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Posts de janeiro 2009

Flores e bolo queimado

29 de janeiro de 2009 1

Fazia eu minha caminhada com corrida de quase todos os dias e me entrou pelas narinas o cheiro de bolo queimado da minha infância. A lembrança me levou até Cachoeira do Sul, casarão da vó Ella, aquela imensa cozinha com fogão à lenha fumegando e o cheiro da base do bolo torrando...

Outro dia, também enquanto fazia o exercício que espanta a barriga de marido, um cheiro de flores amarelas tomou conta da minha memória de criança feliz. Não sei o nome da flor, mas tenho certeza de que era o mesmo cheiro do início das férias de verão da minha infância. Lembrei do que representava aqueles dias da segunda quinzena de novembro; as aulas só recomeçavam em março, e eu degustava o cheiro da liberdade de mais de três meses que eu ganhava como prêmio por ter passado por média. Sim, porque os supostos malandros que levavam o ano inteiro fazendo guerra de bolinhas de papel no fundo da aula ficavam em recuperação e só entravam de férias na metade de dezembro !

Liberdade, eis a palavra. Eram dias do mais absoluto ócio. Acordava e sentia o imenso prazer de não ter nada o que fazer a não ser escolher do que brincar. Trazendo para a idade adulta, é como se alguém tivesse direito a férias remuneradas de três meses. Nem faço idéia do que significa, hoje em dia.

Flores e bolo queimado, deliciosos cheiros da minha primeira felicidade...

Postado por Maurício Saraiva

O governo faz a parte dele

23 de janeiro de 2009 1

Parece uma tempestade de más notícias na economia do mundo. Recessão na Grã-Bretanha, maior nível de deseprego desde 2000 na Espanha, Microsoft demitindo cinco mil pessoas pelo planeta inteiro, o novo presidente americano dizendo que vai piorar antes de melhorar...

Historicamente, o Brasil cresceu nas crises e nas guerras mundiais. Ainda na condição de país periférico, as dificuldades alheias abriam oportunidades para os emergentes. Hoje em dia, porém, com a globalização para o bem e para o mal, a situação tensa do mundo só poderá ter atenuante no Brasil se o governo agir para fazer sua parte.

Neste sentido, as decisões recentes do govero Lula são corretas e precisas. Liberar 100 bilhões de reais para crédito interno às empresas, por si só, poderia oportunizar aos predadores a idéia de amealhar o dinheiro e não aplicá-lo em produção. A ressalva de que o financiamento está diretamente ligado à geração ou manutenção de emprego é perfeita. Da mesma forma, o presidente brasileiro exige que os bancos oficiais reduzam suas taxas de juros, uma vez que o Banco Central fez uma redução de um ponto percentual. O exemplo deve partir das instituições do governo. A partir daí, a iniciativa privada precisa dar a contrapartida. Os bancos particulares também têm que baixar suas taxas, fazer a máquina girar. As empresas privadas, diante da sinalização positiva do governo, devem rever suas reservas de confiança e participar de um círculo virtuoso, não vicioso. Se a classe média cresceu, se o mercado interno avançou, os méritos são do governo federal e sua correta política econômica e da atitude ousada do empresariado que apostou, gerou emprego, imposto, renda.

Impossível fazer o jogo do contente e negar a gravidade do cenário externo. Ao mesmo tempo, insensato aderir à crise quando abrem-se portas e janelas para reverter, na medida do possível, a retração econômica.

Neste episódio, o governo agiu com cem por cento de acerto. Agora, falta a resposta dos meios de produção para que, talvez, o Brasil vire referência em ações de combate à crise.

Postado por Maurício Saraiva

A véspera da posse de Obama

19 de janeiro de 2009 2

Messias. Os norte-americanos têm todos os motivos para acreditar que um novo tempo começa nesta terça-feira. Estão dentro de uma crise cuja origem não conseguem identificar. O governo Bush termina, o que, por si só, já renderia alívio e comemoração. E o novo presidente se anuncia como sinônimo de mudança de tudo que deu errado nos últimos e sombrios anos nos Estados Unidos.

Um povo é responsável por quem o governa, ressalve-se. Se George Bush se reelegeu, é porque os americanos insistiram no erro e agora pagam caríssimo. A hora da retomada, porém, se desenha com a nova perspectiva de um governante eleito e apoiado maciçamente não só nos Estados Unidos, mas pela comunidade internacional.

O gigante americano já provou, ao longo da história, ser capaz de grandes vitórias sobre a adversidade. Da maneira como o mundo inteiro passou a depender de sua grandez, é uma esperança que o planeta todo carrega. Barack Obama tem a seu favor a capacidade de despertar confiança. O que não pode é transformá-lo em líder messiânico, homem divino que resolve problemas apenas por ser Obama. Se os norte-americanos acreditarem nesta cena mágica, a possibilidade de fracasso será grande e a decepção, maior ainda.

