Nós, filhos de italianos não damos muita bola, mas é difícil de explicar aos “não oriundos” que a Itália foi unificada, mas suas receitas continuam independentes. A pizza alla napolitana feita em Roma leva anchova. Em Nápoles, essa pizza se chama... alla romana! Se non capisci nemmeno loro!
Vamos lá, de novo: quem tem boca vai a Roma e vai comer. Bem, o fato é que, com ou sem trocadilho, quem chega à Itália quer comer os clássicos que tem na memória: a pizza alla napoletana, a bistecca alla fiorentina. Então percebe que um restaurante é um pouco diferente do outro. Mesmo que os pratos sejam preparados daquela maneira há décadas. Variar receitas clássicas na Itália já é pura tradição. A sua é sempre a melhor.
Desde que o país foi unificado, uns 150 anos atrás, um acontecimento histórico que se celebra hoje, os italianos tentaram unificar também suas receitas. Mas não conseguiram.
Só conseguiram estabelecer o seguinte: a massa do tagliatelle deve ser fresca, feita com ovos, e servida com ragù. Como é o ragù? Bem, depende...
Os genoveses criaram o Consorzio del Pesto Genovese, que reconheceu uma receita como a mais autêntica. Mas pela Ligúria se encontram diversas variações do molho à base de manjericão, azeite e alho.
Em Roma, há a Confraternita della Carbonara; em Bolonha atuam Gli Apostoli dello Tagliatello; tem também a Confraternita del Tortellino. Por toda a Itália há gente empenhada em defender a autenticidade de suas receitas regionais. Cabe a você sair provando.
Nomear um prato de tonno alla palermitano, ou seja, "atum de Palermo", é um modo de associar um prato a determinada região. Algumas vezes as associações fazem sentido - o atum usado é mesmo um atum siciliano, servido com ingredientes locais: azeitonas, alcaparras e tomate. Outras vezes, como no “risotto alla milanese”, não se trata disso. O "risoto de Milão", preparado com açafrão, nada tem a ver com os ingredientes regionais, mas só reflete um hábito cultural local.
Comida é identidade. Identidade é algo emocional e cultural. Reivindicar a paternidade de um prato é demonstrar orgulho criativo. No final das contas, essa relação com a comida é positiva porque as receitas têm significado, origem e lugar, não são conceitos abstratos. Como nação a Itália deve muito a Pellegrino Artusi, autor de A ciência na Cozinha e a Arte de Comer Bem, publicado em 1891. O livro provou ser um aglutinador das tradições gastronômicas das várias cidades-Estado que hoje compõem o mapa italiano.
Mas unidade não significa abandonar a identidade. Afinal de contas, a Itália, como país unido, tem apenas 150 anos, os EUA têm mais de 300 anos e o Brasil está pelos 600. Comer na Itália é uma das razões de viver e os italianos retêm sua cozinha regional por apreço à tradição. Receitas são transmitidas de geração em geração; há pratos do norte e do sul da Itália que ainda não conhecemos. Lemos sobre eles, e vamos até lá cheios de expectativa e ao provar nos damos conta que é mera cópia do mesmo prato com uma pitada a mais de qualquer tempero. Por outro lado, diz o Carlo Pricchiere em Módena, há um tortellini com recheio de prosciutto, mortadela e parmigiano. O tortellini é feito em toda a Bolonha, mas 20 quilômetros ao norte, em Reggio Emilia, a mesma massa é preparada de uma maneira completamente diferente, mas o nome é o mesmo. Tudo pode acontecer...











