Faz um calor solar na noite de terça-feira em Porto Alegre. Ao meu lado, a Preta sofre com a quentura. A pressão baixa, o ânimo arrefece, sente saudade do inverno. A isso dá-se o nome de diversidade. No frio, o humor dela melhora; o meu muda para pior. Preciso usar a força da suposta inteligência para reconhecer o valor das coisas antes que tudo pareça congelar em minha mente ou alma.
O ano de 2010 começou mais maluco do que o anterior, tenho a impressão. São as fúrias da Natureza, as insanidades humanas e, não bastasse, a soma dos dois resultando em desastres que se amontoam como os corpos do Haiti. É uma epopeia manter o centro e garantir a si mesmo o direito de ser tão feliz quanto possível. Fico, não raro, sentindo-me um estrangeiro neste mundo que se autoflagela. Compreendo as dores do homem, faço o melhor que posso para acalentá-las e oferecer algum conforto. Porém, para não perder o foco do exercício da felicidade, é preciso blindar-se para não sentir a dor alheia. Seria, de todo modo, inútil. Eu não poderia eliminá-la da alma atormentada, tampouco confortaria a outrem emprestando meu sofrimento. Posso e devo ter a sensibilidade de entender as reações inesperadas de quem acabou de sofrer um baque e filtrá-las para que não pareçam se dirigir a mim. Posso e devo procurar a melhor palavra, o melhor abraço, o melhor carinho para alentar quem está doído e lembrá-lo de que há mais por sofrer e deliciar no curso deste rio.
Talvez sejam apenas teses de uma quente noite de janeiro...
Postado por Maurício Saraiva