A posse do novo presidente dos Estados Unidos será histórica. Poderá representar uma mobilização capaz de reverter este cenário patético estabelecido por anos de irresponsabilidade, leviandade, ganância e soberba. Mas que não se espere de Barack Obama o que nenhum ser humano pode dar. Não poderá tomar decisões sozinho, tampouco  suas idéias germinarão em solo árido. Só a soma de ações resultará.

Já se disse que Obama se mira no exemplo de Roosevelt para a tarefa que o aguarda. É um bom começo. Não haveria na história americana nenhum governante tão inspirador.

Postado por Maurício Saraiva

Pessoas

16 de janeiro de 2009 1

Não há outro jeito de viver senão conviver com as pessoas. Esta máxima que não traz nenhuma novidade tem suas nuances, e a mais cruel de todas é a convivência com gente que você, em circunstâncias normais, não teria por perto nem se pagassem cachê.

É a lei da compensação. Não há nada na vida que você faça que não exija alguma contrapartida. Para conviver com quem você ama, por exemplo, gente do seu sangue, a providência pode ser generosa e lhe oferecer alguém que parece ter nascido na família. Ou, ao contrário, o destino lhe prega uma peça e coloca uma pessoa cuja afinidade com você é menos do que zero. Em nome do amor - parece título de novela mexicana -, você doura a pílula, avalia custo e benefício e segue em frente.

Pessoas são assim. Você também pode passar pelo constrangimento de não ser querido e perceber que a convivência se estabelece mesmo assim por conta de um valor maior. Entre A e C, existe B, uma ponte que mantém este frágil elo unindo o que, normalmente, não teria nenhuma química. É a vida real.

Ainda que haja dores, mágoas, alguma melancolia e tristeza diante do inevitável, sempre dá para tirar algum proveito de cenas feito esta, a convivência com quem não lhe soma nada; se você paga este preço, é porque há alguém  que vale a pena envolvido na situação. Pode ser o pai, o irmão, a mãe, uma pessoa tão próxima e tão amada, que você engole em seco e avança no sorriso e na palavra.  E quando esta proximidade forçada parece pesada demais, vá ao blog ou ao antigo diário e escreva. Não resolve seu impasse que não tem mesmo solução, mas alivia.

É o que estou fazendo nesta madrugada de verão.

Postado por Maurício Saraiva

Amy e o amor...

13 de janeiro de 2009 0

Não lembro de alguma celebridade contemporânea que tenha exposto mais suas mazelas do que Amy Whinehouse. Nem Britney Spears é páreo para a talentosa cantora que aparentava ser uma suicida em potencial.

Nesta semana, porém, a artista inglesa deu entrevista no Caribe falando do poder curativo do amor. Sentia-se, nas próprias palavras, livre das drogas. Tinha descoberto a felicidade no amor pelo novo namorado que conheceu na ilha caribenha. Falou da sua pele que brilhava, castigou de críticas o marido com o qual se drogava e, enfim, ressaltou que estava compondo de novo.

Tomara que Amy tenha descoberto mais do que o amor no outro. Seria ideal que ela tivesse encontrado este sentimento por ela própria. Que tivesse se apaixonado pela pessoa que é e passasse a cuidar mais de tão frágil criatura. Se sua felicidade está assim tão visceralmente ligada ao homem por quem se interessou, pode ficar sujeita a chuvas e trovoadas. Se o sujeito decide largá-la, se o idílio do Caribe não teve para ele a mesma dimensão que teve para ela, Amy corre o risco de se atirar de novo no que consideraria seu "pântano seguro".

Alguém acostumado a ser infeliz pode sentir algum conforto neste estado e torná-lo permanente. Talvez considere a alegria algo tão fugaz, que apenas espera o momento em que tudo tenha fim. Quem já não se viu pensando "estou tão feliz, não é possível que isto dure por tempo indeterminado, algo vai acontecer e estragar tudo..." Imagine, então, no caso de uma pessoa que já viveu tantos tormentos como Amy Whinehouse !

Que se apaixone por si mesma, é minha torcida de longe para a artista inglesa que redescobriu o amor no Caribe...

Postado por Maurício Saraiva

Rainha do Carnaval

12 de janeiro de 2009 2

Foi uma festa bonita no ginásio Tesourinha. A escolha da rainha do carnaval de Porto Alegre teve muita beleza, shows bem coreografados, horários cumpridos e um resultado final discutível como qualquer eleição subjetiva de beleza.

O novo presidente da Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre, o Urso, é uma promessa de avanço na profissionalização do carnaval da cidade. O evento de ontem já deu a prévia. O desfile deverá ser ainda melhor.

Cobri a eleição da rainha do carnaval pela TVCOM e dei a informação também no Teledomingo. O ginásio estava lotado, as torcidas, animadas, a festa funcionou. Chamou-me a atenção a alegria da menina Nataliê, dos Bambas da Orgia, ao saber que havia sido coroada rainha-mirim. Chorava feito miss, era, talvez, a primeira grande emoção da sua vida que ainda nem chegou aos dez anos.

