Certamente não é só a beleza das ilhas ou das tartarugas que leva ao arquipélago 150 mil pessoas por ano. Até porque as ilhas não são excepcionalmente bonitas, e para achar uma tartaruga bonita só sendo tartaruga também. Pescoço longo, pele enrugada e seu andar desajeitado jamais fariam sucesso na “Calçada”, na Padre Chagas. Mas, nas 18 ilhas do arquipélago, é diferente. Um tartarugão chamado Jorge ou George (em inglês fica melhor) era considerado imponente e o representante de uma linhagem de milhões de anos. Sempre que o vi me transmitiu uma enorme tristeza, era impossível olhar para ele sem sentir muita pena dele.
O conjunto de ilhas pertence ao Equador e a estação experimental leva o nome de Charles Darwin, o homem que com a Teoria da Evolução das Espécies colocou as ilhas no mundo e no mapa. Ali vivia George “The Lonely”. Com sua morte, em final de junho, morreram os genes de uma linhagem que tinha milhões de anos, 10 milhões, dizem os cientistas.
A extinção de sua subespécie foi mais um resultado da presença de animais exóticos levados às ilha – cabras, ratos e outros predadores espalharam-se pelo Arquipélago comendo os ovos de tartaruga. Em 1972, George foi transferido ao Parque Nacional de Galápagos, onde os pesquisadores criam as tartarugas gigantes para repovoar as ilhas. Os cientistas esperavam que a convivência com exemplares das outras nove subespécies de tartarugas gigantes ajudasse George a desenvolver convívio. Não deu certo. Ele se mostrou reservado, antissocial. Não gostava da companhia dos colegas, machos ou fêmeas. Enquanto isso, cientistas tentavam fazer George acasalar com fêmeas de subespécies próximas. Duas foram colocadas em sua caminha, mas George fingiu que não era com ele. Com o tempo (15 anos depois) George pareceu ter entendido, mas só foi acasalar depois de 15 anos de convivência, o que, convenhamos, é muito até para bicho reconhecidamente lento. Os ovos foram levados a uma incubadora, mas não eclodiram.
George era uma celebridade. Sua imagem foi estampada em selos do Equador. Tornou-se astro do Parque Nacional, visitado por empresários e estrelas de Hollywood. “George Solitário era um símbolo de nossa luta para preservar a riqueza, a diversidade e a beleza do planeta”. As desventuras amorosas de George e a história dos Chelonoidis nigra abingdoni serão contadas num espaço no parque que receberá o nome do vagaroso solteirão. Na falta de herdeiros, que a ciência mantenha viva a memória de George Solitário.



