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Posts com a tag "Carnaval"

Rio - Carnaval

26 de fevereiro de 2012 0

Já escrevi várias postagens sobre Rio, confete e serpentinas. Claro que incluindo birita, samba, mulatas e rainhas. Mas, se estou me tornando repetitivo, perdão. É por ter entrado num mundo novo: o dos blocos de rua.

Li o Arnaldo Jabor e ele, num artigo,  chamou atenção para o fato de que não há mais músicas de carnaval, temos que recorrer a sambas e marchinhas do passado. E continua:

“Quando passam as baterias das escolas, hoje há corpos malhados, excessivamente nus, montanhas de bundas se exibindo em uma metáfora de liberdade, pois ninguém tem tanta tesão assim. Carnaval sempre foi sexo – tudo bem – mas, antes, havia uma doce inibição no ar, havia a suave caretice, havia clima de amor romântico nos bailes.”

Não sei se era assim, mas reproduzo parte do seu texto:

“Ainda bem que nos últimos anos voltaram os grandes blocos, depois de um período em que só havia as escolas de samba e um grande vazio na cidade. Creio mesmo que essa volta aos blocos de rua tem a ver com a nova conexão entre as pessoas.

Os blocos de ‘sujos’, esses sim, com uma alegria selvagem e sem frescuras, voltam pelos carnavais do passado. Podemos ver nas ruas a preciosa origem do carnaval. Lá estão os desesperados, famintos de amor, os excluídos da festa oficial.

A explicação antropológica de ‘pobres querendo ser reis’ por três dias, de que há um exorcismo alegre da luta de classes, não esgota o assunto. Nos blocos dos anjos de cara suja, dos travestis escrotos, dos vagabundos, há uma autocaricatura que denuncia a vida que vivem; é o carnaval dos miseráveis, a dança do escracho na melhor tradição da arte grotesca, dessacralizando as obrigações da virtude e da obediência.”

Portanto, desculpem, não pude deixar de publicar.

Rio, confete e serpentina

23 de fevereiro de 2012 0

Sinto-me um pouco constrangido escrevendo sobre uma coisa que conheço pouco. Mas vamos devagar. Não pretendo chegar à profundidade que um Ricardo Cravo Albim consegue mergulhando fundo no samba e seu passado. Nada disso. Mas também não consigo ficar alheio a fadinhas, negas malucas, gladiadores, sacis, pierrots às centenas, justamente no bairro em que eu estava, sem dar um pitaco para o blog/FACE e a minha própria curiosidade.

Estavam ali, na minha frente, sambando por prazer... às 9 da manhã – ou seja, acorda, escova os dentes, um banho, uma barra de cereais e skindum, skindum.

Nisso tem, é claro, os ensinamentos e companhia da prima emprestada, mas que, se ela quiser, assino uma declaração em cartório de que é a preferida. Além disso, sabe tudo de carnaval de rua, de blocos que não têm nada a ver com desfile de avenida.

Os blocos de rua estão resgatando o carnaval. O de avenida é ótimo, mas para ser visto; o de rua é para ser vivido – ou seja, tem carnaval para todos. Como com as novelas, há os que se satisfazem olhando; outros querem participar.

.Voltando à prima Regina, não fosse ela como é, como é que eu iria saber que ...”A fulana sempre sai de nega maluca (não é negra nem maluca), há cinco anos, se assumiu como nega maluca por uma semana com sua filha e saem as duas”, disse ela.

“Adoro sair das profundezas, acompanhando blocos e bandas. Cada ano, vou incrementando a fantasia, colocando mais um acessório. Antes, eu só saía no nosso bloco; agora saio em dois ou três por dia. Não fosse porque gosto muito da nega, sairia de borboleta.”

A pergunta era óbvia: “Como é que você aguenta?

“A maratona? Três blocos por dia? O segredo é: dose extra de disciplina, empenho e empolgação; pouco álcool, água de coco e comida leve. Além disso, dormir cedo!”

Dormir cedo? “Sim”, foi a resposta. “Tem blocos que saem às 7h para evitar o engarrafamento de blocos. Ontem, às 7h 30min, eu já estava no Pererecas na Banguela, dissidência do Perereca Desvairada; depois passamos para o Me Atirei no Pau do Gato -- tudo na base do isotônico, barras de cereal e água de coco.”

E cervejinha não pode? (Estávamos no bar da Devassa, numa bela esquina arborizada.)

“Pode sim, mas no bloco. Em casa, o negócio é água de coco.” É difícil ouvir uma resposta assim de alguém vestida de nega maluca, mesmo sabendo que a nega é advogada e, com o marido e a filha, toca um escritório de advocacia.

Foram tantas as perguntas que, à tardinha, quando chegamos em casa, a Regina colocou nas minhas mãos um livro do Sérgio Cabral, de edição antiga, 1974, que esmiúça a história do primeiro bloco: o Deixa Falar, de 1928 – a raiz de todas as agremiações que estavam por vir. Depois, numa feliz ideia do Mario Filho, irmão do Nelson Rodrigues, para suprir a falta de assuntos do futebol, inventou a competição. E assim foi indo. Muitas negas malucas, vedetes, sambistas e bicheiros depois, chegamos à Sapucaí atual.