= Há pelo menos dois dvds de artistas de samba que já foram gravados e ainda não chegaram ao mercado. Um deles está atrasado em três anos. Jorginho do Império gravou no teatro Rival em 2005, ficou lindo, mas cadê ? O outro dvd pronto é o de Reinaldo, o Príncipe do Pagode. Show fantástico gravado em 2006, muitos convidados de primeira...e nada de lançamento. Reinaldo me disse que chegou a pensar em lançá-lo de forma independente. Aí, com o dinheiro que bancaria o dvd, ele acabou comprando a casa dos sonhos. Resultado, atraso para colocar o produto no mercado.

Tomara que sejam finalizados e comercializados este ano. Agora em 2009, será lançado o primeiro cd do grupo que sucedeu o Fundo de Quintal nos sambas do Cacique de Ramos. Partideiros do Cacique já faz sucesso há anos, mas só agora conseguiu gravar seu cd. É a realidade pós-computador, onde se baixa música à vontade e diminui a vendagem. Quando eu conseguir, vai rodar no Roda de Samba da Cidade das seis às nove da manhã de todos os domingos.

Postado por Maurício Saraiva

O céu do samba

08 de janeiro de 2009 1

A mais recente perda do mundo do samba é Xangô da Mangueira. Com 85 anos, um dos mais extraordinários compositores de partido-alto decidiu ir cantar samba no céu. Entre tantas jóias que deixou na própria voz ou na interpretação de outros artistas, está Quando Eu Vim de Minas, sucesso estrondoso com Clara Nunes.

Mas a música de que mais gosto de Xangô da Mangueira eu só fui conhecer no primeiro dvd Acústico do Zeca. Quando ele encerra a festa, chama Arlindo Cruz para o palco e canta Moro na Roça, um partido-alto irresistível com refrão delicioso.

É da natureza, certo ? Não há nada permanente na face da Terra, a não ser a essência da vida. Mas o ciclo do nascer-crescer-viver-morrer de cada um  é tão inevitável quanto melancólico. Para torná-lo aceitável, só a fervorosa crença religiosa ou o simples não pensar no assunto. No caso de artista, as dimensões são outras. Sua obra fica, haverá sempre alguém a ressuscitar Frank Sinatra, Elvis Presley, John Lennon ou Xangô da Mangueira ao cantar uma de suas músicas e lembrar a autoria ou interpretação.

O céu do samba está mesmo no céu, não tem jeito. Por lá, já estão Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra, Mestre Marçal, Noite Ilustrada, mais recentemente Luiz Carlos da Vila, Jamelão e, hoje, Xangô da Mangueira.

Que roda de samba é essa, meu DEUS !!!!

Postado por Maurício Saraiva

Que ano é esse !!!

06 de janeiro de 2009 3

Estive no litoral gaúcho no feriadão de fim de ano. A quantidade de gente que teve a mesma idéia que eu era enorme. Havia fila para qualquer coisa que se pensasse fazer. E uma fila molhada e chuvosa, porque só parou de bater água no domingo de manhã. Desde a singela decisão de comer um lanche, até atravessar a ponte Tramandaí-Imbé, tudo era precedido por espera, demora, um exercício de paciência que me fará bem ao longo da temporada. Sim, porque a noção de valor muda quando você se defronta com pequenos contratempos cotidianos.

O litro do combustível, por exemplo; tive a sensação de que estava sendo assaltado por vias legais ao abastecer de álcool o meu carro. Mas um assalto dentro da legalidade, assegurado pela lei do mercado. Havia postos de combustível no litoral vendendo o litro de álcool a um real e 90 centavos. Em Porto Alegre, se consegue por um e 65. Não há ilegalidade nesta diferença de preço, mas ganância, não tenho dúvida. E ganância não é contra a lei, certo ?

 E o hotel em que fiquei hospedado, então ?  Os atendentes foram muito gentis, o serviço, bom, mas o preço por cinco dias de hospedagem  era aviltante. Novecentos reais ! Preço de hotel em Copacabana para casal !

É com esta fisionomia que começa o ano de 2009. Há uma incerteza do tamanho do planeta, a crença de que a posse de Barack Obama tenha um efeito positivo na economia global,  a esperança de que o Brasil esteja mesmo tão preparado como parece para enfrentar turbulências externas.

Além das apreensões já relatadas, sinto outra que me toca especialmente; será que 2009 passará ainda mais rápido do que o ano anterior ? Será que a velocidade com que as coisas e pessoas acontecem e somem vai acelerar ? Terá o ano esta feição de quem corre, corre e nem sabe por quê, nem para onde ?

As respostas, só ao final de 2009, quem sabe depois de outra mini-temporada no litoral gaúcho... 

Postado por Maurício Saraiva