar o “urso soviético”durante a guerra fria e, aos poucos, foram aprendendo o que era “management” (gerenciamento). Simplificando... hoje não há um único analfabeto, e as estradas não têm um só buraco (falei um só buraco).

Há uns 6, 7 anos, alguns bancos ingleses quebraram. A Islândia foi junto. Estão se recuperando, não merecem mais uma tragédia.

E tudo isso quase no escuro, pois o inverno – não o inverno, mas o frio – dura nove meses. Já nos três meses de verão, melhora muito: a média durante o dia é de + 6º até + 8º. O país é, ou melhor, era tão inóspito que Júlio Verne o escolheu para colocar lá, e sob uma geleira, o portal que o conduziu numa hipotética “Viagem ao centro da Terra”, que é o título do seu livro.

Bem, se eu não for para a “Sera” amanhã, escreverei algo mais sobre estes heróis do gelo, do qual conhecemos tão pouco que até o nome traduzimos errado. O correto é “terra do gelo

Um iceberg no seu whisky?

30 de setembro de 2011 0


Parece que vivemos uma época de sonhos possíveis. Isto até já acontecia há muito tempo. No fundo, era a busca do conforto; em breve, quem sabe, uma necessidade. Por exemplo, os romanos tinham seus fornecedores de gelo – certamente, os imperadores (deles, é claro, não estou falando no Sarney e família), e, como se sabe, os escravos que iam buscá-lo nas montanhas.

A costa norte da Califórnia também já foi abastecida por barcos que vinham do norte trazendo gelo para que o whisky on the rocks ficasse exatamente como queriam.

E até no quente sul da Índia havia esta mordomia: vi a “Casa de Gelo”, como é chamada uma construção de pedra numa ilha bem em frente à cidade de Madras, em pleno Golfo de Bengala. Claro que o abastecimento vinha do Sul – não sei de onde, mas, certamente, do sul.

Nesses casos que relato, o gelo vinha cortado em cubos e armazenado em porões de navios. Agora, com o aquecimento global, a questão começa a ser repensada, só que, em vez de armazenado nos porões, rebocado – mais ou menos como você pode ver na foto que reproduzi da Revista Time.

Segundo eles, o gelo é potável e transportável. Ou seja, os enormes icebergs seriam rebocados até estes lugares de crônica falta d’água. De acordo com os especialistas, não há grandes dificuldades. O iceberg é como um reservatório flutuante. Só na região da Groenlândia, com o aquecimento atual, se desprendem uns 15.000 por ano. Portanto, em vez de deixá-los dissolverem-se lentamente à espera de algum Titanic para afundar, rebocá-los até onde se quer – o sedento sul da Europa, por exemplo.

A primeira tentativa foi em 1950. a idéia agora é fazer uma espécie de proteção isolante, uma espécie de saia, para desacelerar o degelo e ir aproveitando as correntes marítimas. Quanto maior o iceberg, menor a perda, dizem os técnicos, calculada em até 38% em 120 dias de reboque.

Tecnicamente, tudo parece resolvido. A próxima etapa será conseguir entre 3 e 4 milhões de dólares. Se o susto não congelar os investidores, teremos uma interessante experiência pela frente e, quem sabe, novos empregos para os aspones cujo partido não emplacou: enxugadores de gelo.