Rio

22 de fevereiro de 2012 0

Uma coisa é certa: no Rio ninguém morre de tédio. A luminosidade incomparável, as belezas dos monólitos de pedra, os biquinis do Leblon, as explosões dos bueiros, vilas pacificadas, restaurantes vão para os ares, edifícios caem como laranjas maduras e, em poucos dias, se esvaem, deixam de ser assunto, como as verbas de auxílio aos alagados da serra do mesmo Rio, e, quase ao mesmo tempo, aparecem os blocos de sujos na rua, oi! skindô, skindô! Garotos de rua roubam uma senhora enquanto todos paramos para assistir a um casal de recém-casados descer a escada da igreja, oficializando o que já vinham fazendo há tempo.

Enfim, esse é o Rio que amamos: tem de tudo. Como eu digo, as viagens têm de tudo e você olha para o que quer: pode ser a praia e seus biquínis ou as favelas com seus problemas. Isso, é claro, repercute no exterior, degrada a nossa imagem. Alalaôõôô!

E meus amigos insistiram para que eu ficasse até o carnaval. Bem, não fiquei. Tenho plena consciência de qu,e sambando, sou um fracasso – quem sabe não tenha ficado de vergonha. Mas vi a passagem de uns blocos com nomes bizarros (por exemplo, o Sovaco do Cristo – claro, estão exatamente sob o braço do Cristo, lá embaixo, no Jardim Botânico, ao lado da Lagoa). Além dele, o Simpatia é Quase Amor, o Não Empurra Que É Pior, e um de judeus bem-humorados: Cortaram Meu Pinto. Tentei traduzir o nome para alguns estrangeiros amigos. Não é que não entendessem as palavras, mas nada tinha sentido. Fui obrigado a dizer que para nós também, e ouvi: “It’s a beautiful nonsense.

Cheguei um pouco mais perto da compreensão falando sobre um bloco nosso aqui do Sul cujo nome acho ótimo: Os Protegidos da Princesa, mas, por sorte, passou um outro com banda, metais, mulatas, gays e travestis. Com isso, fui salvo de ouvir outro “beautiful nonsense”. Dali a pouco, se aproximou um bloco de homens fortes, sarados, com barba, bigodes e pernas cabeludas, mas só homens. Veio a pergunta óbvia: “Are they gays? All of them?”

E a minha resposta: “Não, não são. Estão só se divertindo.” Seria? E se fossem? É deles, dão para quem quiserem e ninguém tem nada com isso.” Mas como é que você vai se fazer entender?? No meio dos tamborins, pandeiros, pistões e passistas? Skindum, skindum... Indo para uma feijoada em pleno verão carioca. Onde? Na Academia da Cachaça.

O Gilberto Gil tem razão: o Rio de Janeiro continua lindo

17 de fevereiro de 2012 0

Que a Luíza já voltou do Canadá vocês todos sabem. Eu só fui até o Rio e já voltei também.

Não foi bem até o Rio. Fiquei em Ipanema e no Leblon. E alguém precisa sair dali?

Pela primeira vez em muitos anos, tenho a impressão de que o Rio está se recuperando (menos o Galeão, é claro – o nosso portão de embarque foi mudado duas vezes em cima da hora, etc.; como é que um estrangeiro se safa? Não me pergunte).

No fim de semana passado – o último antes do Carnaval –, na região em que eu estava passavam blocos constantemente. Bem policiados, e os jardins públicos e da Beira-mar todos protegidos com cercas e telas, banheiros químicos em quantidade (claro, ninguém sabe quanto chope vai ser consumido; portanto, calcular o volume do chope tomado e do expelido é coisa de profissional, como o Dr. Bruno Bertschinger).

Mas me deu a impressão de que a prefeitura está querendo reeditar o Rio, aproveitando a sua luz, a sua cor, as suas rochas monolíticas e suas sambistas.

É verão, fazia calor, mas não senegalês ou porto-alegrês. Mesmo assim, blocos na rua, bares lotados e, graças aos amigos e amigas, só andamos em botecos – botecos ótimos e com comida de boteco. No Rio tem até campeonato de comida de boteco – e que sempre resulta em livro (a foto de um ilustra a postagem).

O que tem também o seu campeonato é a feijoada, que é servida sete dias por semana, 365 dias por ano. Aqui no Rio Grande, a Saúde só permitiria a venda no verão com um médico de plantão e ambulância na porta. Comemos duas vezes: ótimas, e estamos todos aí (até ontem) – isso que conosco estavam dois noruegueses que saíram de Oslo com 26° below; mas,segundo eles, Oslo é no sul da Noruega e, por isso, não faz muito frio!!!

E, até por terem gostado dos botecos e dos blocos, resolveram ficar conosco até a saída do barco. Caminharam o tempo todo. Eles sabem que, para conhecer um lugar é preciso gastar a sola, é preciso ter tempo e, como dizem os velejadores, aceitar o tempo que faz, o vento que vem e o amor que se tem – seja uma bela mulata, um bloco passando, um bueiro que, no Rio, pode explodir (mas isso eu não contei; se contasse, passaria por mentiroso, até porque o Kai, o marido, é engenheiro...).

Bem, adoraram o Rio! E estávamos numa mesa de rua  no Leblon, num lugar chamado A Academia da Cachaça, quando consegui traduzir com algum sucesso a plaquinha que estava presa no chapéu de um sambista: “Se você não der, nóis toca”. Entenderam a tradução, mas não entendiam o meaning. Quando entenderam, começaram a rir, e devem estar rindo até hoje.

O Rio é isso. Viva o Rio!