Passeando pelo Chinatown em Melbourne me vi numa situação angustiante, igualzinha à sensação que tive ao ler uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, em Zero Hora, anos atrás. Muitos restaurantes asiáticos têm como "atração " aquários com crustáceos e peixes que as pessoas escolhem para jantar. A maioria expõe o aquário na vitrine, para que as pessoas que passam na rua possam ver.

Caranguejos gigantes agonizando em um micro-aquário em um restaurante em Chinatown, Melbourne
Digo que ver isso é angustiante porque me sinto hipócrita ao dizer que tenho pena dos animais e não teria coragem de escolher um deles para o meu jantar, ao mesmo tempo que sim, eu como peixe e outros tipos de animais - quando os vejo já estão mortos e cozidos.
Mesmo assim, não vejo necessidade de fazer isso com os animais, alguns ficam dias e dias amontoados em um aquário minúsculo "esperando" serem escolhidos por alguém. Antes fosse uma escolha para adoção, não?
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Essa é a crônica do Luis Fernando Veríssimo, publicada em Agosto/2009 em Zero Hora:
A truta
O homem pediu truta, e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente.
– Como, escolher?
– No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser.
Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.
– Essa está bonita... – disse o garçom.
– Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas.
– Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela.
A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.
– Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo...
Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo.
Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos, e a responsabilidade não era sua – pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. Havia toda uma engrenagem montada para afastar você do remorso. As galinhas vinham já esquartejadas, suas partes acondicionadas em bandejas congeladas, nada mais distante da sua responsabilidade. Os peixes jaziam expostos no gelo, com os olhos abertos mas sem vida. Exatamente, olhos de peixe morto. Mas você não decretara a morte deles. Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. Não via o sangue. De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher.
– Vai essa, doutor? – insistiu o garçom.
– Não sei. Eu...
– Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha aí, ficou paradinha. Só faltando dizer “me come”.
O homem desejou que a truta deixasse de encará-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a fitá-lo. Ele estava delirando ou aquele olhar era de desafio?
– Vamos – estava dizendo a truta. – Pelo menos uma vez na vida, seja decidido.
Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. A decisão é sua. Eu não decido nada. Sou apenas um peixe, com cérebro de peixe. Não escolhi estar neste tanque. Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. A minha e a sua. Você é um ser humano, um ente moral, com discernimento e consciência. Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. Você tem uma biografia para decidir. A minha. Agora. Depois pode decidir a sua, se gostar da experiência. O que não pode é continuar se escondendo da vida, e....
– Vai essa mesmo, doutor? – quis saber o garçom, já com a rede na mão para pegar a truta.
– Não – disse o homem. – Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa.
E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardápio, perguntou:
– Esses camarões, estão vivos?
– Não, doutor. Os camarões estão mortos.
– Pode trazer.
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Essa angústia me incomoda bastante em relação aos cangurus. Depois de gato, é o segundo animal que eu mais gosto. Há vários parques aqui na Austrália onde dóceis cangurus ficam soltos e as pessoas podem brincar com eles e alimentá-los com ração. É maravilhoso fazer isso, passar a tarde se divertindo com eles. Depois disso, quem tem coragem de comer carne de canguru? Eu não tive. Todos os açougues daqui vendem e o consumo é até incentivado, em razão do grande número de cangurus que têm na Austrália. Anos atrás, muitos deles foram mortos, pois a população de cangurus estava se igualando à população de pessoas na Austrália. Mas, e daí? Eles são lindos e não incomodam ninguém, por que precisam ser mortos e servidos?
Daí alguém pergunta: e as vacas, os porcos, carneiros, por que precisam ser mortos e servidos, se também não incomodam ninguém? Porque ficam deliciosos assados? É uma longa discussão.