Fazia eu minha caminhada com corrida de quase todos os dias e me entrou pelas narinas o cheiro de bolo queimado da minha infância. A lembrança me levou até Cachoeira do Sul, casarão da vó Ella, aquela imensa cozinha com fogão à lenha fumegando e o cheiro da base do bolo torrando...
Outro dia, também enquanto fazia o exercício que espanta a barriga de marido, um cheiro de flores amarelas tomou conta da minha memória de criança feliz. Não sei o nome da flor, mas tenho certeza de que era o mesmo cheiro do início das férias de verão da minha infância. Lembrei do que representava aqueles dias da segunda quinzena de novembro; as aulas só recomeçavam em março, e eu degustava o cheiro da liberdade de mais de três meses que eu ganhava como prêmio por ter passado por média. Sim, porque os supostos malandros que levavam o ano inteiro fazendo guerra de bolinhas de papel no fundo da aula ficavam em recuperação e só entravam de férias na metade de dezembro !
Liberdade, eis a palavra. Eram dias do mais absoluto ócio. Acordava e sentia o imenso prazer de não ter nada o que fazer a não ser escolher do que brincar. Trazendo para a idade adulta, é como se alguém tivesse direito a férias remuneradas de três meses. Nem faço idéia do que significa, hoje em dia.
Flores e bolo queimado, deliciosos cheiros da minha primeira felicidade...
Postado por Maurício Saraiva
